Trecho retirado da peça A DAMA DO FASHION WEEK
PERSONAGENS:
Marguerite
Gauthier
– Atriz famosa, vencedora do prêmio A Dama do Fashion Week, graças
a Sarah Bernhardt, sua fada madrinha e musa inspiradora, será a
melhor sempre, porém sua saúde está debilitada. Com medo da morte,
trafica órgãos, busca desesperadamente um pulmão esquerdo
Mordomo
– James, amigo confidente de Marguerite.
Armand
– Ator.
Finge ser afetado e sofisticado diante de Marguerite, mas na verdade
adora o submundo; serial killer de prostitutas, ex-príncipe de baile
de debutantes. Cliente antigo de Daisy, não consegue esquecê-la.
Repórter
– Um clássico da inconveniência...
(Marguerite
encontra Armand no camarim, os dois conversam sobre amenidades. Repórter
entra no início da cena disfarçada.)
Armand
– Com
licença, dona Marguerite.
Marguerite
– Olá,
querido! Que maravilhoso encontrá-lo! Como você está?
Armand
– Estou
ótimo! E você, absoluta como sempre!
Marguerite
– Você
é um gentleman! É impressão minha ou você está com um aspecto renovado?
Armand
– Estou
renovadíssimo, querida, só o meu queixo custou uma fortuna!
(Os dois riem)
(Marguerite
ri, o celular dela toca e ela fica melancólica)
Marguerite
– Alô?
Alô? (Marguerite irritada fica sem ar e desliga
o telefone nervosa)
Armand
– O
que foi?
Marguerite
(olha para o amigo)
– Não posso sair de casa de mau humor! Esses inconseqüentes descobrem
o meu telefone, me atormentam, me perturbam. Não sei como eles ousam
se denominar fãs.
Armand
– Não
fique assim, querida...
Marguerite
– Ai,
que situação mais desagradável! Não se tem mais respeito pela pessoa
humana! Pessoas insolentes! Invadem a nossa privacidade, destroem
nossa concentração.
Armand
– Realmente!
Marguerite
– Eu
penso sempre no pior, um dia essas pessoas não vão se contentar somente
com a minha voz, elas vão me seguir, invadir a minha casa. Nunca se
sabe, é muito difícil reconhecer um maníaco na multidão. Um homem
comum pode ser um serial killer! Ele pode cortar a nossa cabeça, nos
obrigar a beber veneno... Imagina, amanhã de manhã, nós dois acordando
juntos numa banheira de gelo com rins a menos. E esse homem pode estar
no meio de nós, pode entrar agora por essa porta.
(Mordomo
aparece. Marguerite e Armand gritam.)
Mordomo
– A senhora me chamou?
Marguerite
– (tosse, fica sem ar) James, querido você quase me
mata do coração!
Mordomo
– Me desculpe. A senhora precisa de alguma coisa?
Marguerite
– (recuperando-se do susto)
Preciso, querido, preciso ter pulso, preciso de ar, preciso da minha
vida novamente!
(Repórter
aparece tirando fotos, James tira a repórter da cena, e sai)
Marguerite
– Essa
cidade está terrível!
Armand
– Está
péssima.
Marguerite
– Não
se pode mais confiar em ninguém. (tosse)
Armand
– Vou
fazer uma confissão: eu tenho pânico de seqüestro!
Marguerite
– Jura?
Armand
– Sinto
urticária quando me afasto da zona sul! Eu, um homem fino, amordaçado
num banheiro mofado da baixada?!
Marguerite
– Ai,
que pesadelo!
Armand
– Por
esses e outros motivos eu estou fazendo análise. Carro blindado, segurança,
dublê de corpo, esses artifícios para driblar a violência me estressam...
Marguerite
– Vamos
falar dos nossos negócios. Parece que você tem um presente para mim?!
Armand
– Um
presente?
Marguerite
– Sim,
um presente.
Armand
– A
sua encomenda... Eu... Esqueci no porta-malas do carro... ou no avião...eu...
Eu perdi!
Marguerite
– Não
acredito! Não pode ser! Eu estou cercada de incompetentes! Que inferno!
Quantas, quantas mercadorias eu vou ter que perder graças a má vontade
dos meus empregados? Bando de desleixados! Estragam o material! Eu
vou vender o quê? Vocês perdem a mercadoria, estou farta! Eu ofereço
qualidade no meu serviço! Pago uma boa comissão! Mas, vocês querem
a minha ruína! Querem me destruir!
