SECRETÁRIA MALDITA de Renata Mizrahi

Um consultório de uma psicóloga, Regina.
É a primeira sessão de Rebeca, uma atriz.

Regina: Então me diga, como você se tornou uma atriz?

Rebeca: Bom, sem querer. Sem querer. Eu fui trabalhando e quando eu já era uma atriz. Eu sempre fui tão insegura... Vai ver por isso eu tenha me tornado uma atriz, sabe? Pra provar o quanto posso ser eu mesma, sem culpa. Sem nenhuma culpa.

Regina: Então é por isso que está aqui?

Rebeca: Por isso o quê?

Regina: Para se libertar da culpa?

Rebeca: ( com aparente alegria) Sim! Não. Sim. Não

Rebeca: Sim ou não?

Regina: Ah! Não sei. Na verdade é isso o que vim descobrir ou resolver, o que for! Bom, na verdade eu gostaria de ser menos insegura e...

Regina: Acreditar mais no seu trabalho de atriz.

Rebeca: Nossa! Como você é boa !

Regina: É eu sei, esse é o meu trabalho. Por quê você não me dá um exemplo?

Rebeca: Um exemplo de quê?

Regina: Da sua insegurança! Me conta alguma coisa, um causo, quem sabe eu não posso te ajudar.

Rebeca: Você vai me ajudar?!

Regina: Talvez...

Rebeca: Você me dá força!

Regina: Você não precisa me agradar.

Rebeca: Mas eu me sinto culpada se eu não te agradar!

Regina: E foi isso que te fez ser uma atriz?

Pausa

Rebeca: Você me lembra...

Regina: Isso! Lembre!

Rebeca: ...uma mulher... Uma mulher que eu odiei.

Regina: Por quê?

Rebeca: Porque me fez me sentir um nada.

Regina: Isso é muito comum hoje em dia.

Rebeca: Acho que ela não gostou de mim. Eu tentei ser simpática. Quis agradar, mas...

Regina: Você não precisa agradar.

Rebeca: ...Não adiantou... Ela era fria, não me deixou entrar...

Encenação do acontecimento. A atriz que faz Regina passa a ser a secretária

Rebeca: Olá.

Secretária: Pois não?

Rebeca: Gostaria de falar com o Pedro, o diretor.

Secretária: Sobre o quê?

Rebeca: Sobre a minha liberação para fazer a peça.

Secretária: Ele não está não.

Rebeca: É? Mas ele disse que ia me atender nesse horário.

Secretária: É?

Rebeca: Sim. Ele sabe que eu vinha. É que eu tô precisando com urgência, eu consegui uma pauta...

Secretária: Você está com a sua identidade?

Rebeca: Sim. Aqui.

Secretária: CPF?

Rebeca: Sim, aqui. Está quente hoje, né?

Secretária: Comprovante de residência?

Rebeca: Sim, aqui. A gente sua assim que sai do banho, reparou?

Secretária: Carteira de trabalho?

Rebeca: Sim, aqui. Aqui é bom que é fresquinho. Deve sentir até frio, não é?

Secretária: Pessoa jurídica?

Rebeca: Como?

Secretária: Você tem comprovante de pessoa jurídica?

Rebeca: Pode ser física?

Secretária: Não. (Ela começa ri desesperadamente)

Rebeca: Mas eu não tenho.

Secretária: Então me desculpe eu não posso te liberar.( ri ainda mais)

Rebeca: Mas o Pedro...

Secretrária: O Pedro vai dizer a mesma coisa, são as normas.( rindo)

Rebeca: Então o que eu faço?

Pausa

Secretária: Abra uma firma. ( ri descontroladamente)

Rebeca: Abrir uma firma? Mas é muito caro, acho que não é necessário...

Secretária( para de rir): Então tem que pagar uma taxa.

Rebeca: Uma taxa? De quanto?

Secretária: Mil reais pela liberação, mais dois mil reais pelo trabalho que isso dará para nós. Três mil e quinhentos reais.

Rebeca: Tudo isso? Até quando?

Secretária: Quando que você precisa fazer a peça?

Rebeca: Ah! A peça é ótima, é um texto de criação coletiva sobre as questões humanas...

Secretária: Quando?

Rebeca: Daqui há 2 semanas.

Secretária: Então você tem que me trazer o dinheiro amanhã.

Rebeca: Amanhã? Mas eu não tenho.

Secretária: Se você quer fazer a peça daqui duas semanas, tem que trazer amanhã. A gente vai dar entrada burocrática, conferir os documentos e isso demora mais que uma semana, podendo nem estar pronto em duas semanas. É melhor você estrear a peça outro dia. Se não der tempo não vai poder fazer.

