|

|
|
NEVERLAND, 24 HORAS... de Renata Mizrahi
Sala de um apartamento. Um homem está sentado no sofá, vestido toscamente como o Michael Jackson. Ele está vendo um clipe do Michael na TV. Está totalmente apático. Em volta um monte de acessórios, artigos, CDs sobre o Michael. Sua mulher fala do lado de fora.
Mulher de fora: Michel! Michel abre essa porta.
(ele não atende, continua foco na televisão.)
Mulher: Michel abre. Michel abre.
(ele não se mexe, continua na televisão. Finalmente a mulher consegue entrar)
Mulher: Michel? Meu amor, já faz 24 dias que ele morreu, meu amor. Já tá mais que na hora de dar a volta por cima. Aposto que nem os filhos deles ficaram assim desse jeito.
(ele não fala nada. Ela começa catar as coisas no chão)
Mulher: Meu amor, eu não vou permitir que você continue desse jeito, tá entendendo? Eu sei que você ficou muito triste. Mas tudo tem um limite. A vida continua. Eu sou sua mulher. Você não olha mais pra mim, eu na aguento mais. Sue chefe te liga todo dia, e eu já não sei mais que desculpa inventar. O pior é que ele ligou os fatos. Você começou a faltar desde o dia da morte dele, ele tá achando que é por isso, tá até te chamando de marica e quem tem que escutar sou eu! Michel, você tá ouvindo o que eu to falando?
(ele não fala nada)
Mulher: Olha só o que eu tô vestindo, hein? Aquela camisolinha sexy que você mais adora. (ela rebola) Olha que gostosinho, olha. Eu tomei um bainho, tô cheirosinha, olha pra mim, olha, meu gostosinho.
(ele não reage)
Mulher: Michel, assim não dá. Eu vou acabar indo embora, sumindo da tua vida. Não tem mulher que agüente um negócio desses. Você tá me ouvindo? (silencio) Pelo o amor de Deus, fala alguma cosia. Eu sei que é duro, que é difícil, mas você não pode continuar assim. Nem com a sua mãe você ficou desse jeito. Nem um terço de como você está. (silêncio) E se fosse eu? Hein? Se fosse eu? Você ficaria assim também? Hein? Ficaria? Eu espero que sim, porque eu não tô entendendo. O homem tava lá. Distante. Eu também gostava dele, fiquei mal pra caramba, mas isso o que você tá fazendo vai além da compreensão humana. (silêncio) Michel, pára de olhar essa televisão e olha para mim! Chega! Não aguento mais! Chega, minha paciência acabou.
(ele continua olhando fixamente para a televisão)
Mulher: Michel, desliga essa televisão, faz alguma coisa. Olha pra você. Você tá ridículo. Fala comigo, por favor, olha pra mim. Maldita TV. (tenta desligar a TV mas não consegue) Essa TV... Tá travada. Porque será que eu não consigo desligar essa TV? Michel, não vai me dizer que você bloqueou os botões? Meu amor, você já viu esse DVD mais de 1856 vezes. Não sei como esse negócio ainda não explodiu. Alô! Tem alguém aí? (vai ficando muito desesperada) Meu amor, eu faço de tudo. O que você quiser. Olha, eu até danço o moonwalk pra você. (ela tenta fazer o passo). Tá vendo? Você tá vendo ao que eu me submeto? Michel, sai dessa, por favor.
(ele não responde)
M: Já sei o que você quer. Eu vou chamar a equipe do Fantástico aqui. A equipe do Wagner Montes. É isso o que você tá querendo. Né? Ta querendo disputar qual fã ficou pior. É isso. Confessa. Mas eu não vou fazer isso. Eu não vou te dar o gostinho de morrer de alma e ainda ganhar a fama. (ele não responde) Caramba! Você tá me fazendo odiar esse homem. Eu não consigo nem mais falar o nome dele. Você tá me fazendo destruir toda a minha admiração e ter desejado que ele não existisse. Será que ele sabe o desastre que ele tá cometendo? Não é possível. Que poder é esse, meu Deus?! Que poder é esse?
(ela sai de cena. Ele continua olhando fixamente para a TV. Ela volta com um prato de comida na mão)
Mulher: Olha o que eu fiz para você. O prato que você mais gosta. Sente o cheiro, ó. (ele não responde) Chega! Chega! Chega! Eu tô cansada, esgotada, acabada! Chega!!! Eu não suporto mais isso, eu não suporto mais isso.
(ela vai entrando num transe louco e acaba fazendo gestos e gemidos do Michael Jackson. Aos poucos vai conseguindo chamar a atenção dele)
Mulher: Au! Uuu! Ihi!!!OOOh!!!
(como se tivesse possuída pelo Michael, fala como ele)
Mulher: Michel!! Michel!!! Michel!! Me encontre em Neverland dentro de 24 horas. Neverland. 24 horas!!
(ela volta a urrar como o Michael até voltar ao normal)
Mulher: Chega, eu vou, Michel. Você passou de todos os limites...
(pela primeira vez ele fala com dificuldade)
Michel: Neverland.
Mulher: Oi?
Michel: Neverland. 24 horas.
Mulher: O que você tá falando, homem?
Michel: Você disse Neverland. 24 horas.
Mulher: Eu disse? Tá maluco, pirou de vez, tomou manga com leite?
(ele vai levantando com a dificuldade de quem levanta pela primeira vez em 24 dias. Olha fixamente na mulher e vai em direção a ela)
Michel: Neverland, 24 horas, Neverland, 24 horas...
Mulher: Pára com isso, você tá me assustando.
(ele parece que vai abraçá-la, ela tem segundo de felicidade, mas ele devia)
Michel (numa imensa alegria) : Neverland! Neverland! Neverland!!!(para ela) Obrigado Michael, obrigado Michale! Você veio! Você veio!!!. Ooooohh!!!!!! (sai correndo)
Mulher: Michel, o que é isso? Michel. Michel, pelo o amor de Deus! Volta aqui, homem! Michel, o que é isso? Michel!!!!!
(ela percebe que ele foi)
Mulher: “Neverland, 24 horas. Você veio?”
