BLOW de Rodrigo Nogueira

O público está na porta de um teatro. Do lado de fora um alto-falante. Eles ouvem a seguinte gravação.

Homem: Uma calça preta. Meias brancas. Sapatos pretos. Uma camisa branca. Um blaser preto. Um guarda-chuva marrom. E uma cueca bege. Eu estou no teatro. Estou na porta do teatro vestindo uma calça preta, meias brancas, sapatos pretos, uma camisa branca, um blaser preto e um casaco marrom. Esta é minha voz. Minhavoz gravada. Eu estou na porta do teatro e você ouve minha voz gravada. Mas você não me vê. Eu estou na porta do teatro mas você não me vê. Eu estou a cinco metros da porta. Levemente à direita. Cinco metros e levemente à direita da porta vestido de preto, branco, marrom e bege. Mas você não me vê. Eu vou me aproximar da porta agora. Eu dou cinco passos e me coloco em frente à porta do teatro. Mesmo assim, você ainda não me vê. Eu coloco a minha mão na maçaneta, eu aperto essa maçaneta, e eu abro a porta.

A porta se abre, o homem sai de dentro do teatro vestido exatamente como se descreveu.
Ele fecha a porta e fica em frente a ela. No seguinte texto, o homem faz todas as ações descritas na fala. Por isso há muitas pausas. Todo o texto continua sendo uma gravação. O homem fica no meio do público que está em pé do lado de fora da rua.

Eu estou na porta do teatro e agora você me vê. Uma calça preta. Meias brancas. Sapatos pretos. Uma camisa branca. Um blaser preto. Um guarda chuva marrom. E uma cueca bege. Eu estou no Rio de Janeiro. Você está no Rio de Janeiro. São nove e cinco da noite. Hoje é Sábado. Foi um dia de sol. Você está em pé, no Rio de Janeiro, numa noitede sábado. Não chove agora. Um carro amarelo acabou de passar na rua ao lado. No prédio em frente, uma criança começou a chorar no terceiro andar. E um casal briga no décimo. Ela joga ovos no marido

Caem ovos na rua

Homem: Uma senhora acaba de morrer sozinha em seu apartamento a três quarteirões daqui. Eu estou na porta do Teatro e você me vê. Eu procuro uma mulher. Eu dou dois passos e paro. Eu procuro uma mulher num Café. Eu viro para a direita. Eu vejo uma mulher. Ela está com os braços à mostra. Ela é morena. Tem trinta e quatro anos e quebrou a perna esquerda quando morava no interior de São Paulo aos cinco anos de idade. Ela não é a mulher que eu procuro. Eu procuro uma mulher num café. Vestida de vermelho. Eu viro para a esquerda. Eu paro em frente a um homem. Ele tem cabelos curtos, o nariz grande, veste uma blusa de botão e pesa menos de setenta quilos. Ele costuma tomar cerveja alemã nas manhãs de domingo e rói unhaquando ninguém está olhando. Ele não é a mulher que eu procuro. Eu sigo adiante. Eu procuro uma mulher num Café. Eu paro ao lado de um carro vermelho. Eu abro a porta. Eu entro no carro. Eu estou dentro de um carro vermelho na porta do teatro e agora você não me vê. Você está em pé no Rio de Janeiro e você não me vê. Eu ligo o carro. Engato a primeira. Eu acelero. Eu procuro uma mulher de vermelho num Café. Eu freio. Ligo o pisca alerta. Eu saio do carro. Eu atravesso a rua você me acompanha com o seu olhar. Eu começo a andar em direção a um Café. Você anda em direção ao café para me ver melhor. Eu procuro uma mulher de vermelho. Eu paro. Você me vê de pé, em frente a um café. Você está em pé, no Rio de Janeiro, em frente a um teatro e você me vê. Eu estou sendo observado. Você está em pé e eu estou sendo observado. Eu agacho. Você imagina qual será meu próximo passo. Você me imagina levantando. Eu levanto. Eu estou em pé e estou sendo observado. Eu procuro uma mulher no Café.Ela não está lá. Eu saco a minha câmera. Você me vê sacando a minha câmera. Eu tiro uma foto e ela não está lá. Você está em pé me observando. Você está em pé e está sendo observado. Eu estou em pé, em frente a um café e você está sendo observado. Eu te observo na porta do teatro e você não me vê.

Neste momento o homem que saiu do teatro, foi viso na platéia desde o início e que o público estaria vendo, surge misteriosamente atrás do público e diz a seguinte frase, ao vivo, sem gravação.

Homem: Eu te observo na porta do teatro e agora você me vê.

O público percebe que a pessoa que saiu do carro e que ela estava acompanhando não era a mesma que entrou. Mas a cena passa a ilusão de que era a mesma pessoa. Deu pra entender?

JANELAS de Renata Mizrahi

(Num prédio de uma rua qualquer.)


Janela1

(Fernanda e Cíntia estão se olhando.)

Cris: O que é que você tá pensando?

Fernanda: To achando tudo melhor que a minha blusa hoje.


Janela 2

(Luciana está tentando empilhar cadeiras. Ana olha)

Ana: O que é você tá pensando?

Luciana: Essa cadeira não tá encaixando.


Janela 3

(Estela está angustiada. Ricardo está cortando a unha do pé.)

Ricardo: O que é que você tá pensando?

Estela: Tô pensando por que você não consegue falar sério comigo.


Janela 4

(Joana está colocando seu tênis All-Star. Maria está olhando.)

Maria: Por que eu não sou amada do jeito que eu gostaria de ser amada?

(Joana não responde.)


Janela 1

Fernanda: Você não quer ir lá pra minha casa?

Cíntia: Eu não sei

Fernanda: Não gostou da minha pergunta?

Cíntia: Não é isso. É que eu não sei mesmo.

Fernanda: Então vamos lá pra casa.

Cíntia: Você sabe o que você quer?

Janela 2

Ana: Você não vai me responder?

Luciana: Quem sabe se a cadeira 8 entra na 9?

Ana: Posso ajudar?

Luciana: Não, a cadeira 8 não entra na 9.

Ana: Você não vai olhar pra mim?

Luciana: Mas quem sabe a 9 entra na 7?

Ana: Eu só vou sair daqui quando você conseguir.


Janela 3

Estela: Fala sério comigo, Ricardo.

Ricardo (cortando as unhas do pé). Tá bom aqui... assim...

Estela: Mentira! Mentira!

Ricardo: É agradável.

Estela: Mentira!

Ricardo: Confortável...

Estela: Eu tô esperando.

Janela 4

(Joana não consegue calçar o seu All-Star.)

Maria: Hein? Não vai me responder? Por que eu não sou amada do jeito que eu gostaria de ser amada?

Joana: Tá difícil de calçar esse sapato.

Maria: Responde! Por que eu não sou amada do jeito que eu gostaria de ser amada?

Joana: Não quer entrar.

Maria: Responde, porra!

Janela 1

Fernanda: Eu só sei que to achando tudo melhor que a minha blusa hoje.

Cíntia: Isso você já falou. E o resto?

Fernanda: Que resto?

(Elas escutam uma voz de fora, de uma vizinha do prédio. elas param para escutar)

Voz: Eu quero sair daqui, eu quero sair daqui!

Janela 2

Ana: Eu tô esperando.

Luciana: Acho que a cadeira 3 encaixa na 4.

(Ana apaga a luz. Luciana não reage. Continua empilhando)

Luciana: Encaixa. Pelo menos a 3 encaixa na 4

(Ana acende a luz. Luciana não reage. Continua empilhando)

Luciana: Por que a 8 não encaixa na 9?

