HÉLIO de Rodrigo Nogueira

Uma jovem de uns 25 e um homem de uns 50. Os dois sozinhos num ponto de ônibus da Urca. A jovem parece preocupada.

(A cena pode ser feita por outras duas pessoas de qualquer idade, qualquer sexo, com pequenas adaptações)

JOVEM: Dá licença. Você tem horas?


HOMEM: Se eu tenho horas?

JOVEM: Isso.

HOMEM: Em que sentido?

JOVEM: No sentido de saber que horas são.

HOMEM: No Brasil?

JOVEM: É.

HOMEM: Em qual fuso?

JOVEM: Olha, deixa pra lá.

HOMEM: Não, não. Responde. Eu estou querendo te ajudar.

JOVEM: Não parece.

HOMEM: Por que eu não adivinhei de que parte do mundo você quer saber as horas?

JOVEM: Porque você não me disse que horas são.

HOMEM: Mas como é que eu posso te dizer que horas são se você não me disse a localização do globo cujo horário você quer saber?

JOVEM: Olha...

HOMEM: Eu não sei se você sabe, mocinha, mas a hora muda de unidade em unidade à medida que avançamos quinze graus na longitude terrestre para a esquerda ou para a direita. No caso, mais para o leste, menos para oeste.

JOVEM: Tudo bem...

HOMEM: E eu também não sei se você sabe, mas existem exatamente vinte e quatro dessas divisões pelo globo.

JOVEM: Tá legal, eu já...

HOMEM: E que dessas vinte e quatro divisões, três estão no Brasil.

JOVEM: Eu...

HOMEM: Portanto, a menos que você me diga a exata localização da faixa longitudinal da qual você quer saber o horário eu não tenho como te dizer que horas são.

Ela dá um sorriso amarelo para ele e olha pra frente.

tempo

HOMEM: Ainda quer saber as horas?

JOVEM: Não. Obrigada.

tempo

HOMEM: Como é o seu nome?

JOVEM: Pra que você quer saber?

HOMEM: É que desde o surgimento da fala no período Neolítico...

JOVEM: Tá bom, tá bom, tá bom. Meu nome é Ramona.

HOMEM: Ramona! Que interessante! Ramona é o nome do meu abajur.

JOVEM: Seu abajur?

HOMEM: Da sala. O do quarto é Dorotéia.

JOVEM: Como é que é?

HOMEM: É que a Dorotéia é mais velha.

JOVEM: Hein?

HOMEM: Sempre achei que Dorotéia fosse um nome mais antigo.

JOVEM: Você dá nome pros seus abajurs?

HOMEM: A-ba-ju-RES.

JOVEM: Que seja. Você dá nome pros seus abajures?

HOMEM: Claro.

JOVEM: Ah, claro. É muito óbvio mesmo. Eu por exemplo sempre nomeio as minhas facas.

HOMEM: Você também!

JOVEM: Eu não acredito.

HOMEM: Que bom. As minhas são Viviana, Roberta, Maura e Denise. Tem também a Kátia. Mas ela, coitada, já tá meio cega.

JOVEM: Quem?

HOMEM: A Kátia. Minha faca de churrasco que tá cega.

JOVEM: Você tá falando sério?

HOMEM: To, menina. Ela tá cega mesmo!

JOVEM: Posso te fazer uma pergunta?

HOMEM: No caso, outra.

JOVEM: Pra que é que você dá nome aos seus abajurs...

HOMEM: A-ba-ju-RES!

JOVEM: Aos seus ABAJURES e às suas facas?

HOMEM: Pelo mesmo motivo que a sua mãe te deu o seu.

JOVEM: Eu não entendi muito bem.

HOMEM: Já imaginou se você não tivesse nome? A confusão que ia ser?

JOVEM: E daí?

HOMEM: E daí que é a mesma coisa com as facas! Imagina. Era capaz de eu almoçar, por exemplo com a Maura e o Teodoro...

JOVEM: Teodoro?

HOMEM: Um dos garfos. Enfim. Era capaz de eu almoçar com a Maura e Teodoro, jantar com Roberta e Cristiano e nem me dar conta da diferença. Olha que loucura.

JOVEM: É. Uma loucura mesmo.

HOMEM: Nem me fale...

JOVEM: Bom, pelo que eu to vendo tudo na sua casa tem nome.

HOMEM: Claro.

JOVEM: Tapete...

HOMEM: Antônio.

JOVEM: Televisão...

HOMEM: Valter.

JOVEM: Mesa de cabeceira...

HOMEM: A Glorinha!

JOVEM: E pia...

HOMEM: Essa é Pia mesmo.

JOVEM: Entendi.

HOMEM: Pura coincidência. É que ela tem cara de Pia, sabe?

JOVEM: Sei. E você provavelmente conversa.

HOMEM: Conversar.

JOVEM: Com a televisão...

HOMEM: Por favor... Valter.

JOVEM: Como o Valter, o Antônio, a Glorinha... A Pia...

HOMEM: E por que não conversaria? Eles só não me respondem.

JOVEM: Meu Deus.

HOMEM: O que foi, Ramona?

JOVEM: Nada não.

HOMEM: Fala!

JOVEM: Muito triste.

HOMEM: Triste? O que é triste?

JOVEM: Você! Isso que você faz. Patético.

HOMEM: Você acha? Engraçado. Eu acho o contrário.

JOVEM: O quê?

HOMEM: Eu acho que triste é o contrário.

JOVEM: Como assim o contrário?

HOMEM: Acho triste alguém que acredita que a palavra “faca” substitui todas as facas que existem. Alguém que se dá por satisfeito em almoçar sem se importar com cada detalhe do que está fazendo. E acho mais triste ainda alguém que só consegue dar bom dia se for receber uma resposta. Isso, Ramona, eu realmente acho triste.

