UM CASO EXTRAORDINÁRIO de Rodrigo Nogueira
Paciente: E então, doutor?
Médico: Só mais um minutinho.
Paciente: Ai, que agonia.
Médico: Pronto.
Paciente: E então.
Médico: É o que eu imaginava.
Paciente: O que o senhor imaginava?
Médico: É um caso extraordinário. Eu nunca vi uma coisa igual.
Paciente: Mas o que é, doutor?
Médico: Trata-se de uma unha.
Paciente: Uma unha?
Médico: Uma unha.
Paciente: Mas é roxa, doutor.
Médico: Aì está o extraordinário do caso. Ela está pintada.
Paciente: Uma unha pintada?
Médico: Uma unha pintada.
Paciente: E de roxo.
Médico: Pois é.
Paciente: Doutor, mas como é que pode, doutor? Como é que pode ter nascido uma unha pintada de roxo, doutor? E bem no meio da minha testa?
Médico: É um caso extraordinário, não?
Paciente: Mas como é que isso foi acontecer.
Médico: Isso é o que nós temos que descobrir. Eu vou fazer algumas perguntinhas para a senhora e queria que a senhora tentasse ao máximo lembrar dos detalhes ao responder, pode ser?
Paciente: Sim, pode...
Médico: Vamos lá: qual foi a última vez que a senhora esteve numa usina atômica, num campo de dejetos radioativos ou num laboratório de enriquecimento de plutônio.
Paciente: Eu nunca estive em nenhum desses lugares, doutor.
Médico: Tem certeza. É preciso que a senhora pense muito antes de responder. Tente lembrar.
Paciente: Bom... Numa usina atômica, eu nunca estive. Até porque no Brasil, que eu tenha ouvido falar, só existe aquelas lá de Angra e eu nunca fui além de Paquetá.
Médico: Hum... Que saudades de paquetá.
Paciente: Num campo de dejetos radioativos eu não sei. Por que eu não sei exatamente o que são dejetos radioativos.
Médico: Sei...
Paciente: E num laboratório de enriquecimento de plutônio, eu também acho difícil. A não ser que eles enriqueçam plutônio no Sérgio Franco, onde eu fui mês retrasado levar um exame de urina.
Médico: Não. Acho que eles não enriquecem plutônio no Sérgio Franco.
Paciente: Pois é.
Médico: Próxima pergunta: a senhora já participou de testes de novos medicamentos ou serviu de modelo para experimentação de novos cosméticos.
Paciente: Eu já deixei a filha da vizinha pintar meu cabelo quando ela tava treinando pra ser tinturista no cabeleireiro onde ela trabalha.
Médico: A senhora sabe se o tonalizador usado continha uma mistura de ácido acétio glacial com xileno.
Paciente: Olha... Era casting.
Médico: Casting?
Paciente: Da l´Oreal.
Médico: Entendo.
Paciente: Faltam muitas perguntas doutor?
Médico: Existe na sua família algum caso de alteração genética pela exposição de raios gama?
Paciente: Olha, o meu pai tirava muita chapa...
Médico: Muita chapa?
Paciente: É que ele tinha negrume no pulmão, sabe?
Médico: Não, minha senhora, não sei. Em todo caso eram raios x.
Paciente: Isso. Raio-X.
Médico: A senhora travou contato com...
Paciente: Doutor, faltam muitas perguntas.
Médico: Eu receio que sim, minha senhora. As possibilidades são infinitas. E para o tratamento adequado nós temos que descobrir a causa da sua anomalia parietal...
Paciente: Anomalia parietal?
Médico: Isso. A unha na testa. Nós temos que descobrir como e porque surgiu a sua vigésima primeira unha. E para isso nós vamos fazer exames. Mas pra saber que tipo de exame a gente faz, é preciso fazer muitas perguntas.
Paciente: Entendi. (tempo). O senhor se importa se eu voltar amanhã pra responder a essas perguntas?
Médico: Bom... Eu acredito que não tenha problema. Apesar de ser um caso extraordinário, ele não representa perigo pra sua saúde.
Paciente: Ah, então tá ótimo. Então eu volto amanhã, tudo bem.
Médico: Mas a senhora vai voltar?
Paciente: Vou. Eu vou voltar, doutor.
Médico: Vai mesmo?
Paciente: Vou, eu juro que eu vou.
Médico: Olha, minha senhora. É muito comum que os pacientes se assustem e não voltem ao consultório após a descoberta de certas condições. Eu devo avisá-la que no seu caso, em se tratando de um caso extraordinário, a sua volta é muito importante.
Paciente: Mas doutor, eu já disse que vou voltar. Eu juro. Eu vou voltar.
Médico: Então porque é que a senhora está saindo assim com tanta pressa?
Paciente: É que eu preciso ir na Solange, doutor.
Médico: Solange?
Paciente: A minha manicure.
Méidco: Como?
Paciente: É que esse roxo tá me tirando do sério, doutor. Me tirando do sério!
A GAROTA DA UNHA AZUL OU CURSO DE SEDUÇÃO PARA MULHERES de Renata Mizrahi
Alexia- Pretende sair na Playboy
Eduardo- Age como um galã de novela
Meninas- alunas do curso (só para fazer número. Podemos resolver com vozes em off)
(Uma sala de aula bem moderna e clara. Um monte de mulheres. Selma, a garota da unha azul está entre elas. Ela está sem graça, meio sem entender muito bem as coisas. Todas as mulheres olham para ela. Ela tem a unha azul. Desconforto. Alexia, uma jovem com saia curta, peito estufado e roupa colante fala com ela. Ela tem o tom das pessoas simpáticas que querem ajudar.)