(Ana coloca uma música bem alto.Luciana não reage. Continua empilhando)

Luciana: Deve ter alguma coisa errada...

(Elas escutam uma voz de fora, de uma vizinha do prédio. Ana pára.)

Voz: Eu quero sair daqui, eu quero sair daqui!

Janela 3

Estela: Por favor, faz alguma outra coisa.

Ricardo: Por quê?

Estela: Por quê? Eu não sei .

Ricardo: Então não.

Estela: Vai ter alguma vez que você vai conseguir falar sério comigo?

(Eles escutam uma voz de fora, de uma vizinha do prédio. eles param tudo para ouvir.)

Voz: Eu quero sair daqui, eu quero sair daqui!

Janela 4

Maria: Hein? Responde. Por quê?

Joana: Existem tênis mais fácies de colocar do que esses?

Maria: Fala!!!

Joana (fala bem baixo): Sai daqui, Maria.

Maria: Hein? Não ouvi.

(Elas escutam uma voz de fora, de uma vizinha do prédio. Elas param tudo.)

Voz: Eu quero sair daqui, eu quero sair daqui!

Janela 1

Fernanda: Ouviu? Ela quer sair.

Cíntia: E você?

Fernanda: Eu o quê?

Cíntia: O que você quer fazer?

Fernanda: Quer saber? Eu não sei mais se quero mesmo que você vá para a minha casa.

Cíntia: Viu?É por isso que eu não entendo você.

Fernanda: Entende o quê? Entende o quê? Não tem nada pra entender!

Cíntia: Não tem?

Janela 2

(A música está bem alta.)

Ana: Ouviu? você ouviu?

Luciana: Eu não entendo por que não ta encaixando... Eu tô tentando encaixar...

Ana(tira a música): Será que você não percebe ?

(Silêncio. Luciana olha para Ana. Ana fica esperançosa. Luciana volta a empilhar as cadeiras.)

Ana: Que merda! Que merda! (silêncio) Você não ouviu nada, né? Você não sentiu nada.

Luciana: Por quê?

Ana: “Por quê” o quê? “Por quê” o quê?

Luciana: Por que as cadeiras não conseguem encaixar?

Ana: Merda!!!!


Janela 3

(Estela vai abraçar Ricardo)

Estela: Ouviu? tem alguém querendo sair...

Ricardo: Gostei .

Estela: De quê?

Ricardo: Tá bom o seu carinho.

Estela: É?

Ricardo: Eu gosto.

Estela: Saco!

Ricardo: O que foi?

Estela: Não consigo.

Ricardo: Por que tudo pra você tem que ser grande?

Estela: E por que você não fala sério comigo?

Ricardo: Continua me fazendo carinho.

(Estela faz carinho nele.)

Janela 4

Maria: Ouviu? Tem gente que fala alto lá fora.

Joana (falando baixo): Sai daqui, Maria.

Maria: Hein? Fala alto!

(Joana pega seu All-Star e joga em Maria.)

Joana: Sai daqui, Maria!!!

Maria: Fala alto Joana! Fala alto!

Joana(atirando seu All-Star com força) Sai daqui, Maria!

(Maria desce as escadas do prédio, vai para o meio da rua e grita para Joana)

Maria: Hein, Joana? Fala alto! Vai, me responde! Por que eu não sou amada do jeito que eu deveria?

Joana (da sua janela): Sai daí, Maria!!

Janela 1

(Fernanda e Cíntia ouvem Maria gritando lá de baixo.)

Maria: Hein, Joana? fala alto! Vai, me responde! Por que eu não sou amda do jeito que eu deveria?

(Elas olham pela janela.)

Cíntia: Tem uma louca lá em baixo.

Fernanda: Eu vou lá.

Cíntia: Você vai me deixar aqui sozinha?

(silêncio)

Fernanda: Vou.

Cíntia: Mas eu não ia para a sua casa?

Fernanda: Falou bem. Ia.

(A janela 1 se fecha.)

Janela 2

(Ana e Luciana ouvem a voz de Maria na rua.)

Maria: Hein, Joana? Fala alto! Vai, me responde! Por que eu não sou amada do jeito que eu deveria?

(Ana sai correndo para ver, mas Luciana continua empilhando as cadeiras.)

Ana: E agora? você ouviu? Você ouviu?

Luciana: As cadeiras 1,2, 3 e 4 já estão empilhadas, mas a 8 não quer mesmo encaixar na 9.

Ana: Merda! Olha pra mim, olha pra mim!

(Luciana olha para Ana.)

Ana: Você quer mesmo encaixar essas cadeiras?

(silêncio)

Luciana: Não sei.

Ana: Deixa eu te ajudar?

Luciana: Não sei.

Ana: Deixa não saber.

(Ana coloca uma música. As duas dançam. A dança das cadeiras. A Janela 2 se fecha.)

Janela 3

(Ricardo e Estela escutam a voz de Maria lá de baixo.)

Maria: Hein, Joana? fala alto! Vai, me responde! por que eu não sou amada do jeito que eu deveria?

(Estela pára de fazer carinho em Ricardo e vai até a janela.)

Estela: Viu? Viu? Isso é uma grande coisa, não é?

Ricardo: Por que as coisas pra você tem que ser grandiosas?

(Silêncio)

Estela: Corta as minhas unhas.

Ricardo: Vem aqui.

(Estela vai até ele, ele começa a cortar as unhas dela.)

Estela (se afastando): Eu não consigo. Desculpa.

Ricardo: Calma, tudo bem.

Estela: Fala sério comigo, Ricardo.

Ricardo: Tá tudo bem.

Estela: Eu vou embora.

Ricardo: Antes me faz um cafuné.

(Estela fica angustiada, mas acaba fazendo um cafuné em Ricardo.
Fecha a Janela 3.)

Janela 4

(Joana na janela chamando por Maria.)

Joana: Maria, tá maluca? Sai daí!

(Maria lá da rua, no meio dos carros.)

Maria: Hein Joana!!! Por que??? Me responde! Por quê? Por que eu não sou amada do jeito que eu deveria ser amada?

(Maria começa falar com todo mundo na rua. Joana fecha a janela 4 e desce para encontrar Maria.)

Joana (do outro lado da calçada): Sai daí, Maria, você pode se machucar!

(ela correm em direção à Maria. Maria foge)

Maria (correndo, todos na rua olha para ela): Não vai me responder? Por quê?

(Aparece Fernanda e corre até Maria)

Fernanda (para Maria): Você acha minha blusa bonita?

Maria(para Fernanda): Por que eu não sou amada do jeito que eu gostaria de ser amada?

Fernanda: Você quer ir lá pra minha casa?

Joana: Maria, volta pra casa comigo!

Maria: Eu vou pra casa dela!

(Cíntia abre a sua janela e grita para Fernanda)

Cíntia: Fernanda, eu vou!! Eu vou com você!!!

Fernanda: Primeiro em diz o que você está pensando!

Cíntia: Eu ainda não sei!

Fernanda: Então não venha!

(Fernanda sai correndo pela rua. Joana consegue agarrar Maria)

Maria: Por que, Joana? por quê?

Joana: Eu não sei, Maria. Eu não sei.

FIM.

IRRITANDO FERNANDA JUNG! de Larissa Câmara

FERNANDA JUNG: Boa noite! Sejam bem vindos a mais um Irritando Fernanda Jung! No programa de hoje... Eu vou entrevistar... (pausa) Produção! Cadê a minha ficha? Como assim que ficha? Que palhaçada é essa? Eu tenho uma ficha em branco na mão. Que coisa ridícula! Isso aqui não é aula de improvisação, não. Isso aqui é um programa sério. Eu quero a minha ficha agora.