(sil^necio. deixa escapar um gesto do Michael e se assusta)
Mulher: Michael? Michael, é você? Você tá...
(Início da risada macabra do clipe Triller. )
Mulher: Não! Não! Não! Não ! Nâo!!!!
(volta o marido, vestido normalmente)
Michel: Janete!! Janete!!! Acorda, meu bem. Acorda!
Janete: Michael! Michael!
Michel: Sou eu, meu amor. Calma.
Janete: Michael! Michael!! Michael!!!
Michel: Janete, calma. Sou eu, Seu marido, Michel. Calma. (ele a abraça) Vai passar, meu amor, vai passar. Fica calma.
Janete: Michel? Ué? Você... Michel?
Michel: Calma, meu amor. Calma. Você dormiu, foi isso. Deve ter sonhado. É normal nas suas condições. Desliga essa TV. Se não daqui a pouco ela vai explodir.
(ele desliga a TV normalmente. Ela estranha)
Janete: Mas... você...
Michel: Calma, meu amor. O médico disse que é normal esse comportamento. Vai passar.
Janete: Médico? Do que você tá falando?
Michel: Da sua síndrome, meu amor.
Janete: Síndrome?
Michel: Uma nova síndrome chamada: Trauma de fã dos Michael Jackson. É uma nova doença psicológica que está assolando os milhares de fãs espalhados pelo mundo. Mas eu tô aqui com você e nada vai te acontecer.
Janete: Síndrome? Então eu... Mas você...
Michel: Olha. Eu preparei a comida que você mais gosta e você não comeu nada? Meu amor, vai passar. É uma fase, mas você precisa se alimentar.
Janete: Neverland, 24 horas
Michel: Oi?
Janete: Neverland, 24 horas
Michel: Ih. Tá pior que eu imaginava.
Janete: Michael?
Michel: Michel.
Janete: Michel, há quanto tempo eu tô aqui?
Michel: Há exatamente 24 horas, meu amor.
Janete: 24 horas?
Michel: Agora chega, né? Tudo tem um limite. Você tem que voltar a trabalhar, a curtir o maridinho...
Janete: Michael.
Miche: Michel! Eu me chamo Michel!
Janete: Michel, há quanto tempo? Há quanto tempo ele morreu?
Michel: Há exatamente o tempo que você ficou assim. 24 horas.
Janete: Michael, Michel, meu amor. Me leva pra Neverland, por favor, Neverland. Ele está me esperando lá. Eu sei.
Michel: Neverland? Tá doida? Fica no outro país. Não tô gostando.
Janete: Neverland, por favor, eu preciso ir à Neverland. Em 24 horas.
Michel: Janete. Chega. Assim você não coopera. Eu sei que você é fã, que o amava acima do bem e do mal, mas tudo tem um limite. Vamos parar com essa história. Morreu. Acabou. Foi-se.Vê se arruma essa bagunça. Eu vou ligar para seu analista e marcar hora. Quando eu voltar quero te ver ótima. Tá bom?
(Silêncio)
Michel: Eu disse: Tá bom?
Janete (como que saindo de um transe): Tá. Tá.
(Ele sai. Ela tenta se recuperar, respira fundo, levanta e se ajeita. Confere o ambiente para ver se tá tudo bem)
Janete: Tá bom. Tá bom. Morreu. Acabou. Foi-se. Tá bom.
(Volta o final da risada macabra de Triller. Ela desmaia)
FIM
NÃO BRINCA COM COISA SÉRIA de Felipe Barenco
Michella está fazendo comida e cantarola Triller. A sua irmã chega em casa com cara de enterro.
Michella – Já almoçou?
Irmã – Estou sem fome.
Michella – (CANTAROLA) Agora você inventou essa moda de não comer. Depois morre, eu quero ver. Está parecendo um carpaccio de tão magra.
Irmã – Mi, eu tenho uma notícia muito triste pra te dar.
Michella – Pode falar...
Irmã – É muito triste mesmo.
Michella – Pode falar, ué.
Irmã – Eu voltei lá do hospital e...
Michella – A mamãe?
Irmã - A mamãe não resistiu. (CHORA)
Michella – Meu amor, acho que eu já estava me preparando... (ABRAÇA A IRMÃ) Temos que ser fortes. Você pode contar comigo.
Irmã – Como é que vai ser a nossa vida sem ela agora?
Michella – Foi melhor assim. Ela estava sofrendo muito naquela cama de hospital. Ela estará olhando por nós.
Irmã – Eu achava que ela era imortal. Preferia mil vezes ter morrido antes dela pra não passar por uma coisa dessas. Prefiro a morte!
Michella – Também não exagera, vai.
Irmã – A dor é para os que ficam.
Entra uma amiga.
Amiga – Acabei de saber.... (ABRAÇA AS DUAS)
A irmã chora durante toda a cena.
Michella – Obrigado, viu.
Amiga – Todo o noticiário comentando...
Michella – É mesmo?
Amiga – Uma amiga ligou, disse que soube no Plantão da Globo...
Michella – Sério? Mas eu não sabia que...
Amiga – Cara, é um ícone! Uma estrela! Um mito!
Michella – Eu sei, mas passar na Globo eu não esperava...
Amiga – Tá em tudo quanto é site...
Michella – Eu nunca desconfiei que a mamãe tinha essa importância toda. Quer dizer, Deus me perdoe, que pra mim era a pessoa mais importante do mundo.
Amiga – Ah, desculpa... eu preocupada com ele, nem perguntei. Sua mãe como está?
Michella – Tá na dela, né. Em paz. (PARA A IRMÃ) Acalme-se, vai. Quer um copo d´água?
Amiga – Ela teve alta?
Michella – Não, maluca.
Amiga – Mas você acabou de dizer que ela está em paz.
Michella – Modo de falar.
Amiga – Ela piorou então?
Michella – Não, ela está morta!
Amiga – (CHOCADA) Ela também?
Michella – “Também”?
Amiga – É! (ENVERGONHADA) Que cabeça a minha... eu tava falando do Michael. Perdão.
Michella – Que Michael?
Amiga – O Michael Jackson.
Michella – O que é que tem ele?
Amiga – Ele também morreu.
Michella – Que morreu!
Amiga – Morreu, sim!