Alexia: É a sua primeira vez?
Selma (sem graça): É.
Alexia: Logo vi.
Selma: É?
Alexia: É. Eu já fui assim, que nem você.
Selma: Que nem eu?
Alexia: É, desse jeito... como se diz... ruim mesmo, sabe? (ri) Mas relaxa, você está no lugar certo. Olha como eu tô agora. (ela se mostra) Meus problemas acabaram.
Selma: É mesmo?
Alexia: Ele é ótimo.
Selma (sem entender): Ele?
Alexia: É ótimo.
Selma: Eu pensei que fosse ela.
Alexia: Não. É ele. É muito melhor. Ninguém é melhor que ele para ajudar pessoas como você .
Selma: Pessoas como eu?
Alexia: Que acreditam que pintar a unha de azul seja algo sedutor. Mas esquenta não, eu já fui assim. Um horror. Não quero lembrar dessa época nunca mais. Seja bem vinda, darling. Fico feliz por entrar nessa família.
Selma: Família? Olha, eu acho que...
(Nesse momento entra ele, Eduardo. Um homem na faixa dos 40 anos, cabelo com topete, paletó cinza, como um galã de novela mexicana. Ele entra sorrindo).
Eduardo: Boa noite, meninas.
Vozes das meninas e Alexia: Boa noite.
(Selma, sem entender nada fica meio paralisada.)
Eduardo: No encontro de hoje faremos a seguinte pergunta: O que nós queremos? Vamos entender por que, vocês mulheres, fazem a escolha errada. E é isso que vocês querem? Escolher a pessoa errada?
Vozes das mulheres e de Alexia: Nãoooo!
Eduardo: Muito bem. Temos que saber quem realmente é digno de estar com vocês. Seduzir o homem certo é sinônimo de prosperidade, seduzir o homem errado é sinônimo de quê?
Voz das meninas e Alexia: Depressão.
Eduardo: E o que vocês querem?
Alexia e vozes das meninas: Beleza, sucesso e se der felicidade.
Eduardo: Muito bem, meninas, muito bem. Estou vendo que tem gente nova hoje aqui. Quem é nova hoje aqui levanta a mão.
(Selma não levanta a mão, mas Alexia intercede).
Alexia: Ela é nova.
Selma (sem graça): Não, na verdade...
Eduardo: Que bom, estou vendo a carinha de assustada. É muito normal, não tenha medo. A primeira vez é assim, mas depois você nunca mais vai querer perder nenhum encontro. Nenhum encontro do nosso curso de sedução. Você vai sair daqui transformada. E por falar em transformada, eu gostaria de chamar a nossa querida Alexia aqui na frente para dar o seu depoimento para as novatas.
(Alexia se levanta com o glamour das mulheres bonitas e sedutoras e é aplaudida pelas meninas).
Alexia (já na frente e orgulhosa de si mesma): Obrigada, meninas. É muito importante pra mim estar aqui hoje, falando com vocês. Eu já estive no lugar de algumas que estão aqui, e sei o quanto é difícil se transformar numa pessoa como eu. Mas graças ao professor Eduardo, hoje, eu posso dizer que sou uma mulher sedutora, uma mulher que conquista os homens que quer.
(Aplausos das meninas).
Eduardo: Você quer dar algum conselho para alguém que está aqui hoje?
(Silêncio. Alexia olha para Selma, esta tenta se esconder, mas não consegue).
Alexia. Sim, eu quero. Aquela garota da unha azul.
(Vozes das meninas rindo e caçoando de Selma).
Eduardo para Selma: Ei, garota da unha azul, qual o seu nome?
Selma (muito constrangida): Selma.
Eduardo: Seja bem vinda, Selma. Venha até aqui na frente, por favor.
Selma (muito constrangida e vermelha): Olha, me desculpe, eu acho que eu entrei no lugar errado. (ela vai a direção da porta para sair, mas a porta está trancada) Poderia abrir a porta, por favor, ela está trancada.
Eduardo: Você gostaria de sair Selma? Gente, a Selma quer desistir.
Voz das meninas e de Alexia: Ah!
Eduardo: Você vai desistir, Selma?
Selma (gaguejando): Olha, desculpe, eu não sei bem, eu não entrei aqui, para... olha, eu não quero mais, eu quero ir embora.
(Eduardo vai até Selma e levanta a mão dela).
Eduardo (mostrando as unhas para as meninas): Olhem isso aqui. Olhem isso aqui. Você acha, Selma, que com essas unhas azuis, que com esse gosto tosco, você vai conseguir conquistar alguém?
(Silêncio. Selma não consegue responder).
Eduardo: Vocês acham meninas, que ela vai conseguir conquistar alguém com essas unhas?
Vozes das meninas: Não!!!!
Selma (tirando a mão): Olha, eu preciso ir embora eu tô com pressa.
(Ela vai sair, mas é impedida por Alexia que está sempre sorrindo falso).
Eduardo: Fugir é mais fácil, né Selma?
Alexia: Eu a entendo, eu já fui assim, não gosto nem de lembrar.
Selma (desesperada mas contida): Por favor!! Eu preciso ir, eu entrei no lugar errado. Eu achei que aqui era o Vigilante do Peso.