(burburinho da produção. Pausa. Aparece Hudson - um homem baixo, com apenas uma mecha de cabelo branco, suado e trêmulo com uma ficha na mão).

FERNANDA JUNG: Obrigada, Hudson!

(Hudson faz um aceno de cabeça ligeiro e volta correndo para os bastidores)

FERNANDA JUNG: Nossa! Vocês colaram o texto na ficha com durex. Que coisa. (pausa) Ah, não! Tudo menos isso. Tem um cabelo na ficha. Está grudado no durex. Olha, o cabelinho tem um encaracolado tão singular... Quem foi o imundo que grudou um pentelho na minha ficha? Que sacanagem é essa? Nosso primeiro programa ao vivo! Hudson! Venha aqui.

(Hudson aparece ainda mais suado e trêmulo)

FERNANDA JUNG: Hudson, querido! Diga uma coisa só para mim: Você reconhece a moita de onde saiu esse exemplar de pentelho? Você grudou um pentelho na minha ficha, Hudson?

(Hudson tenta responder, mas apresenta confusão mental e um problema sério de fala)


FERNANDA JUNG: Senhoras e senhores, com vocês: Hudson!

(Um canhão de luz ilumina Hudson, que se emociona e acena timidamente para a platéia. Sons de aplausos gravados.)

FERNANDA JUNG: Hudson é gente humilde, que vontade de chorar. Quando nasceu a mãe dele indagou: “O que eu faço? Crio ou jogo no lixo?” As enfermeiras do hospital comentavam: “Hum. Esse passou do ponto na placenta, já veio ao mundo vencido”. Diante de todas essas dificuldades, Hudson não desistiu. Foi uma das crianças mais aplicadas do orfanato. Na adolescência batia todas as cotas na feira livre.

HUDSON: Olha o pastel, quibe, bolinho de aipim com carne seca, caldo de cana e bolo de cenoura!

FERNANDA JUNG: Hudson é gente que faz! Hudson lutou muito para estar aqui hoje.

HUDSON: (num gesto de karatê) Iá!

FERNANDA JUNG: Menos Hudson. (pausa) Hudson chegou com uma mão na frente e outra atrás, com os olhinhos radiantes de esperança e pediu uma chance ao programa. E hoje graças a nós, ou melhor a mim, Hudson pode pagar seu carnê do baú, suas prestações das Casas Bahia e o seu tão sonhado financiamento da casa própria na Caixa Econômica.

(sons de aplausos gravados. Hudson comovido)


FERNANDA JUNG: Eu fiz tudo por você, seu ingrato! E você me apunhala pelas costas com esse pentelho na minha ficha! Que golpe baixo! Você está demitido!

HUDSON: (desesperado) Não, pelo amor de Deus. Esse pentelho não é meu. Eu juro! Por favor, não. Eu tenho família. Ainda não paguei o carnê do baú desse mês. Pelo amor de Deus. Por tudo o que é mais sagrado.

FERNANDA JUNG: (com uma seriedade melodramática) Minhas mãos são sagradas, Hudson. Você colocou um pentelho sujo nas minhas mãos.

HUDSON: Oh, dona Fernanda não fui eu!

FERNANDA JUNG: Antes de deixar o programa você tem direito a um último pedido, Hudson.

HUDSON: Eu quero conferir os últimos números da tele sena.

FERNANDA JUNG: Tem certeza?

HUDSON: Absoluta.

FERNANDA JUNG: Queridos telespectadores, o último desejo de Hudson é... (rufar de tambores) ser açoitado pelos cabos das câmeras. Sim, as câmeras que deram a ele tudo. Hudson quer sentir na pele essa emoção. Parabéns pela escolha, querido! (sons de aplausos gravados)

HUDSON: Socorro! Pelo amor de Deus! Socorro!

FERNANDA JUNG: Enquanto preparamos o estúdio para esse belo momento de sacrifício, vamos ler uma mensagem irritante enviada por uma internauta. “Projeção é a representação ou transferência de sensações, sentimentos, desejos e interesses para o mundo exterior”, Wikipedia. Obrigada pela sua participação, querida! Sua mensagem além de irritante foi inútil. Parabéns eu estou puta da cara! Voltaremos após o break. (executa uma pequena coreografia vexaminosa) E antes do break eu pergunto: Tem coisa mais humilhante do que ter feito jazz na infância? (pausa) Hoje você não escapa, Hudson. Que entrem os capangas!

(Entram capangas com aspecto forte e sanguinário. Hudson loucamente desesperado. Fernanda sorri. O clima de tensão é desfeito por um intervalo comercial.)

FIM

Para Fernanda Young por motivos óbvios, irritantes e tatuados.

http://br.youtube.com/watch?v=nJZ0cchjYGE&feature=related


DEPOIS DE VOCÊ de Julia Spadaccini

Personagens:

Marília
Frederico
Mulher
Entregador de pizza

Marília e Frederico sentados um em cada ponta de um sofá. Estão com cara de enterro. Longa pausa antes de começarem a cena.

Fred – Você não vai embora?

Marília – Não consigo.

Fred – Como não consegue?

Marília – Não posso deixar você assim.

Frederico – Assim como?

Marília – Deprimido.

Frederico – Perái, não vem com esse papinho, não. Então, agora, até quando você é ruim, você é boa? Não senhora! Você é má, muito má! É a vilã absoluta da minha biografia. Por favor, saia daqui batendo a porta e me deixe ser a vítima.

Marília – Tem certeza?

Frederico – De que eu sou a vítima e você a Bruxa do Oeste?

Marília – De que quer que eu vá embora?


Frederico – Olha aí! Olha aí de novo! Eu não estou te mandando embora. VOCÊ terminou comigo e, portanto eu sou o mocinho, o homem abandonado. Largado. Rejeitado. Quase morto. Não vai sair por aí dizendo que nós terminamos o namoro. Diga a verdade: você me deu um belo pé na bunda sem aviso prévio.

Marília- Não quero ver você assim...

Frederico – Quem disse que você vai ver? Você acha mesmo que o espetáculo começa com você aqui? A única pessoa que vai dividir esse momento glorioso de sofreguidão, na cadeira vip, será o José.

Marília – Que José?

Frederico – O porteiro. (refletindo) Talvez o entregador da pizzaria da esquina também pegue os melhores momentos...

Marília – Não quero que você sofra.

Frederico – Tá maluca? Quer me tirar até o sofrimento? A única coisa que me consola disso tudo é saber que eu vou me rasgar inteiro, colocar Bagdá Café e curtir uma fossa filha da puta.

Marília olha para baixo.

Frederico – (mudando o tom/ reflexivo) As outras fossas que eu tive foram rápidas. Sempre terminam comigo na segunda-feira à noite e aí eu tenho que acordar cedo para trabalhar e não faço a coisa direito. Não curto. Quando chega no outro final de semana já estou melhor e pronto, passei pelo sofrimento sem passar por ele...

Marília – Você vai ficar bem?

Frederico – Hoje é sábado, né?

Marília – Sexta.

Frederico – Graças a Deus! Vou poder sofrer por 56 horas seguidas sem ninguém me interromper. Aliás...

Frederico vai até o telefone e tira do gancho.

Frederico – Pronto! Ninguém!

Marília – E se eu quiser te ligar?

Frederico – Vai me ligar por quê?

Marília – Sei lá... se me arrepender no meio do caminho e quiser voltar.

Frederico – Ah, não! Não vai interromper a minha fossa no meio. Isso não se faz!

Marília – Mas é que não tenho certeza.

Frederico – Claro que não. Você é a mulher mais imbecil da face da terra.

Marília – Você acha?