Rebeca: Mas... Olha, eu ganhei uma pauta, sabe? E é tão difícil ganhar uma pauta. Não sou eu que escolho essas coisas. Eu tenho que fazer de todo jeito. O engraçado é que falei com o Pedro e ele disse que não havia problema em liberar...

Secretária: É melhor trazer o dinheiro amanhã que eu vou vendo o que eu posso adiantar.

Rebeca: Mas...

Secretária: Com licença ,eu preciso almoçar. Até amanhã.

Rebeca: E se eu não conseguir esse dinheiro...

Fim da encenação

Rebeca: Ela já tinha ido embora. Eu fiquei com uma raiva! Que mulher infeliz!

Regina: Ela é realmente infeliz

Rebeca: Depois eu fiquei pensando...

Regina: O quê?

Rebeca: E se a culpa foi minha?

Regina: Como?

Rebeca: Se a culpa foi minha por ela não ter me liberado, sabe? Pela minha insegurança. O que eu
quero dizer, é que se talvez eu chegasse mais decidida, mais segura talvez... Talvez, ela deixasse eu entrar.

Regina: E se ela estivesse falando a verdade, se o Pedro não pudesse ajudar de fato?

Rebeca: Ele podia, eu sei.

Regina: Você não me pareceu insegura.

Rebeca: Ah!.

Regina: Falo sério. Você estava decidida a entrar sim. Mas essa mulher...

Rebeca: Eu a odeio, mas me odeio mais por não ter xingado, brigado, jogado todos aquele papéis no chão e pisado...

Regina: Não ia adiantar nada.

Rebeca: Não me importava mais com isso e sim em humilhar aquele ser.

Regina: Rebeca, é bom ser atriz?

Rebeca: É. Não. É. Não. É. Não. É...É melhor eu ir embora

Regina: Ir embora agora que o processo regenerativo estava começando a funcionar?

Rebeca: (eufórica) Sério? Você vai me curar?

Regina: E o fim da história, como foi?

Rebeca: O fim... Não sei. Eu não voltei mais lá.

Regina: Você não conseguiu o dinheiro?

Rebeca: Claro que não! Eu disse, ela queria 3.500 reais para o dia seguinte e eu não tenho esse dinheiro. E o pior, eu acabei perdendo a pauta...

Regina: VOCÊ NÃO TEM ESSE DINHEIRO?

Rebeca: Ué! Não. É por isso que estou aqui! Para você me curar dessa insegurança e eu não ter que passar mais por isso...

Regina: QUANTO VOCÊ TEM DE DINHEIRO?

Rebeca: Eu já te contei que EU, pela primeira vez, ia ser a protagonista?

Regina: QUANTO VOCÊ TEM DE DINHEIRO?

Regina: Como assim? Não entendi. Você não entendeu. Eu não tenho dinheiro. pausa Você está falando como aquela mulher!

Regina: Me desculpa, mas eu não poderei mais te atender.

Rebeca: Como assim? E a minha cura? Você mesmo disse que eu estava num processo regenerativo...

Regina: Pelo que estou percebendo o seu causo é um problema crônico de insegurança artística. Isso quer dizer que vai demorar quase uma vida para ser absolvido. Isso quer dizer que fora da consulta terei que ficar refletindo sobre o seu causo nas horas vagas o que me acarretará um trabalho dobrado. Isso quer dizer que pelo trabalho dobrado que custa 1000 reais, mais as horas de consultas que custam 1000, vai dar num total de 3.5000 reais. Mas você não tem esse dinheiro. Isso que dizer que eu não vou poder mais te atender.

Rebeca: Peraí! Você é uma psicóloga voluntária estagiária da PUC. Você tem obrigação de me curar de graça!

Regina: Traz o dinheiro que eu vou vendo o que eu posso te curar.

Rebeca: Mas...

Regina: É melhor você se retirar.

Silêncio. Rebeca fica oolhando pra Regina e subitamente começa a gritar

Rebeca: ( Gritando) Já sei! Você é aquela mulher!!!

Regina: Que mulher?

Rebeca: A secretária maldita!

Regina: Vamos tentar não levantar o tom de voz! Não me confunda com esse...

Rebeca: Cala a tua boca vigarista! Agora você vai me curar de qualquer jeito.

Regina: Então acho que eu terei que me retirar até você se acalmar...

Regina vai saindo. Rebeca saca uma arma.

