2000 MULHERES de Rodrigo Nogueira

(O texto é meu, não as mulheres)

Um apartamento. Dois amigos na faixa dos 25 a 35.

Um: Mas como é que isso foi acontecer?

Outro: Como assim acontecer?

U: Como é que aconteceu? Essa situação?

O: Eu é que vou saber?

U: É claro que é você que vai saber. Ela aconteceu com você!

O: Você perdeu sua carteira.

U: E daí?

O: Também aconteceu com você e nem por isso você sabe como perdeu.

U: É diferente.

O: A mesma coisa.

U: Perder a carteira é um evento isolado. A sua situação são eventos contínuos. Não é por acaso.

O: Mas acontece.

U: Acontece?

O: Aconteceu. Vem cá. Você vai me ajudar ou não vai?

U: Acho que não.

O: Por quê?

U: Eu não acredito em você.

O: Mas por quê?

U: Por que é uma história absurda.

O: Você perdeu sua carteira dormindo.

U: E daí?

O: Também é uma história absurda e nem por isso eu deixei de acreditar em você.

U: Mas como é que eu nunca soube?

O: Da situação?

U: Das mulheres. Como é que eu nunca soube das mulheres?

O: Eu sou discreto.

U: É mentiroso.

O: A troco de quê eu estaria mentindo pra você?

U: Pra me impressionar.

O: Pra quê?

U: Você me admira.

O: Vamos combinar uma coisa. Acredita em mim por um tempo preestabelecido.

U: Um tempo.

O: Dez minutos, pode ser?

U: Dez minutos?

O: Dez minutos. Acredita em mim pelos próximos dez minutos. Nesse tempo você tenta me ajudar. Com a minha situação. Depois, se você não estiver satisfeito com você acreditando em mim e na minha situação, você pode voltar a desacreditar em mim. E na situação.

U: Não entendi muito bem.

O: É um tempo de crédito que você ta me dando.

U: Tempo de crédito?

O: De dez minutos.

U: Pra acreditar em você.

O: Exatamente.

U: Eu não posso fazer isso.

O: Por quê não?

U: Crédito pra acreditar. É um crédito de crédito.

O: E daí?

U: Muito ruim. Crédito de crédito?

O: Ruim por quê?

U: Porque é feio. Soa mal. Eu nunca escreveria isso. E é redundância.

O: Redundância.

U: Pleonasmo.

O: Não é não. Só porque é uma repetição de palavras não quer dizer que é redundância.

U: Ah, não?

O: Não. Redundância é um reforço desnecessário de significados. Tipo subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro, conviver junto, encarar de frente, ganhar de graça, ter opinião pessoal, prefeitura municipal, projeto pro futuro, sorriso nos lábios, goteira no teto, estrelas do céu, países do mundo, almirante da marinha, general do exército e brigadeiro da aeronáutica. Crédito de crédito não é redundância. É outra coisa.

U: É o quê, hein? Hipérbole?

O: Acho que é hipérbato!

U: Ou catacrese?

O: Não, não. Anacoluto.

U: Zeugma, de repente...

Apartamento vizinho. Duas senhoras.

Senhora: Zigmund ,de repente?

Outra senhora: Não, não. Anacleto.

Senhora: Ou Catalão?

Outra senhora: Acho que é Hipólito!

Senhora: Eu não me lembro. Definitivamente não me lembro. Só sei que era um nome muito estranho.

Outra senhora: E vocês nunca mais se viram?

Senhora: Não. Mas foi melhor assim. A gente não conseguia conviver junto. Eu não podia ter opinião pessoal que ele me encarava de frente e o que eram estrelas no céu viravam uma goteira no teto.

Outra senhora: Ele era almirante da marinha, né?

Senhora: Não.

Outra senhora: Brigadeiro da aeronáutica?

Senhora: General do exército. Depois que ele saiu pra fora do Brasil nunca mais vi.

Outra senhora: Deve ter viajado por muitos países do mundo.

Senhora: É...

Outra senhora: Ele foi o último?

Senhora: Último e o primeiro. Dá pra acreditar? Ai, meu Deus. Como é que isso foi acontecer?

Outra senhora: Como assim acontecer?

Senhora: Como é que aconteceu? Essa situação?

Outra senhora: Não é você que tem que saber.

