SECRETÁRIA MALDITA de Renata Mizrahi
É a primeira sessão de Rebeca, uma atriz.
Regina: Então me diga, como você se tornou uma atriz?
Rebeca: Bom, sem querer. Sem querer. Eu fui trabalhando e quando eu já era uma atriz. Eu sempre fui tão insegura... Vai ver por isso eu tenha me tornado uma atriz, sabe? Pra provar o quanto posso ser eu mesma, sem culpa. Sem nenhuma culpa.
Regina: Então é por isso que está aqui?
Rebeca: Por isso o quê?
Regina: Para se libertar da culpa?
Rebeca: ( com aparente alegria) Sim! Não. Sim. Não
Rebeca: Sim ou não?
Regina: Ah! Não sei. Na verdade é isso o que vim descobrir ou resolver, o que for! Bom, na verdade eu gostaria de ser menos insegura e...
Regina: Acreditar mais no seu trabalho de atriz.
Rebeca: Nossa! Como você é boa !
Regina: É eu sei, esse é o meu trabalho. Por quê você não me dá um exemplo?
Rebeca: Um exemplo de quê?
Regina: Da sua insegurança! Me conta alguma coisa, um causo, quem sabe eu não posso te ajudar.
Rebeca: Você vai me ajudar?!
Regina: Talvez...
Rebeca: Você me dá força!
Regina: Você não precisa me agradar.
Rebeca: Mas eu me sinto culpada se eu não te agradar!
Regina: E foi isso que te fez ser uma atriz?
Pausa
Rebeca: Você me lembra...
Regina: Isso! Lembre!
Rebeca: ...uma mulher... Uma mulher que eu odiei.
Regina: Por quê?
Rebeca: Porque me fez me sentir um nada.
Regina: Isso é muito comum hoje em dia.
Rebeca: Acho que ela não gostou de mim. Eu tentei ser simpática. Quis agradar, mas...
Regina: Você não precisa agradar.
Rebeca: ...Não adiantou... Ela era fria, não me deixou entrar...
Encenação do acontecimento. A atriz que faz Regina passa a ser a secretária
Rebeca: Olá.
Secretária: Pois não?
Rebeca: Gostaria de falar com o Pedro, o diretor.
Secretária: Sobre o quê?
Rebeca: Sobre a minha liberação para fazer a peça.
Secretária: Ele não está não.
Rebeca: É? Mas ele disse que ia me atender nesse horário.
Secretária: É?
Rebeca: Sim. Ele sabe que eu vinha. É que eu tô precisando com urgência, eu consegui uma pauta...
Secretária: Você está com a sua identidade?
Rebeca: Sim. Aqui.
Secretária: CPF?
Rebeca: Sim, aqui. Está quente hoje, né?
Secretária: Comprovante de residência?
Rebeca: Sim, aqui. A gente sua assim que sai do banho, reparou?
Secretária: Carteira de trabalho?
Rebeca: Sim, aqui. Aqui é bom que é fresquinho. Deve sentir até frio, não é?
Secretária: Pessoa jurídica?
Rebeca: Como?
Secretária: Você tem comprovante de pessoa jurídica?
Rebeca: Pode ser física?
Secretária: Não. (Ela começa ri desesperadamente)
Rebeca: Mas eu não tenho.
Secretária: Então me desculpe eu não posso te liberar.( ri ainda mais)
Rebeca: Mas o Pedro...
Secretrária: O Pedro vai dizer a mesma coisa, são as normas.( rindo)
Rebeca: Então o que eu faço?
Pausa
Secretária: Abra uma firma. ( ri descontroladamente)
Rebeca: Abrir uma firma? Mas é muito caro, acho que não é necessário...
Secretária( para de rir): Então tem que pagar uma taxa.
Rebeca: Uma taxa? De quanto?
Secretária: Mil reais pela liberação, mais dois mil reais pelo trabalho que isso dará para nós. Três mil e quinhentos reais.
Rebeca: Tudo isso? Até quando?
Secretária: Quando que você precisa fazer a peça?
Rebeca: Ah! A peça é ótima, é um texto de criação coletiva sobre as questões humanas...
Secretária: Quando?
Rebeca: Daqui há 2 semanas.
Secretária: Então você tem que me trazer o dinheiro amanhã.
Rebeca: Amanhã? Mas eu não tenho.
Secretária: Se você quer fazer a peça daqui duas semanas, tem que trazer amanhã. A gente vai dar entrada burocrática, conferir os documentos e isso demora mais que uma semana, podendo nem estar pronto em duas semanas. É melhor você estrear a peça outro dia. Se não der tempo não vai poder fazer.