Rebeca: Parada sua miserável! Ta vendo essa arma? Eu trouxe pra consulta para te mostrar que eu tava pensando em me matar. Eu ia até te dar essa arma como prova de que queria ser curada. Mas agora mudei de idéia.

Regina: Calma...

Rebeca: Não me diz pra ficar calma .Ou você não sabe que isso psicologicamente causa o efeito o contrário, sua psicologazinha de merda? Agora você vai me ajudar de qualquer jeito! Vamos lá. Vamos reviver a situação! Você vai fazer a secretária!

Regina: Por favor...

Rebeca: Antes que eu atire por reflexo!

Regina: Tudo bem...Vamos lá....

Encenação: Rebeca faz a cena toda com a arma apontada para Regina

Rebeca: Olá.

Regina: Pois não.

Rebeca: Eu gostaria de falar com o Pedro, o diretor.

Regina: Sobre o quê?

Rebeca: Sobre a minha liberação para fazer a peça!

Regina: Ele não está, não.

Rebeca: Não está?

Regina: Não.

Rebeca: Mas ele disse que me atenderia nesse horário!

Regina: É?

Rebeca: Sim, ele sabia que eu vinha. É que eu preciso falar com ele com urgência. Eu ganhei uma pauta!

Regina: Ta com identidade?

Rebeca: Sim aqui.

Regina: CPF?

Rebeca: Sim aqui. Quente hoje, né?

Regina: Comprovante de residência?

Rebeca: Sim aqui. A gente sua assim que sai do banho, reparou?

Regina: Carteira de trabalho?

Rebeca: Sim aqui. Aqui é bom que é fresquinho.

Regina:Pessoa jurídica?

Rebeca: Como?

Regina: Você tem comprovante de pessoa jurídica?

Rebeca: Pode ser física?

Regina olha a arma

Regina: Claro que pode!

Rebeca: A que bom! Assim eu fico muito feliz.

Regina: Ah! Então ta!

Pausa

Rebeca: VOCÊ NÃO VAI ME PERGUNTAR SOBRE O QUE É A PEÇA?

Regina: Claro! Sobre o que é a peça?

Rebeca: A peça é um texto de criação coletiva sobre as questões humanas. Sabe, a gente quis falar um pouco sobre as angústias do homem moderno, através de um processo colaborativo de criação. Sim, porque somos uma companhia jovem que se preocupa com esse homem que vive na sociedade atual.

Regina: Que interessante e original!

Rebeca: Nós sabemos.

Regina: E pra quando é a peça?

Rebeca: Pra daqui há duas semanas!

Regina: Ah! Que ótimo muito bom. Pode ficar tranqüila que daqui há duas semanas você vai estar estreando essa peça!

Rebeca: Ah! Muito obrigada! (Rebeca abraça Regina). Eu sabia que podia contar com você obrigada.

Regina: Bom agora é melhor você se retirar, senão vai perder tempo do ensaio, não é? Pro-ta-go-nis-ta!

Rebeca: Ah! Claro! Que incentivo legal, vocês dão!! (Começa a ficar totalmente perturbada Engatilha a arma) Mas antes preciso fazer uma coisinha.

Regina: Ei, peraí. Era uma encenação. Eu sou a psicóloga e estava te ajudando na recuperação de sua insegurança.

Rebeca: Não mente mais pra mim! A melhor maneira de acabar com insegurança é eliminar pessoas como você, sua se-cre-tá-ria mal-di-ta.

Regina: Mas eu não sou a tal secretária...

Rebeca: Que impede as pessoas de entrar em cena quando ganham uma pauta!

Regina: Mas eu te dei a pauta, eu...SOCORRO!

Rebeca: Tarde demais querida, pensa que eu não sei que era só uma farsa? Naquela hora que eu realmente precisei de você, você só se importou com dinheiro. 3500reais! Vamops passar um sabonete aqui e limpar toda essa sujeira! Há! (risos histéricos)

Regina: Mas eu não sou...

Rebeca: Não adianta dizer a mesma coisa, não vai adiantar.

Regina: Então o que eu faço?

Rebeca: Abra uma firma. ( Ri)

Regina: Não entendi.

Rebeca: Não entendeu, então vai ter que pagar uma taxa.

Regina: Uma taxa? Eu pago. Eu pago! Quanto? Quanto? Eu pago...

Rebeca: Hum.... pelo trabalho que tudo isso dará para mim hum.... 5 TRILHÕES de.... EUROS.

Regina: Que é isso? Eu não tenho esse dinheiro!

Regina: Então, sinto muito mas, eu terei que te matar!