Senhora: Claro que sou eu. Ela aconteceu comigo!

OS: Eu perdi minha virgindade.

S: E daí?

OS: Também aconteceu comigo e mesmo assim eu não me lembro como foi.

S: É diferente.

OS: A mesma coisa.

S: A minha situação é uma história absurda.

OS: Eu perdi minha virgindade dormindo. Quer história mais absurda do que isso?

S: Você me ajuda?

OS: Com a sua situação?

S: É.

OS: Como é que eu vou te ajudar? Tudo o que eu tenho na vida é uma conta no Orkut e um celular de cartão com dez minutos de crédito.

S: Crédito de dez minutos?

OS: Dez minutos de crédito.

S: Crédito de crédito?

OS: Dez minutos de crédito.

S: Ah, tá. Crédito de crédito. Muito ruim celular de crédito.

OS: É redundância.

S: O quê?

OS: Pleonasmo. Celular de crédito ruim é redundância. Celular de crédito por si só já é ruim.

S: Crédito de crédito.

OS: Mas e a sua situação? Como a gente resolve a sua situação?

Apartamento 1

Outro: Como é que eu resolvo a minha situação?

Um: Eu vou te dar.

Outro: O quê?

Um: O crédito. Eu vou te dar o crédito.

Outro: O crédito de crédito?

Um: Começando agora.

Outro: Jura?

U: Você tem nove minutos e cinqüenta e seis segundos.

O: Ta bom, ta bom. Você ta acreditando em mim?

U: To.

O: Então você acredita na minha situação?

U: Claro. Eu acredito.

O: Mesmo?

Um: Sim. Eu acredito que você comeu uma mulher diferente todos os dias da sua vida desde que você perdeu a sua virgindade.

O: Eu sei que é estranho.

Um: Que não se tenham passado 24 horas sem que você não tivesse transado desde o momento em que você praticou sexo pela primeira vez.

O: Aconteceu.

Um: Que você tenha tido religiosamente em todos os quadrinhos do calendário uma relação coital com parceiras múltiplas a partir do momento que a sua glande travou um contato inédito com dois pequenos lábios e o seu pênis desbravou heroicamente um caminho em direção ao canal vaginal da infeliz mulher que te amaldiçoou com esse drama diário.

O: Ironia não ajuda.

U: Eu não estou sendo irônico.

O: Drama diário.

U: O quê?

O: Você descreveu bem. É um drama diário o que eu vivo. Transar com uma mulher diferente todos os dias. Um drama diário.

U: Drama diário. Acho que eu já ouvi isso em algum lugar.

O: Eu sempre fico com medo de não conseguir a mulher do dia entendeu? Como se eu não trepasse com uma mulher nova naquele dia o meu mundo fosse acabar.

U: Drama diário, drama diário.

O: É uma pressão. Teve uma vez que eu só consegui transar às onze e cinqüenta e oito da noite.

U: Drama...

O: Eu não agüento mais.

U: Diário.

O: Quer parar de ficar repetindo isso?

U: Por quê?

O: Sei lá. To achando esquisito.

U: Esquisita é a sua situação.

O: Eu não sei mais o que fazer.

U: Peraí. Quantas mulheres você já comeu?

O: Então. Essa é que é a questão.

U: Ah, ta. A questão.

O: Ontem, eu comi a milésima novecentésima nona.

Pausa

O: 1999!

U: Ah, 1999. (Pausa) 1999?

O: É.

U: Você tá me dizendo que você comeu 1999 mulheres?

O: Fala mais alto que não te ouviram em Niterói!

U: Mas sendo uma por dia isso dá...

O: Cinco anos sete meses e dezenove dias. Eu como diariamente uma mulher diferente desde os últimos cinco anos, sete meses e dezenove dias.

U: Mas isso que dizer que você só perdeu a virgindade há cinco anos?

O: É.

U: Começou tarde, hein.

O: Não vamos focar nessa parte da história senão fica inverossímil.

U: Ta.

O: O caso é que eu comi 1999 mulheres diferentes. E agora que ta chegando na de número 2000 eu não sei... eu acho que eu não vou conseguir... Eu também não quero mais isso pra mim. Dá trabalho. Administrar tanta mulher assim. E os caderninhos...

Um: Que caderninhos?

Outro: Cada uma é registrada com nome, número de telefone e comentário sobre a noite.