Frederico – Eu sou ótimo, minha filha! Ótimo! Eu tiro toda a casca do pão francês para você comer só o miolo. O miolo e nada mais!

Marília fica muda.

Frederico – Agora vai nessa que está escurecendo e fossa à noite é mais sofrida, não quero perder nem um minuto.

Marília – Eu não quero ir embora e te deixar assim.

Frederico – Você já me deixou.

Marília – Mas eu não quero te deixar depois de ter te deixado.

Frederico – Não quer a melhor parte de ter me deixado? Quer me deixar e continuar comigo?

Marília – Você tirava o miolo do pão para me agradar?

Frederico – Claro! Tirar casca de pão francês é amor! Eu tinha uma empregada que fazia isso todos os dias para mim e até hoje sinto aquela entrega retumbante dentro do peito. Só a Franciele me amou de verdade...

Marília – Eu também te amei, Frederico.

Frederico – Amou nada.

Marília – Amei.

Frederico – Achou que me amou, mas o que você realmente amou foi pensar que me amava. Seu amor é egoísta, fica cheio de si mesmo quando acha que está amando e acaba não tendo tempo de amar.


Pausa.

Marília – Você vai ficar triste assim?

Frederico – Triste? Não, querida... triste é ter que comer churros, escondido, depois dos 30 anos... eu vou SOFRER entendeu? SOFRER!

Marília – Não sabia que você me amava tanto.

Frederico – Não. Não é você.

Marília – Não?

Frederico – Sofrimento tem vida própria, linda. Tem autonomia. Sofrimento é o sentimento mais independente de todos. Quando ele percebe que tem passagem, fica e não vai embora enquanto não fizer o estrago. Por exemplo: se você quiser voltar para mim agora que ele já se instaurou, eu mesmo não vou querer.

Marília – Não?

Frederico – Você acha que eu vou perder o prazer de lembrar de você como se você tivesse sido a melhor mulher do mundo??? Perder as lembranças da sua gargalhada tosca e pensar que era o a nona sinfonia de Beethovem? Você acha que eu vou perder a oportunidade de lembrar de você como se você fosse a mulher que você nunca foi? Acha que vou perder a oportunidade de achar que fui extremamente feliz contigo?

Marília – Não sabia que você não gostava da minha gargalhada...

Frederico – A questão não é essa, fofinha. Você até ri bonitinho, mas a gargalhada dessa mulher que está chegando é ópera para meus ouvidos.

Marília – Que mulher?

Frederico – A única, a melhor de todas.

Marília – Como assim? Você tem outra?

Frederico – Em poucos minutos.

Frederico tranforma o banco numa caixa e acende umas velas.

Marília – Eu vou ficar aqui, até ela chegar. Quero ver como ela é.

Frederico – Ih... vai ficar mal...

Marília – Eu não posso ir embora e deixar você sozinho com essa mulher.

Frederico – Agora já foi, Marília, ela está chegando e não tem volta.

Marília – O que você está fazendo?

Frederico – Um jantar... comprei umas almôndegas depois que desliguei o telefone contigo. Você disse que a gente precisava conversar, aí saquei que ela viria hoje mesmo. Vou fazer um macarrão à bolonhesa.

Marília – Jantar a luz de velas??? Nunca fez isso para mim!

Frederico – Para você ver como eu quero essa mulher.

Marília – Mas se você tivesse feito isso para mim, eu ficaria com você.

Frederico – Você poderia fazer o favor de ir antes que você chegue e veja que você ainda está aqui.

Marília – Não acredito nisso... você vai me trocar na mesma noite em que nós terminamos.

Frederico – Você terminou. (pausa) Vilã!

Marília – Mas você nem conhece essa mulher!

Frederico – Sabe a mania que você tem de fungar no cinema?

Marília – Eu?

Frederico – Ela não tem.

Pausa.

Frederico - Sabe o seu tique nervoso de balançar o pé direito na cama antes de dormir?

Marília – Eu?

Frederico – Também não. E tem mais: ela adora o meu macarrão à bolonhesa. Não acha sem sal.

Marília – Mas ele é sem sal, Frederico.

Frederico – Agora, por favor, saia e me deixe terminar o jantar.

Marília – Você está querendo que eu saia para poder se encontrar comigo?

Frederico – Ela também não é ciumenta como você.

Pausa. Frederico coloca música e começa a dançar.

Marília – Você está feliz.

Frederico – Como?

Marília – Está muito feliz.

Frederico – (sem jeito) Não... eu... não estou feliz, não estou, estou sofrendo como um cão dilacerado.

Marília – Eu estou sofrendo muito mais que você, pois vou ter que lidar com a culpa por ter te deixado. Já você fica livre e sem responsabilidade. Vira santo!

Frederico – Fala baixo! Se o meu sofrimento escuta essa imbecilidade, capaz de acreditar e não vir mais...

Marília – A essa altura ele já deu meia volta, não dá para esconder a sua felicidade.

Frederico – Não fala isso! Cala a boca! Ele marcou encontro e não fura. Sofrimento é um sentimento nobre, se deu palavra, não falta.

Pausa.

Marília – Ele não vem, Frederico... não vem...

Frederico desliga a música e pára por um instante como sentisse realmente que o sofrimento não fosse mais chegar.

Frederico – Isso é uma injustiça!

Marília – Não vai rolar, pode apagar as velas.

Frederico - Mas eu queria tanto... estava tão empolgado...

Marília – Fica para outra...

Frederico – Deixa de ser cruel !!!! Eu quero conhecer essa você sem todos os seus defeitos. Me ajuda!

Marília – Não posso.

Frederico – E o que eu faço, agora? Estava tão feliz de sofrer.

Marília –A questão é a seguinte: para você sofrer mesmo, talvez tenha que ficar comigo.

Frederico – Ãh?

Marília –Você só vai sofrer se eu ficar.

Frederico – Para sofrer por você, eu preciso que você, ao invés de me largar, não me largue.

Marília – Exatamente.

Frederico - Mas eu não quero que você fique!

Marília – Sem chance de dar certo.

Frederico – Então você vai ficar?

Marília – Não.

Frederico – Mas e eu? O que vai ser de mim??

Marília – Se vira.

Frederico – Eu preciso de você! Eu preciso de você porque não preciso de você! (pausa) É isso, né?

Marília – Isso mesmo.

Frederico – Então?

Marília – Então o quê?

Frederico – Fica comigo?

Marília – De jeito nenhum. Você já estava fazendo jantar para outra, não posso...

Frederico – Mas a outra sem você não é nada.

Marília – Você fala isso para me agradar, porque quer sofrer...

Campainha toca.

Frederico – Tá vendo! É ela!

Marília – Duvido...

Frederico abre a porta e um entregador de pizza entra.

Marília – Você estava fazendo macarrão e pediu pizza?

Fred abaixa a cabeça como criança.

Frederico – Eu menti.

Marília – Típico.

Entregador – 30 reais.

Fred colocando a mão no bolso.

Frederico- Ih... esqueci de sacar dinheiro. Tem trintinha, querida?

Marília pega o dinheiro como se tivesse acostumada e entrega para Fred, que passa para o entregador.

Frederico – Aqui ó.

Marília – Você pode me enganar, mas a outra não vai aceitar isso. Acha que ela vai comer pizza e pagar?

Entregador – Desculpa interromper, mas o senhor pediu mais três pizzas durante a madrugada, ainda vai querer?

Marília olha para Frederico sem entender.

Frederico – Companhia...

Marília – (para o entregador) Não. Ele não vai mais precisar de companhia.

Entregador vai embora.

Marília – Não sabe sofrer sozinho é?

Frederico – Me deixa.

Campainha toca.

Marília – Não vai abrir?