(Risos das meninas)
Eduardo: Não adianta se enganar, Selma. Seu problema não é somente o excesso de peso, você não deve conseguir seduzir nem um a mosca. (Selma tenta falar, mas não consegue). Na verdade acredito que você no auge de seus...O quê? 27,28 anos? Ainda seja virgem, não é verdade? (Selma tenta falar, mas não consegue). Não tente se enganar dizendo que veio para o lugar errado, minha querida. Eu sei que no início é difícil, é complicado se olhar e perceber que é uma pessoa totalmente equivocada, em relação ao carisma, (Selma tenta falar, mas não consegue) à beleza, (Selma tenta falar, mas não consegue), à aparência (Selma tenta falar, mas não consegue) e principalmente à sedução. Menina, acorda para o mundo!! Com essas unhas azuis, o máximo que você vai conseguir é casar um velho babão que topa qualquer uma.
Selma (explodindo de raiva): Seu idiota, babaca, imbecil , otário, filho da puta!
Vozes das meninas e de Alexia: Oh!!!
Selma: Quem é você pra julgar alguma coisa em qualquer pessoa com esse topete metido a galã cafona de novela de quinta?
Vozes das meninas e da Alexia: Oh!!!!
Selma: Essas minhas unhas, (ela mostra as unhas para ele e para as meninas) essa cor, é marca de nascença! De nascença!!! Vocês, em vez de julgar alguém pela cor da unha, deviam antes olhar par si mesmos e se perguntarem quem manipula vocês pra se tornarem essas bestas, suas bestas. Eu não sei porque entrei no lugar errado achando que tava no Vigilante do Peso, e se por acaso eu estou acima dele, isso é um problema meu. Agora, senhor Eduardo Picareta, pega essas suas meninas e enfia naquele lugar, porque, se vocês acham que por causa de uma unha azul eu não vou conseguir conquistar alguém, imagina essa mulher (aponta para Alexia) que tem o corpo todo colorido de maquiagem e e ainda por cima deve ser viciada em cirurgia plástica. Vocês deviam se envergonhar de fazer isso. Passe bem. Agora abra essa porta senão, eu a arrebento com as minhas unhas azuis.
(Silêncio. Eduardo começa a aplaudi-la. Selma não entende nada. Alexia também sem entender começa a aplaudir só para puxar o saco de Eduardo e de repente todas as meninas estão aplaudindo Selma).
Selma: Que porra é essa?
Eduardo: Parabéns, parabéns, você é incrível. É isso, meninas. É exatamente isso que vocês precisam: confiança, determinação, auto-estima. Eu estou boquiaberto.
Selma: Peraí...
Eduardo: Alexia, pode sentar.
Alexia: O quê?
Eduardo: Senta Alexia, não discute, dá o seu lugar para Selma.
(Alexia, atônita, não consegue se mexer).
Eduardo (pega na mão de Selma): Meninas, estão vendo isso? Com essas unhas , com esse cabelo e essa roupa, essa mulher mostrou aqui, pra todo mundo ver, como se deve fazer para seduzir! Isso nos mostra, que a sedução não depende só da aparência, não depende só do número do seu manequim, ela depende antes de tudo, da auto-confiança, da veemência. Selma, você é a primeira mulher, em todo esses 8 anos de curso, que conquistou meu coração.
(Eduardo beija Selma na boca, ela tenta se desvencilhar, Alexia começa a chorar. Selma consegue se desvencilha).
Selma: O que é que isso? Tá maluco? Eu tô falando sério!
Eduardo: Eu também. Vem cá! (ele tenta agarrá-la)
Selma: Abre essa porta.
Eduardo: Estou louco nessas unhas azuis. Só de olhar para essa sua marquinha de nascença eu fico com tesão.
Selma: Tá lelé da cuca, pirou na batatinha, comeu empada estragada? Você acabou de dizer que as minhas unhas eram um equívoco e agora diz que tem tesão? Vai à merda! Você não me conhece, você nunca me viu antes, você não sabe nada de mim. Como ousa se apaixonar?
Eduardo (extremamente empolgado): Estão vendo, meninas? Estão vendo? É exatamente assim que eu imagino uma mulher. Todas essas aulas que eu venho dando pra vocês se resumem a isso. É exatamente isso que eu quero mostrar. Obrigado Deus, por colocar no meu caminho essa preciosidade, essa flor de unhas azuis.
Selma: Abre essa porta, abre essa porta. Eu quero sair daqui já. Eu devo tá sonhando, não é possível.
Eduardo: Eu é que tô sonhando, eu é que tô no céu. Tão azul quanto as suas lindas unhas.
Selma: Cala a sua boca.
Alexia (se recuperando do choro): Professor Eduardo, você disse ontem para mim, quando a gente saiu da aula e foi para o seu apartamento, lembra? Você disse que estava louco por mim, que queria viver comigo pra sempre. Cadê aquilo tudo o que você falou? Cadê?
Eduardo: Esquece tudo, esquece. Meu coração se encantou por essa jóia, e agora eu quero que ela seja minha. E nada, nada nesse mundo me fará mudar de idéia.
(Aplausos das meninas).
Selma: Que coisa mais cafona.
Eduardo: Casa comigo!
Selma: O quê?
(Alexia vai até a porta).
Eduardo: Casa comigo, viva comigo, me possua. (ele tenta agarrá-la de novo)
Selma: Socorro! (ela consegue abrir a porta) Abriu! A porta abriu!
Eduardo: Quem destrancou?
Alexia: Eu! Eu, eu, eu, eu!
(Quando eles olham para a porta de novo, Selma já foi embora).