Rebeca: Peraí... Vamos conversar. Eu te curo de graça....é sério...

Rebeca: Vou ter que dizer a mesma coisa?( Pausa) São as normas... (Gargalha)

Regina: (Numa louca súplica) Por favor!. Vamos conversar mais!

Rebeca:Vou poupar essa parte de você! Sabe como é...Mania de querer agradar.

Regina: Nãooooooo!

Rebeca atira em Regina. Esta cai no chão.
Rebeca dá uma gargalhada louca, como se fosse a secretária.
Cai o pano


VOCÊ NÃO VALE UM LUX LUXO! de Larissa Câmara

Noite. A ação acontece no galpão imundo e abandonado à la “Cães de Aluguel” de Quentin Tarantino.

Personagens:

Big Boss: Estilo Don Vito Corleone.

Novato: A inexperiência é o princípio da gafe.

Dois homens gêmeos: Idênticos, falam juntos sempre.

Baleado: Hemorrágico.

Big Boss sentado numa cadeira giratória fumando um cigarro. Novato abre discretamente uma das portas do galpão. Fecha a porta com cautela e fica em silêncio cabisbaixo.

Big Boss: Não vai dizer nada?

Novato: Esqueci a senha.

Big Boss: Não é disso que eu estou falando. Você não me deu oi. Quem chega deve cumprimentar quem está no recinto.

Novato: Oi.

Big Boss: Pensou na oportunidade?

Novato: Quando você me ligou eu estava com a pistola na mão. O toque do celular me assustou e... sem querer eu disparei.

Big Boss: Como é que é?

Novato: Eu atirei na cabeça do cara!

Big Boss: Você enlouqueceu?

Novato: Você me ligou na hora errada.

Big Boss: Eu sou o chefe, o Big Boss, o Businessman. Eu nunca erro. Eu concedi a você a chance de entrar para a nossa irmandade, para a máfia, e você me desaponta logo de cara! Passei uma tarefinha boba, seqüestro relâmpago é brincadeira de criança. E você volta com um homicídio, com um cadáver na mala!

(Entram Dois homens gêmeos segurando um homem Baleado)

Dois homens gêmeos: Oi, Chefe!

Big Boss: O que é isso?

Dois homens gêmeos: Estava tudo correndo bem no assalto ao Banco Central até esse dedo duro resolver disparar o alarme. Aí resolvemos disparar também. (risos)

Big Boss: Esse dedo duro é o Presidente do Banco Central.

Dois homens gêmeos: Xi!

Big Boss: Larguem ele aí.

(Dois homens gêmeos param de segurar homem Baleado que cai no chão gemendo)

Big Boss: Lavem as mãos! Vocês estão fedendo a sangue! Vermes malditos!

Novato: Não precisa ofender!

Dois homens gêmeos: Cadê o sabonete?

Novato: Não tem sabonete?

Big Boss: Você não vale um Lux Luxo!

Dois homens gêmeos: Preferimos Francis.

Novato: Eu uso Phebo.

Baleado: Granado.

Dois homens gêmeos: Pode ser Palmolive.

Novato: Protex.

Baleado: Dove.

Novato e Dois homens gêmeos: (debochados) IIIIIIIIIIIhhhhh!

Big Boss: Calem a boca! A incompetência de vocês é insuportável. Suas vidas são o meu castigo. Eu desprezo tudo o que vem de vocês. Lixo! Cambada de lixo! Eu desejo sinceramente uma morte horrível para todos vocês. Com direito a velório de caixão fechado. Caixão fechado! Vocês podem me fazer um favor? Quem quiser me fazer um favor, meta uma bala na própria cabeça!

Dois homens gêmeos: É isso aí. Vamos botar a roleta russa para rodar!

Baleado: Não!

Novato: Shhhhh!

(As luzes se apagam inesperadamente)

Big Boss: Quem foi que esqueceu de pagar a maldita conta de luz do galpão?

(Barulho de tiro)

FIM


"NÃO VAMOS FALAR SOBRE ISSO AGORA" de Julia Spadaccini

(Trecho da peça homônima)

ELE- Não sei...

ELA - O quê?

ELE- Não sei...

ELA - Não sabe o quê?

ELE- Às vezes fico pensando o por quê.

ELA - O quê?

ELE- Não sei, não.

ELA - Pode falar.

ELE- Por que você gosta de mim?

ELA - Como assim?

ELE- É... Por quê?

ELA - Pergunta cafona.

ELE - Você acha?

ELA - Pergunta outra coisa...

ELE– Cheguei a infeliz conclusão de que você gosta de mim porque eu tomo banho.