JOVEM: Você é maluco, né?

HOMEM: Também acho triste. Chamar o que é diferente da gente de maluco. Olha, Ramona, eu vivo muito bem do jeito que eu sou. Muito mesmo. E ter a capacidade de acordar bem dando bom dia pro Valter e manter o bom humor desde cedo contando uma piada pro Timóteo (que no caso é o meu aparelho de barbear) não é triste não. Nem patético. É ser feliz. E ter imaginação e disponibilidade pra ser feliz. Mesmo que eu não tenha ninguém. Meio brega, né? Mas é o que é.

A jovem fica olhando para o homem sem entender. Ela se levanta, faz sinal para o ônibus. Ao dar o primeiro passo como se fosse subir, o homem interrompe.

HOMEM: Ramona!

Ela se vira para ele.

HOMEM: São nove horas.

Ela sorri.

OS LIVROS NÃO SÃO TÃO PESADOS de Renata Mizrahi

(Mulher parada na porta de um apartamento. Ela está pensando)

“Deixei uma parte de mim nesse apartamento. Será que ele vai perceber isso ao abrir a porta? Melhor tocar a campainha. Será que dou um sorriso? Melhor tocar a campainha.”

(Ela toca a campainha)

“Esse tempo da espera. Esperar ele me atender. Ele vai abrir a porta e vai me ver sorrindo. Será que ele vai me ver de verdade? Eu devia ter me arrumado mais. Talvez ter colocado um brinco, um batom, talvez... Sinto seus passos se aproximando da porta. Daqui a alguns segundos vou me perder nesse apartamento. E agora? E agora?”

(Ele abre a porta. Eles se olham. Silêncio)

“Meu coração tá disparado. Eu ainda me reconheço nesse olhar. Eu ainda me vejo dentro dele. E agora? E agora?”

Ele: Oi.

Ela: Oi.

Ele: Entra.

“Eu quero beijá-lo, abraçá-lo, amassá-lo...”

(Ela entra)

Ele (mostrando umas caixas): Acho que tá tudo aqui.

“Eu quero cavar um buraco em seu corpo e me atirar dentro dele pra nunca mais sair.”

Ele: Os livros eu não tenho certeza, mas qualquer coisa, se faltar, você me avisa que eu deixo em algum lugar fácil de você pegar.

“Eu quero me enrolar em seu lençol e costurar ele no meu corpo.”

Ele: Agora, eu ia te pedir, pra ficar com esse quadro. Pelo que você me falou, seu apartamento é muito pequeno, então acho que não tem problema eu ficar com ele . Você acha?

“Eu quero ficar doente agora, de repente, à beira da morte, pra você não me deixar sair daqui e cuidar de mim.”

Ele: Você acha?

Ela: Hein?

Ele: Você acha que eu posso ficar com esse quadro?

Ela: Ah! O quadro. Pode, claro. Meu apartamento é muito pequeno pra ele.

Ele: Tem também os cds. Mas isso é tranqüilo. Por mim você pode escolher o que quiser, porque eu não ligo muito pra isso, depois eu consigo de novo. Mas acho que a gente pode ver isso com calma , né?

“Se eu te disser que isso tudo é uma palhaçada, que a gente é mais forte do que isso, e que a gente pode tentar de novo. A gente pode tentar de novo. Não podemos?”

Ele: Podemos sim...

Ela: Oi?

Ele: Podemos sim.

Ela: Podemos sim?

Ele: É. Ver isso com calma, né? Essa divisão dos cds.

Ela: Ah! É, podemos.

Ele: Eu nem te ofereci nada. Quer um copo d’água?

“Eu quero todos os copos d’águas que bebemos juntos, todos os pratos de comida em que colocamos algo da gente. Olha pra mim de verdade! Olha pra mim de verdade!”

Ele: Hein? Ouviu? Aceita um copo d’água?

Ela: Ah, sim! Aceito.

Ele: Tá tudo bem?

Ela: Por quê?

Ele: Não sei, tô te achando meio calada...

Ela: Não. Tá tudo bem.

“Tudo bem se eu te abraçar? Tudo bem se você não me deixar ir embora sozinha?”

Ele: É que você costuma ser tão faladeira...

Ela: Não. Tá tudo bem.

“Tudo bem se eu ficar aqui pra sempre? Tudo bem se você não me deixar ir embora daqui sozinha?”

Ele: Perdoa a falta de opção, é que eu só tenho água mesmo.

Ela: Eu sei, tudo bem.

“Eu perdôo tudo. Eu sei, eu sei tanto, eu sei tanto...”

Ele: Mas e aí? Achou justa a divisão?

Ela: Sim.

Ele: Acho que não ficou muito pesado.

“Isso tudo é tão pesado. Será que eu vou agüentar, meu Deus? Me ajuda.”

Ele: Hein? Você acha que tá pesado?

Ela: Não. Eu agüento.

Ele: De repente os livros...

Ela: Eu vou agüentar.

Ele: Não quer mesmo que eu te ajude a carregar?

Ela: Não precisa.

Ele: Quer ficar mais um pouco aqui?

“Quero ficar a minha vida inteira. Não me deixa ir embora daqui sozinha. Olha pra mim de verdade. Olha pra mim de verdade, que assim você não vai me deixar ir embora daqui sozinha. De novo.”

Ela: Você deve ter algum compromisso, não quero te atrasar.

Ele: Pior que eu tenho.

Ela: É? Então eu já vou indo.

Ele: Deixa que eu te ajudo com os livros, pelo menos.

Ela: Os livros não são tão pesados.

Ele: Então tá.

Ela: Então...Tchau.

Ele: Ruth?

Ela: Oi...

(Longo silêncio)

FIM

COMPLEXO DE GRETA GARBO de Larissa Câmara

PERSONAGENS:

GRETA: que não é Garbo

VIZINHA: intrometida e quase amiga.