Michella – Para de palhaçada, garota. Não brinca com coisa séria!
Amiga – Morreu mesmo. Liga a televisão pra você ver. O Michael Jackson morreu.
Michella – (APAVORADA) Meu Deus do céu! Minha nossa senhora! E agora?
Amiga – Mas me fala da sua mãe...
Michella – Foda-se a minha mãe, cara! O Michael Jackson... tá entendendo? O Michael Jackson morreu! Um ícone! Uma estrela! Como é que vai ser nossa vida agora? Ele morreu como? Não, o Michael, não! Eu sou fã dele desde pequena... era quase da família. (DESESPERANDO-SE NUM CRESCENTE) Eu achava que ele era imortal. Preferia mil vezes ter morrido antes dele pra não passar por uma coisa dessas. Prefiro a morte! Michael, não! Eu nunca pude falar isso diretamente pra você, mas eu te amo! Michael, volta! Volta! Como eu vou conviver com essa dor! Michael! Não, não, nãaaaaaaaaaaaao!
Amiga e irmã tentam acalmá-la sem êxito.
FIM
“Papo furado (cada macaco no seu galho) ” da série Kid Bauhaus de Jô Bilac
Personagens: Kid
Tina Basset (vulgo: carinha gorda)
Defunto
(velório)
(Tina se aproxima de Kid, que fuma no cantinho do velório)
Tina: O que é que é isso?
Kid: Cigarro.
Tina: Não. Isso é uma mini cenoura.
Kid: Se sabia, por que perguntou?
Tina: Você está fumando mini cenoura?
Kid: Fala baixo, Tina. Se meu inconsciente descobre, estou ferrada!
Tina: Você está tentando enganar seu inconsciente fazendo uma mini cenoura se passar por um cigarro?
Kid: Por aí...
Tina: Seu inconsciente é tão estúpido assim?
Kid: Não mais que você.
Tina: Você está pirando, Kid.
Kid: Estou parando de fumar, carinha gorda. Isso tem a ver com a necessidade oral que o cigarro desperta em mim, entende?
Tina: Mas você podia fumar aquele mini cigarro de chocolate.
Kid: E virar uma mini baleia. Nada disso. Tô com a cenoura e não abro!
Tina: Quantas cenouras você já fumou?
Kid: 34.
Tina: Ai Kid... Tem que variar...
Kid: Variar?
Tina: Sim. Tem mini nabo, mini pepino, mini inhame... Vai ficar viciada em mini cenoura... E mini cenoura você sabe, né...
Kid: (debochada) Sei o que, Tina?
Tina: Ah... Você sabe... Mini cenoura...
Kid: Não. Não sei.
Tina: Ah... Mini cenoura é fogo...
Kid: Ih, Tina... Que bobajada.
Tina: Mini cenoura atrai...
Kid: Atrai o que? Ih, ta boba. Não gosto de gente boba do meu lado!
Tina: Mini cenoura...
Kid: Deixa de ser boba, Tina! Mulher boba. (muda o tom) Agora, mudando de Walita pra Brastemp... Tá meio caído esse velório, hein...
Tina: Tá mesmo. Tá meio vazio, né...
Kid: Isso que dá morrer no mesmo dia que Michael Jackson.
Tina: Você acha que tem a ver?
Kid: Claro. A pior coisa do mundo é morrer no mesmo dia que um ídolo pop. Ta todo mundo em casa vendo o especial na TV.
Tina: E a gente ta perdendo...
Kid: Se eu não tivesse tão dura, eu também não estava aqui.
Tina: A gente fica por aqui só mais dez minutos e se não aparecer ninguém a gente pica a mula.
Kid: Jamais. Um serviço é um serviço e se fomos contratadas é por que confiam no nosso potencial. Não podemos trair a confiança de quem nos contratou!
Tina: É tão humilhante pagar gente pra fazer volume em velório. Deus me livre.
Kid: Pois é, minha filha. Mas se você morrer no mesmo dia que a Madonna, não conte comigo em seu enterro.
Tina: Que horror. Você me trocaria pela Madonna?
Kid: Tina, você me trocaria pelo Elton John.
Tina: Mas eu amo o Elton John. Você não ama a Madonna.
Kid: Não é questão de amar, Tina. É a Madonna! É a morte de um mito! A queda de um semideus! O supra-sumo da fama! O buraco é muito mais em baixo.
Tina: To passada... Amiga da onça.
Kid: Amiga, Elton John é que não dá...
Tina: Ele é muito maior que a Madonna.
Kid: Ele já deve ter morrido uns três anos atrás e ninguém divulgou!
Tina: Despeito.
Kid: O lance é não morrer no mesmo dia de uma celebridade. Lembra da tia da Jane?
Tina: Jane Fedô?
Kid: Exatamente, a Jane Fedô. A tia dela teve o azar de morrer no mesmo dia do Ayrton Senna. Fedô ficou arrasada, não se lembra disso? Ninguém compareceu no velório.
Tina: Ah, mas Ayrton é Ayrton …
Kid: Exatamente. E quem é a tia de Jane Fedô? Nunca vi o nome dela num pacotinho de qui suqui. Ainda inventa de morrer no mesmo dia de uma celebridade. Não dá. Tem que esperar no mínimo uns quinze dias pra morrer.
Tina: Que nem a Farrah Fawcett.
Kid: Quem?
Tina: A ex pantera.
Kid: Ah tá. Morreu no mesmo dia do Ayrton?
Tina: Não, Kid. Morreu no mesmo dia do Michael.
Kid: Ih... Nem fiquei sabendo, menina. Morreu de que?
Tina: Ih... Sabe que não lembro...
Kid: Mas famoso ou não famoso, não importa. Pra morrer basta estar vivo.
Tina: Descansou, né...
Kid: É isso aí: acabou o milho, acabou a pipoca.
Tina: O sono dos justos.
Kid: Sono nada. Está melhor que a gente e bem acordado...
Tina: No descanso eterno?
Kid: Não toupeira. Melhor que a gente literalmente. As celebridades dadas como mortas estão agora bebendo drinque azul na beira da piscina.
Tina: Do que você está falando, criatura?
Kid: Eu tenho uma teoria...