ELA- É... realmente eu gosto que você tome banho...

ELE- Não, você só gosta de mim porque eu tomo banho.

ELA - Como assim? Todo mundo toma banho e eu gosto de você.

ELE - Nem todo mundo toma banho.

ELA - Não estou entendendo...

ELE - Se eu não tomasse banho você gostaria de mim?

ELA - Gostaria.

ELE – (Como num surto) Mentira! Mentirosa!!! E se eu ficasse o ano inteiro sem ver a cor da água?

ELA - Água não tem cor.

ELE - Tem sim, tem! Uma cor transparente... míope!

ELA - Um ano sem banho... hum...

ELE - É. Com cheiro de mim. Cheiro que eu exalaria normalmente.

ELA - Eu adoro seu cheiro!

ELE - Você gosta do sabonete! Do cheiro do sabonete! Assim como gosta das minhas roupas e do meu cabelo penteado. Da minha cara lavada e das minhas orelhas limpas. Você gosta de tudo que não sou eu. Uma conjunção de coisas que não são exatamente eu...

ELA - O homem das cavernas não usava sabonete.

ELE- Por isso não se apaixonava, só procriava, só.

ELA - Como é que você sabe?

ELE- Todo mundo sabe! Paixão é um troço basicamente inventado para vender ansiolíticos.

ELA- Eu acho que é natural...

ELE - Você acha natural?

ELA - Acho que é natural. Alguém que você encontra e você se interessa, gosta do papo, do jeito, do olhar...

ELE - Você sabia que as mulheres no período fértil traem mais, e que traem com homens que tem o perfil mais parecido com o Homem de Neanderthal?

ELA - E isso quer dizer o quê?

ELE - Quer dizer que eu não posso confiar em alguém que no cio estabelece um tipo físico para acasalar.

(...)

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“FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA” de Jô Bilac

(Da série "Kid Bauhaus")

Personagens:
Kid: Agora apresentadora de tv.
Muriel: Linda e sorridente.
Equipe de tv.
Convidados da festa.

(festa tipo piano bar. Um garçom servindo canapés. Todos com traje de gala. Kid Bauhaus tentando achar um lugar pra apagar seu cigarro. Avista Muriel.)

Kid: Olá.

Muriel: Olá.

Kid: Posso te entrevistar?

Muriel: Revista?

Kid: Tv aberta.

Muriel: Claro.

Kid: Vai ser rápido, tá? Eu vou fazer umas pergutinhas, você me responde e pronto acabou.

Muriel: Tá.

Kid: Você fuma?

Muriel: Já começou?

Kid: Você está vendo a câmera ligada?

Muriel: Não.

Kid: Então como é que já poderia ter começado?

Muriel: Desculpe.

Kid: Você fuma?

Muriel: O que?

Kid: Cigarro.

Muriel: Não...

Kid: (num suspiro, para si mesma) Ai que saco... Onde é que eu jogo essa merda?

Muriel: A Vanuza diz que quando não sabemos onde enfiar o caroço da azeitona, é melhor engolir. Por que você não faz o mesmo com seu cigarro? (sorri)

Kid: Acho que prefiro enfiar noutro lugar...

Voz: Vai entrar no ar em 5, 4,3,2,1 e...

Kid: (animadíssima ao microfone, pisando no cigarro) Boa noite!!! Aqui é Kid Bauhaus , invadindo mais uma festa da alta sociedade, cheia, muito, muito, muito cheia de gente beeeeeem interessante. Estamos aqui com ela: maravilhosa. Que está dando pinta horrores com seu lindo rabo de peixe cintilante. Quem fez esse seu vestido, meu amor?

Muriel: Esse vestido é da coleção do Daren Chandler, inédita por aqui. E que por acaso eu...

Kid: Que maravilha! Ela arrasa muito! Mas diz aí, o que você anda fazendo?

Muriel: Várias coisas. Eu tenho um projeto de...

Kid: Projetos! Ela é arquiteta! Maravilhosa!

Muriel: Não, na verdade eu sou ex-modelo e semana que vem...

Kid: Semana que vem tá muito longe, meu amor! O imediatismo contemporâneo faz com que o amanhã seja uma possibilidade distante e abstrata!

Muriel: (puxa o foco) Estarei lançando o meu livro amanhã!

Kid: Seu livro é sobre o que exatamente?

Muriel: Ah, não vou contar, senão estraga a surpresa.

Kid: Olha! Ela é muuuuuito misteriosa.

Muriel: Muito!