(Apartamento de Greta em Copacabana. Vizinha bate na porta desesperadamente)

VIZINHA: Você está aí? Abra a porta!

(Greta não responde, tira fotos de si mesma enquanto escreve sua autobiografia)

VIZINHA: Abra a porta, por favor. Dê um sinal de vida. Fale alguma coisa!

GRETA: (para si mesma) Sou uma estrela do cinema mudo. Não preciso dizer nada.

VIZINHA: Greta! Gretaa!

GRETA: (sem alterar o tom de voz) Detesto que me chamem pelo meu primeiro nome!

VIZINHA: Você quer que eu faça um escândalo? Eu disse es-cân-da-lo!

(Greta ao ouvir escândalo fica nervosa corre para a porta e abre somente uma fresta. Um cheiro insuportável sai do apartamento.)

VIZINHA: (com a debilidade das pessoas excessivamente simpáticas) Olá! (tapando o nariz) Nossa que cheiro estranho!

GRETA: Nem todos possuem olfato para um bom perfume francês!

VIZINHA: É forte mesmo, né? (muda tom) Preciso falar com você é assunto sério. Urgente. (empurra a porta entrando e fica atônita ao ver as fotos de Greta espalhadas sobre a escrivaninha e muitas malas com diversos tamanhos) Você vai viajar, Greta? Traga uma lembrancinha para mim!

GRETA: Não quero falar sobre isso! A que devo a honra da sua visita?

VIZINHA: É que... Ah... eu vim para dar um oi...

GRETA: Querida, estou muito ocupada. Preciso terminar minha autobiografia. (tira uma foto de si mesma)

VIZINHA: Autobiografia. Nossa que chique! Ah, você vai escrever que seu pai era dono de uma Barbearia? Que seu nome na vida real é Gisele Renilda Eliany Ticiane Amanda? Que você juntou todas as suas iniciais e inventou esse apelido bacana? Você vai ter que escrever um capítulo inteirinho sobre a nossa infância no Irajá! Afinal eu sou sua melhor amiga!

GRETA: Não sei do que você está falando. Sou sueca e nasci em Estocolmo. (pausa) O que você veio fazer aqui mesmo? Não me recordo.

VIZINHA: Na verdade... eu...é... quero pedir.. se não for incomodar... uma xícara de açúcar... eu preciso de uma xícara de açúcar para terminar o bolo que estou fazendo.

GRETA: Só uma xícara de açúcar. Tem certeza?

VIZINHA: (Andando atônita pelo apartamento) Tenho.

GRETA: Que estranho! O prédio inteiro sabe que você é diabética.

VIZINHA: Ah, eu até fui uma época sabe, mas agora eu cansei, acho mesmo que... (Andando atônita pelo apartamento sorri debilmente, tropeça num taco solto do piso e cai sobre uma mala de onde sai um braço de um cadáver de homem)

GRETA: (sem olhar para a vizinha) Aqui está sua xícara. Agora saia! Preciso terminar minha autobiografia. (deixa a xícara na escrivaninha e tira uma foto de si mesma)

VIZINHA: (levantando assustada) Eu sabia que meus binóculos comprados no 1,99 não mentiam! Muitos homens entram nessa casa, mas nenhum sai. O porteiro tentou me convencer que existia uma saída secreta... Mas, eu sabia que algo estava errado. E esse cheiro podre que sai do seu apartamento e invade o prédio! Assassina!

GRETA: Acho que você está se excedendo, querida. Apenas não suporto invasões de privacidade. (mostra as malas e fala dos problemas dos homens) Mexeu nas minhas gavetas, abriu meu diário, olhou as chamadas do meu celular, esse é imperdoável - tentou abrir uma cerveja long neck na pia da cozinha!

VIZINHA: (decepcionada) Ah, Greta isso não se faz!

GRETA: Por favor, não me chame pelo primeiro nome. Detesto que me chamem pelo meu primeiro nome!

VIZINHA: (num suspiro) Ai, que bagunça, Greta!

GRETA: Querida, vamos esquecer tudo! De agora em diante começaremos a viver. Levante-se quero tirar uma foto sua (carinhosa) para entrar na minha autobiografia. Você está preparada para o close?

(vizinha faz sim com a cabeça. Greta bate a foto. O flash ofusca a vizinha que tropeça numa das malas e cai batendo a cabeça no chão. Vizinha no chão desmaiada, semi consciente com a boca aberta. Greta pega a xícara de açúcar que estava na escrivaninha)

GRETA: Você precisa de uma xícara de açúcar. Tome! (vira a xícara de açúcar na boca da vizinha. Vizinha morre. Greta se posiciona como se estivesse diante de uma câmera) Agora saia! I WANT TO BE ALONE!

FIM


A SOLIDÃO DE UMA SOLIDÃO de Julia Spadaccini

Mulher liga para o disque vida. João atende.

João – Disque vida, Boa noite.

Mulher – Oi.

João – Boa noite, em que posso ajudá-la?

Mulher – Ainda não sei...

João - O que você está sentindo?

Mulher – Nada.

João pega a lista de sintomas do disque vida e lê.

João – Está se sentindo angustiada?

Mulher – Não.

João – Ansiosa?

Mulher – Não.

João – Solitária?

Mulher – Não.

João – Sente dores no peito?

Mulher – Nenhuma.

João – Vontade de cometer atos suicidas.

Mulher – Não.

João – Tem alucinações.

Mulher – Depende.

João – Do que?

Mulher – Do que é uma alucinação.

João – Algo que você pensa que vê, mas não vê?

Mulher – Mas se eu acho que vejo, como vou saber que não vejo?

João – (Um pouco nervoso) A senhora está triste?

Mulher – Não.

João – Nervosa.

Mulher – Não.

João deixa a lista de lado.