Frederico – Deve ser o seu José, marquei hora para ver os últimos gols da rodada.

Marília vai abrir. Entra uma mulher belíssima, muito bem vestida. Marília fica estática olhando a mulher. Encantada. Frederico também.

Frederico – Sabia que você não iria me decepcionar!

Mulher senta na mesa de jantar. Os dois sentam ao seu lado. Mudos.

Frederico – Você é realmente linda.

Marília – Mais ou menos. Eu jamais usaria esse batom vermelho.

Frederico – Amo batom vermelho. Mamãe usava em dia de festa. Só em dia de festa.

Mulher dá uma gargalhada gostosa.

Frederico – Não disse? Gargalhada aveludada.

Mulher gargalha mais uma vez. Marília fica emburrada.

Frederico – Te esperei tanto. Fiz um jantar especial para nós dois.

Marília – (dá uma gargalhada bem diferente da mulher e depois fala irônica) Especial, tá bom.

Frederico pega a pizza na cozinha.

Mulher – Ó meu homem! Homem mais belo de todos! Amo pizza, você leu meus pensamentos.

Frederico olha para Marília triunfante. Pausa. Mulher não se mexe.

Marília - Ela não fala? Só responde?

Frederico – Perfeita.

Frederico – Você gosta de música?

Mulher – Você gosta?

Frederico – Gosto.

Mulher – Gosto.

Frederico – Gosta de ouvir o quê?

Mulher – O que você gosta de ouvir?

Frederico – Metal.

Mulher – Eu também.

Frederico – Não acredito! Maravilha!

Mulher gargalha de novo.

Frederico – Que banda?

Mulher – A que você mais gosta.

Frederico fica parado. Marília só olhando.

Frederico – Filmes?

Mulher– Os seus preferidos.

Frederico – Lugares?

Mulher – Os que você vai.

Frederico – Esporte?

Mulher – Os que você faz.

Frederico – Não faço nenhum.

Mulher – Também não.

Longa pausa.

Marília – Bem, eu vou então... não tenho mais nada que eu possa fazer aqui...

Frederico – Espera.

Marília – O que?

Frederico Olha para a mulher que continua estática sorrindo. Frederico se aproxima de Marília falando baixo para a Mulher não ouvir.

Frederico – Ela é estranha... tô com medo...

Mulher tira uma escova de dentes da bolsa.

Marília – Ela veio para ficar. Trouxe até a escova de dentes.

Frederico – Não quero.

Marília – É tarde.

Marília se vira para sair. Frederico a pega pelo braço.

Frederico – Antes de você ir embora para sempre... me diz uma coisa.

Marília – O que?

Mulher tira um monte de coisas da bolsa.

Frederico – Por que você terminou comigo? Fala a verdade?

Marília – Por que eu sabia que ela estava te rondando e resolvi dar fim. Não agüentava mais ter ela entre nós.

Frederico – Não quero mais essa mulher.

Marília– Duvido. Você diz isso agora, mas em 2 minutos vai voltar atrás.

Fred– Nunca!

Marília– Não acredito.

Marília se vira novamente para ir embora. Frederico pega uma arma na gaveta e mata a mulher. Marília se volta para Frederico lentamente e quando vê a cena dá um belo sorriso. Entra a música Bagdá Café e os dois se abraçam. Black out.

UMA CONVERSA FRANCA de Jô Bilac

(no tempo de um ou dois cigarros)

Kid Bauhaus: Por que você não escreve mais sobre mim?

Jô Bilac: Você tem cinco esquetes, acho que já é suficiente. Dá pra montar uma peça com esse material.

Kid Bauhaus: Não quero uma peça. Acho vulgar peça de esquetes. Vulgaríssimo.

Jô Bilac: Não concordo...

Kid Bauhaus: Não fuja do assunto.

JO BIlac: E qual é o assunto?

Kid Bauhaus: Sua falta de interesse por mim. Por que? Eu sou ótima.

Jô BIlac: Eu sei disse. Eu escrevi você, inclusive.

Kid Bauhaus: Pois é. Mas eu não entendo... Tem tanta coisa que eu ainda quero fazer... Várias.

Jô Bilac: E o que você quer?

Kid Bauhaus: Ficar rica. Você sempre me escreve pobre, numa enrascada constrangedora.

Jô Bilac: E você acha mesmo que ficar rica é a saída...?

Kid Bauhaus: Escuta. Não sou essa vaca gananciosa que você pinta. Gosto de conforto. Mas quem não gosta? Mas também não gosto de trabalhar. E quem gosta? Me coloca num cruzeiro, ao lado de um moreno com olhos verdes, bebendo drinques azuis. Isso você não faz...

Jô BIlac: Ninguém está interessado em drinques azuis, Kid.

Kid Bauhaus: E no que estão interessados? Nesses seus últimos textos bunda que tem escrito?

Jô BIlac: Você não gostou?

Kid Bauhaus: Achei péssimo. Forçou a barra total. Que é isso Jô Bilac? Uma história que se passa no carnaval, uma pobreza de diálogo! E aquela outra com fotos de lixo? O que era aquilo? Eu não entendi... Você está cada vez mais dificil de ser entendido. Virou intelectual contemporâneo, é?

Jô BIlac: Você sabe que não. Tudo é só pretexto pra falar de amor.

Kid Bauhaus: Tá carente?

Jô BIlac: (risos) Não é esse o caso... Acredito no amor como força transformadora. O amor é uma fonte inesgotável de criação. O desamor também, pois na verdade não é falta de amor, é amor coagulado.

Kid Bauhaus: Amor coagulado? É assim mesmo que se escreve? Aff

Jô BIlac: Você também acredita no amor.Você traduz o amor numa forma debochada e irônica, mas sem perder o charme, que julgo ser fundamental hoje em dia.

Kid Bauhaus: E o que mais é fundamental hoje em dia?

Jô BIlac: (tragada longa no cigarro) Uma série de coisas... mas as pessoas não estão interessadas nisso, então duvido que sejam realmente fundamentais. Ou se são, são para quem? E pra ser franco, não me interessa também ficar aqui exemplificando o que eu julgo como fundamental ou não. Isso não me interessa. Em absoluto.

Kid Bauhaus: E o que te interessa?

Jô Bilac: O comportamento humano e suas manifestações possíveis.

Kid Bauhaus: Você é tão... Como se diz quando a pessoa não responde nada com muita objetividade?

Jô BIlac: Prolixo?

Kid Bauhuas: Pode ser...Mas não sei se é exatamente essa a palavra... Mas mesmo "Prolixo" , gosto de você.

Jô BIlac: Que bom. Eu também gosto de você.

Kid Bauhaus: Mentirosinho! Se gosta mesmo por que não me escreve mais?

Jô Bilac: Quero ser sincero com minha escrita. Estou cada vez mais nessa busca. Escrever o que realmente quero escrever. A escrita deve vir em mim como uma necessidade e não o contrário...

Kid Bauhaus: Objetive, temos um tempo curto.

Jô BIlac: Como eu estava dizendo, você faz parte disso. Tudo faz parte disso. Mesmo com uma encomenda de texto, ou com o compromisso de escrever toda semana aqui no site, nada é frutífero se não há amor. Desejo de. Vontade de. Não posso me condenar a isso. Sou bem jovem e acredito muito na sinceridade das relações entre as coisas. Isso tudo é só pra te dizer que não posso escrever sobre você, se não tenho vontade, ou algo realmente importante pra dizer. Importante pra mim , ao menos.

Kid Bauhaus: Você está virando intelectual...