Eduardo: Oh. Não! Ela foi! Ela foi! Meu amor, não me deixe! (para as meninas). Viram, meninas? Viram? Esqueçam tudo o que eu falei nessas aulas charlatãs. Não existem segredos nem truques. Não existe nada. Os homens são que nem eu nesse momento. Os homens gostam mesmo é de sofrer. Eles não ligam para a aparência, não ligam para nada se as mulheres os maltratam. Homem não tem mistério. Precisam ser deixados, pisoteados, mal-amados para se sentirem homens! Eu sou uma farsa. E isso é tudo.
(Ele sai como um mocinho de novela a procura da sua amada. Alexia chora).
FIM.
CRAVAR AS UNHAS NA CARNE ATÉ ARRANCAR O CORAÇÃO! de Larissa Câmara
Homem: Tatuado com uma beleza
rústica e agressiva.
Mulher: Beleza incomum personalidade
sórdida como todas.
Policiais
Foco abre. Homem sem camisa
fuma um cigarro sentado na cama de um hotel barato.
Homem: Tire a roupa, ela deita,
fica na posição. Era assim o começo. Depois ficava forte. Ela sentava
no meu colo. Um dia... ela me disse como quem lambia: quero cravar
as unhas na sua carne até arrancar o coração! Achei graça. Ela disse:
quero comer seu coração sangrando. (pausa) Achei lindo! (pausa)
Adoro mulher maluca! (tira uma pistola da calça e começa a lustrá-la
com o lençol) Sou matador profissional Só atiro na cabeça. O
local fica sujo, mas que remédio... Tiro na cabeça não tem erro.
Rápido e certeiro. O presunto já foi e nem sabe que morreu. Estranho...
Desde que matei um gordo num restaurante japonês parece que ela
tem me evitado.
Mulher bate na porta. Homem
levanta se protege e aponta a arma para porta.
Mulher: Sou eu. Sei que você
está aí. Abra a porta.
Homem: Está sozinha?
Mulher: Vou continuar se você
não abrir a porta.
Homem ainda segurando a pistola
abre a porta. Olha para fora para checar se a mulher está realmente
sozinha. Homem fecha a porta. Mulher beija o homem com furor.
Homem: Por onde você andou?
Mulher: Me beija!
Homem: Você sumiu desde que...
Mulher beija o homem. Não deixa
ele dizer mais nada. O homem senta na cama. Ela senta sobre ele.
Da cinta liga ela retira um punhal sem que o homem perceba.
Homem: Hey, baby! Quer cravar
suas unhas na minha carne até arrancar o meu coração?
Mulher beija o homem erguendo
o punhal para cravá-lo nas costas dele. Luz apaga. Luz abre novamente
homem desperta nervoso. Pega o telefone. Liga para a mulher.
Homem: Preciso falar com você.
Apareça.
Mulher abre a porta e tira a
roupa. Desvarios do sexo. Homem adormece. O celular da mulher toca.
Ela atende e vai embora
Homem: Eu preciso falar com
você.
Mulher: Depois.
Mulher beija homem e sai do
quarto. Tempo. Homem coloca suas roupas. Batidas na porta. Homem
segura a pistola.
Policial: Senhor Jones. Abra
a porta. Senhor Jones saia daí. Você está cercado.
Policiais arrombam a porta.
Jones corre. Pula a janela e consegue fugir. Alcança a mulher no
pátio do hotel. Homem agarra a mulher e coloca uma pistola na cabeça
dela.
Homem: Eu preciso falar com
você. Por que você sumiu? Você tinha alguma coisa com aquele gordo
maldito do restaurante japonês? Responde!
Policiais armados cercam Jones
e a Mulher
Policial: Senhor Jones. Jogue
a arma no chão e coloque suas mãos para cima.
Homem: Fala!
Policial: O senhor é acusado
de matar Wong Shung Po. Tudo o que disser pode e deverá ser usado
contra você no tribunal. Senhor Jones. Jogue a arma no chão e coloque
suas mãos para cima.
Homem: Você comeria o meu coração
sangrando? Você me ama?
Policial: Senhor Jones. Meus
homens vão estourar os seus miolos.
Homem: Você me ama?
Policial: Senhor Jones. Solte
a filha de Wong Shung Po.
Homem: Você me ama?
Mulher: (chorando) Amo.
Policiais atiram no coração
do homem. Mulher grita. Coloca as mãos no rombo do coração do homem
esfregando as mãos e as unhas vermelho sangue na boca. Mulher arranca
o coração do homem. O coração está sangrando. Ela vai levando as
mãos lentamente até a boca numa espécie de rito.
TREVAS. FIM
ENTRE UNHAS E DENTES de Julia Spadaccini
Ele- Desculpa... mas você poderia parar de roer as unhas?
Ela – Como?
Ele – Pode parar de comer as próprias unhas.
Ela – Não estou comendo... só estou roendo... normal.
Ele – Nada normal. Bastante estranho, para falar a verdade...
Ela – Não entendi.
Ele – Você está roendo as próprias unhas.
Ela – Sim, e daí?
Ele- Você está se comendo...
Ela – Olha, a unha é minha e eu faço o que quiser com ela...
Ele – Por isso mesmo... você não tem nada melhor para fazer com ela?
Ela – Não.
Ele – Clássico.
Ela – Clássico o quê?
Ele – Esse comportamento... não é à toa que está aqui. A sua sorte é que a doutora aceita plano de saúde, porque o tratamento vai demorar. Você tem Golden? Tem cara de quem tem Golden...