João – (Constatando) Então a senhora está bem.

Mulher – Estou?

João – (agressivo) Se não sente nada é porque está bem.

Mulher – Você acha? Não tenho tanta certeza disso...

João – Em que posso ajudá-la?

Mulher – Não sei...

João – Está passando por algum problema?

Mulher- Não, por quê? Você está?

João – Eu estou aqui para ajudar a senhora e não para falar de mim.

Mulher – Sei. Mas se você quiser falar, tudo bem, tá?

João – Não tenho o que falar.

Mulher – Sei como é.

João – O quê?

Mulher – Não ter o que falar.

João – Como?

Mulher – Não ter o que falar é um problema.

João – Não, não é... Problemas são coisas concretas! Coisas que podemos falar sobre.

Mulher – Nossa como você é rígido.

João – Como é?

Mulher – Essa coisa de um sentimento ser concreto... Muito estranho...

João – (nervoso) Olha, hoje é o meu primeiro dia aqui. Só quero resolver a sua dificuldade e
ponto final, ok?

Mulher –Qual é o seu nome?

João – João.

Mulher- João, calma.

João- Eu estou calmo. Você, por favor, me conta algum problema.

Mulher – Não tenho.

João – Como não tem? Todo mundo tem problemas. Todo mundo tem. Todo mundo! Minha
vizinha tem! Minha avó tem! Eu tenho! Todo mundo tem!!!!

Mulher – João. Calma. Eu vou te ajudar.

João – Vai?

Mulher – Por que você está tão nervoso, João?

João – Eu não estou nervoso.

Mulher – Está.

João – Eu não estou nervoso, não estou! Eu estou ótimo. Pode me falar, desembucha logo o seu
problema, fala! Fala! Fala que eu te escuto! Fala!

Mulher – Eu continuo aqui...

João – Por que você está fazendo isso comigo? Por quê? Vocês mulheres são todas iguais! Todas!

Mulher – De que mulher você está falando, João?

João – Eu não entendo. Fiz de tudo, de tudo.

Mulher – Sim.

João – Estou tão sozinho que outro dia vi um cachorro amarrado num poste porque o dono tinha
entrado na padaria e me deu uma vontade enorme de desamarrar o cão e passear com ele e
depois devolver...

Mulher – Sei.

João - Os copos ficam me olhando, e tem um... ela usou um copo antes de ir embora e ficou
aquela marquinha da boca, parece que aquela marquinha vai pular em cima de mim e me sufocar e...

Mulher – Coloca para fora, João!

João – (Aos berros) Por que Meu Deus! Por quê??? E eu não fiz nada de errado!!!! Não fiz! Sei
que não fiz! Ela foi embora de uma maneira tão definitiva!!! E eu acreditei tanto naquele amor!!!
Acreditei! E agora não consigo voltar para a casa!!! Não consigo! Tô tão sozinho!!!!

Mulher- Respira João... respira...

João – Tá.

Mulher – Conta até 10...

João – 1, 2, 3...

Mulher – Isso, continua respirando... isso... anota o meu telefone...

João – Tá.

Mulher – Olha. Quero que você saiba que pode me ligar a hora que quiser, ok?

João – Posso mesmo?

Mulher – Pode. Eu estou aqui para isso.

João – Obrigada.

Mulher – De nada.

Mulher desliga o telefone e vai dormir tranqüila. 30 minutos depois João se joga da janela do Disque Vida.

FESTA NA PISCINA de Jô Bilac

(da peça "Festa na Piscina")

Personagens:

Meg: Silenciosa.

Cris: Infantil.

Michel: Passional.

Aline: Arrogante.

(muitas bolas de gás. Um deserto de cadeiras de praia. Meg em uma delas, maiô azul Royal, grandes óculos escuros. Sol. Muito sol. Quente demais. Delírio. Gim. Muito gelo, pouco gim. Caravan no último volume, girando feroz numa vitrola ao lado de Meg, afundada em sua cadeira, em seu inconsciente entorpecido . Rodopia seu dedo despreocupadamente entre os gelos de seu gim. Rouba uma cereja e come sem pressa. Entra Cris, vestido de palhaço, ensangüentado, com uma metralhadora a tira colo.)

(Cris retido diante Meg.)

Cris: (incisivo) Levanta, anda.

(sem resposta)

Cris: (quase num sussurro) Levanta.

(sem resposta)

Cris: (puxando Meg pelo braço) Levanta, anda!

(Cris a coloca de pé, mas ela faz corpo mole e cai)

Cris: Levanta! Levanta! (novo investimento. Inútil.) Ah, mas vai levantar sim! Vai levantar! Fica
de pé! Anda! (manipulando o corpo da jovem) Levanta!Levanta! Vai levantar!!! Anda! Levanta! (cansa. Senta. Respira. Pede.) Levanta, por favor.

(ela fica de pé)

Cris: Obrigado.

(tempo)

Cris: Eu sei que deve estar sendo difícil pra você, mas é assim que deve ser, não vamos muito mais além do que deve ser. Está bem? Mas se assim o é, assim deverá permanecer. (muda o tom) Ai, pode desligar? (vai até a vitrola e desliga) Quer cigarro?

(sem reposta)

Cris: (acende um. Chama) Meg... Ei...ô... Meg. Meg.

(ela se vira)

Cris: Servida? Cigarro. Filtro amarelo. Cancerzinho: quer desenvolver, não? Ok. (fuma, deita-se numa das cadeiras) Vem mais gente? Só pra eu não me surpreender, não sei se tem gelo suficiente. Sabe dizer? Se vem mais gente.