Kid: Vou fazer um bate bola, tá. (para a câmera) Bate bola _ pra você que não sabe do que se trata_ é um joguinho de perguntas e respostas breves. Um ping pong. Um tete a tete. Vamos lá! (para Muriel) Uma mulher elegante.

Muriel: A primeira dama.

Kid: Um pecado capital.

Muriel: Gula! (sorri débil)

Kid: Um tom de vermelho.

Muriel: Bordô.

Kid: Um sabor.

Muriel: Carambola.

Kid: Uma paisagem.

Muriel: Todas de Monet.

Kid: Você posaria nua?

Muriel: Depende das circunstâncias.

Kid: Você mataria por amor?

Muriel: Idem.

Kid: Você foi convidada pra essa festa?

Muriel: (ri)

Kid: Estou falando sério.

(tempo. Constrangimento de Muriel.)

Muriel: Mas é claro.

Kid: Deixa de ser mentirosinha.

Muriel: Não estou mentindo. Eu fui convidada.

Kid: Ok, não vou discutir. Olhe para a minha câmera e deixe um recado para o aniversariante.

Muriel: (se alinha. Sorri) Eu te desejo tudo de bom, que a sua estrela brilhe cada vez mais! Uma pessoa iluminada como você, merece só o que há de bom nessa vida. Saúde e paz! Sempre! Beijo! (manda beijinho)

Kid: Você é muito amiga do Aurélio.

Muriel: Admiro muito o trabalho dele.

Kid: Pena que hoje não é aniversário dele. Isso é uma colação de grau.

Muriel: (desconcertada) Mas eu achei que fosse o aniversário do Aurélio.

Kid: Falsa! Aurélio foi um nome que acabei de inventar.

Muriel: Deve estar havendo algum engano.

Kid: O engano aqui é você, minha filha! Está sendo desmascarada para todo o país! Chacota nacional! Pagadora de mico com carteira assinada.

Muriel: Eu vou processar vocês!

Kid: Isso, se descontrola mesmo! Faz barraco na festa alheia.

Muriel: Tudo bem, eu não fui convidada, mas e daí? Estou muito bem comportada e abrilhantando essa colação de grau.

Kid: (para a câmera) Senhores telespectadores, vejam até que ponto alguém pode chegar. Ela jura que abrilhanta uma colação de grau, está tão preocupada consigo mesma, incapaz de perceber o outro e nem repara que isso aqui é um casamento. Olha lá a noiva, sua estúpida.

Muriel: (descontrolada) Por que você está fazendo isso comigo?

Kid: Porque pessoas como você, que se alimentam do coquetel de terceiros, pra se promover, merecem a gongada da humilhação. Que entre o gongo! (Kid puxa um gongo e bate nele).

Muriel: Já chega! Isso aqui já está demais. Amanhã, meus advogados entraram em contato com os seus.

Kid: Espere Muriel!

Muriel: Me larga! Sua escrota! Você quer o que , héin? Quer ganhar ibope nesse seu programa canalha, fudendo a vida dos outros? Acha mesmo interessante fazer seus entrevistados de palhaço? Por quê? Deixa de ser ridícula e vai caçar o que fazer!

Kid: Muriel...

Muriel: Eu já disse pra me largar!

Kid: Ninguém está te segurando.

Muriel: Me larga!

Kid: (tentando manter a ordem) Olha o escândalo...

Muriel: Estou cagando! Ouviu? Cagando!!! Estou Envelhecendo dez anos em dez semanas. Comendo essa bosta sem gosto, mastigando, engolindo e achando tudo ótimo. Sorrindo o tempo todo, tentando encontrar uma merda de justificativa que amenize essa falta de perspectiva, tudo pra não acordar num domingo fudido e meter uma bala na cabeça ou se jogar do décimo quinto andar. Tudo pra não pensar que o que eu fiz ou deixei de fazer, não faz a mínima diferença pra ninguém e muito menos pra mim mesma. Tudo pra tentar encontrar uma chance, mesma que pequena, pra continuar mantendo a coluna ereta e o sorriso esticado, e esquecer por um segundo a inexistência e o vazio que se abriu dentro de mim. Existe um esgoto em minha alma. E dentro dele, ratos. Eles me roem todas as noites. Não sei até quando mais posso agüentar.

(tempo)

Kid: Muriel...

Muriel: (Num fiapo de voz) Dá um tempo...

Kid: E se eu te dissesse que tudo isso não passou de uma pegadinha, você acreditaria? (Kid grita animadamente, todos da festa olham sorrindo.) Se eu dissesse que na verdade essa é a festa surpresa do seu aniversário, você acreditaria? Parabéns pra você Muriel!!!!

