O PÓS-GUERRA de Rodrigo Nogueira

Rio de Janeiro, ano de 2098. A cena se passa no período depois da guerra entre os traficantes de morros e o poder público.

Dois homens numa mesa numa calçada. Duas taças de vinho e algumas garrafas. Eles conversam.


1: O chileno é muito bom.

2: É suave né?

1: Muito.

2: Não deixa muito resquício.

1: Resquício?

2: Quer dizer, resíduo.

1: É por isso que é suave.

2: Exatamente.

1: E é exceção entre os sul-americanos.

2: Ah, sem dúvida, sem dúvida alguma.

1: O brasileiro, por exemplo, tende a ser sempre bem encorpado, forte.

2: É. Mas em compensação não é tão rascante quanto o argentino.

1: Ah, não. O argentino é o mais.

2: Poxa é uma pena a gente não ter nenhum Europeu hoje. (cheira uma carreira de cocaína).

1: Esse é qual?

2: Boliviano.

1: Hmmmm. Acho que vou dar um tempo. Boliviano me sobe à cabeça muito rápido. Mas sem
dúvida é o melhor em sabor.

2: Você acha? Prefiro o venezuelano.

1: Não... O pó venezuelano é muito fraco.

2: Mas em compensação tem sabor.

1: É, mas o boliviano pra mim reúne todas as qualidades dos sul-americanos. Ele é encorpado como o brasileiro, rascante como o argentino e não deixa resíduos como o chileno...

2: É verdade.

1: E tem sabor.

2: Acho que você tem razão, sabia?

1: To dizendo.

2: Experimenta esse da Califórnia.

1: Da Califórnia não.

2: Ah, pelo amor de Deus. Você não é daqueles que tem preconceito com cocaína da Califórnia, né? Por favor.

1: (cheira) Nada demais.

2: Preconceito.

1: Da próxima vez a gente tem que comprar um Europeu. Não precisa nem ser francês, mas um italiano já levanta o nível, né?

2: Ta certo. Ih rapaz, olha a polícia!

1: Ai meu Deus. Esconde, esconde, esconde!

(Eles escondem as garrafas de vinho)

2: Tudo bem seu guarda.

Guarda: Oba.

2: Vai um tequinho, aí?

Guarda: Não, obrigado. To de serviço, meus amigos.

( um deles esbarra na garrafa)

Guarda: Que barulho foi esse?

2: Não sei não, seu guarda.

Guarda: Vocês por acaso não estão consumindo nenhuma droga ilícita, não né?

2: Claro que não seu guarda. Estamos só dando nosso tequinho aqui.

1: Por favor, seu guarda. Nós somos apreciadores profissionais de pó. Não vamos estragar nossa degustação com nenhum entorpecente que vá interferir nos sabores e efeitos da cocaína.

2: Exatamente.

Guarda: Olha aqui, eu não quero problema não hein. Seu eu souber que vocês estão consumindo qualquer tipo de bebida alcoólica, uma cervejinha que seja, vai todo mundo em cana.

1: Por favor.

(guarda sai)

1: Que absurdo.

2: Será que um dia a gente vai poder tomar um vinhozinho em paz?

1: Difícil, meu amigo. Difícil.

O(A) TODO(A) PODEROSO(A) de Renata Mizrahi

(Hélio está no terraço da torre do Rio Sul - 40 andares - prestes a se matar.)

Hélio: Deus, eu sei que não terei perdão por esse ato, mas mais vale o inferno após a morte do que ser operador de telemarketing em vida! Adeus mundo cruel!

(Hélio vai se jogar, de repente sente uma mão puxando-o de volta. Quando ele vê quem fez isso, dá de cara com Rafa, um colega de trabalho vestido pateticamente de anjo.)

Rafa: Não faça isso, meu querido amigo, não se atire por causa de uma besteira.

Hélio: Rafa, por que você tá vestido assim?

Rafa: Pra dar mais credibilidade aos meus argumentos.

Hélio: Não tem jeito, Rafa. Minha vida tá uma merda. Tô sem mulher há mais de 9 anos.

Rafa: Que merda!

Hélio: Trabalho como operador de telemarketing há 8 anos sem nunca ter sido promovido.

Rafa: Que merda!

Hélio: Divido um conjugado com 3 senhoras esclerosadas, que pensam que eu sou o Sílvio Santos!

Rafa: Que merda!

Helio: E o pior: Eu tenho espinhas no nariz!!

Rafa: Que merda!

Hélio: Eu sou um erro, uma aberração, um equívoco da humanidade. Se eu fosse o cocô do cavalo do bandido, estaria de bem com a vida, mas nem isso! Nem isso! Adeus!

Rafa: Espera! Não deixe que esses pequenos probleminhas te façam chegar no fundo do poço. Olhe pra mim. Eu também sou um operador de telemarketing e não tenho mulher.

Hélio: Pula comigo.

Rafa: Mas Hélio, eu tenho algo melhor, que supera tudo!

Hélio: Eu sei, Rafa , eu já tentei. Meu organismo não aceita drogas. Eu ponho tudo pra fora.

Rafa: Não, não estou falando disso. Estou falando da espiritualidade! Eu encontrei o caminho espiritual.

Hélio: É isso que estou tentando fazer. Vou encontrar o caminho para virar um espírito.

(ele vai se atirar, mas na hora Rafa mostra um livro pra ele)

Rafa: Olhe, Hélio. Descobri o significado do seu nome! Sol, Hélio. Seu nome significa Sol, nosso grande astro, o grande rei, o todo poderoso.

Hélio: Não funcionou! Adeus!

Rafa: Luz! Você precisa encontrar a Luz que existe dentro de você, Hélio. A Luz está por trás de tudo. (ele pega uma vela e acende) Olhe, tome. Vai, Hélio, segure, não tenha medo. Coloque seu dedo nessa chama que te ilumina. Vai, Hélio. Coloque, não tenha medo. Viu? Não queimou. E sabe por que não queimou? Porque o poder da mente sobre a matéria sempre vencerá , até os dias em que o Messias, o salvador, limpará da Terra almas circunstanciais liberadas para a congregação divina.

(Silêncio. Hélio, um pouco emocionado com as estranhas palavras de Rafa, vai dar a mão a ele, mas desiste)

Hélio: Não funcionou, adeus.