(sem resposta)

Cris: Fala , Meg. Ei, Meg. Poxa, eu to falando contigo. Ta de ovo virado? Problema seu. Está perdendo a chance de desenvolver um diálogo com alguém super interessante. Eu tenho uma conversa bem boa. De verdade. Eu acho. Sei desenvolver qualquer assunto, política, futebol, artes no geral. Gosta de artes. No geral, quero dizer. (ele vai até o bar. Pega uma garrafa de vodka. Bebe no gargalo.) Eita! (sorri) Somos só nos aqui... Podia ser legal. Nem to falando de sexo. To falando de trocar uma idéia, mesmo. Falar da vida. Vamos falar da vida. Fala aí, quero saber mais de você. A gente nem se conheceu direito né? Mas fala. Você gosta de que? Hein... Fala aí. To interessado. Qual foi a ultima pessoa que ficou interessada em te ouvir? Aproveita... (muda o tom) Você gosta disso aqui né? (com o disco na mão) Legal. Eu não curto muito. Mas eu que gosto de você. Acho. Você é muito expressiva.................. Ah! E gostei da festa na piscina. É a primeira que venho, mas gostei. Achei... (procurando escolher a melhor palavra) Diferente. Uma boa solução, nesse calor. Ta muito quente. Misericórdia, ta quente demais. Isso é o... Efeito estufa. A poluição, o desmatamento. Não é isso? Tendencia a ficar cada vez mais quente. Ouvi até, não sei onde exatamente, que vai rolar um degelo, as geleiras, calotas polares _ é isso, calotas? É assim que se fala né?_ Então, vai rolar isso aí. Vai ter enchente, vai morrer gente pra dédeu... Viu? Eu desenvolvo qualquer assunto. (olha ao redor) Sei dançar também. Quer dançar? A gente pode. Vem. (puxa a jovem) Ah! (volta-se p vitrola, coloca o disco, volta pra jovem e dançam enquanto ele cantarola)

(Meg imóvel)

Cris: (dançando) Olha, eu sei que você deve estar chateada comigo... Eu também estaria, se fosse você... Quer dizer... Se você fosse eu... E eu você... Enfim. Não é legal entrar na festa dos outros e metralhar os convidados...Mas acredita em mim: só tinha gente escrota aqui, só vieram comer e beber de graça. Estão te usando... Quer dizer... (sorri) Não mais agora...
(entra Michel, outro palhaço, igualmente ensangüentado, com uma outra metralhadora a tira colo, arrastando um cadáver)

Michel: Me ajuda aqui.

(atravessando o caminho do casal dançando)

Michel: Ei! Cris, me ajuda aqui. Ta pesado pra chuchu.

(sem resposta)

Michel: Cris!

(Michel larga o cadáver. Vai até a vitrola e desliga)

Cris: (ainda nos braços de Meg) Parou por que?

Michel: Qual é a sua, hein, babaca? (vai agredindo) Qual é a sua?!!!

Cris: To dançando aqui, com a moça, calma. Pô, ta machucando, Mic...

Michel: Não é pra dançar não, meu camarada! Não é pra dançar. Ta me entendendo? Não é pra dançar nessa merda! Eu aqui colocando meus bofes pra fora e você dançando?

Cris: Eu sei, calma...

Michel: Eu não quero ficar repetindo as coisas por aqui, ta certo? Se for pra ficar repetindo as coisas por aqui, eu vou me embora, largo essa porcaria na sua mão. Me mando, mesmo. Ta certo?

Cris: Ta certo.

Michel: Larga essa criatura! Me ajuda aqui... (arrastando o cadáver)

Cris: Ta certo. Pra onde você está levando?

Michel: Pra sauna.

Cris: Pra sauna???

Michel: Não cabe mais ninguém na sala, vamos colocar esse na sauna.

Cris: (pra Meg) Já volto.

Michel: Que merda é essa?

Cris: O que?

Michel: O que você falou pra ela.

Cris: Que já voltava.

Michel: Ta dando satisfação pra ela por quê?

Cris: Vai começar...

Michel: (muda o tom, encara Meg) Ta me irritando essa mulher. Vou estourar a cabeça dela.

Cris: Agora? A gente não ia levar esse cara pra sauna?

Michel: Cala a boca, Cris. (vai até Meg, coloca a arma na cabeça dela) Ei. Olha pra lá. (grita na frente de Meg) Olha pra lá!!! Eu disse pra olhar pra lá, chicletinho de onça! Olha!!! (estapeia a cara de Meg. Essa sempre apática.) Olha! Olha!

Cris: Tem que pedir com educação.

Michel: Eu tô fritando na chapa, minha filha: Te dou um tiro no ouvido!

Cris: Eu acho que ela é maluca. Só pode ser.

Michel: Maluca o escarcéu. Odeio gente assim. É da pior espécie.

Cris: Qual espécie?

Michel: Aquela que não tem amor à vida. Tem nada pra perder, aí fica assim, com essa cara de solidão.

Cris: Teoria.

Michel: Vi poucas pessoas assim no mundo. Elas vagam por aí porque já vomitaram a alma. Que nem cavalo, ou quando a gente toma muita cuba libre entende?

Cris: Não.

Michel: Nunca viu um cavalo vomitar, seu bosta?

Cris: Num filme, uma vez.

Michel: Então. Na vida real é bem parecido. O bicho coloca tudo pra fora. Falo de cavalo, porque foi o maior animal que já vi vomitar. Parece que vai botar a alma pra fora. E esse bicho ( Meg ) parece que vomitou a alma em algum banheiro publico da vida. Olha a cara dela. Muito destruída.

Cris: Nunca vi ninguém que já tenha vomitado a própria alma. Você ta inventando tudo...

Michel: E de onde você pensa que vem o termo "Desalmado", sua topeira? Você é burro mesmo, héin Cris! Puta merda! Eu não sei por que ainda perco tempo contigo explicando as coisas!

Cris: Eu não acho que ela tenha uma cara destruída.

Michel: (assombrado) Você tá afim dela...? Ai meu deus, não me diz que tá afim dela...