(toda festa cantando parabéns pra Muriel)

Muriel: (emocionadíssima) Eu... Eu não esperava...

Kid: Olha o bolo com sua mãe!!!!

( a mãe de Muriel com um bolo na mão)

(Muriel chorando, é aplaudida por todos e ela vai abraçar sua mãe)

(muita emoção)

Kid: (para as câmeras, tom Discovery, quase num sussurro) O bicho homem realmente me assusta cada vez mais, queridos telespectadores. Acabamos de registrar mais uma manifestação social de um refinamento torpe e maquiavélico. E se eu dissesse pra vocês,daí de casa, que aquela mulher NÃO é a mãe dela e sim uma charlatã que se aproveitou do momento pra também aparecer na tv, vocês acreditariam? E se eu te dissesse que essa festa é uma grande farsa, pois ninguém de fato, sabe o que está fazendo aqui e por isso não se surpreendem com mais nada, você acreditaria? E se eu te dissesse que essas pessoas lançam livros, fazem show, apresentam programas, e ainda se submetem a ficar com roupas de banho pegando sabonetes em banheiras ao lado de modelos seminuas, você acreditaria? Marie Clair: Chique é ser inteligente. Tem coisas que só a Philco faz por você. Imagem não é nada, sede é tudo. Para todas as outras coisas existe: Master Card! Voltamos logo após os proclames do plim plim.

Fim.

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REFÉM DE SI MESMO de Felipe Barenco

Em cena um homem com uma arma apontada pra própria cabeça. Visivelmente abalado.
Homem - Eu me mato! Mas ela não acaba comigo antes, ouviram? Não acaba! Ele é meu refém e como resgaste eu quero sair daqui!

Ato com palavras.

Entra. Reflete. Ela quer acabar comigo, mas eu não vou deixar. 07:15. Acordo. Olho no relógio e são 07:15 mesmo. Viro pro lado. Reflito. Só mais 5 minutinhos.

07:10. Reflete. Ela quer acabar comigo, justo comigo. 07:20. Lavo as mãos. Café da manhã, banho e trocar de roupa. Eu sento, cruzo as pernas, xícaras, leite, café.

Reflete. Ela quer, mas eu não vou deixar.

07:25. Café da manhã, lavar as mãos, tomar banho e trocar de roupa. Eu sento, cruzo os braços, xícaras, leite, café. Não, xícaras, café e leite. Café, leite, levanto, lavo as mãos, banho, toalha, camisa.
08:45. Reflete. O que é que eu fiz pra sair tão atrasado? Era pra estar pronto às oito em ponto. Chave, porta. Lavar as mãos. Porta, chave, umidade.
8:55. Carro.

09:01. Celular. Reflete. Será ela? Não é. Atende. – Onde eu tô? No trânsito. Desculpe-me, isso não acontece mais. Desliga. Reflete. Ela realmente vai acabar comigo. Posto de gasolina, banheiro, pia, água. Lavo as mãos. Carro.

09:23. Cadeira, pasta, chefe, sala do chefe, cadeira do chefe, olhos do chefe, esporro do chefe, saliva do chefe.

09:30. Cadeira. Teclado. MSN. Orkut. Orkut, não. Enter. Enter. Enter. Enter. Escorregando da cadeira. Orkut, não! Ela quer acabar comigo...

09:53. Café. Calma. Calma, molha o rosto e lava as mãos, calma, calma... Respira. Não reflete.
12:00. Almoço. Segunda-feira. Arroz, salada e bife de frango grelhado. Reflete. Quer acabar? Reflete. Bife grelhado não, 2 bifes grelhados. E uma rodela de abacaxi pra ajudar na digestão.
12:21. Garçom! A conta! Conta. R$ 13,00. Garçom! Que conta é essa? Reflete. Eu sempre paguei R$ 11,00.

12:22.31 Levanta. Exaltação.
Isso é o quê, hein? Uma conspiração? Você quer me deixar louco? Quer acabar comigo publicamente, não está satisfeita?
12:22:50 Garçom. Ambiente público. O senhor será convidado a se retirar. Aceita uma sobremesa?
13:00:01 Sobremesa. Segunda-feira. Pavê.
Eu quero Pavê.
Não temos pavê.
Não tem pavê?
Nunca faltou pavê.
Eu quero ir ao banheiro.
Não temos água.
Reflete.
Eu quero um sabonete líquido.

Reflete.
Ela quer acabar comigo mesmo.
Não quero sabonete. Quero uma arma.
Sobe na cadeira.