Rafa: Hélio! Veja! (ele canta e sapateia)
Canção: "Não seja medroso, o futuro pode mudar. A vida é linda e você até pode cantar. És belo, és jovem, veja quanta aptidão. Sorria que as espinhas um dia partirão. Se não tem mulher, compre uma boneca inflável e perceba o quanto isso pode ser amável. Se não gosta do emprego, compre palavras cruzadas e leve a vida como uma piada. Olhe pra mim, eu sou um grande exemplo de um ser espiritual e com talento!" (ele sapateia como num musical. Hélio chora de depressão)

Hélio: Ó Deus! Até isso você coloca na hora da minha morte! Por que, hein? Qual o significado de tudo isso? Qual o significado de tudo isso?

Rafa: Mulher. Tá vendo essa foto? (ele mostra a foto da Marilyn Monroe) Essa é a minha prima solteira e... e... e...

Hélio: “E” o quê? Desembucha!

Rafa: Ela te quer, Hélio! Ela me disse com todas as letras e aqueles lábios carnudos. “Eu que-ro o Hé-lio.”

Hélio (um pouco animado): Sério? Como ela me conhece?

Rafa: Eu falei de você pra ela, e ela ficou MUITO excitada, muito.

Hélio (um pouco mais animado): Prova! Prova!

Rafa (no celular): Eu já estou ligando pra ela... (voz sexual em off da prima de Rafa) Escuta.

Voz: Alô? Priminho, cadê aquele tesudo do Hélio? Eu quero dar pra ele agora, tirar a roupa dele com os dentes. Arranhar ele todo, beijar tudo, tudo, tudo! (Rafa desliga)

Hélio: Ah! Ah! Eu vivo, eu vivo! Cadê ela, cadê ela, cadê ela?

Rafa: Ela está te esperando lá em baixo, no sex shop. O nome dela é Marilyn Monroe.

Hélio: Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Obrigado! Obrigado!

Rafa: Hã, hã...

Hélio: Obrigado, Rafa. Você me salvou da morte, me salvou do fim de tudo, da escravidão do inferno de Dante e seu cachorro louco no meio da torrente...

Rafa: Ok, ok, Hélio. Eu sei que sou bom nisso. Agora vai logo que você pode se atrasar. Foram apensas 683 reais.

Hélio: 683 reais? Mas ...

Rafa: Eu te salvei da morte, Hélio, não pense que é um trabalho fácil salvar alguém, assim como você, da morte.

Hélio: Tem razão, tem razão. Eu pago. Fiz umas economias nesses meus 8 anos de trabalho. Acho que juntei o total de 683 reais, que coincidência, mas no fundo sabia que seriam gastos por um motivo muito nobre: Marilyn!

Voz de Deus, no caso a autora: Hã, hã!

Rafa: Desculpe, oh, grande chefa, poderosa autora. É que eu achei que fui tão bom como anjo que... (para Hélio) É de graça, amigo, esqueça os 683 reais.

Voz de Deus, no caso a autora: Obrigada, Rafa, parabéns pelo anjo, pode sair. (Rafa sai dançando ao som de sininhos)

Hélio: Oh, grande autora. Então era você que me mostrou a Luz e colocou aquele anjo no meu caminho. Obrigado! Estou ansioso para encontrar com Marilyn. (ele vai saindo)

Voz de Deus, no caso a autora: Espere! Acabei de mudar de idéia. Prefiro que se atire do prédio. Dá mais emoção a essa cena.

Hélio: Não! Não!Agora não dá, eu tenho hora marcada no sex shop. Não posso abrir mão do único prazer em toda a minha vida...

Voz de Deus, no caso a autora: Não posso, odiei a cena e achei você um péssimo personagem. Muito, muito clichê. Aonde já se viu alguém falar nos dias de hoje, “adeus mundo cruel”? Precisa morrer! Vou indicar um vento forte, que te empurrará andares abaixo...

Hélio: Por favor, eu não quero morrer, não faça isso comigo, não agora!

Voz de Deus, no caso a autora: Não tem jeito, Hélio. Você está fadado.

(de repente, surge um vento forte...)

Hélio: Calma, calma! E se eu mudar de texto? De autor? Eu poderia ser o chefe da Elisa e amá-la, ou jogar cartas com as velhinhas e até participar de um reality show e dançar por 4 dias! Ou mesmo, se ele deixar, poderia ser um personagem do Rodrigo para o texto de amanhã, caso ele ainda não tenha pensado em nada...

Voz de Deus, no caso a autora: Duvido muito. Duvido muito.

Hélio (desesperado): Da Larissa! Da Larissa!

Voz de Deus, no caso a autora: Ha, ha, ha, ha! Ela é uma sanguinária, adora matar seus personagens. Vai lá , vai. Pula pra sexta feira, que seus órgãos serão vendidos! Não vai chegar nem na segunda linha.

Hélio: O Jô! O Jô! Ele é um amado...

Voz de Deus, no caso a autora: Ele anda muito ocupado com “Cachorro!” Tem muito mais o que fazer! Ha, ha, ha.

Hélio: Mas dizem que você é tão alegre e sorridente! E agora quer matar seu personagem? Seu personagem que conseguiu se transformar e perceber o valor da vida, e descobrir que não vale a pena nos matarmos, que podemos dar a volta por cima e sermos felizes, que o mundo é lindo, e viva a natureza...

Voz de Deus, no caso a autora: Por favor, pare com isso, estou começando a me comover...

Hélio: E que todos nós precisamos nos amar, e que anjos, como o Rafa, que aparecem no nosso caminho, são para nos dizer que “O Caminho” ainda precisa ser trilhado, agora com sabedoria. Viva a natureza! Viva a natureza!

Voz de Deus, no caso a autora: Viva a natureza, viva o amor!

Hélio: Eu sabia, eu sabia que você se identificaria com minhas palavras!

Voz de Deus, no caso a autora: Hélio, você me parece ser tão sensível, como ousava querer se matar?

Hélio: Eu também me faço essa mesma pergunta. Como? Mas se sou sensível, é graças a você, oh, poderosa autora.

Voz de Deus, no caso a autora: Você acabou de evoluir, Hélio. Não será mais um operador de telemarketing. Você agora é o dono da Rede Globo e o melhor cineasta do mundo, mora numa casa linda nas montanhas e adora música, aliás, também toca violão.