Ela – Não, na verdade tenho... que cara de Golden o quê! Ta maluco? Qual é a sua, hein?
Ele – Tô querendo te ajudar.
Ela – Olha, se eu quisesse consulta de graça não teria marcado a sessão de hoje.
Ele – Você é bem ansiosa, né?
Ela fica muda.
Ele – Pode falar... eu não tenho problema com pessoas ansiosas. Até me dou bem com seu tipo de gente... tirando esse lance do autofagismo. (pequena pausa) Por falar nisso, já viu aquela doença da pessoa que come cabelo? Se chama trico... trico... alguma coisa... é tricô porque ela come tanto cabelo que no final do mês fica com uma bola de tricô de cabelo no estômago.
Ela continua calada, mas um pouco tensa, embora se esforçando para não transparecer.
Ele – E tudo começa com a unha. Sempre com a unha. Com meu tio foi assim: começou roendo de vez em quando, chamado roedor recreativo... “só roo quando tá grande”, ele dizia... mas logo se tornou uma compulsão. Vivia roendo pelos cantos, escondido, sempre com o dedo machucado, mordido, mas negava o problema. Dizia que era normal...
Ele pára, como se não fosse continuar a contar. Chega a pegar uma revista...
Ela – E aí?
Ele – O quê?
Ela – Começa com a unha e depois?
Ele – Depois passa para pelinha do lábio, em seguida para casquinha de machucado e depois o cabelo...
Ela – Casquinha de machucado?
Ele – É, a pessoa não deixa o machucado cicatrizar nunca. Quando tá secando e forma a casquinha, ela arranca de novo... tem gente que come, outros colecionam. Há até um pessoal que troca. Se for no mercado livre, vai ver que uma casquinha intacta de ferimento grande vale uma nota.
Ela faz cara de nojo.
Ele – Você não pode fazer essa cara.
Ela – Por quê?
Ele – Porque você é roedora de unhas.
Ela – E você, que ficou balançando esse pé desde a hora que sentou...
Ele – É para a circulação.
Ela – Ansioso, isso sim!
Ele – Não sou. Gostaria muito de ser, mas não sou.
Ela – E essa circulação compulsiva é o que?
Ele – Tenho dormência nas extremidades por falta de ansiedade, aí vou ficando com as partes dormentes e tenho que dar uma agitada para não gangrenar.
Ela – E o que você está fazendo aqui?
Ele – Prefiro não falar.
Ela – Por quê? É grave?
Ele – Até agora nenhum médico disse que tem solução. A psicanálise é minha última esperança. Já tentei de tudo: medicina tradicional, oriental, islandesa...
Ela – Islandesa?
Ele – Interessantíssima. Não conhece? É uma prática toda baseada na quantidade de palavras que você fala por dia. Para cada doença, tem que falar um numero específico. No meu caso eram 19835.
Ela – E funcionou?
Ele - Não sei. Era muito difícil contar, me perdia sempre...
Ela – Mas qual é o seu problema?
Ele – Não sou muito normal.
Ela – Isso dá para ver.
Ele – Obrigado. Mas é justamente o contrário. Sou normal demais. Minha família, meus amigos, o pessoal do trabalho, todo mundo reclama. Dizem que eu tenho uma normalidade anormal.
Ela – Impossível, ser normal não é o problema. É a regra.
Ele – Você acha isso porque não é normal, como a maioria das pessoas. Então acha normal não ser normal e considera a anormalidade uma coisa normal.
Ela – Hmmm...
Ele - Mas a verdade é que todo mundo tem alguma coisa, mesmo que escondida. Você, por exemplo, além de ansiosa, já vi que...
Ela – O que...
Ele – Deixa para lá.
Ela – O que tem eu?
Ele – Nada...
Ele – Fala!!
Ele – Você tem que tratar dessa sua ansiedade, hein? Tá puxado...
Ela – Quer falar de uma vez!
Ele – Pessoas como eu não têm prazer em falar mal dos outros... sou muito normal para ser mau...
Ela – Não acredito que você vai me deixar curiosa assim...
Ele- Outra coisa que não tenho é curiosidade.
Ela – Mas isso não é normal...
Ele – É sim, mas vocês que não são normais acham que curiosidade é uma coisa normal só porque todos sentem. Mas se pensar bem, não faz sentido.
Ela – Como é que você tem tanta certeza que é normal?
Ele – Não sou eu que acho isso, são as pessoas a minha volta que dizem e que insistiram para eu procurar ajuda.
Ela – Mas se você é normal, então não precisa de tratamento.
Ele – Não é normal ser normal hoje em dia. É muito doloroso não ter problemas, muito forte não poder culpar meus pais por qualquer coisa. Tenho inveja de quem consegue dizer que é gordo porque a mãe se recusou a amamentar. Acho de uma beleza!
Ela – Pois eu queria ser normal.
Ele – Querer é um primeiro passo. E o mais importante. Eu diria que 90% do caminho está percorrido.
Ela – É mesmo?
Ele – Claro. Ser normal é normal. Ou deveria ser. Não tem mistério. É só se concentrar em não fazer o que os outros fazem, mas o que é normal. Quando for roer a unha, pense: isso não é normal.
Ela ia colocar a unha na boca e tira repentinamente.
Ele – Viu? Eu diria que nem precisa mais de tratamento.
Ela – Acho que tem razão. Muito obrigado.
Ela sai. Na saída, vê que a secretária está comendo o cabelo. Ela vira-se para ele e da uma risadinha. Sai.