Cris: Michel...

Michel: Michel é uma pinóia! Não venha colocar panos quentes! Anda! Ta interessado?

Cris: Olha o papelão, pelo amor de deus...

Michel: Olha pra mim, Cris, olha nos meus olhos e diz que não está interessado!

Cris: Não é assim, vai. Pára.

Michel: É como então? Me explica? (tempo) Fala, Cris!

Cris: Tem nada pra falar não, Mic.

Michel: Então da um tiro na cabeça dela, vai.

Cris: Não é assim!

Michel: Uma pitomba! Você não é capaz de dar um tiro nessa escrota?

Cris: Ela não é escrota.

Michel: Ah, não? Ela é escrota sim. Ela é uma porca perfumada e escrota que fica o dia inteiro de molho em sua piscina lendo o segundo caderno, muito interessada na fome das crianças da África! Escrota pra cacete!

Cris: Não é.

Michel: Pára de defender, essa escrota! Tá defendendo por quê? Que isso, cara? Tá maluco?

Cris: Sabe qual é o seu mau, Michel? O seu mau é que você fala demais, fala do que não sabe. Eu faço das tripas coração pra manter uma relação saudável entre nós, mas você parece que faz questão de estragar tudo.

Michel: Então dá um tiro na cabeça dela, vai.

Cris: Agora? Assim...? Do nada...

Michel: É. Agora.

(Cris pega a arma com pesar. Aponta pra Meg. )

Cris: (desiste) Não dá...

Michel: Por quê?

Cris: (muda o tom) Eu não sei te explicar. Mas um tiro nela eu não dou. Dá você, se quiser. Mas eu não.

Michel: (evocativo) Você a ama?

Cris: Não é isso...

Michel: Você a ama...

Cris: Ela é tão... Tão... Não sei dizer... Como se diz quando a pessoa tem uma coisa que invade a gente só de olhar...?

Michel: Magnetizante?

Cris: Isso, ela é tão magnetizante.

Michel: (com os olhos rasos dágua) Eu não estou acreditando nisso...

Cris: Calma, Mic. Tudo isso é tão desnecessário... Vamos estudar esse momento.

Michel: Vá pro inferno, Cris!

Cris: Não fala assim!

Michel: Eu dou um tiro na minha garganta! Aí eu não falo mais nada!!! Quer ver? Eu dou! Eu sou muito homem pra isso!

(Michel pega a arma e aponta pra si, Cris corre pra evitar o atentado)

Cris: Pára com isso! Pára...pára!!! (joga a metralhadora longe)

Michel: (agarrado aos pés de Cris, aos prantos) Não me deixa, pelo amor de Deus! Não me deixa... Eu te imploro, por favor! Eu te peço! Não me deixa, não me deixa... Eu não sei o que vou fazer sem você, cara. Você é tudo o que eu tenho, Cris, por favor... Não me deixa... Tem um bolo na minha garganta que incha e parece até que vai estourar, quando você me diz isso... Não me deixa. Meu amor! Tá inchando! Meu coração... Não me deixa...

Cris: Calma... Calma... (abraça o rapaz) Calma. Eu não vou te deixar.

(toca a campainha)

(Cris e Michel em silencio.)

(Meg, imóvel)

(a campainha volta tocar)

(campainha insistente)

(mais uma vez)

(Cris abre)

(Entra Aline)

Aline: Olá. (retida na porta) Desculpa atrapalhar, é que eu estava na estrada e o meu carro deu problema e não sei exatamente o que foi, enfim... Andei pra ver se achava alguma casa por perto e daí, avistei essa.

Cris: É que estamos dando uma festa.

Aline: Uma festa?

Cris: Uma festa. Particular.

Aline: Mas eu não posso usar o telefone de vocês?

Cris: Não.

Michel: (surgindo ao fundo) Não seja mal educado, Cris. Convide a moça para entrar.

Aline: Obrigada, mas realmente eu só queria poder usar o telefone...

Michel: Estamos dando uma festa e você é nossa convidada! Faço questão.

Aline: (sorri) Que gentil! Fico lisonjeada, mas não quero abusar...

Michel: Gim Tônica?

Aline: Muito gelo, pouco gim. Por favor.

Michel: Essa é a Meg. Da “oi” pra nossa amiga...

Aline: Aline!

Michel: Aline! Dá um "Oi" pra Aline, Meg... (enquanto prepara o drinque) Liga não, ela está muito abalada. Hoje foi um dia muito agitado... Aniversário do... Como é mesmo o nome, Cris?

Cris: (ao fundo, sério) Rodriguinho.

Michel: Obrigada, meu bem. Então hoje foi o aniversário do Rodriguinho.

Aline: Quantos anos?

Michel: Quantos anos, Cris?

Cris: Quatro.

Michel: Quatro anos. Uma graça. Quer mais bebida?

Aline: Não, obrigado.

Michel: Eu quero. Cris, pode pegar mais pra mim? Por favor.

(Cris sai)

Michel: Onde estávamos?

Aline: Nas crianças!

Michel: Ah, sim, eu e Cris adoramos crianças. Por isso somos animadores de festa.

Aline: Ah! Vocês são animadores de festa?

Michel: Sim. Animamos muitas festas.

Aline: Que tipo de festa?

Michel: Todas, de qualquer natureza. Nos contratam e nós animamos. Tornamos sua festa inesquecível.

Aline: Mas onde estão todos?

Michel: Por aí. Alguns já foram embora, já não estão no meio de nós.

Aline: Mas eu reparei tantos carros parados.

Michel: A maioria é muito desapegada a coisas materiais. Mas fique tranqüila... A festa está apenas começando...


Aline: Adoro festas!