Hélio: Obrigado, oh, poderosa autora.

Voz de Deus, no caso a autora: E esqueça a Marilyn Monroe, ela já morreu. Eu tava te sacaneando. Venha na minha casa, que eu quero te conhecer pessoalmente.

Hélio: Obrigado, oh, poderosa autora! Sei que você é muito mais bonita e gostosa que a Marilyn Monroe.

Voz de Deus, no caso, a autora:
Ai, ai, fofinho! Esteja aqui às seis, sem atrasos. Ah! Você também não tem mais espinhas no nariz. Vou reiniciar o esquete:

AMOR NA NATUREZA de Renata Mizrahi
(Hélio, homem com corpo definido, bonito, inteligente e rico, vai à casa de Renata, mulher mais bonita e gostosa que Marilyn Monroe)

Hélio: Oi, você que é a autora?
Renata: Sim.
Hélio: Gosta de massagem, ouvir música, rir sobre tudo e curtir uma cachoeira?
Renata: Entra.

FIM.

PEDAÇO DE MIM de Larissa Câmara

Trecho retirado da peça A DAMA DO FASHION WEEK

PERSONAGENS:
Marguerite Gauthier – Atriz famosa, vencedora do prêmio A Dama do Fashion Week, graças a Sarah Bernhardt, sua fada madrinha e musa inspiradora, será a melhor sempre, porém sua saúde está debilitada. Com medo da morte, trafica órgãos, busca desesperadamente um pulmão esquerdo

Mordomo – James, amigo confidente de Marguerite.

Armand – Ator. Finge ser afetado e sofisticado diante de Marguerite, mas na verdade adora o submundo; serial killer de prostitutas, ex-príncipe de baile de debutantes. Cliente antigo de Daisy, não consegue esquecê-la.

Repórter – Um clássico da inconveniência...

(Marguerite encontra Armand no camarim, os dois conversam sobre amenidades. Repórter entra no início da cena disfarçada.)

Armand – Com licença, dona Marguerite.

Marguerite – Olá, querido! Que maravilhoso encontrá-lo! Como você está?

Armand – Estou ótimo! E você, absoluta como sempre!

Marguerite – Você é um gentleman! É impressão minha ou você está com um aspecto renovado?

Armand – Estou renovadíssimo, querida, só o meu queixo custou uma fortuna! (Os dois riem)

(Marguerite ri, o celular dela toca e ela fica melancólica)

Marguerite – Alô? Alô? (Marguerite irritada fica sem ar e desliga o telefone nervosa)

Armand – O que foi?

Marguerite (olha para o amigo) – Não posso sair de casa de mau humor! Esses inconseqüentes descobrem o meu telefone, me atormentam, me perturbam. Não sei como eles ousam se denominar fãs.

Armand – Não fique assim, querida...

Marguerite – Ai, que situação mais desagradável! Não se tem mais respeito pela pessoa humana! Pessoas insolentes! Invadem a nossa privacidade, destroem nossa concentração.

Armand – Realmente!

Marguerite – Eu penso sempre no pior, um dia essas pessoas não vão se contentar somente com a minha voz, elas vão me seguir, invadir a minha casa. Nunca se sabe, é muito difícil reconhecer um maníaco na multidão. Um homem comum pode ser um serial killer! Ele pode cortar a nossa cabeça, nos obrigar a beber veneno... Imagina, amanhã de manhã, nós dois acordando juntos numa banheira de gelo com rins a menos. E esse homem pode estar no meio de nós, pode entrar agora por essa porta.

(Mordomo aparece. Marguerite e Armand gritam.)

Mordomo – A senhora me chamou?

Marguerite(tosse, fica sem ar) James, querido você quase me mata do coração!

Mordomo – Me desculpe. A senhora precisa de alguma coisa?

Marguerite – (recuperando-se do susto) Preciso, querido, preciso ter pulso, preciso de ar, preciso da minha vida novamente!

(Repórter aparece tirando fotos, James tira a repórter da cena, e sai)

Marguerite – Essa cidade está terrível!

Armand – Está péssima.

Marguerite – Não se pode mais confiar em ninguém. (tosse)

Armand – Vou fazer uma confissão: eu tenho pânico de seqüestro!

Marguerite – Jura?

Armand – Sinto urticária quando me afasto da zona sul! Eu, um homem fino, amordaçado num banheiro mofado da baixada?!

Marguerite – Ai, que pesadelo!

Armand – Por esses e outros motivos eu estou fazendo análise. Carro blindado, segurança, dublê de corpo, esses artifícios para driblar a violência me estressam...

Marguerite – Vamos falar dos nossos negócios. Parece que você tem um presente para mim?!

Armand – Um presente?

Marguerite – Sim, um presente.

Armand – A sua encomenda... Eu... Esqueci no porta-malas do carro... ou no avião...eu... Eu perdi!

Marguerite – Não acredito! Não pode ser! Eu estou cercada de incompetentes! Que inferno! Quantas, quantas mercadorias eu vou ter que perder graças a má vontade dos meus empregados? Bando de desleixados! Estragam o material! Eu vou vender o quê? Vocês perdem a mercadoria, estou farta! Eu ofereço qualidade no meu serviço! Pago uma boa comissão! Mas, vocês querem a minha ruína! Querem me destruir!

Armand – Eu posso conseguir outra mercadoria!

Marguerite – Você só arranja coisa estragada, vencida!

Armand – O que é isso... eu...

Marguerite – É isso mesmo! Parece que não aprende!

Armand – Eu procuro sempre fazer o melhor.

Marguerite – Ah, procura? Não parece. Quais foram as últimas mercadorias que você trouxe?

Armand – Dois fígados.

Marguerite – Um com cirrose o outro com hepatite.

Armand – Um coração.

Marguerite – Fora do gelo, estragado.

Armand – Dois rins.

Marguerite – Com pedras, pareciam duas maracas.

Armand - Um estômago.

Marguerite - Cheio de gastrite e úlcera, um horror! E o pulmão que eu te pedi? Você quer que eu morra?!

Armand – Não!

Marguerite – Não parece, você só me dá aborrecimento! Eu tenho uma mancha no pulmão esquerdo, a cada desgosto ela aumenta! Todos os dias, sou obrigada a acordar com manchas de sangue no travesseiro! No palco, todos ficam impressionados com a minha falta de ar. Tantos pulmões aí no mundo, e eu apodrecendo!