A psicanalista aparece.
Psicanalista – Simão, não tem mais ninguém na espera?
Simão - Tinha uma mulher morena, alta, mas ela passou mal e foi embora.
Psicanalista – Por que você está aqui uma hora antes do horário marcado?
Simão – Ah, não estava fazendo nada e pensei: vai que eu dou a mesma sorte e a pessoa do horário anterior desmarca?
Psicanalista – Pelo visto deu sorte. A mulher que foi embora estava na sua frente. Vamos adiantar a sua sessão.
Simão – Podemos juntar os dois horários e fazer uma sessão dupla?
Psicanalista – De novo?
Simão – Estou muito ansioso, doutora. Tenho certeza que já tenho uma bola de tricô na minha barriga. Estou vendo a hora do meu cocô sair com uma roupinha de crochê...
Psicanalista – Essa doença não existe, já te falei... Já pagou sua dívida no Mercado Livre?
AS UNHAS VERMELHAS DA NOIVA de Jô Bilac
Mariano, moço, mais sensato que bonito.
Elisa, Coluna ereta, com uma beleza austera.
(Mariano e Elisa num banco de praça, beijando-se descontroladamente. Muito desejo. Elisa, de supetão, afasta o noivo e confessa)
Elisa: Queria trocar uma palavra contigo.
Mariano: (ainda tonto de desejo) Daqui a pouco, vem cá vem. (avança no beijo)
Elisa: (afastando-o) Daqui a pouco não. (firme) Agora.
Mariano: (sacana) Então fala, fala aqui no meu ouvidinho, fala...
Elisa: É sério.
(Mariano suspira fundo e busca controle. Arruma os cabelos.)
Mariano: Sobre o que você quer falar?.
Elisa: O resultado do concurso.
Mariano: (numa careta) Ai, isso novamente?! Cismou!
Elisa: Não é cisma, é precaução.
Mariano: Pra mim, mais parece exigência!
Elisa: Saía hoje o resultado do pra Justiça Federal, não é? (maravilhada) Já pensou: Você, na Justiça Federal!
Mariano: É só nisso que você pensa, né? ( caricatural) Na Justiça Federal!
Elisa: Não é isso... (sem jeito) Você sabe como é importante pra mim, não sabe?
Mariano: Pra mim também é, mas nem por isso fico tocando no assunto todo santo dia.
Elisa: É que eu morro de medo.
Mariano: Mas a gente não combinou?
Elisa: Combinou sim, eu sei, mas até quando, Mariano? Até quando eu vou ter que esperar?
Mariano: ( já de ovo virado) Foi você que quis assim. Por mim a gente casava ontem. Mas mania. Não tira essa idéia da cabeça.
Elisa: Casar pra passar perrengue, não quero!
Mariano: Se todo mundo enfiar na cuca que só casa se passar num concurso público_ igreja só vai servir pra batizado e enterro. Se você não está disposta a largar o bem e bom pra ficar comigo, eu não posso fazer mais nada.
Elisa: (manhosa) Não fala assim. É que eu tenho medo. A minha pensão é pouca, mas é garantida. De fome não morro. Isola! Agora, se eu me caso contigo: eu perco. Daí, se você não tem um emprego certo, a gente se lasca! Eu me recuso a ter que comer o pão que o diabo amassou, ouviu? Me recuso!
Mariano: (riso amargo) Então faz você um concurso público. Você vira arrimo de família e fica tudo certo. Hoje em dia é mais que normal mulher sustentar marido.
Elisa: As suas nêgas! Pode tirando o cavalinho da chuva. O pai do meu filho não vai ser um vagabundo desempregado!
Mariano: Sempre se dá um jeito. Num país em que todo mundo quer ser patrão, o que não falta é empregado.
Elisa: Assim eu não caso... Nem adianta. Não quero ver o nosso amor sendo triturado sem choro nem vela, por conta de um prato de comida. Não quero ir pra fila do posto de saúde, de madrugada, pegar número pra ser atendida 12 horas depois. Não quero, Mariano, não quero! Olha, (mostra o braço nu) fico toda arrepiada só em pensar em ver o meu filho com uniforme de escola Estadual, enchendo a barriga de merenda pública, pra não dar prejuízo em casa! Ai! Que horror! Não gosto nem de pensar! Assim eu não caso!
Mariano: Mas eu já te disse, a gente se junta, e você não perde sua pensão. Amigado com fé, casado é.
Elisa: ( olha com desdém) Capaz. Depois você paga o enterro da minha mãe. Porque ela vai morrer, né? Vai ter um troço. Cair preta e dura se eu chegar com uma notícia dessas em casa.
Mariano: (sem saco) Pelo amor de Deus... Sua mãe vive em que mundo?
Elisa: Esse negócio de se amigar, não rola.
Mariano: Então o que eu faço?
Elisa: Passa num concurso público!
Mariano: (grunhido. Levanta-se e chuta o nada, pra segurar a raiva. Amargo) Sabe o que me dá mais raiva, Elisa? É você pensar que é fácil passar numa merda dessas! A vontade que tenho é de mandar tudo pro inferno e deixar de ser palhaço.
Elisa: Eu sei que não é fácil... É preciso esforço.
Mariano: E eu não me esforço, Elisa? Diz pra mim? Eu não me esforço? Faço das tripas coração pra conseguir passar numa prova! Estudo feito condenado, não faço nem metade das coisas que meus amigos fazem, pra ficar com a fuça enfiada nos livros e eu não me esforço o suficiente?