Tina: Ih... Lá vem.
Kid: Escuta. Pra mim, tudo não passou de um golpe da mídia.
Tina: A ex pantera?
Kid: O Michael. Pra mim, veja bem, pra mim! Ele não morreu.
Tina: Tipo o Elvis.
Kid: Tipo Elvis.
Tina: A troco de que?
Kid: Ah, Tina. Jogo de publicidade. Tá tudo armado. O mercado fonográfico é uma máfia, você sabe disso. Jogos de poder, chantagens, a papelada...
Tina: Que papelada?
Kid: A papelada toda... O governo... A NASA esconde muito coisa da gente...
Tina: A NASA? Que tem a NASA?
Kid: Acorda, carinha gorda. A lua já está loteada.
Tina: Ih, Kid... Ta fumando muita mini cenoura!
Kid: Como você é estreita de pensamento, Tina! É por isso que a Parmalat pinta e borda com a gente.
Tina: A Parmalat ta envolvida com a morte do Michael?
Kid: Até o pescoço.
Tina: E a Rayovac?
Kid: O que tem a Rayovac?
Tina: Tá envolvida também?
Kid: Não!
Tina: Ai, que bom. Uso tanto Rayovac. Fiquei preocupada em estar compactuando.
Kid: Essas grandes empresas patrocinam a NASA. Eles compram terrenos na lua. E essas celebridades tipo Michael, Lady Di, o próprio Elvis... Tá tudo morando por lá.
Tina: Ih, Kid, aí ta complicado... Tá duro de acreditar. Leva mal não.
Kid: É sério. Eles estão na Lua. Essas celebridades não morrem, forjam tudo e a NASA encobre.
Tina: Você quer me convencer que a ex pantera mora na lua?
Kid: Não, essa morreu mesmo. A lua é só pra super super. Tem que ter carteirinha.
Tina: Pra ser super super?
Kid: Lógico. Sem carteirinha, nem rola.
Tina: Elton John tem carteirinha?
Kid: Estamos falando de Super super, Tina.
Tina: Ué, e Elton John não é super super, Kid?
Kid: Meso. Meio barro, meio tijolo. Ele é médio super.
Tina: Médio super?
Kid: Super médio super. Não tem ninguém mais médio super que o Elton John!
Tina: Madonna.
Kid: Super super.
Tina: Brad Pitt e Angelina Jolie.
Kid: Super super.
Tina: Amy Winehouse.
Kid: Super Supérrima.
Tina: Roberto Carlos.
Kid: Ultra Super..
Tina: Roberto Carlos é ultra super e o Elton John médio super?
Kid: Tina, isso não depende de mim. Não sou que determina as coisas, assina os papéis. O que eu posso fazer? A NASA que avalia o nível de supremacia de um indivíduo em seu meio.
Tina: Elton cantou pra rainha. Virou Sir.
Kid: A rainha no caso que é a super super da situação, etende? É muito complexo.
Tina: E eu sou o que?
Kid: Mini mini, né.
Tina: Tipo a sua cenoura?
Kid: Igualzinha.
Tina: Tipo a tia da Fedô.
Kid: Essa era super mini.
Tina: Super???!!!
Kid: Nesse caso, ser super não é bom.
Tina: Eu não quero ser mini mini.
Kid: Eu já te disse, isso não depende de mim... É a NASA...É a NASA!
Tina: E o que as celebridades fazem na lua?
Kid: Vivem uma vida normal. A vida que não conseguiram ter na terra... Na lua é muito mais fácil. Não tem assedio, trânsito, essas coisas...
Tina: Por isso que eu não reclamo da minha vidinha simples, Kid. A gente batalha, mas vive bem. Sem aporrinhação. Essa gente tem as coisas de mão beijada e não valoriza... No fim das contas ser mini mini é muito mais jogo.
Kid: Cabecinha colonizada terceiro mundista!
Tina: Sou feliz anônima e não faço a mínima questão de ir morar na lua.
Kid: Três grandes verdades nesse mundo, aprende: “dinheiro não traz felicidade, mas é melhor chorar na banheira bebendo champanhe do que num ônibus cheio”. “Deus ajuda quem cedo madruga, porque ele acorda depois das duas e precisa de gente tocando os negócios ” e por fim, “Fumar não emagrece, mas parar de fumar engorda.”
Tina: E o que você quer dizer com isso ?
Kid: Que o meu inconsciente super descobriu tudo e estou super doida pra fumar um super cigarro. Você me acompanha? Se a gente correr ainda pega o especial do Michael!
Tina: E o serviço?
Kid: Que serviço?
Tina: Do velório.
Kid: Que velório?
Tina: Esse velório que fomos contratadas para animar!
Kid: Quem?
Tina: Você e eu.
Kid: (saindo, cínica) Quem é você?
Tina: Como assim?
Kid: Meu inconsciente não reconhece você em meus sistemas! (saindo)
Tina: Kid! Volta aqui! Olha o golpe!
Kid: Meu inconsciente não reconhece ninguém que seja mini mini!
Tina: Kid Bauhaus! Você não vai me deixar sozinha aqui com esse pepino!
Kid: Tem mini cenoura! Todas suas! (entrega um pote cheio de cenoura para a amiga)
Tina: Kid!
Kid: Meu inconsciente pisca com alerta: nicotina! Nicotina! (saindo) Nicotina! Nicontina!
Tina: (vai atrás) Kid!!!
(super fim)
para Michael, o nosso eterno mega super.