Armand – Hoje em dia está muito difícil encontrar um pulmão saudável!

Marguerite – Claro! Aposto que você só procura em puteiro! Que mania horrorosa, tanta mocinha direita querendo namorar e você freqüentando esse lugar nojento! Já parou de matá-las depois que pede em casamento?

Armand – Vamos mudar de assunto, por favor?

Marguerite – Mês passado gastei uma fortuna com a polícia. Pensaram que você era um serial killer, até eu convencê-los de que era uma brincadeirinha eu gastei uma nota!

Armand – Mamãe!

Marguerite – Fala baixo, comigo! Você custou muito caro, comprar uma criança alemã é uma fortuna, sabia?! (discussão em alemão - grammelot)

Marguerite Mamãe comprou você com tanto carinho, você era bibelô mais bonito da decoração da sala! Eu cuidei de você meu bebê precioso, meu principezinho albino!

(Marguerite e Armand abraçam-se)

Marguerite – (pausa) Por que você não é como os meninos da sua idade, meu filho? Vai fazer baile de debutante, você gostava tanto!

Marguerite – Está bem, esquece! Não quer fazer não faz, não precisa se aborrecer. Agora promete que vai ser bonzinho! Vai conseguir um pulmão para mamãe, não vai?!

Armand – Vou sim, mamãe!

Marguerite – Assim que eu gosto! Agora pára de me chamar de mãe, alguém pode entrar.

Armand – Certo. Do que nós falávamos mesmo, querida?

Marguerite – Não sei, não lembro!

Armand – Detesto discutir. Estou fatigado!

Marguerite – Tira uma soneca, querido.

Armand – Não consigo, essa violência urbana me dá insônia.

Marguerite – Ah, eu conheço uma tática infalível!

Armand – Qual?

Marguerite – Ligar a TV. (Daisy aparece na TV)

Armand(suspira olhando Daisy) Linda!

Marguerite – O que você disse?

Armand - Que ousadia!

Marguerite - Agora eu tenho uma sucessora! Insolentes (sente falta de ar, cai nos braços do A)! Ai, eu sinto a mancha do meu pulmão esquerdo cada vez maior!

Armand – Acalme-se! Eu vou conseguir um pulmão novinho!

Marguerite(recompondo-se) Você disse que está difícil conseguir um pulmão saudável.

Armand – É difícil, mas não impossível!

Marguerite(afetada) Eu não quero um órgão de uma qualquer, quero o pulmão dela! O pulmão de Daisy! Ela não será apenas minha sucessora, será um pedaço de mim!

Armand – O quê?

Marguerite – Está decidido! Ninguém atravessa o caminho de Marguerite! Eu prometi a Sarah Bernhardt que seria a melhor sempre, e assim será!

Armand – Ela é uma qualquer, uma mosca, coitada!

Marguerite – Obedeça!

Armand – Como quiser.

Marguerite – Agora saia, I wanna be alone!

Armand – Au revoir, Marguerite!

FIM

O AMOR NÃO DÁ FOLGA de Julia Spadaccini

Elisa na sala de seu chefe.

Chefe – Elisa. Você já enviou aquela corr...

Elisa – Sim.

Chefe – Já foi até o car..

Elisa – Sim.

Chefe – Já comprou o presente da min..

Elisa – Sim.

Chefe – Nossa. Que maravilha! Que competência!

Elisa – Como?

Chefe – Você é a melhor secretaria que já tive.

Elisa fecha a cara e sai emburrada.

No dia seguinte.

Chefe – Dona Elisa.

Elisa – Sim.

Chefe – Já fez as...

Elisa – Sim.

Chefe – E as minhas con...

Elisa – Sim.

Chefe – E as...

Elisa – Também.

Chefe – Nossa, mas assim vou ter que te promover! Que maravilha!

Elisa sai chorosa.

Outro dia.

Chefe – Dona Elisa..

Elisa – Sim.

Chefe – Tudo?

Elisa – Tudo.

Chefe – Já que a senhora adiantou todos os serviços, amanhã a senhora pode folgar.

Dona Elisa cai no pranto e sai. Chefe fica sem entender.

Dia seguinte. Folga. Elisa e amiga na manicure.

Elisa – Ele não me ama mais...

Amiga – Quem?

Elisa – Meu chefe.

Amiga – Vocês estavam tendo um caso?

Manicure tira uma carne do dedo de Elisa.

Elisa – Ai!

Manicure – Desculpe.

Volta para a amiga.

Elisa – Não é isso...

Amiga – É o que?

Elisa- Ele era atencioso, gritava comigo todos os dias. Agora, fala baixo, é doce e...

Amiga – E o que?

Elisa olha para os lados e sussurra.

Elisa – Me deu folga.

Amiga – Isso não é bom?

Elisa – É horrível, folgar no meio da semana é o pior castigo que uma secretária bilíngüe pode ter.

Amiga - Você estava mesmo precisando de um tempinho para você, amiga.

Elisa – Quem tem tempo não tem dinheiro.

Amiga – Você está exagerando...

Elisa- Adorava aquele olhar assassino... adorava... aquele berro abafado ao pé do ouvido...

Manicure tira outra cutícula e Elisa faz olhar assassina para ela.

Manicure – Me perdoe, não vai acontecer novamente...

Amiga – Você está reclamando porque tem um chefe flexível.

Elisa – Querida, se eu quisesse flexibilidade seria professora de alongamento. Eu quero horários, prazos, ele não reclama mais dos meus atrasos, do tempo que fico no almoço, da minha ortografia... Outro dia escrevi ameixa com “ch” e ele nem percebeu... fui almoçar e demorei 3 horas só na sobremesa e quando voltei... nada... não me ama mais....

Amiga – Ele está assim porque você deve ser muito competente.

Elisa – Não sou! Eu faço coisas escondidas. Mandei flores para a sua mulher sem permissão.

Amiga – Mas isso é maravilhoso.

Elisa – É horrível, perverso... sou uma menina má! Mereço um castigo. Mereço!

Manicure dá tira outra carne.

Elisa – Pára! Vai arrancar meu dedo fora! Tá maluca!

Manicure solta um sorrisinho de satisfação.

Elisa – Mas eu já sei o que vou fazer.

De volta ao escritório.

Chefe – Bom dia, dona Elisa.