Rebeca: Mas... Olha, eu ganhei uma pauta, sabe? E é tão difícil ganhar uma pauta. Não sou eu que escolho essas coisas. Eu tenho que fazer de todo jeito. O engraçado é que falei com o Pedro e ele disse que não havia problema em liberar...
Secretária: É melhor trazer o dinheiro amanhã que eu vou vendo o que eu posso adiantar.
Rebeca: Mas...
Secretária: Com licença ,eu preciso almoçar. Até amanhã.
Rebeca: E se eu não conseguir esse dinheiro...
Fim da encenação
Rebeca: Ela já tinha ido embora. Eu fiquei com uma raiva! Que mulher infeliz!
Regina: Ela é realmente infeliz
Rebeca: Depois eu fiquei pensando...
Regina: O quê?
Rebeca: E se a culpa foi minha?
Regina: Como?
Rebeca: Se a culpa foi minha por ela não ter me liberado, sabe? Pela minha insegurança. O que eu
quero dizer, é que se talvez eu chegasse mais decidida, mais segura talvez... Talvez, ela deixasse eu entrar.
Regina: E se ela estivesse falando a verdade, se o Pedro não pudesse ajudar de fato?
Rebeca: Ele podia, eu sei.
Regina: Você não me pareceu insegura.
Rebeca: Ah!.
Regina: Falo sério. Você estava decidida a entrar sim. Mas essa mulher...
Rebeca: Eu a odeio, mas me odeio mais por não ter xingado, brigado, jogado todos aquele papéis no chão e pisado...
Regina: Não ia adiantar nada.
Rebeca: Não me importava mais com isso e sim em humilhar aquele ser.
Regina: Rebeca, é bom ser atriz?
Rebeca: É. Não. É. Não. É. Não. É...É melhor eu ir embora
Regina: Ir embora agora que o processo regenerativo estava começando a funcionar?
Rebeca: (eufórica) Sério? Você vai me curar?
Regina: E o fim da história, como foi?
Rebeca: O fim... Não sei. Eu não voltei mais lá.
Regina: Você não conseguiu o dinheiro?
Rebeca: Claro que não! Eu disse, ela queria 3.500 reais para o dia seguinte e eu não tenho esse dinheiro. E o pior, eu acabei perdendo a pauta...
Regina: VOCÊ NÃO TEM ESSE DINHEIRO?
Rebeca: Ué! Não. É por isso que estou aqui! Para você me curar dessa insegurança e eu não ter que passar mais por isso...
Regina: QUANTO VOCÊ TEM DE DINHEIRO?
Rebeca: Eu já te contei que EU, pela primeira vez, ia ser a protagonista?
Regina: QUANTO VOCÊ TEM DE DINHEIRO?
Regina: Como assim? Não entendi. Você não entendeu. Eu não tenho dinheiro. pausa Você está falando como aquela mulher!
Regina: Me desculpa, mas eu não poderei mais te atender.
Rebeca: Como assim? E a minha cura? Você mesmo disse que eu estava num processo regenerativo...
Regina: Pelo que estou percebendo o seu causo é um problema crônico de insegurança artística. Isso quer dizer que vai demorar quase uma vida para ser absolvido. Isso quer dizer que fora da consulta terei que ficar refletindo sobre o seu causo nas horas vagas o que me acarretará um trabalho dobrado. Isso quer dizer que pelo trabalho dobrado que custa 1000 reais, mais as horas de consultas que custam 1000, vai dar num total de 3.5000 reais. Mas você não tem esse dinheiro. Isso que dizer que eu não vou poder mais te atender.
Rebeca: Peraí! Você é uma psicóloga voluntária estagiária da PUC. Você tem obrigação de me curar de graça!
Regina: Traz o dinheiro que eu vou vendo o que eu posso te curar.
Rebeca: Mas...
Regina: É melhor você se retirar.
Silêncio. Rebeca fica oolhando pra Regina e subitamente começa a gritar
Rebeca: ( Gritando) Já sei! Você é aquela mulher!!!
Regina: Que mulher?
Rebeca: A secretária maldita!
Regina: Vamos tentar não levantar o tom de voz! Não me confunda com esse...
Rebeca: Cala a tua boca vigarista! Agora você vai me curar de qualquer jeito.
Regina: Então acho que eu terei que me retirar até você se acalmar...
Regina vai saindo. Rebeca saca uma arma.
Rebeca: Parada sua miserável! Ta vendo essa arma? Eu trouxe pra consulta para te mostrar que eu tava pensando em me matar. Eu ia até te dar essa arma como prova de que queria ser curada. Mas agora mudei de idéia.
Regina: Calma...
Rebeca: Não me diz pra ficar calma .Ou você não sabe que isso psicologicamente causa o efeito o contrário, sua psicologazinha de merda? Agora você vai me ajudar de qualquer jeito! Vamos lá. Vamos reviver a situação! Você vai fazer a secretária!