EVA de Camilo Pellegrini
E = EVA S = SERPENTE EVA se surpreende ao dar de cara com a macieira e a SERPENTE por perto. E- (ASSUSTADA) Você?! S- Oi, bonita! Como vai! E- Eu... Eu... S- Perdeu a língua? E- Com licença. Vou embora. S- Espera! Pra quê a pressa? Não vai dizer que tem algum compromisso marcado. E- As cotovias estão esperando por mim. S- Não vai embora desse jeito. Fica um pouco. Vai fazer o quê com as dementes das cotovias? E- A gente marcou um piquenique. S- (DESCONFIA) É mesmo? Aonde? E- Lá no... lá atrás... do... lá no rio de sorvete de chocolate. S- Não tem piquenique nenhum! Mentirosa. E- (TENSA) Tem sim! Tem sim! Elas estão me esperando! A gente vai tomar muito sorvete! S- Você mente mal, Eva. Seus olhos ficam turvos. As rugas quase imperceptíveis da sua testa desabam numa careta hedionda. E- (SONSA) Quem está mentindo? Eu? S- Imagina se teu pai sabe disso, com que cara Ele não vai ficar? E- Vão estou mentindo coisa nenhuma! Você é má! A gazela me contou! S- Contou o quê, ô sua lerda? Não sabe nem mentir. E- Contou que você tem dentes afiados de onde escorre veneno. S- Vocês, fêmeas de mamíferos, são todas umas coitadas. E- Coitada é tu! Criatura rastejante! S- As répteis sim, as fêmeas de inseto também, são mulheres de fibra! Já você vai estar sempre à sombra do teu eterno maridinho. Por mais que se esforce, sempre vai ser a costelinha tímida que não servia pra nada e acabou virando gente. E- Cala essa boca, cobra caninana! Eu jamais ficarei à sombra do Adão, ouviu bem? Jamais! S- Então por que não fica e conversa um pouco comigo? E- (SUBITAMENTE RETRAÍDA) Eu não posso... Foi como te falei... Tenho piquenique. S- Piquenique o cacete. E- A corsa me disse pra não falar com você. S- Não foi veadinho nenhum que falou mal de mim não. Foi aquele loiro seboso. Teu namorado. Ele manda você fazer as coisas e a idiota obedece. E- (CONFESSA) Foi ele que falou sim. E Papi também. S- Mesmo assim você veio. Porque tem uma coisa que você quer. E- (MENTE MAL) Tem coisa nenhuma. S- Tem sim. A maçã. Você está doida pra dar uma mordida nela. E- Quem? Eu? Eu não. S- (PROVOCA) Mas Papi proibiu. Papi deixa a filhinha fazer tudo! Faz rio de sorvete de flocos pra filhinha! Faz rio de estrogonofe. Mas rio de maçã Papi não faz. Não pode comer maça. É proibido. E- Só queria saber que gosto tem. S- Nada de mais, viu? Doce, mas sem graça. Não é como um bolo de chocolate cremoso, uma torta de nozes... É simplesmente... maçã. E- Mas por que Papi proíbe? S- Porque se você comer a maçã, essa folha colada no teu sexo vai cair. Você vai perceber que não é só Papi que pode gerar uma vida. Você também pode. E- (ANIMADA) Está brincando! S- Adão vai entrar dentro de você e vocês dois, suados e sem fôlego, vão se deleitar muito mais do que tomando banho de sorvete. E- Melhor que banho de sorvete? Será? S- Papi vai ficar uma fera e expulsará vocês dois do Paradise. Lá embaixo vocês vão morrer, pegar doenças, entrar em guerras, e Papi não vai consertar quando sua cabeça for arrancada por acidente. E- Que horror!!! S- E você vai engordar que nem uma vaca se comer do jeito que você come aqui em cima! Isso se você tiver comida. Você vai ter que trabalhar pra se alimentar. E- (HORRORIZADA) Trabalhar? S- Fora que nos primeiros dez mil anos vocês vão ser consideradas inferiores que os homens. Vai ser uma longa batalha conquistar a igualdade. E- (DESANIMADA) Dez mil anos... S- Você já vai ter parido muitos filhos, testemunhado o decair das tuas carnes, conhecido a solidão da morte. E- E o que acontece? O que acontece quando a gente morre? S- Não sei? Você volta por colo do Papi? Ou cai na escuridão de vez? Você vai ter que provar por si mesma. E aí, garota mimada?... O que vai ser? (PAUSA) E- O Paraíso está um tédio. Passa essa maça pra cá. FIM
ANJOS E DEMÔNIOS de Juli Spadaccini
Homem chegando ao céu, encontra um anjo.
H - Com licença.
A - Pois não?
H- (rindo) Você é um anjo?
A- Sou.
Homem ri copiosamente.
A- Qual é a graça?
H- Desculpa, é que eu ouvi falar tanto em vocês, mas não imaginava que era verdade...
A -O que?
H -Isso de asinhas brancas... e ... bem o cabelo é um pouco diferente...
A- O que tem meu cabelo?
A- Ah, sei lá... tá faltando uns cachinhos dourados, pelo menos é assim que a gente acha que são os anjos...
Anjo começa a chorar.
H- Que foi? Ta chorando por quê?
A - Eu tentei de tudo para ter cachinhos dourados. Fiz reflexos, luzes e até comprei o baby Liss, mas nasci assim sem uma ondinha, nada, uma lisura sem fim...
H- Engraçado.
A- O que?
H- Lá em baixo é diferente.
A- Diferente como?
H-Lá embaixo todo mundo que tem cachinhos quer alisar. Escova de chocolate, japonesa, água sanitária...
A- Que engraçado...
H- É...
A – O que mais falam dos anjos... como é mesmo o seu nome?
H- José.
A- José... e o que falam?
H- Ah... que vocês... que vocês...
A- O que?
H- Se eu falar você vai chorar.
A- Que usamos auréolas? Isso é coisa antiga, na nova coleção podemos usar até chapéu panamá.
H – Não é isso.
A- Que tocamos arpas? Isso era verdade, mas Deus começou a ouvir techno celestial e pediu para gente investir na coisa de DJ.
H – É mesmo? E o que vocês tocam?
A- Fizemos uma série chamada “orações para dançar”: Ave Maria remix, Afro-aleluia, essas coisas.
H- Tem rave?
A- Claro. Todo domingo no inferninho.
H- Mas vocês podem ir para o inferno?
A- Escondidos... o diabo aluga uma Vanjo para gente.
H - Como?
A- Vanjo, van para anjos.
H- E Deus nunca descobriu?
A- Ah, Ele sabe mas não finge que não... mas então, é isso que falam dos anjos?
H – Não, não é isso.
A - O que é então?
H- O pessoal da Terra acha que vocês são meio... frutinhas.
A- Frutinhas? Não entendi.
H -Que não... não...
A- Ah! Que não temos sexo?