(sorrisos)

(muito gelo. Pouco gim)

(A festa continua, com pipoca doce muito sangue)


PÉ DE TANGERINA de Felipe Barenco

O homem está dentro de uma casinha muito humilde e caindo aos pedaços. Tapando a visão do público, um enorme outdoor. O público vê apenas partes do corpo do ator: ora suas mãos, ora seus pés... O homem tem todos os seus movimentos contidos, está preso num cubículo apertado e o clima a passar é uma certa "impossibilidade de ação".

Homem (Aos berros) - Essa casinha é minha! Daqui eu num saio, daqui ninguém me tira! (Carregado de simplicidade, sorridente e nostálgico) Eu tenho orgulho demais da minha casinha, demais da conta, acho que eu faço tudo pela minha casinha. É simples, é não é?, mas é minha! (Sons de serra elétrica, trator, buzina, britadeira. Estes sons aumentam progressivamente, por vezes engolindo a voz do homem e impedindo o público de ouvir o que ele está falando. O senhor compete com a violência sonora durante toda a cena) Eu herdei essa casinha do meu pai, foi uma alegria tão grande, tão grande, que batia no céu, que Deus o tenha. É a casinha da minha infância. Ali, bem ali ó, tá vendo?, tinha um pé de tangerina desse tamanho, que eles cortaram porque faz sombra no quintal. Eu era miúdo, miúdo, eu lembro do pai catando madeira pra fazer a casa e já tinha esse pé de tangerina. O pessoal da rua ajudô... O pai berrava “Minino, traz os prego!” e vinha lá eu... descalso com a caixinha de prego na mão, a unha toda suja, sem camisa... uma porqueira do diabo! - Cuidado pra não pisar nos prego, peste! A gente era feliz. Felicidade é coisa que você vê nos olho da pessoa.

“Vou cantar, Vou cantar
Vou cantar para não chorar...”


O pai batendo o martelo, eu dando os prego. Filho de parafuso, parafusinho é! Do jeito que a felicidade tá no olho, a felicidade vai embora quando ocê pisca. Não gosto nem de me alembrar, teve um dia, que apareceu um doutô cheio de papel aqui em casa e foi conversá com meu pai. - Vai pro quarto, peste! E lá fui, descalso, com a caixinha de prego na mão, a unha toda suja... Parecia de sê milagre: o doutô trazia os papel, a comida sumia do armário. Tinha muito papel e pouca comida. Nessa época nós passô a comer tangerina demais, demais-demais... E ademais, Deus me perdoe, que eu não tô reclamando, pelo amor de Deus, mas eu já tinha até me enjoado. Eu cresci vendo o pai assiná papel, e olha, o moço vê, o pai não sabia nem inscrevê! Inté o dia que nem tangerina tinha direito, tava fora da época... e o doutô passô aqui, o pai mandou eu e mãe entrar pro quarto... - Vão pro quarto, seus peste! Lá ia eu, descalso, com a caixinha de prego, a unha toda suja segurando a mão da mãe catinguenta de tangerina, ouvindo o radinho de pilha na Ave Maria e eu vi, aqui dessa janela, Deus me castigue se eu me estivé mentindo, o pai dar um supapo no doutô. O doutô foi embora vermelho, vermelho... parecia um pimentão de feira. E desse dia tudo piorô... Eu, menino miúdo, era menino crescido, e entendi os negócio; o que tanto era que o pai assinava... ele divia tanto pro doutô, mas tanto, tanto, que até a casa queriam tirar da gente. Pai e mãe morreram, mas não foi de desgosto não, porque eles lutaram e não levaram a casinha da gente. (Aos berros) A casinha é nossa, foi o pai que construiu, eu me alembro, eu me alembro! Eu sou humilde, tenho vergonha de dizer não, mas eu hoje resolvi os negócio e tenho aqui ó, pode vê, o papel que diz que a casinha é minha. Bastou eu autorizá, a minha ordi, eles cortarem o pé de tangerina e colocarem aquela placona no muro... é difícil sair de casa, o quintal é pequeno demais e a placona, como eles chamam... - Olha que maravilha! Agora o senhor tem um outdoor no seu quintal! (Um longo silêncio. Sussurra baixinho, tentando soletrar a palavra) Hortidor... O hortidor ficô bem em frente à porta, mas... não tem problema não. Eles disseram que vão ajeitá. A comida também não tem muita também, não... mas só o prazer que eu tenho de abrir a janela do meu quarto todo dia, da minha casinha, nada paga nessa vida. Eu até gostaria de tomá um pouco de sol, por causa de quê aqui é escuro demais da conta, mas não tô reclamando, não! Deus me perdoe. Pode olhar nos meus olhos e dizer se eu não sou feliz. Eu sou feliz. Sou capaz de ficá o dia inteirinho aqui, na janela, olhando essa placona... placona de suco de tangerina em caixinha.

HEROÍNA SOLITÁRIA de Camilo Pellegrini

Se quiser trilha sonora, abra o link abaixo em outra janela:
http://songza.com/z/6b6zv8

ELIZABETH, solitária em sua cápsula espacial, luta desajeitada contra um gravador.

ELIZABETH - Como é que funciona essa porcaria?... Nessas horas é que um homem faz tanta falta...

ELA consegue apertar o botão para gravar.

ELIZABETH - Um, dois, três, testando... Alô... Alô...

ELA aperta outro botão e ouve sua voz em OFF

ELIZABETH (OFF) - Um, dois, três, testando... Alô... Alô...

ELIZABETH - Graças a Deus! Vamos lá.

ELA aperta de novo o botão de gravar.