Regina: Por favor...
Rebeca: Antes que eu atire por reflexo!
Regina: Tudo bem...Vamos lá....
Encenação: Rebeca faz a cena toda com a arma apontada para Regina
Rebeca: Olá.
Regina: Pois não.
Rebeca: Eu gostaria de falar com o Pedro, o diretor.
Regina: Sobre o quê?
Rebeca: Sobre a minha liberação para fazer a peça!
Regina: Ele não está, não.
Rebeca: Não está?
Regina: Não.
Rebeca: Mas ele disse que me atenderia nesse horário!
Regina: É?
Rebeca: Sim, ele sabia que eu vinha. É que eu preciso falar com ele com urgência. Eu ganhei uma pauta!
Regina: Ta com identidade?
Rebeca: Sim aqui.
Regina: CPF?
Rebeca: Sim aqui. Quente hoje, né?
Regina: Comprovante de residência?
Rebeca: Sim aqui. A gente sua assim que sai do banho, reparou?
Regina: Carteira de trabalho?
Rebeca: Sim aqui. Aqui é bom que é fresquinho.
Regina:Pessoa jurídica?
Rebeca: Como?
Regina: Você tem comprovante de pessoa jurídica?
Rebeca: Pode ser física?
Regina olha a arma
Regina: Claro que pode!
Rebeca: A que bom! Assim eu fico muito feliz.
Regina: Ah! Então ta!
Pausa
Rebeca: VOCÊ NÃO VAI ME PERGUNTAR SOBRE O QUE É A PEÇA?
Regina: Claro! Sobre o que é a peça?
Rebeca: A peça é um texto de criação coletiva sobre as questões humanas. Sabe, a gente quis falar um pouco sobre as angústias do homem moderno, através de um processo colaborativo de criação. Sim, porque somos uma companhia jovem que se preocupa com esse homem que vive na sociedade atual.
Regina: Que interessante e original!
Rebeca: Nós sabemos.
Regina: E pra quando é a peça?
Rebeca: Pra daqui há duas semanas!
Regina: Ah! Que ótimo muito bom. Pode ficar tranqüila que daqui há duas semanas você vai estar estreando essa peça!
Rebeca: Ah! Muito obrigada! (Rebeca abraça Regina). Eu sabia que podia contar com você obrigada.
Regina: Bom agora é melhor você se retirar, senão vai perder tempo do ensaio, não é? Pro-ta-go-nis-ta!
Rebeca: Ah! Claro! Que incentivo legal, vocês dão!! (Começa a ficar totalmente perturbada Engatilha a arma) Mas antes preciso fazer uma coisinha.
Regina: Ei, peraí. Era uma encenação. Eu sou a psicóloga e estava te ajudando na recuperação de sua insegurança.
Rebeca: Não mente mais pra mim! A melhor maneira de acabar com insegurança é eliminar pessoas como você, sua se-cre-tá-ria mal-di-ta.
Regina: Mas eu não sou a tal secretária...
Rebeca: Que impede as pessoas de entrar em cena quando ganham uma pauta!
Regina: Mas eu te dei a pauta, eu...SOCORRO!
Rebeca: Tarde demais querida, pensa que eu não sei que era só uma farsa? Naquela hora que eu realmente precisei de você, você só se importou com dinheiro. 3500reais! Vamops passar um sabonete aqui e limpar toda essa sujeira! Há! (risos histéricos)
Regina: Mas eu não sou...
Rebeca: Não adianta dizer a mesma coisa, não vai adiantar.
Regina: Então o que eu faço?
Rebeca: Abra uma firma. ( Ri)
Regina: Não entendi.
Rebeca: Não entendeu, então vai ter que pagar uma taxa.
Regina: Uma taxa? Eu pago. Eu pago! Quanto? Quanto? Eu pago...
Rebeca: Hum.... pelo trabalho que tudo isso dará para mim hum.... 5 TRILHÕES de.... EUROS.
Regina: Que é isso? Eu não tenho esse dinheiro!
Regina: Então, sinto muito mas, eu terei que te matar!
Rebeca: Peraí... Vamos conversar. Eu te curo de graça....é sério...
Rebeca: Vou ter que dizer a mesma coisa?( Pausa) São as normas... (Gargalha)
Regina: (Numa louca súplica) Por favor!. Vamos conversar mais!
Rebeca:Vou poupar essa parte de você! Sabe como é...Mania de querer agradar.
Regina: Nãooooooo!
Rebeca atira em Regina. Esta cai no chão.
Rebeca dá uma gargalhada louca, como se fosse a secretária.
Cai o pano