H - Isso.
A- É verdade, não temos.
H - Mas e aí? Qual é a graça de ir para a rave no inferninho e não poder pegar ninguém?
A – (dá uma piscadela) Asas.
H- Asas?
A – Os humanos subestimam o valor das asas.
H- Não é verdade, nosso sonho é voar.
A – Mas o melhor de ter asas não é voar.
H- É o que?
A – Não dá para explicar. Só os anjos conseguem sentir.
H- Vocês são muito estranhos...
A-É mais fácil, rápido e bonito.
H – O que? Dar uma asada em alguém? Credo!
A – Pode se acostumar, pois se você chegou até aqui é porque vai virar anjo.
H- Eu? Mas eu sou péssimo, jamais seria um anjo.
A – Imagina, você foi ótimo!
H- Fui péssimo, cafajeste, irresponsável, boca suja, mentiroso. Não tenho a menor condição de ser anjo. No máximo ajudante do capeta.
A – Você acha que ser anjo é um prêmio?
H- Pô! Não é?
A – Claro que não! Como eu disse, a diversão rola solta no inferninho, aqui no céu a coisa anda tão parada que Deus resolveu que o castigo é o paraíso.
H- Mas o paraíso deve ser legal, vai... cheio de redes para dormir, sem hora para nada, ventinho no cabelo...
A – Tédio. Tédio puro. Depois de 24hs, você não agüenta mais as redes e começa a fazer aeróbica guiada.
H- Como assim?
A – Tem um grupo de anjos que fica fazendo animação no paraíso para ninguém ter gangrena de tanta falta do que fazer.
H – E a comilança?
A – Frutas, no máximo uma bananinha com mel, quando as abelhas resolvem ajudar...
H- E a praia?
A – Laguinho.
H – Mas só de não precisar trabalhar já está bom...
A – Não precisa trabalhar? Você tem noção do que é passar o dia pegando fruta no pé, água do lago para banho e acolhendo os que acabaram de morrer. Você está tranqüilo, mas tem suicida que chega aqui arrependido e você tem que acalmar, é um desastre...
H- Suicida entra aqui no paraíso.
A – To dizendo que as coisas mudaram.
H- Mas então eu quero ir para o inferno.
A – Não dá mais.
H- Pelo amor de Deus, me ajuda!
A – Escolhe, quer que eu ajude ou Deus?
H – Eu faço qualquer coisa para ir para o inferno!
A – Qualquer coisa?
H – Qualquer!
A –Mesmo?
H- To dizendo!
A – Então você tem que assinar aqui.
H- Eu assino.
Anjo tira documento do bolso.
A – Assina aqui e aqui. Com letra legível, hein. Isso.
Homem assina.
A – Pronto, agora você pode seguir por ali que vai direto para o inferno.
H- Ai, obrigada, queridão! Você foi realmente um anjo!!!!
A – Imagina...
Homem sai feliz da vida. Entra outro anjo, agora de cachinhos douradinhos, arpa e tudo.
Anjo 2 – Você viu um cara chamado José por aqui? Tenho que levar ele para o paraíso e estou atrasado...
Mostrando a direção.
A – Ele foi por ali.
Anjo 2 – Ah, obrigada!
Assim que o anjo 2 sai, Anjo 1 mostra o rabinho de capeta para a platéia.
A – Ai, ai, difícil fazer o trabalho todo sozinho...
A dá uma gargalhada e sai.
IMPRESSÕES DE UMA JOVEM NO "PARAÍSO" de Renata Mizrahi
(Colônia de Férias Paraíso, lugar lindo, dez horas da manhã, carta de Joana para seus pais.)
Joana: Querido papai, querida mamãe, aqui no Paraíso é muito legal. Obrigada. Tem tudo o que eu quero e me sinto muito bem. Mas confesso que poderia estar melhor. Não, claro, não estou reclamando daqui, por favor, não pensem isso. É que eu não me sinto totalmente bem há algum tempo. É como se eu carregasse comigo uma angústia, sabe? Uma angústia que para mim, a princípio, não tem explicação. Não entendo muito por que eu estou aqui e outras pessoas não. Às vezes sinto que esse mundo tem muitas coisas estranhas.
(Copacabana, Rio de Janeiro, meio dia, um homem desesperado com uma sacola de compras na mão.)
Homem: Eu quero ir para o Sul, eu quero ir para o Sul, eu quero. Eu não quero ficar mais aqui, eu não quero mais. Alguém me leva para o Sul? Eu não quero mais morar aqui, eu não quero mais.
Joana: É como se as coisas estivessem fora de seu lugar. É como se a felicidade fosse impossível, como se por trás dela estivesse implícita muita dor.
(Centro da cidade, Av. Rio Branco, duas horas da tarde, uma mulher desesperada tenta, sem sucesso, chamar a atenção dos passantes na rua.)
Mulher: Me dá dinheiro para eu comprar uma passagem de volta pra casa, moço? Me dá dinheiro pra eu voltar pra casa. Eu quero voltar pra casa, moço. Moça, me dá só um dinheirinho pra eu voltar pra casa. Eu quero voltar pra casa!
Joana: Às vezes penso que só escrevo isso porque sou jovem e ainda tenho esperança dentro de mim. Mas será que vou crescer e um dia essa minha angústia virará costume e o costume me fará esquecer? Não sei. Pelo menos quero registrar aqui, papai e mamãe, que não posso e não consigo ser feliz. Porque sinto que carrego nas minhas costas todos os males do nosso mundo.
(Madureira, oito horas da noite, um homem desesperado canta um rap no meio da rua.)
Cantor de rap: Droga, droga, droga, droga, droga, droga, droga. Sai da frente, sai da frente, sai da frente, sai da frente... Joana: E dá pra ser feliz, papai e mamãe? Será que a felicidade também não é um produto para a classe média consumir e gastar enquanto a nação não consegue resolver toda a miséria que assola o planeta? Vocês já pensaram nisso, papai e mamãe? Eu acho que não. Porque pelo que eu percebo nesse meu pouco tempo no mundo é que a miséria não está só na falta de posses. Eu percebo a miséria das almas, e isso, não há dinheiro que compre.