Elisa: Mas poderia estudar só um pouquinho mais...
Mariano: (risada surpresa) Você quer que eu não faça mais nada além de estudar.
Elisa: Eu só quero que você me coloque como prioridade em sua vida.
Mariano: E não é isso o que eu faço?
Elisa: Em partes.
Mariano: Em partes?
Elisa: Em partes sim.
Mariano: Elisa, se eu não te vejo com tanta freqüência, é porque você mesma exigiu que eu ficasse em casa estudando no lugar de sair contigo.
Elisa: Muito bem, foi como você mesmo acabou de dizer: EU abri mão de passar mais tempo contigo, para que VOCÊ ficasse em casa ESTUDANDO.
Mariano: E é o que eu faço.
Elisa: (perspicaz) Tem certeza?
(Mariano interrogativo.)
(tempo)
Elisa: (muda o tom) Sua avó, por exemplo.
Mariano: O que tem a minha avó?
Elisa: Você não deveria se ocupar tanto dela.
Mariano: (sentido) Que isso Elisa? Minha avó é como se fosse minha mãe. Me criou desde pequeno, sem soltar um ai.
Elisa: Mas está velha e requer sua atenção o tempo todo.
Mariano: Natural. Existem limites pra pessoas na idade dela, ela precisa da minha ajuda.
Elisa: Mariano, você é tão ingênuo.
Mariano: Ingênuo...
Elisa: Eu adoro a sua avó. Amo de paixão. Não quero que você pense que eu vá separá-la de você, pelo contrário. Eu a admiro muito. Ela cuidou de você com todo o afeto e juízo que uma criança deve ser cuidada. Sua mãe não faria melhor, se fosse viva.
Mariano: Então, qual é o problema?
Elisa: O problema é que ela está velha.
Mariano: Sim e daí?
Elisa: Daí que uma pessoa velha se sente muito só e começa a inventar coisas pra chamar atenção. E com isso ela acaba te desviando dos seus estudos, mesmo que sem querer. (ardilosa) Talvez seja o caso de pagarmos uma pessoa para cuidar dela, alguém que ficasse a total disposição. Que fizesse companhia. Um profissional mesmo. Ou até mesmo... Ou até mesmo, não sei (sugere vã, com a eloqüência dos demônios) colocá-la num lugar mais adequado, com mais infra-estrutura. Tem um lugar ótimo que eu vi numa revista noutro dia, assim, por acaso, que eu até achei nem muito caro e...
Mariano: Que absurdo, Elisa. (com a cara no chão.)
Elisa: (sem notar o noivo assombrado) O que foi, meu doce?
Mariano: To de queixo caído. Olha a quantidade de besteira que você acabou de dizer...
Elisa: Que besteira?
Mariano: (fraco, boquiaberto) Elisa, não é possível que você pense dessa maneira...
Elisa: (lépida) Dessa maneira como? Não entendi...
Mariano: Dessa maneira desumana, feia, mesquinha, cruel...
Elisa: Mas eu só estou pensando no futuro da gente. Ou você achava que a sua avó ia vir morar conosco?
Mariano: Que horror, meu deus...
Elisa: Não é horror, Mariano, é praticidade. Quando eu falei que não ia separar vocês, eu queria dizer no sentido afetivo, porque é impossível dividir uma casa com a sua avó. Você vai me desculpar. Mas eu quero ter liberdade. Quem casa, quer casa. Esse negócio de enfurnar parente, não dá certo.
Mariano:...Um horror atrás do outro...
Elisa: Não é horror, me respeite...
Mariano: Horror total, só horror, você é toda horror!
Elisa: Olha o tom, Mariano, não é horror, é o que eu penso...
Mariano: Horror.
Elisa: (corta quase no grito) Não é Horror!
(silencio. Clima)
Elisa: ( contundente) Não é Horror. Ela está velha. Isso é um fato. Sabe que você precisa construir sua própria família, na qual ela NÃO está inclusa. Ela não quer te perder. Só que não percebe que atrapalhando os seus estudos, ela só te prejudica ainda mais. Ela precisa perceber que está atrapalhando. E uma enfermeira, pra ajudá-la ou até mesmo um asilo, não tem nada de tão horroroso assim.
Mariano: ( saturado, não acredita no que acabou de ouvir) Chega...... Olha, eu vou pra casa. Eu não quero mais esse papo.
Elisa: Que isso? Você vai sair andando e me deixar aqui falando sozinha? É isso mesmo?
Mariano: Hoje, você perdeu suas estribeiras! E pra eu não ficar aqui e correr o risco de perder as minhas, prefiro ir embora. (vai saindo)
Elisa: O seu mal, Mariano, é que você não encara a vida de frente. Você está empurrando o nosso noivado com a barriga. Quer vencer no cansaço! Mas eu não caso, ouviu, eu não caso sem seu nome sair na folha dirigida!
Mariano: Paciência!
Elisa: Você está muito enganado, ouviu? Muito enganado se pensa que eu vou ficar esperando eternamente até você ser concursado.
Mariano: Você quer dar um tempo?
Elisa: Eu quero dar um prazo!
Mariano: Prazo? Você quer mesmo um marido? Está me parecendo mais interessada num empregado.
Elisa: Eu quero um marido com ambição! Eu não quero me casar com um estorvo fracassado. Tá Cheio de gente nessa porcaria de país que no lugar de querer o inteiro, se satisfaz com a porcaria da metade! E com essa mentalidade colonizada, você não passa nem em concurso pra mico de circo!