Jô Bilac: Pelo contrário. Estou me libertando do compromisso com a genialidade e intelectualidades possíveis. isso é muito cansativo e está longe da minha realidade. Não quero dividir águas. Pretendo pagar meu aluguel com meu trabalho e enfim, realizar meus materialismos viabilizados por isso.

Kid Bauhaus: (risos) Eu também quero realizar meus materialismos. ( acende outro cigarro) Você acabou de fazer aniversário, um novo ano se inicia. O que espera disso?

Jô Bilac: Em que sentido?

Kid Bauhaus: No sentido em que julgar ser coerente com a minha pergunta.

Jô Bilac: (reflete)

Kid Bauhaus: Poderia parar de fumar... É uma boa coisa pra se esperar.

Jô Bilac: (reflete)

Kid Bauhaus: Eu estou louca pra parar de fumar...

Jô Bilac: Eu não sei exatamente o que esperar. Mas acredito na leveza como solução das problematizações humanas. Doçura e elegância também. E humor. Taí: espero rir ainda mais nesse novo ano.

Kid Bauhaus: Minhas histórias são ótimas pra isso.

Jô Bilac: Eu sei.

Kid Bauhaus: Então, em outras palavras você quer dizer que nesse novo ano vai escrever mais sobre mim.

Jô BIlac: Hum....... Sim, de certa forma.

Kid Bauhaus: Da forma certa.

Jô Bilac: Você é muito eloquente.

Kid Bauhaus: E você é muito escorregadio. Fale-me mais do misterioso Jô Bilac.

Jô BIlac: Não tem muito mais o que falar. Não tem mistério. Talvez um pouco de timidez com o público no geral, mas aí, escrevo personagens como você: que falam tudo por mim. Existe uma grande exposição nesse caso. Kid Bauhaus é muito mais interessante que Jô Bilac.

Kid Bauhaus: Jô Bilac é nome de estrela.

Jô Bilac: Já me disseram isso.

KId Bauhaus: Você se considera uma estrela?

Jô Bilac: Todos nós somos, acredito. Mas não nesse sentido pejorativo que imprime essa expressão. Estrela é uma palavra linda, mas que se esgota em si, quando vazia de sentido real. Me considero trabalhador e pra mim isso é mais concreto.

Kid Bauhaus: Por que isso tudo?

Jô Bilac: Se refere a entrevista?

Kid Bauhaus: É.

Jô Bilac: Não sei... Pra responder as perguntas que me fazem com certa frequência... refletir publicamente... Ou porque não pensei em nada, estou viajando e escrevo isso no computador dos outros... Não consegui pensar em nada melhor... Talvez seja esse o sentido. Mas você busca isso?

Kid Bauhaus: Sentido nas coisas?

Jô BIlac: Sim.

Kid Bauhaus: (reflete) Hum.........ás vezes ...cada caso é um caso. Vamos terminando por aqui? Já está longo.

Jô Bilac: É. Minha amiga já está uma fera, pois ela quer almoçar e vamos _ quem sabe_ conhecer um templo aqui no Sul.

Kid bauhaus: Legal. Inspire-se. É tudo o que posso lhe desejar.

Fim.

REVISÃO DE VALORES PARA OS MOMENTOS DE CRISE PROFUNDA de Felipe Barenco

Uma mulher perdida entre muitas folhas. Está bastante concentrada no que faz, lendo e relendo os papéis, fazendo anotações, riscando uns itens, acrescentando outros... Ignora solenemente a platéia no início, mas aos poucos percebe que está sendo observada. Vai ganhando intimidade com o público até tratá-los com a mais profunda cumplicidade.

(Lendo as anotações) "Medo de sapo"... claro. "Pânico de mariposa"... com certeza. "Horror de barata"... não, terror de barata. Ai, só de pensar me dá nervoso. O que será que é maior: pavor, terror ou horror? Eu nunca vi uma língua pra ter tanto sinônimo. (Risca e corrige) Pavor, “pavor de barata como nunca antes”. (Fala com o público) Eu tô fazendo uma lista... peraí. (Risca o último item) Essa aqui eu fechei... (Público) Eu tô fazendo uma lista que funciona como uma espécie de terapia, que eu mesma batizei de “Revisão de valores para os momentos de crise profunda”. Aconselho todo mundo fazer uma vez na vida, é bem simples, não dá trabalho nenhum. Você pega várias folhas em branco e uma caneta... Mas tem que ser caneta, não pode ser lápis. Depois eu explico porquê.

Quer dizer, antes de falar dessa lista, preciso contar como eu cheguei nela. Ah, e se alguém tem problema com auto-ajuda pode ir embora, ninguém é obrigado a ficar. Meu ex-marido falou que "tem um provérbio chinês que diz que tudo que você acumula na vida não pode passar da sua altura e da sua largura". Meu ex-marido era alto e gordo. Ex-jogador de basquete e atual rei-momo. E colecionador de provérbios chineses. Enfim... Tô falando isso porque como uma boa mulher contemporânea... Reparem nas sutilezas do meu discurso, que "mulher boa" é mulher gostosa, "boa mulher" é dona de casa. Eu, que outrora já fui uma mulher boa, hoje intitulada boa mulher, resolvi fazer um inventário para mim mesma. Deixar aí o meu testemunho, o meu testamento, o meu atestado de burrice pra porra da humanidade - e então reparem novamente na sutileza do meu discurso_ que humanidade aqui é meu pai, minha mãe, meu ex-marido, meu amante, porque admito, eu tive amante sim e quem é que não teve? Admito sim, ué, não vamos ser hipócritas - humanidade aqui inclui até você Lili! Lili é minha pincher.

Vocês me desculpem o egoísmo, mas eu acho importante esclarecer, porque sempre tem o espertinho que depois vem apontar o dedo na tua cara: “Você falou isso”, “Você falou aquilo”, “Você está querendo dizer que...”. Não só estou querendo, como afirmo: humanidade PRA MIM é todo o universo de pessoas que ME rodeiam. Ok? Acabei de criar esse conceito de "Humanidade particular", que é uma espécie de bolha. Pra ninguém depois dizer que eu tô sendo injusta. Porque a minha vontade mesmo, nessa altura do campeonato, era mandar todo mundo tomar no cu sem critério. Mas não... eu mais uma vez tô tentando ser justa.

(Pega uma folha em branco e uma caneta) Vamos à lista... (Não consegue se concentrar. Precisa falar) Tô puta já. (De má vontade) Também não vou ficar explicando mais de uma vez não, presta atenção que eu não vou repetir. "Ai, eu não entendi... não entendi". Não entendeu, foda-se! Que eu não tô aqui pra ser babá de ninguém. (Ignora o público e volta a fazer as listas. Come um pedaço de chocolate com ansiedade e curiosidade. Come com prazer. Surpresa) Até que hoje em dia eu gosto de chocolate meio amargo! Deve ser porque eu me tornei uma mulher meio-amarga também. (Público) Quando eu era mais nova eu odiava chocolate meio amargo, mas como era mais barato e minha mãe fazia ovo de páscoa em casa - ai, que trauma ganhar ovo caseiro! Todas as minhas amigas ganhavam uns ovos lindos, enormes, uns embrulhos tão chiques... Ovo de marca! (Brilho nos olhos) E de chocolate branco! (Água na boca feito criança) Ovo de marca de chocolate branco! (Público) A inveja é branca também, tá? (Criança) Ovo de marca de chocolate branco! Huuuum, que delícia! (Voltando à realidade) E eu com um ovo caseiro esfarelento de chocolate meio-amargo. Que merda, hein... Vocês me dão licença, eu vou abrir uns parênteses, eu lembrei de um negócio que vai fazer todo sentido depois. Eu sou geminiana, então eu tenho o péssimo hábito de ir pegando atalhos no que eu tô falando e me perder no assunto e não conseguir voltar depois. Eu tô falando uma coisa com vocês, mas já tô ansiosa pra falar o outro assunto que veio na minha cabeça... porque o próximo assunto sempre parece mais interessante e então eu não concluo nada que eu tô dizendo. Enfim, não esqueci da tal lista, mas antes eu vou abrir parênteses... não, parênteses não é aspas, porque aspas eu acho cafona. Meu ex-marido faz aquela coisa brega de ilustrar aspas com os dedinhos (Ilustra aspas com os dedinhos) Fulana ficou "rica", né. Péssimo.