(Leblon, nove horas da noite. Uma mulher desesperada em seu apartamento em frente à praia.)
Mulher: Eu quero, Alberto. Eu quero! Eu quero, Alberto! Eu quero, eu preciso, Alberto. Compra pra mim. Compra! Compra pra mim. Eu quero agora, isso é sério. Agora! Agora! Isso é um problema sério, seríssimo, agora!
Joana: Por isso, papai e mamãe, eu pergunto se esse lugar que estou deveria se chamar mesmo Paraíso. Porque pra mim o Paraíso não pode existir. Não enquanto as coisas continuarem fora de seus lugares.
(Centro Empresarial da Barra da Tijuca, duas horas da tarde. Um homem em frente ao computador, na sua mesa do escritório.)
Sandro: Deleta. Volta, não, deleta. Deleta, escaneia, configura...
Joana: Imagino que ao lerem essa carta, vocês ficarão assustados e impressionados com a filha que vocês têm, já com tantas impressões e críticas sobre a vida. Mas não pensem que sou prodígio por isso. São esses tempos, papai e mamãe, de internet, informação massificada e reality show que me tornam assim. São esses tempos de tudo exposto na rua; a pobreza, o frio, a fome, o tiroteio na hora do almoço, o carro de luxo, a mulher pelada na banca de jornal, o assalto a mão armada, a gripe suína, o padre pedófilo, o homem ciumento, o egoísmo, a falta de educação, e o descaso com o sentimento. Não me superestimem, sou apenas mais uma jovem com coisas na cabeça, a única diferença é que as exponho. Mas também por quanto tempo? Afinal, sinto que tudo, até os pensamentos, tem prazo de validade.
(Largo do Machado. Onze horas da noite. Uma criança cheirando cola.)
Criança: Tio? Me dá um trocado para eu comprar um pão? Eu não vou te roubar não, tio.
Joana: Se eu pudesse, papai e mamãe, eu abria os meus braços e acolhia todas as almas perdidas, todos os inocentes que nasceram em lugares errados entre pessoas erradas. Se eu pudesse...
(Central do Brasil. O dia todo. Um louco falando aos passantes.)
Louco: Cuidado com essa terra. Cuidado com essa terra. Cuidado com essa terra. Cuidado com essa terra...
Joana: Mas o que me deixa mais triste, papai e mamãe, é que vocês vão ler isso e não vão entender nada. E vão querer conversar comigo, quem sabe me colocar numa análise, ou então me mandar para um país europeu para estudar, pra quem sabe, eu esquecer o fardo de nascer no Rio de Janeiro. Para que eu volte com um currículo promissor e passe a apreciar a beleza da praia de Ipanema como se ela fosse um resumo da cidade maravilhosa.
(Praça da Bandeira, dez horas da noite. Uma prostituta velha).
Prostituta: Oi, benzinho. Quer entrar no paraíso? São só trinta reais e você vai viajar fundo no mundo do amor. Ei, benzinho, eu tô falando com você. Viado, vai se fuder, filha da puta...
Joana: O que me deixa mais triste é que talvez eu aceite fazer essa viagem para Europa e aceite voltar pro Rio, mais velha, mais instruída, reclamando da violência e da falta de segurança, e seja apenas mais uma que um dia questionou e não fez nada. Nem sequer pegou uma roupa que não usa no armário e entregou pro mendigo que dorme em frente à portaria do prédio e que tá morrendo de frio nesses tempos de inverno.
(Banco da praia de Copacabana, três horas da tarde, um velhinho sozinho sentado, fala coisas que ninguém entende.)
Joana: O que me deixa mais triste é que eu tenho 95 por cento de chance de me tornar como vocês, papai e mamãe, simplesmente porque dá muito trabalho ir além da reclamação, dá muito trabalho ir além do pensamento, ou simplesmente porque vocês me educaram assim, dentro dessa divisão de mundo onde um observa o outro, mas não ousa ultrapassar o muro invisível. Então eu rezo, eu rezo para que esse muro exploda, papai e mamãe, eu rezo para que a gota d’água faça vocês e eu tirarmos a bunda de frente da televisão e sairmos de casa para não mais observar e talvez, quem sabe, modificar.
(Corte. Ipanema, nove horas da noite, catador de lixo).
Catador de lixo: Moça, joga fora aqui na minha boca. Ei, moça, joga fora aqui na minha boca...
Joana: Com tudo isso, papai e mamãe, para que vocês não me mandem estudar fora pensando no meu futuro, eu digo que não voltarei mais para casa. Estou deixando a colônia de férias Paraíso, essa colônia de nome irônico, para ir além, papai e mamãe, além do futuro cego que sei que vocês estão pensando para mim. Não me julguem, julguem a vocês mesmos, mas não a mim, que ainda tenho alguma chance, alguma esperança, fruto glorioso da juventude. Não quero nem posso mais viver assim. Pelo menos durante o prazo desse meu pensamento. Se um dia eu voltar, pode até ser porque fracassei, mas pelo menos eu poderei dizer que tentei. Que tentei em algum momento da vida fazer algo não só por mim, mas por alguém.
(Foco de luz no homem da sacola de Copacabana, na mulher da Av. Rio Branco, no cantor de rap de Madureira, na moça do apartamento do Leblon, no homem apático do escritório, na criança cheirando cola no Largo do machado, no louco da Central, no velhinho do banco da praia, no catador de lixo de Ipanema.)
FIM.
MOTEL PARAÍSO de Larissa Câmara
Personagens: Rock – a virilidade com alma de salto alto Bruna – esmalte vermelho desejo com força Dr. Marcondes – uma resolução de caráter...
(A Ação se passa num quarto do Motel Paraíso. Luzes piscam, ouvimos em alto e bom som a música “Don´t stop the music” , ou similar, (http://www.youtube.com/watch?v=xsRWpK4pf90&feature=fvst ) Rock e Bruna, putos de aluguel, começam seu show para o contratante. Bruna está agarrada na cintura de Rock. Eles executam uma coreografia que deve ser sexualmente provocante, mas beira o patético. Bruna numa sensualidade vulgar e Rock com uma virilidade exibicionista).
Dr. Marcondes: (falando alto até interromper a música) Pára... Pára. Pára!