ELIZABETH – (INFORMATIVA) Aqui quem fala é Elizabeth, são quatro e trinta da manhã, horário de Brasília, do dia nove de junho de 3008, se você estiver ouvindo isso provavelmente já estarei morta. Na verdade sei que orelhas terráqueas não podem mais me escutar, (SONHADORA) sabe lá como reagirão outras formas de vida ao ouvirem os ruídos incompreensíveis desse meu desabafo. Mesmo assim, prossigo. (SECA) Como descrever a solidão devastadora que sinto, anulada, perdida nessa cápsula de sobrevivência? (SAUDOSA) Tudo começou com um acampamento aparentemente inofensivo. Cabanas à beira de um belíssimo lago. Fomos eu e minhas queridas amigas, a Tina, a Âmber, e também o Charles, um carinha que eu estava paquerando. (DESILUDIDA) Qual não foi minha surpresa ao encontrar Âmber no banheiro do acampamento com um machado cravado na testa. Tina tomou uma flechada nas costas e seu corpo foi atirado pela janela cabana adentro a fim de me aterrorizar. Charles estava fincado do lado de fora da porta, seus belos olhos azuis não estavam mais lá. (TENSA) Logo me vi sem ninguém, meu primeiro grande momento de solidão, sendo atacada brutalmente por um assassino mascarado que se recusava a morrer. (AFLITA) Facas voavam em minha direção, espetos, peixeiras, arpões, lâminas mil. (MAIS CALMA) Que triste a ilusão da vitória quando consegui cortar a cabeça do implacável matador com uma serra elétrica. Voltei depressa ao Rio de Janeiro, desamparada, meus melhores amigos tinham ficado pra trás. Me deparei com minha querida cidade infestada por pernilongos mutantes, gigantescos aedes-aegipty, tão temidos no milênio passado ainda pequeninos, agora do tamanho de mamutes graças ao eterno descaso das autoridades. Papai morreu empalado no ferrão de uma dessas odiosas criaturas. Minha irmã sofreu apenas um arranhão, mas depois de cinco minutos faleceu tomada por uma dengue alucinante. Mamãe se afogou no naufrágio da balsa tentando escapar pra Niterói. Decidi fugir pra São Paulo, dizem que também votam mal por lá, mas parecia não ter tanto mosquito. Tinham acabado de lançar no mercado um estranho hidratante prometendo eliminar qualquer ruguinha. Só que as madames já saiam do shopping onde haviam experimentado o tal cosmético transformadas em zumbis. Na condição de morto-vivas, só podiam se alimentar de cachorro-quente ou cérebro humano. Em poucas horas acabou o estoque de salsichas e as macabras caíram sedentas nos miolos da escassa população que não fora contaminada. Roubei um lança-chamas numa loja de artigos de segunda mão e taquei fogo nas paulistas, defendendo minha vida daquelas dentadas o quanto pude. Na última das barricadas, conheci Plínio. (SAUDOSA) Um homem de encher os olhos. Quarenta anos ou mais, um pouco grisalho, braços fortes. Salvou minha vida três vezes. Ele me jogou pra dentro de sua picape vermelha e tocamos pra Brasília enquanto nosso companheiros eram dizimados. (TORCE O NARIZ) Brasília já não era mais aquela ensolarada capital. Uma nuvem negra se instalou pela cidade toda, lá nunca mais foi dia. As ruas rapidamente se povoaram de vampiros. (TRISTE) Um deles me levou Plínio. O outro me fudeu a picape. Rasgou os pneus com suas unhas postiças. Um terceiro me arrancou as roupas enquanto tentava me morder. Lá estava eu correndo nua pela Praça dos Três Poderes sendo caçada por vampiros de terno. (REVELA) Corri pra lá porque sabia que o prato encima do Congresso Nacional não era só uma piração do Niemeyer. (VITORIOSA) Aquela calota monumental era uma nave espacial secreta, Plínio havia me contado! Foi pra lá que eu fui, na ânsia de salvar minha pele! (CONFIANTE) Era fato, o planeta Terra estava com os dias contados. Consegui embarcar, outros seis tripulantes me esperavam ali, escondidos dos sanguessugas, mas nenhum deles sabia pilotar a nave. Plínio havia me dado um manual de instruções sujo de sangue. (ETÉREA) Decolamos dali e minutos depois vimos nossa querida Terra se esfacelar num jato de luz. (SEGREDA) Olhei para o mais jeitosinho da tripulação e fui logo dar em cima. Éramos nós sete os últimos seres humanos e eu não pretendia ficar pra titia. O nome dele era Mauricio. Até que não era de se jogar fora, um sorriso bonito, sabe? (EXAUSTA) Mas ele encontrou um grande ovo gosmento na fuselagem da nave, de lá saíram tentáculos que se colaram em seu rosto. (SINISTRA) Conseguimos desgrudar aquela nojeira da cara dele mas já não era mais o mesmo Maurício de antes. Horas depois uma lagartixa cabeçuda surgiu de seu tórax espatifando suas costelas. (IMERSA EM SUA DOR) Enquanto o monstrinho fugia de nós pude ver o coração de Maurício parando de bater por mim. Pra nosso assombro, o bichinho esquisito cresceu e foi matando os outros tripulantes um a um. Quando fiquei sozinha com o aliem abri a porta da nave. O vácuo fez o serviço, arrancou dali pra fora os corpos de Maurício e dos outros, os ímãs da geladeira e o monstro assassino também, e com isso tudo também minhas esperanças foram ejetadas pro espaço sideral. (APOCALÍPTICA) Agora estamos sós, eu e meus óvulos. A última mulher, cruzando o espaço sem rumo, fugida da Terra extinta. (PAUSA) É isso. (PAUSA) Eu só queria deixar aqui registrado. (PAUSA) Então tá. (PAUSA) Como é que se desliga isso?

ELIZABETH aperta um botão.

ELIZABETH – E agora pra ouvir? Como era mesmo?

ELIZABETH tenta alguns botões sem sucesso.

ELIZABETH – Por que não vai, meu Deus? O que aconteceu? Puta merda, será que não gravou? Nessas horas é que um homem faz falta.

FIM...

 

 

 

 

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