(Muda de idéia) Deixa pra lá, depois eu abro parênteses. (Pega a folha e caneta) Tá com a folhinha em branco, a caneta... não pode ser lápis, já falei. Você vai fazer uma lista de todas as coisas... (Interrompe novamente) Antes, só pra não perder, senão depois eu esqueço, vocês estão me olhando aqui bonitinha, arrumadinha, gostosinha, mas eu acabei de sair de uma depressão cavernosa... e então reparem na estranheza do meu discurso, depressão cavernosa não é qualquer depressão, é uma espécie de coma mental, um infarte da auto-estima, um câncer na alegria de viver. Amelie Poulain de cu é rola! Hahaha! É minha gente, eu só vim a falar com 7 anos de idade, minha família tava toda preocupada, "que essa menina não fala, será que o gato comeu a língua dela?" A humanidade perguntando. Pior que o gato, o Nestor, comeu minha língua mesmo quando eu tinha 2 anos... Eu era um bebê chorão, chorão, chorão... Era um sinal do mar de lágrimas que ia ser minha vida. Eu chorava tanto, dois anos sem parar, o Nestor, o gato, ficou puto e pulou dentro do berço e nhack! Hahaha! Comeu minha língua! (Vai do choro de bebê a uma crise de riso incontrolável) Vocês tão rindo... (Põe a língua pra fora) Ó, meu primeiro trauma. Mas como eu tava falando... o gato comeu minha língua e fiquei 7 anos muda, não é cega porque geminiano é observador, muda... Mudinha da Silva! Até o dia que eu resolvi abrir a boca pra falar pra humanidade tudo que eu pensava:

"A senhora é uma escrota, que eu nunca pedi pra ter nascido. (Berra com a cachorra) Quieta, Lili! (Retoma) Se eu soubesse que a humanidade era assim, não tinha nem vindo. Mas não, não... assim como a minha tia, senhora sua irmã, vocês duas são todas umas egoístas que jogam uma infância no lixo por causa de uma gozada. (Berra) Lili! (Retoma) Vocês são muito irresponsáveis, porque o mundo é uma bosta e vocês fizeram questão de me trazer pra esse inferno! E não adianta... o quê? O que é, hein! Não vem com esse papinho de inveja branca, não, porque inveja é inveja. Ponto final. (Berra) Cala a boca, Lili! (Esgotada) Pai, eu vou matar essa cachorra, manda ela parar de latir. Lili! Sua pincher escrota, não tem utilidade nenhuma, só come e caga, come e caga, come e caga! Eu tô cagando pra vocês... e não vem com proverbiozinho chinês não, porque se você quer saber, eu te traí com o chinês dono da pastelaria... É... éeeeeeeeeee... tá chocado? Hein! Fui lá e dei pra ele! Não tinha como pagar o pastel e o caldo de cana, eu dei! Foi ótimo! E eu pego quantos atalhos eu quiser, porque isso aqui não é vida, não! Isso aqui é uma rua sem saída! E enfia esse ovo de páscoa meio-amargo no cu! Pode me acusar de racista, mas eu prefiro sim, eu prefiro chocolate branco!"

(Um poço de calma e doçura) Foi isso que eu falei pra humanidade. Também meu povo, uma geminiana que fica 7 anos sem falar, quando abre a boca dá nisso. (Consigo) Onde eu tava mesmo? Sapo, barata, provérbio, testamento, humanidade, geminiana, ovo de páscoa, depressão cavernosa, Nestor... ah, a lista! (Público) Papel e caneta em punhos. Cada uma faz uma lista de todas as coisas que acredita gostar e não gostar na vida. (Consigo) Será que eu ainda tenho medo de altura? (Anota no papel) Tenho... (Público) Não sei, eu fiquei com impressão que eu passei a gostar de um monte de coisa que eu odiava... e amar outras tantas que eu enchia a boca pra dizer "Eu, de jeito nenhum!" (Lê) "Amo Backstreet Boys..." Nossa, definitivamente não. "Paulinha é minha melhor amiga." É... não, não, hoje em dia ela nem fala comigo direito! Falsa. (Platéia) Me apaguei a umas coisas do passado e não percebi que eu mudei. Minha personalidade ficou prisioneira dos meus próprios gostos. (Listas) "Eu odeio Mc Donalds". Mentira, eu amo... por mim comia lá todo dia. "Adoro Los Hermanos", Adoro não, hoje em dia eu gosto. "Odeio camarão", sim... "Odeio jiló"... é, até que hoje em dia eu como...

(A mulher distrai-se com as listas. Ignora a platéia aos poucos até perder-se em si mesma novamente, como no início da cena)

FIM

(Público) Ah, eu esqueci de falar... O lance da caneta, que eu falei que não pode ser lápis. É fofo, tipo Hello Kid. O que você escreve com lápis pode apagar, caneta não. Mesmo que risque, tá ali, um borrão, uma rasura, um risco na folha em branco pra você não esquecer. Pro resto da sua vida.

*Dedicado a atriz Camila Nhary.

O FUTURO DE THIAGUINHO de Camilo Pellegrini

(Trecho de SHAMPOO)

A campainha toca, as imagens são da kitinete de Cascavel. Ele está deitado no chão. Thiago Gogo-boy grita de fora.

THIAGUINHO (De fora.)- Cascavel!!!

CASCAVEL- Quem é??? (Discretamente, furtivo como um gato, desliga a televisão que exibe chuvisco.) Quem toca a minha porta??? Serão credores??? Será o rapaz das casas Bahia querendo de volta a minha tevê???

THIAGUINHO (De fora.)- Abre pelo amor de Deus??? Cascavel!!!

CASCAVEL- Ouço súplicas!!! Esta voz eu reconheço!!! Este alguém se ajoelha a minha porta, deseja meus conselhos!!! Entra, ó mortal! A porta está aberta!!!

THIAGUINHO- Cascavel, sou eu.

CASCAVEL- Você. Eu vejo. Thiaguinho. Outrora um amigo querido. Quase um irmão. E agora apenas um estranho, suado e extremamente mal vestido, porém belo. Adentra minha sala e rasteja por perdão. Você sabe que horas tem?

THIAGUINHO- Quatro da tarde. Te acordei?

CASCAVEL- Tá na hora de levantar mesmo.

THIAGUINHO- Eu preciso de ajuda.

CASCAVEL- Ha! Sabia! Como é doce o sabor da vingança!!! Ajoelha, incrédulo! Beija a minha mão!

THIAGUINHO- Por favor, Cascavel. Eu trouxe um presente. (Entrega um pequeno saquinho com cocaína.)

CASCAVEL- Hum... Eu aceito o seu presente. Me dê. Você está cheio de areia!

THIAGUINHO- Foi na praia que tudo aconteceu!

CASCAVEL- Olha só. Quando sair daqui você vai varrer essa nojeira. Francamente, me ignorar por três dias inteiros! Não atender meus telefonemas! Você é o quê? É um monstro?

THIAGUINHO- Mas bicha, porque você precisa ser tão mentirosa?