Elisa – O que é bom para você pode não ser bom para mim.

Chefe – A senhora já foi no...

Elisa – Não.

Chefe – Já fez...

Elisa – Não.

Chefe – E quando vai...

Elisa – Nunca.

Chefe faz olhar assassino e Elisa fica em êxtase.

Em seguida ele desmonta.

Chefe – Estou pressionando muito a senhora, né?

Elisa – Como?

Chefe – Participei de uma dinâmica zen esse final de semana e estou revendo os meus conceitos. De agora em diante quero que a senhora faça tudo em seu tempo, que respire, seja feliz, e faça os seus horários de acordo com o seu “eu” interior...

Elisa sai berrando e pede as contas.

MILKSHAKE OU LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE de Jô Bilac

Cena extra
Não utilizada na montagem original


Pierre: Bonito, com um sorriso branquíssimo.
Sabrina: Cabelos escovados, enigmática.


(Rua. Agitação. Pierre na tentativa de pegar um táxi. Sinaliza, mas é ignorado. Nova sinalização. Corre em disparada ao carro, no caminho derruba Sabrina que cai com suas sacolas de compras.)

Pierre: (solícito, imensamente constrangido) Perdão! (toma a mão da jovem e a levanta , bem próxima ao seu corpo). Machucou?

Sabrina: (magnetizada) Foi só susto.

Pierre: (analisa a mão da moça) Arranhou.

Sabrina: Não foi nada.

Pierre: (nos olhos da jovem) Você está bem...?

(tempo)

(Sabrina se afasta do rapaz com muito elegância e intenciona saír. Volta)

Sabrina: (sorri) Estou bem. E você?

Pierre: Quer realmente saber? Quer dizer, é figura de linguagem ou realmente...?Assim, é... Perguntou por perguntar, porque se for... Sem problema eu não... (careta)Putz! Desculpa. (respira) Vamos Lá: reorganizando. (tom natural) Então, estou bem sim.

Sabrina: (sorri doce) Que bom. (avança pra saír)

Pierre: Ah! Droga!

Sabrina: O que foi?

Pierre: Agora vou ter que pagar você...

Sabrina: (intrigada)

Pierre: Você me sorriu duas vezes num só dia, a primeira foi cortesia, mas a segunda eu vou ter que pagar.

Sabrina: (numa tentativa inútil de esconder o riso)

Pierre: Ah! Agora já são três sorrisos, é isso? (Sabrina rindo) Ih, a minha dívida está aumentando... (se aproximando intimamente da jovem)

Sabrina: (rindo mais, inevitavelmente)

Pierre: Caramba, eu vou falir assim...!!!

Sabrina: Tá. (se recompõe, vai saindo)

Pierre: Conversa comigo.

Sabrina: (consulta o relógio)

Pierre: (manhoso) Um pouquinho.

Sabrina: Vamos fazer assim, Me convence. 60 segundos. Se me convencer , eu fico. Saio daqui contigo pra qualquer canto. A gente faz planos, cogita o mundo, pinta os canecos. Do contrário... você não vai saber nem meu nome. Pode ser assim?

Pierre: (surpreso) Olha, eu acredito que a gente possa chegar num ponto mais interessante, negociar de uma forma menos radical, eu tenho o meu cartão aqui com meu telefone, um cartão lindo com meu nome escrito. Quantos caras você conhece com seu próprio cartão? Ele está aqui, já acho...(procurando no bolso)

Sabrina: (consulta o relógio, recuando) 45 segundos.

Pierre: Eu vou achar, só um instantinho... ( atrapalhado, entrando numa aflição por não encontrar o que procura) Ele é perfeito: papel timbrado, bege claro, quase branco, letras em relevo levemente brilhosas... É impressionante. Um cartão diz muito sobre a pessoa e quando você ver o meu você, não vai acreditar, vai ficar fascinada, juro, eu já vou te mostrar...

Sabrina: (recuando em passos lentos, afastando-se cada vez mais do rapaz) 30 segundos...

Pierre: Merda! (irritado consigo mesmo) Eu tenho certeza que ele está aqui, eu coloquei , juro... Tem marca dágua e o escambal! Quando você ver! Princesa! Você vai caír pra trás, viu?

Sabrina: (mais distante) 22 segundos...

Pierre: (aflitíssimo) Espera, eu vou te mostrar, a gente pode ir ao escritório do meu pai. Ele tem um escritório. E uma mesa de mármore. Mármore creme, clarinha, quase do tom do meu cartão, que é muito melhor que o cartão dele. O cartão dele é confuso, tem transparência...

Sabrina: (longe. Muito) 10, 9, 8...

Pierre: Poxa! Vamos lá no escritório dele, tem um cartão meu lá... Tem uma foto da gente esquiando, você já esquiou? A gente pode fazer isso, a gente pode fazer uma porção de coisa...

Sabrina: 7,6...

Pierre: Você já foi à Suiça?

(Sabrina acena ao longe. Desaparece no meio da multidão. Pierre sorri em resposta, vencido.)


QUEM DÁ O MORTO? de Felipe Barenco

Duas velhinhas, jogando buraco, na sala de uma casa antiga e caindo aos pedaços. Um radinho ligado tocando Ave Maria.

- (contando os pontos) 10, 20, 25, 30... 160, 165... quanto vale o 7 mesmo?

- (desconfiada) Cinco pontos.

- 165 mais... 180!

- Não senhora, 170!

- E o que foi que eu falei?

- 180.

- Não, eu disse 170.

- Eu não vou discutir mais com você.

- Pronto, agora eu vou ter que contar tudo de novo! Satisfeita?

- Não adianta vir com esse jogo sujo que não cola mais. Eu sou cobra criada! Ou jogamos sério, ou eu vou me embora.

- Pelo amor de Deus, eu não estou roubando! Nós jogamos buraco a anos, pode confiar em mim.

- Roubando eu não jogo!

- Você está me ofendendo.

- (pegando as cartas) Me dá aqui, deixa que eu conto. (Procurando os óculos) Você viu onde deixei meus óculos? Estavam aqui agora mesmo.

- Estão no seu rosto.

- 10, 20, 25, 35, 45... (contando com dificuldade) Valete é quanto?

- 10.

- (...) 55, 65, 70, 75... "As" vale quanto?

- 15.

- 75 mais 15, 90, mais 100, 105, 110... o 5 vale quanto?