Eu me mato! Mas ela não acaba comigo antes, ouviram? Não acaba! Ele é meu refém e como resgaste eu quero sair daqui! Eu me mato ouviram? Eu lavo as minhas mãos.

FIM

Reflete.
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IRMÃZINHA QUERIDA (desventuras de Verônica) de Camilo Pellegrini

É noite na sala da casa de Priscila.

VERÔNICA e PRISCILA estão frente a frente, se enfrentando com o olhar.
VERÔNICA, veste a roupa de enfermeira rasgada e suja, segura uma caixa de cd. PRISCILA está bem a sua frente, toda ensaboada enrolada em uma toalha.

PRISCILA- Você precisa de um banho, Verônica. Está fedendo.

VERÔNICA- Eu sei. Posso?

PRISCILA- Não aqui. Fora.

VERÔNICA- Nem todo sabonete do planeta pode lavar a minha alma.

PRISCILA- Problema seu. Fora da minha casa.

VERÔNICA- Priscila, espera.

PRISCILA- Espera coisa nenhuma! Como foi que você entrou?

VERÔNICA- Pela janela da cozinha.

PRISCILA- Mentirosa! Minha vontade é te esganar! Falsa! Chega de mentira! Você é ninja, por acaso? Escalou os quatro andares? Ou pulou do prédio vizinho direto em cima da máquina de lavar?

VERÔNICA- Exatamente. Amassei um pouco a máquina.

PRISCILA- Você não quer que eu acredite que... Estava no banho e ouvi um estrondo.

VERÔNICA- Eu posso fazer coisas, Priscila, tenho dons que escondi esses anos todos de você.

PRISCILA- Que novidade! Mas quem liga? Eu não dou a menor! Que se foda você com seus segredinhos! Com seus truques!

VERÔNICA- Não vai deixar nem eu me explicar?

PRISCILA- Explicar o quê? Me diz? Um ano e meio se dar notícia, safada! Cara de pau! Me aparece como se tivesse ido comprar cigarro!

VERÔNICA- Não foi por querer. Escuta um segundo só.

PRISCILA- Seja breve.

VERÔNICA- Bom, me infiltrei como enfermeira numa clínica clandestina de transplantes. Fui descoberta, fiquei presa, torturada. Acabei de escapar!

PRISCILA- Do que você está falando? Cala a boca e sai! Fora! Não quero nem ouvir essa sua voz!

VERÔNICA- É a mais pura verdade.

PRISCILA- Nem por toda a fortuna do mundo eu te perdôo, Verônica. Some daqui!

VERÔNICA- Tudo que eu tenho é esse cd. Toma. É teu. Te dou de presente.

PRISCILA se estica para ver o cd, mas sem se aproximar demais de VERÔNICA, quer manter distância.

PRISCILA- Marisa Monte?

VERÔNICA- Pode ficar pra você. É tudo o que eu tenho.

PRISCILA- Fica com ele. Não quero nada que venha das tuas mãos imundas.

VERÔNICA- Você não sente nada? Não se compadece nem um pouco de mim? Eu estou numa fria.

PRISCILA- Dá pra ver. Só assim mesmo pra senhorita dar notícia.

VERÔNICA- Sempre cuidei de você, Priscila! Troquei tuas fraldas. Sempre te ajudei. Se eu sumi foi por uma boa causa, mas nunca deixei de pensar na minha irmã. (SE EMOCIONA) Você é a minha irmãzinha querida.

PRISCILA- Ouça bem pra eu não ter que repetir nunca mais. Vê se me esquece, Verônica. Não quero mais olhar na tua cara e nem lhe dirigir a palavra. Essa é a última vez que nos falamos. Sua irmãzinha querida morreu.

PRISCILA parece sentir um solavanco, se surpreende. Olhos arregalados, ELA cai para frente e vemos que uma flecha a acertou nas costas. VERÔNICA se agacha.

VERÔNICA- Canalhas!!! Priscila! Fala comigo!

PRISCILA- Minhas costas. Ai.

VERÔNICA- Não se mexe! Vou tirar você daqui!

PRISCILA morre nos braços de VERÔNICA.

VERÔNICA- Desgraçados! E agora?!

Uma granada cai pela janela para dentro da sala. VERÔNICA dá uma cambalhota se aproximando da granada e a joga de volta para a janela. Vemos o clarão com o som da explosão.

VERÔNICA- Não posso ficar aqui! Adeus! Me desculpa!

VERÔNICA foge dali. CONTINUA...

 

 

 

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