CASCAVEL- Eu não menti!!! Não me chama de mentiroso!!! Não menti!!! Desumano!!! Tudo bem, eu menti um pouco, sim, e daí? Todo mundo mente um pouco, oculta. Tão normal.

THIAGUINHO- Então conta a verdade, assim, pra dar uma variada.

CASCAVEL- Como todos sabem, depois de uma viagem a Brasília, voltei para o Rio de Janeiro, essa cidade linda, com poderes premonitórios. Sim! Premonição! Telepatia! E um pouco, eu estou desenvolvendo, de psicocinese. (Tenta a psicocinese. Desiste.) Não, a psicocinese eu ainda não tenho. Todos acreditavam que o ar do cerrado e o intenso fluxo energético que corre por aquelas bandas tivesse despertado em minha pessoa poderes inimagináveis, escancarando de vez meu terceiro olho.

THIAGUINHO- Mas a realidade foi bem diferente. Sua mãe me contou tudo. Me ligou pedindo desesperada pra que você volte a morar com ela em Goiânia.

CASCAVEL- Não voltarei praquela terra de desdentados jamais!!! Eu odeio tudo que vem daquela lama. Não repita mais o nome desta cidade.

THIAGUINHO- Ela me contou tudo. Tudo o que realmente aconteceu.

CASCAVEL- Então vamos ouvir.

No telão - A origem de Cascavel.
VOZ - Era uma vez um doce menino chamado Cascavel que adorava drogas e festas. Apesar de não ter onde cair morto, era sempre convidado para as badalações por ser uma presença agradabilíssima nas noitadas, graças a seu veneno. Certa noite, ele e mais quarenta e nove amigos, resolveram mais uma vez enfiar o pé nas substâncias ilícitas. Não estavam satisfeitos com a noite anterior e com outras tantas antes desta. Numa festinha privê resolveram tomar tudo! E tomaram tudo. No dia seguinte, dos cinquenta convidados, apenas Cascavél respirava. A quantidade de substâncias misturadas que matara os seus amigos, incluindo aí o filho do ministro, em seu corpo provocou um efeito inesperado. Uma mutação em seu cérebro. Um sexto sentido.

CASCAVEL- Tá! E daí! Grande coisa! Eu não morro de tóxico, meu amor! Posso tomar o que eu quiser. Cocaína, heroína, que delícia! Tomo tudo! Eu sou forte, crack eu fumo também de vez em quando. E ainda por cima ganhei poderes com isso. Era isso que você queria ouvir? Tá feliz agora?

THIAGUINHO- Você escondeu essa história toda! Ou eu não tenho razão? Fazendo papel de besta porque eu sempre te contei tudo.

CASCAVEL- Caro Thiaguinho. Querido. Anjo meu. Olha pra mim. Há coisas que eu faço que eu não conto nem pra mim mesmo.

THIAGUINHO- Mas, poxa vida! Gastei horas e horas da minha vida te pedindo pra parar com tanta droga, gente. Tudo isso pra nada? Muita sacanagem.

CASCAVEL- Como assim?

THIAGUINHO- Não sabia que você é café com leite! Tinha que ter me avisado.

CASCAVEL- Você ficou foi morto de inveja.

THIAGUINHO- Te pedi tanto pra cheirar menos. Briguei com você tantas vezes. Tantas rusgas que tivemos a troco de nada. Um desgaste à toa. Como é triste.

CASCAVEL- Triste é morrer, meu amor. Eu tô aqui na tua frente! Morreu quarenta nove? Antes eles do que eu!

THIAGUINHO- Nossa! Que horror. Você não tem coração.

CASCAVEL- Vamos logo ao assunto?

THIAGUINHO- Falando em coração, eu acho que eu estou amando.

CASCAVEL- Ah, é? E é por isso que você está aqui?

THIAGUINHO- Sim.

CASCAVEL- Veio na minha casa em busca de amor.

THIAGUINHO- Sim... eu acho.

CASCAVEL- E eu pensava que era urgente.

THIAGUINHO- Então me devolve o presente.

CASCAVEL- Calma! Eu não disse que não ia te atender. Senta aí, fica bem cômodo. Então vamos falar de amor.

THIAGUINHO- Vamos. Vamos falar de amor.

CASCAVEL- O amor é tão gostoso pra quem ama, né? É passado, presente ou futuro que a senhora quer saber?

THIAGUINHO- Futuro. Quero saber se vou encontrá-lo.

CASCAVEL- Então maconha. Ainda bem. Se fosse passado, tinha que tomar uma bala, ia demorar uma hora pra bater. Apesar de que tem uma aí bem boa ali no armário. Sabe daquelas que começam bem suaves aí dá o estalo, bem perto da onda já. Sabe? Não sabe não? Mas pra futuro é maconha mesmo que funciona. Tenho até um beckão aqui guardado no meu bolso, já apertado pra esse momento. Eu sabia que você vinha já. Afinal, sou médium.

THIAGUINHO- E o pó, serve pra quê?

CASCAVEL- O pó serve pra eu me sentir importante. Vamos lá. (Cascavel ascende o baseado e brinca com a fumaça no ar, tragando vez por outra.) Vem Apolo, joga o teu bafo em meu peito. Esquenta meu corpo. A fumaça do teu suspiro. Conta no meu ouvido. Conta os segredos do caminho.

THIAGUINHO- Vê alguma coisa???

CASCAVEL- Eu vejo... Eu vejo um homem bonito, todo de preto. Na mão, um berimbau azul.

THIAGUINHO- É ele! Só pode ser! O berimbau!

CASCAVEL- Ele toca um berimbau azul? Olha onde você tá se metendo! Essa galera aí, não sei não!

THIAGUINHO- Continua Cascavel!

CASCAVEL- Vocês se encontram! Se encontram hoje! Ele te vê de longe...e sorri!

THIAGUINHO- Ele sorri!!! Hoje ainda!

CASCAVEL- Ele vem na sua direção!!! Vocês se olham nos olhos!!! Há definitivamente um clima de romance no ar.

THIAGUINHO- Mas e aí??? Ele vem na minha direção e???

CASCAVEL- Um beijo acontece!!!

THIAGUINHO- Um beijo!!!

CASCAVEL- E então... você morre.

(Pausa.)

THIAGUINHO- Morre? Eu... Como assim, eu morro?

CASCAVEL- Não sei. Sua cabeça é decepada.

THIAGUINHO- Minha cabeça é decepada?

CASCAVEL- Eu vi sua cabeça arrancada do teu corpo, zunindo pelo ar e atingindo o chão.

(Pausa. Cascavel, que estava apático durante a revelação da morte do amigo.)

T(Começa a rir.)- Você tá brincando, né? Cascavel? Hahahahahaha!!! Eu ainda caio nessa! Bicha escrota! Bicha mentirosa!

C (Apático.)- Claro. Estou.

THIAGUINHO- E eu quase acredito! Eu devia dar na tua cara!

CASCAVEL- Devia.

THIAGUINHO- Cara de pau! Hahahahaha! Que susto! Me olhando no olho! Você não presta mesmo!

C (Assombrado.)- Thiago, aceita um café?

THIAGUINHO- Claro. Mas e o menino? O menino do berimbau azul? Você viu o berimbal azul, ou não viu?

CASCAVEL- Não, o menino do berimbau você vai encontrar sim. O menino você vai. Isso sim. Isso eu vi sim, o menino, rapaz, sei lá. Vai encontrar.

THIAGUINHO- Eu vou encontrá-lo! É tudo o que eu quero!

CASCAVEL- Vou fazer um café bem forte.

Continua......

 

 

 

Interessado em algum texto? Fale diretamente com os autores ou mande um e-mail para contato@dramadiario.com