(Rock e Bruna se olham sem entender. A música pára. Rock e Bruna levemente constrangidos)
Bruna: Quer que troque a música?
Rock: A gente pode fazer outra coreô...
(Dr. Marcondes sentado olhando para baixo com a cabeça entre as mãos em silêncio.)
Bruna: (quase maternal) Já sei. Ele quer relaxar... (piscando confiante) Rock, vamos fazer aquela!
(Com a emoção dos bailarinos de festa de formatura, começam uma coreografia romântica ao som da música Say You'll Be There (http://www.youtube.com/watch?v=9ro0FW9Qt-4))
Rock: (num sorriso singelo) Uhul! Spice Girls Adoro!
(Dr. Marcondes faz sinais discretos com a mão pedindo para eles pararem. Rock e Bruna param de dançar. A música pára. Dr. Marcondes começa a chorar)
Bruna: (tirando um chicote da liga. Dominatrix para Dr. Marcondes) Hum, o gatinho quer ser dominado? Se continuar chorando vai apanhar? Quer levar muitas palmadas nesse bumbum? Vem aqui! A sua dona vai te bater!
(Dr. Marcondes faz sinal de pausa. Vai até o banheiro lavar o rosto)
Rock: (num suspiro) Ai, meu pai!
Bruna: Isso nunca me aconteceu antes.
Rock: (afetado) Sei. Tem certeza que é aqui?
Bruna: Claro.
Rock: Claro, nada Bruna. Você é meio burra para anotar recado.
Bruna: (tirando uma folha do bloco de recados dos seios) Motel Paraíso, bloco Jardim do Éden, quarto 7. É aqui mesmo.
Rock: Sei não, heim, Bruna. Cliente que chora dá um azar.
Bruna: Ih, Rock. A situação já está difícil vai querer bancar o implicante?
Rock: (semi magoado) Ih, tá bom. Não falo mais nada. (pausa malvada) Não sei... Acho que ele chorou porque sacou que você parou de malhar. Sua bunda tá uma gelatina.
Bruna: (gargalha) Ele chorou porque você deu pinta. Você é mais mulher do que eu. Ele contratou um casal, não um show lésbico mexicano.
Rock: (go-go boy ferido) Ih, eu sou super bofe!
Bruna: (rindo) Bofe de unha postiça.
Rock: Ih, parei com você. Pintei francesinha. Tô super discreto. A unha postiça eu posso arrancar, meu amor. Mas, a sua bunda, só Jesus!
Bruna: Eu piso no seu recalque, bicha ploc!
Rock: (estourando uma bola de chiclete) É Bubbaloo, meu amor! Eu sou fino! (pausa) Você combinou o preço antes?
Bruna: Meu querido, eu não saio de casa sem saber quanto eu vou ganhar.
Rock: Acho bom mesmo. (pausa) Tô quase achando que ele chorou para ganhar desconto.
Bruna: Fala baixo que ele está voltando.
Dr. Marcondes: Oi. Boa Noite.
Bruna: (piranha light) Boa noite!
(Rock faz um aceno de cabeça e cruza os braços, muito viril escondendo as unhas postiças)
Dr. Marcondes: Meu nome é Marcondes.
Bruna: Eu sou a Bruna. Ele é o Rock. E aí? Tudo legal?!
Dr. Marcondes: Vocês estão vendo aquela caixa? (aponta para uma caixa de ventilador no canto do quarto).
Bruna: (meio tensa, mas querendo ser fofa) Aham... Olha só eu posso até tentar entrar na caixa, mas eu não sou muito alongada. Eu tenho uma amiga que é contorcionista do forró...
Dr. Marcondes: (interrompendo) A caixa está ocupada.
Bruna: Ah, tá Legal.
Rock: (Semi tenso para Bruna) Sinistrinho, esse cara.
Dr. Marcondes: Eu quero os dois de quatro no chão agora!
(Rock e Bruna ficam de quatro. Dr. Marcondes pega uma pá)
Rock: (medroso) Na boa, eu faço de tudo... Mas, não quero que me bate nem que puxe o meu cabelo.
Bruna: Ai, Rock.
Dr. Marcondes: (num suspiro. Acende um charuto) A sociedade está cheia de desentendimentos. Por exemplo, eu acho que nós não estamos nos entendendo. Isso é fruto de quê? Da falta de comunicabilidade da sociedade contemporânea.
Bruna: (burra) É verdade. Super concordo.
Dr. Marcondes: Não me interrompa.
Bruna: Desculpa.
Dr. Marcondes: Eu estava na sacada da minha cobertura com a minha mulher. Nós nos desentendemos por um motivo bobo, um motivo banal, eu diria. O seguro de vida milionário dela... Banal, não é mesmo? Ela se desequilibrou e caiu da sacada. Um acidente. Eu diria mais: Um joguete do destino. Agora tudo o que sobrou dela está naquela caixa de ventilador portátil. Nunca pensei que ela pudesse acabar assim. (reflexivo) É da vida não se leva nada.
Rock: (num sussurro de pavor) Eu não queria estar aqui. Eu ganho muito mais fazendo cover da Britney Spears em festa infantil.
Bruna: Quietinho, neném.
Dr. Marcondes: Eu vou explicar como funciona. Vocês vão arrancar o carpete encardido desse quarto e começar a cavar uma cova linda para minha esposa. Quando o meu charuto acabar eu quero a cova pronta, ou eu acabarei com vocês. Entenderam?
(Rock e Bruna apavorados acenam a cabeça num sim trêmulo. Dr. Marcondes joga a pá para Rock.)
Rock: (num gemido) Ai, minha unha postiça.
(Rock e Bruna num abraço repentino com choro sincero)
Dr. Marcondes: (numa baforada de charuto cruel seguida de uma gargalhada) Comecem a cavar!
Fim... “Final Bônus Track” (Rick e Bruna cavando cantarolam chorando juntos)
Rock e Bruna: I´m a slave for you! (http://www.youtube.com/watch?v=kuZKbXNGDs4)
FUMAÇA DE CHARUTO... TREVAS...
|
A reprodução
dos textos deste site é permitida de acordo com as diretrizes do
Creative
Commons.
|