- Anda logo, me dá isso aqui que eu conto... Você não sabe o valor das cartas!

- Não, me dá aqui! Cento e... ah, que me perdi, que merda! Deixa eu voltar... 10, 25, 30...

- Eu conheço esse truque, não vem, não! Você esconde as cartas aí no colo que eu sei. Nós jogamos desde 1923 e a cada ano que passa o baralho tem uma carta a menos.

(No rádio Roberto Carlos)

- "No calhambeque bi bi..."

- Juvenal, traz outra caipirinha!

- Então a senhora levante e venha aqui me revistar.

- "Coisa gordinha, coisa gostosa..."

- Faz 36 anos que eu pedi a última bebida ao Juvenal e até hoje ele não voltou.

- Pode roubar, pode roubar...

- Eu não preciso disso (olha para a cadeira vazia na mesa) Nós não precisamos disso. Eu vou honrar a minha dupla, que Deus a tenha.

- Amém. Eu não vou discutir mais com você por causa de cinco pontos. (olha para a outra cadeira vazia) Não vamos brigar por miséria, não é mesmo? Pela amiga Januária, que Deus conserve a sua alma.

- Amém. A Januária brigava demais, morreu de um ataque do coração por causa de uma canastra.

- E não era limpa!

- Morreu por causa de uma canastra suja.

- (despejando uma pilha de remédios na mesa) Ô, Juvenal, traz um copo d água, por favor!

- Tem Lorax aí?

- Deixa eu ver...

- Vira seu jogo que dá azar... o homem no sofá está olhando tudo.

- Como? (vira abruptamente) Não vejo ninguém, tem certeza?

- Escondeu-se embaixo da mesa.

- Lorax não, acabou.

- Vamos fazer o seguinte. Esqueçamos os cinco pontos e vamos começar de novo. Quem está ganhando?

- A minha dupla. Estamos na frente 700 pontos e 13 anos.

- Se você não se incomodar, vou tirar minha dentadura.

- Me tira uma dúvida. Quanto vale o "As" mesmo?

- 20 pontos.

- Você disse que era 15!

- Ah, agora eu sou mentirosa!

- Você falou que era 15, eu lembro bem! Minha memória não falha, ô... ô... fulana. Qual o seu nome mesmo?

- O meu? (tentando lembrar-se) Me diz o seu primeiro que eu falo o meu.

- Ah, não importa. Você dá as cartas, eu dou o morto.

- Não, o que nós combinamos? Agora quem dá o morto sou eu!

FIM
Personagens:

Casal Azul:
Denifer quer ser americana
Valquimer é arquiteto

Casal Vermelho:
Brisa é comissária de bordo
Jólker é um astronauta decadente

Juiz gosta de picolé de chocolate e tem cara de enjoado.

Os casais estão em posição, esperam o sinal para começarem. O Juiz está perto de um pequeno aparelho de som e segura um cronômetro. Nunca deixa de olhar o cronômetro. Ele aperta o play e assim que a música começa ele grita.


JUIZ- Primeiro dia!!! Primeiro dia!!! Primeiro dia!!!Um, dois, três e já!!!! Eu disse já!!!

Os casais começam a dançar animadamente. Dançam a música sem parar cada vez tentando passos mais elaborados e exibicionistas, mas nunca sem desperdiçar energia demais, como se esperassem uma longa jornada. Os casais sempre estão tocando alguma parte do corpo. Não devem se separar jamais.

DENIFER- É o teu nome, alguma coisa no teu nome que eu gosto tanto. Não sei o que dizer se por acaso, assim de repente você vai que me pergunta um dia, porquê? (Imitando ele.) "Essa coisa do nome, me conta". Não vou poder, não vou saber te responder.

VALQUIMER- Meu nome?

DENIFER- Valquimer!

VALQUIMER- É o meu nome!

DENIFER- Valquimer...

VALQUIMER- Denifer.

DENIFER- Valquimer! Valquimer!!!

JÓLKER- E é por isso que eu estou aqui.

BRISA- É uma história terrível!

JÓLKER- É triste. Né.

BRISA- Lamentável.

JÓLKER- Tem dias que eu me lembro que me dá um tristeza. Uma vontade de morrer.

BRISA- E escuta. Mudando de pau pra cavalo. Quando você se inscreveu, eles te pediram algum documento?

JÓLKER- O quê? Documento?

BRISA- Alguma identificação de qualquer tipo, sei lá. Identidade, passaporte? Na inscrição, eu digo.

JÓLKER- Meu não. Não pediram.

BRISA- Mas nem a mim! Nenhum! Não é estranho?

JÓLKER- Estranho?

BRISA- Esquisito.

JÓLKER- Não sei. Será?

BRISA- Muito. Nem que fosse uma assinada em algum papel. Mas nem isso!

JÓLKER- Bom passo esse seu. Essa ginga que você tem. Que sorte.

BRISA (Encucada.)- Estranhíssimo.

DENIFER- Eu queria ser americana.

VALQUIMER- É mesmo?

DENIFER- Não é lindo ser americana?

VALQUIMER (Apaixonado.)- É bonito sim.

DENIFER- Não era lindo. Passear naqueles parques que cai folhas vermelhas. Comer cream cheese. Assistir jogo de Hóquei e Basebol. Não é legal?

VALQUIMER- É legal.

DENIFER- Ir na Disney! Eu nunca fui na Disney! É o meu sonho! Ir na Disney!

VALQUIMER- É legal.

DENIFER- Ir na Disney.

VALQUIMER- Eu fui quando era pequeno.

DENIFER- Mas que barato!

VALQUIMER- Eu fui.

DENIFER- Meu sonho era ser americana!

VALQUIMER- Ah, é?

DENIFER- Por isso que eu gosto do teu nome. Valquimer.

BRISA- Tá estranho isso aqui. Eu tô sentindo.

JÓLKER- Como é?

BRISA- É armação isso aqui. Eu quero ser mico de circo!

JÓLKER- Mas como assim?

BRISA- Carta marcada, meu amigo. Eu tô vendo, não sou cega. Não tem jeito!

JÓLKER- Eu não tô entendo.

BRISA- Nem precisa. Aliás, meu querido, nem se dê o trabalho. Coitado do fulano que tenta, tenta, tenta entender e não consegue. O melhor é nem tentar e ser feliz.