Armand
– Eu
posso conseguir outra mercadoria!
Marguerite
– Você
só arranja coisa estragada, vencida!
Armand
– O
que é isso... eu...
Marguerite
– É
isso mesmo! Parece que não aprende!
Armand
– Eu
procuro sempre fazer o melhor.
Marguerite
– Ah,
procura? Não parece. Quais foram as últimas mercadorias que você trouxe?
Armand
– Dois
fígados.
Marguerite
– Um
com cirrose o outro com hepatite.
Armand
– Um
coração.
Marguerite
– Fora
do gelo, estragado.
Armand
– Dois
rins.
Marguerite
– Com
pedras, pareciam duas maracas.
Armand
- Um estômago.
Marguerite
- Cheio
de gastrite e úlcera, um horror! E o pulmão que eu te pedi? Você quer
que eu morra?!
Armand
– Não!
Marguerite
– Não
parece, você só me dá aborrecimento! Eu tenho uma mancha no pulmão
esquerdo, a cada desgosto ela aumenta! Todos os dias, sou obrigada
a acordar com manchas de sangue no travesseiro! No palco, todos ficam
impressionados com a minha falta de ar. Tantos pulmões aí no mundo,
e eu apodrecendo!
Armand
– Hoje
em dia está muito difícil encontrar um pulmão saudável!
Marguerite
– Claro!
Aposto que você só procura em puteiro! Que mania horrorosa, tanta
mocinha direita querendo namorar e você freqüentando esse lugar nojento!
Já parou de matá-las depois que pede em casamento?
Armand
– Vamos
mudar de assunto, por favor?
Marguerite
– Mês
passado gastei uma fortuna com a polícia. Pensaram que você era um
serial killer, até eu convencê-los de que era uma brincadeirinha eu
gastei uma nota!
Armand
– Mamãe!
Marguerite
– Fala
baixo, comigo! Você custou muito caro, comprar uma criança alemã é
uma fortuna, sabia?! (discussão em alemão - grammelot)
Marguerite
– Mamãe comprou você com tanto carinho, você era bibelô mais
bonito da decoração da sala! Eu cuidei de você meu bebê precioso,
meu principezinho albino!
(Marguerite
e Armand
abraçam-se)
Marguerite
– (pausa)
Por que você não é como os meninos da sua idade, meu filho? Vai fazer
baile de debutante, você gostava tanto!
Marguerite
– Está
bem, esquece! Não quer fazer não faz, não precisa se aborrecer. Agora
promete que vai ser bonzinho! Vai conseguir um pulmão para mamãe,
não vai?!
Armand
– Vou
sim, mamãe!
Marguerite
– Assim
que eu gosto! Agora pára de me chamar de mãe, alguém pode entrar.
Armand
– Certo.
Do que nós falávamos mesmo, querida?
Marguerite
– Não
sei, não lembro!
Armand
– Detesto
discutir. Estou fatigado!
Marguerite
– Tira
uma soneca, querido.
Armand
– Não consigo, essa violência urbana me dá insônia.
Marguerite
– Ah,
eu conheço uma tática infalível!
Armand
– Qual?
Marguerite
– Ligar
a TV. (Daisy aparece na TV)
Armand
– (suspira olhando Daisy) Linda!
Marguerite
– O
que você disse?
Armand
- Que
ousadia!
Marguerite
- Agora eu tenho uma sucessora! Insolentes (sente falta de ar,
cai nos braços do A)! Ai, eu sinto a mancha do meu pulmão
esquerdo cada vez maior!
Armand
– Acalme-se!
Eu vou conseguir um pulmão novinho!
Marguerite
– (recompondo-se) Você disse que está difícil conseguir
um pulmão saudável.
Armand
– É
difícil, mas não impossível!
Marguerite
– (afetada) Eu não quero um órgão de uma qualquer, quero
o pulmão dela! O pulmão de Daisy! Ela não será apenas minha sucessora,
será um pedaço de mim!
Armand
– O
quê?
Marguerite
– Está
decidido! Ninguém atravessa o caminho de Marguerite! Eu prometi a
Sarah Bernhardt que seria a melhor sempre, e assim será!
Armand
– Ela
é uma qualquer, uma mosca, coitada!
Marguerite
– Obedeça!
Armand
– Como quiser.
Marguerite
– Agora
saia, I wanna be alone!
Armand
– Au revoir, Marguerite!
FIM