Mariano: Pois é isso mesmo que eu deveria ser: Mico de circo! (ironia violenta) Esse foi o único concurso que eu ainda não fiz e talvez seja a minha verdadeira vocação. Virar mico de circo! Assim, banana, não vai faltar na nossa mesa! (imita um macaco) Yes! Nós teremos banana! (tira um jornal de sua bolsa e joga na cara da noiva. Lamenta.) Você tem o dom de estragar tudo. (Sai.)
Elisa: ( puta da cara, sem olhar o jornal) Volta aqui, Mariano! Eu não vou falar duas vezes! Volta aqui! Mariano! Volta aqui!!! Mariano eu vou contar: 1... Eu vou contar: 2... Mariano!!! ( o noivo já está longe. Despenca no banco, vencida. Pega o jornal, ainda muito irritada e abre. É a folha dirigida, na página central um círculo feito de caneta bic, evidenciando o nome do noivo: Mariano, aprovado como funcionário público. Ela fica levemente tonta. Sussurra sem ar, coração na boca) Funcionário público... (agarra o jornal contra o peito e corre para alcançar o noivo. No alvoroço da emoção, não percebe que o sinal abriu e leva uma trombada de um ônibus. Pára no outro lado da rua, cabeça ensangüentada. Em pouco segundos, uma roda de curiosos se abre ao redor dela. Sua visão está turva, respira mal, não sente as pernas. Com as unhas tingidas de sangue_ cravadas no jornal_ ainda sorri, emocionada. Uma lágrima escorrendo dos olhos. Sussurra ) Meu noivo é funcionário público... (morre agarrada ao jornal.)
(O corpo só é levado pro IML, 16 horas depois.)
Fim.
UNHA ENCRAVADA
CRESCE, CORTA, MANICURE CANIBAL de Camilo Pellegrini
ELA - Eu arranhava por dentro da barriga.
INQUISIDOR - E quando nasceu?
ELA - Não chorei, caí direto na banheira. Aguinha quente.
INQUISIDOR - Aos três?
ELA - Mordi minha coleguinha.
INQUISIDOR - Aos cinco?
ELA - Meti unhada na cara da minha tia.
INQUISIDOR -Aos dez?
ELA - Comprei meu primeiro esmalte.
INQUISIDOR - Catorze?
ELA - Trabalhando no salão da minha tia.
INQUISIDOR - Ela te deixou trabalhar lá mesmo depois da unhada?
ELA - Deixou. Já tinham passado alguns anos.
INQUISIDOR - Não guardou mágoa?
ELA - Só a cicatriz do lado esquerdo. Mas sabe que ficou bem nela? Remoçou.
INQUISIDOR - Aos dezessete?
ELA - Minha primeira cutícula. Era uma cliente deliciosa. Tudo naquela mulher dava fome. Tão cheirosa, mãos macias. A pele morena como se fosse azeitada, brilhando no sol que entrava pela vitrine. Ela sentou, tirei o primeiro carnegão com o alicate mas ela gritou foi de prazer!
INQUISIDOR - De prazer?
ELA - Parece até que vibrava com o sangue flluindo bem lento. Uma gota que cresce, pesa, cai da ponta do dedo até minha batata da perna, escorre pela minha pele despertando em mim o que nunca devia ter acordado. Um apetite sem limites.
INQUISIDOR - E depois?
ELA - O cheiro daquele sangue me fez levar o pedacinho de carne à boca
INQUISIDOR -Pedacinho de carne?
ELA - A cutícula que tinha daquela mulher. Eu comi.
PAUSA
INQUISIDOR - Gostosa?
ELA - Oi?
INQUISIDOR - Gostosa a cutícula?
ELA - Salgadinha.
INQUISIDOR - E depois?
ELA - Depois um frio na barriga. Passou pela minha mente a história toda da mulher saborosa.
INQUISIDOR - Não entendi.
ELA - Aquele pedacinho de carne guardava tantos segredos! A vida dela inteira estava ali.
INQUISIDOR - E depois?
ELA - Depois o quê?
INQUISIDOR - Vinte e um anos.
ELA - Ah! Só aí que provei de novo, depois de recuperada do trauma.
INQUISIDOR - E foi bom?
ELA - Passei a usar esse meu dom.
INQUISIDOR - Vinte e três?
ELA - Descobri uma vereadora caloteira.
INQUISIDOR -Vinte e sete?
ELA - Fiquei sabendo de uma que me amava em segredo.
INQUISIDOR -Trinta e dois?
ELA - Ajudei numa investigação policial.
INQUISIDOR - Jura?
ELA - Comi a unha de uma sequestradora.
INQUISIDOR - Salvaram o molequinho?
ELA - infelizmente não.
INQUISIDOR - trinta e nove?
ELA - Aí eu morri.
INQUISIDOR - Poxa! Tão nova!
ELA - Foi. A gente não escolhe. Preferia ter chegado pelo menos aos cinquenta.
INQUISIDOR -Perdeu a melhor idade.
ELA - Ela que me perdeu.
INQUISIDOR - E agora?
ELA - Minhas unhas continuam a crescer no meu caixão. Apesar desse tempo todo elas não param, já preencheram todo o espaço. Dos meus pés também, crescendo, crescendo bem lentamente, sem parar.
INQUISIDOR - Deve ser um horror! A visão do inferno!
ELA - Até que não. Meus ossos estão cobertos de unha, o caixão todo por dentro, um bloco de unha maciça. crescendo sem fim.... é bonito.