JÓLKER- Eu não entendo o que você diz.

BRISA- Ah, Jólker. Quando eu vi você fiquei ótima com essa tua cara de homem. Até mais segura, confiante. Mas pelo jeito não vai adiantar de muita coisa, não. Estamos fadados ao insucesso.

JÓLKER- Eu não acredito em você. Eu não posso acreditar em você.

BRISA- Sei.

JÓLKER- Eu não posso. Eu não entendo.

BRISA- Cacete. O quê que eu fiz pra merecer isso.

J (Profundamente deprimido.)- Eu não entendo... (Abaixa a cabeça e chora baixinho.)

BRISA- Opa! Opa! Bola pra frente! Vamos aí, meu filho, se reanima! Estamos só começando.

DENIFER- Valquimer.

VALQUIMER- Denifer

DENIFER- Lindo você.

VALQUIMER- Você é que é linda.

DENIFER- A sua mão. O seu braço. Você parece tanto com aquele.

VALQUIMER- E você dança muito bem.

DENIFER- Aquele ator, como era o nome. Bruce. Bruce Willis.

VALQUIMER- Imagina!

DENIFER- Um pouco também de De Niro, olhando você assim meio pelo lado. De perfil é que fala. Eu gosto também do Stalonne.

VALQUIMER (Enciumado.)- Stalonne. Sei. Não quero saber de Stalonne.

DENIFER- Bobinho! Não fica com essa coisa de ciúme, não. Prefiro muito mais o De Niro e o Bruce Willis. Assim meio como que você. (Eles se olham apaixonados. Se beijam, mas não param de dançar em nem um só momento.) Nosso primeiro beijo!

VALQUIMER- Pois é!

JÓLKER- Já estou melhor.

BRISA- Graças ao bom Deus.

JÓLKER- Passou já. (Enxuga as lágrimas.)

BRISA- Então anima! É melhor se estiver sorrindo. Sorria, vamos. Cinco, seis, sete, oito.

Dançam. Passagem de tempo.

JUIZ- Segundo dia!!! Segundo dia!!! Segundo dia!!! Um dois três e já!!! Eu disse já!!!

Os quatro ainda dançam sem parar, já bastante cansados.

BRISA- Sede!!! Meu Deus do céu! Forças!!!

JÓLKER- Cala a boca pelo amor de Deus...

BRISA- Me enganaram! Eu fui enganada! Me deram pipoca no camarim! Uma pipoca salgada demais!!! Não percebe??? Você não percebe? Você não entende??? Você... Você...

JÓLKER- Por favor...

BRISA- Por favor o quê, mijão? Mijão!!! Mijão!!!

JÓLKER- Cala a boca.

BRISA- Boicotada! É o que eu fui e estou sendo! E ainda esse fedor! Essa poça de mijo escuro! O teu mijo, Mijão. Toda vez que eu marco o tempo com o pezinho é esse teu mijo que espirra pra todo o lado.

JÓLKER- Foi porque me descontrolei.

BRISA- Cala a boca! Isso eu não preciso ouvir! Isso foi planejado! Eu quero que todos saibam que eu sei! Me encalharam com esse pateta mas eu continuo! Você estão vendo? Eu sou muito mais forte!!! (Ela se deleita na pista de dança, sempre com uma das mãos tocando o ombro de Jólker pra se apoiar. Ele se sacode cabisbaixo)

VALQUIMER- Tão bom ter te encontrado aqui.

DENIFER- Valquimer, eu... Eu acho que vou desmaiar.

VALQUIMER (Segurando-a.)- Calma, princesa.

DENIFER- Isso. Me pega forte. Me pega. Meu amor.

VALQUIMER- Eu te pego.

DENIFER- Esse braço seu tão forte. Eu olho pro teu braço e esqueço a fome.

VALQUIMER- Não pensa na fome.

DENIFER- Eu nunca pensei na fome. Agora eu penso. Mas com você eu não penso.

VALQUIMER- Então dança. Dança aqui comigo.

DENIFER- Eu danço. Eu danço.

VALQUIMER- Você é minha linda.

DENIFER- Me diz que eu sou linda igual uma atriz?

VALQUIMER- Você é linda.

DENIFER- Igual uma atriz que você conhece.

VALQUIMER- Quem?

DENIFER- Você acha que o meu queixo parece da Julia Roberts?

VALQUIMER- Acho sim.

DENIFER- Meu amor. Meu amor.

BRISA- Podia pelo menos tentar.

JÓLKER- Eu tento.

BRISA- Mexer o esqueleto.

JÓLKER- Minhas costas...

BRISA- E não essa tua bunda mole.

JÓLKER- Dói demais aqui na lombar.

BRISA- Ô mijão bunda mole!!! Ô mijão!!! Ô bunda branca!!!

JÓLKER- Não te dói as costas?

BRISA- Muito.

JÓLKER- E os pés?

BRISA- Covarde.

JÓLKER- Meu nariz vai sangrar!

BRISA- Jura?

JÓLKER- Meu nariz acho que tô sentindo. Meu nariz tá sangrando.

BRISA- Ainda não, eu tô de olho.

JÓLKER- Se sangrar... Vai sangrar.

BRISA- Vai sim. O narizinho dele tá quase menstruando.

JÓLKER- Me fala se sangrar? Me fala? Brisa? É Brisa o seu nome, não é? Você está me ouvindo?

BRISA- Prometo! Te aviso na primeira gota. Que delícia! Se pingar no chão vai misturar com o teu mijo e logo vamos estar dançando num laguinho!

JÓLKER- Dançando... Dançando...

O Juiz grita.

JUIZ- Mais rápido!!! Mais rápido!!! Mais rápido!!! Dançando!!! Dançando!!! (O Juiz tira um picolé de chocolate de uma pequena caixa de isopor que está ao lado do som portátil. Abre o picolé e passa a lambê-lo lentamente, sempre olhando para o cronômetro.)

JÓLKER (Olha atentamente o picolé do Juiz, não pára de dançar.)- Chocolate.

BRISA- O quê? (percebe também o picolé. Os dois dançam e olham atentos o Juiz.)

DENIFER- Eu não agüento... Eu não agüento mais.

VALQUIMER- Ei! Eu tô do teu lado. Amor. Eu estou aqui.

DENIFER- Não vai me deixar?

VALQUIMER- Não vou.

DENIFER- Vai casar comigo?

VALQUIMER- Vou.

DENIFER- E vamos ter três filhos. Duas gêmeas e o menino mais novo. (Ela tropeça.)

VALQUIMER- Cuidado.

DENIFER- E onde vamos morar?

VALQUIMER- No Leblon? Que tal? Tão bonito.

DENIFER- Miami! Eu quero Miami!

VALQUIMER- Então Miami.

DENIFER (Começa a chorar.)- Você não quer Miami!

VALQUIMER- Eu quero!

DENIFER- Você disse Leblon!

VALQUIMER- Miami! Vamos pra Miami!

DENIFER- Todos me enganam sempre! Sempre!!! Eu odeio o Grajaú!!! Odeio!!!

VALQUIMER- Meu amor! Não fica assim!

DENIFER- Eu não quero mais Valquimer. Vamos parar.

VALQUIMER- Não! Espera. Se segura em mim.

DENIFER- Chega, por favor....

VALQUIMER- Se segura. Eu te levo.

JÓLKER- Eu quero cho... chocolate!!!

BRISA- Onde você pensa que vai???

JÓLKER- Chocolate.

BRISA (Pega no pescoço de Jólker.)- Se você perturbar o Juiz eu vou te dar tanto chute!

JÓLKER- Sem ar...

BRISA- Para de babar! Eu tenho força ainda na perna. Eu tenho! Piso na tua cara até não sobrar nada. Ainda ouve? Ainda está ouvindo? Eu ainda consigo falar! Eu ainda grito que essa porra é marmelada!!! Você fede!!! Porco!!!E não se apóia em mim!!! Com essa cara de homem, e é um bosta!!!

DENIFER- O que é isso?

VALQUIMER- A louca gritando de novo.

DENIFER- Gente... como ela consegue.

BRISA- Porque eu sou forte!!! Esse bosta me dá força!!!

JÓLKER- Meu joelho...

DENIFER- Minhas pernas tão dormentes!!! Tão dormentes!!!

VALQUIMER- Eu seguro você.

DENIFER- O seu cheiro. Me segura. Vou cair.

VALQUIMER- Tô segurando.

DENIFER- Você tem cheiro bom. De milho cozido. Que cheiro eu tenho Valquimer? Valquimer? Que cheiro eu tenho? Olha pra mim?

VALQUIMER- Você...?

DENIFER- Que cheiro eu tenho?

VALQUIMER- Você tem o cheiro da Julia Roberts.

Dançam. Passagem de tempo.

JUIZ - Terceiro dia!!! Terceiro dia!!! Terceiro dia!!! Um dois três e já!!! Eu disse já!!! Mais rápido!!! Dancem!!! Dancem!!!

Os quatro ainda dançam sem parar, completamente exaustos.

JÓLKER- Eu acho que eu vou morrer...

BRISA- Você...? Você cagou nas calças?

JÓLKER- Caguei.

BRISA- Vai! Não pára. O Juiz tá olhando.

JÓLKER- Me caguei todo.

BRISA- Não sinto cheiro.

JÓLKER- Meu pé também não dói.

BRISA- Querem me derrubar.

JÓLKER- Nem o joelho. Nem as costas.

BRISA- Monstros! Ladrões!

JÓLKER- Me abraça de novo.

BRISA- O Juiz tá olhando.

DENIFER- Eu acho que eu vou morrer.

VALQUIMER- Não vai não.

DENIFER- Valquimer... (Desmaia. Valquimer a segura e dança com ela nos braços.)

VALQUIMER- Calma. Calma. Eu estou aqui. Meu amor. Eu vou construir uma casa pra você. Eu vou comprar os tijolos, o cimento, a tinta. E sabe onde vai ser??? Denifer??? Sabe onde vai ser a nossa casa??? Acorda!!! Miami, Denifer!!! Miami!!! Você tá escutando??? Denifer!!! Então no Grajaú!!! No Grajaú!!! Acorda!!!

BRISA- Ei! Olha lá! Ela caiu! (Jólker já não ouve mais nada. Chora baixo dançando abraçado a Brisa.)

VALQUIMER- Meu amor... Meu amor...

BRISA- Ela tá roubando!!! Ela tá roubando!!! Monstra!!!

VALQUIMER- Cala a boca!

BRISA- Senhor Juiz!!! Senhor Juiz!!! (O Juiz não olha.)

VALQUIMER- Perdedora!!!

BRISA- Ela morreu! Morreu! Está morta! Não pode mais competir!!!

VALQUIMER- Estamos dançando, não tá vendo?

BRISA- Isso é roubo!!! Eu te mato!!! Calhorda!!! Enganação!!!

VALQUIMER (Abraçado ao corpo inerte de Denifer.)- Eu não vou te largar!!! Eu não vou te largar!!! Eu não vou te largar nunca!!!

BRISA- Eu ganhei!!! Eu ganhei!!! Ele tá roubando!!! (Lentamente o casal de Brisa e Jólker vai perdendo as forças e muito lentamente vai ao chão, no ritmo da música.) Levanta seu merda!!! (Brisa cai em cima do corpo de Jólker.)

JUIZ (Interrompe a música. Gritando.)- Temos um vencedor!!! O casal Azul é o vencedor!!!

BRISA- Não!!!

(Valquimer que estava atracado ao corpo de Denifer, larga-a sem cuidado. Denifer atinge o solo com violência. Ele fica parado, a respiração ofegante, virado para a platéia. Jólker também está desmaiado.)

BRISA (Aproxima o seu rosto do de Jólker e grita a plenos pulmões. Louca.)- Viado!!! Bichona!!! Bichona!!!(Ela levanta sua saia e tira uma pistola de um pequeno coldre amarrado a coxa. Sôfrega e cambaleante, se arrasta na direção de Valquimer. Aponta pra Valquimer mas o braço está trêmulo. Ela consegue se levantar parcamente e quase encosta a pistola na cabeça de Valquimer, que parece não perceber que ela está ali. Brisa lentamente vai ao chão e desmaia antes de conseguir puxar o gatilho.)

JUIZ (Aos berros.)- E o que será que o grande vencedor tem a nos dizer???

Juiz tira outro picolé de chocolate do isopor e o degusta com calma. Valquimer permanece estático e mudo, parece que vai ficar assim para sempre....

FIM

 

 

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