U: Você tem um catálogo das mulheres que você comeu?

Outro: Tenho.

Um: E você organiza por quê? Ordem alfabética?

O: Não, peraí. Também não é assim!!! É por ordem de preferência...

U: Vem, cá. Você já pensou em fazer terapia?

O: Pra quê?

Um: Pra ser normal!

O: E perder todo meu charme?

Um: É inacreditável. Você deve ter comido todas as mulheres que a gente conhece, né?

Pausa

Um: Você deve ter comido todas as mulheres que a gente conhece, né?

Outro: Você acabou de falar isso.

Um: As minhas amigas, minhas ex-namoradas... Você comeu a Carlinha?

O: Que Carlinha? 843 ou 237?

U: A Carlinha minha irmã!

O: 352...

U: A minha mãe!

Outro apartamento

OS: Ai, minha mãe. Você conta?

S: Anoto num caderninho. Todos os homens com quem eu tentei transar.

OS: Quer dizer que desde o Brigadeiro da aeronáutica...

S: General do Exército.

OS: Desde o general do exército que tirou a sua virgindade, nunca mais?

S: Nem um boquetinho, com o perdão da palavra. Parece maldição. Todos os dias eu tento. Há cinqüenta anos eu tento (pausa) dar, com o perdão da palavra. Mas nunca consegui.

OS: O que é que acontece?

S: Tudo minha filha, tudo. No início eu ficava esperando, sabe? Depois que o general foi embora eu queria o homem certo no lugar certo. Com o tempo eu cansei de esperar e comecei a me atirar pra cima dos homens mesmo. Mas na hora da coisa acontecer, sempre tinha um problema.

OS: Como assim, problema?
S: Uma brochadura aqui, uma falta de camisinha ali. Você acredita que teve até um que quebrou a perna tentando tirar a calça.

OS: Nossa, mas como é que ele conseguiu?

S: Não sei. Mas empatou a foda. Com perdão da palavra. Eu já tentei de tudo. Agência matrimonial, classificado sentimental, prostíbulo.

OS: Prostíbulo?

S: O que que eu podia fazer? Lá certamente tinha o que eu tava procurando. Mas não deu certo não. A cafetina disse que eu era muito recatada.

Outra senhora: Que bom né?

Senhora: Bom pra você que deve transar que nem uma louca. Eu que só fiz uma vez queria mais é parecer uma vagabunda, entrar praquele bordel e tirar meu atraso de cinqüenta anos.

Outra senhora: Ah, você foi num prostíbulo recentemente?

Senhora: Semana passada.

OS: Quer dizer que desde que você perdeu sua virgindade com o general você nunca conseguiu fazer sexo de novo?

S: Eu sei que é estranho.

Outra senhora: Que desde que você fez sexo pela primeira vez nunca mais aconteceu.

S: É

OS: Que depois que você deu, nunca mais deu de novo.

Senhora: Fala mais alto que não te ouviram em Irajá!

OS Mas que drama.

Senhora: E diário. É um drama diário!

OS: Drama diário.

Senhora: Drama diário.

OS: É. Diário, o drama. Diário.

S: Drama diário.

OS: Diário.
S: Diário.

OS: Drama diário! Drama diário!

S: Di-á-ri-o.

OS: Drama diário.

(pausa)

Senhora, outra senhora, um e outro juntOS: Drama diário.

Os dois apartamentos ao mesmo tempo.

OUTRO: Como é que eu faço pra resolver o meu drama diário?

UM: É muito simples.

OUTRA SENHORA: Pára de procurar.

OUTRO: Parar de procurar?

UM: O que te deixa agoniado é a obrigação de ter que comer alguém todos os dias.

OUTRA SENHORA: É essa obsessão de ter que dar.

SENHORA: Mas eu quero dar.

UM: Eu sei, mas você não precisa ficar indo atrás. Deixa rolar.

OUTRA SENHORA: Deixa rolar.

UM: E tem que parar de ficar listando as mulheres.

OUTRA SENHORA: Me dá o caderninho. Senão você vai querer anotar de novo.

OUTRO: Mas você acha que eu já não tentei isso? Eu não consigo.

SENHORA: Eu não agüento mais ser casada com uma coleção de vibrador e almofada.

OUTRA SENHORA: Calma.

UM: Você tem que se controlar.

OUTRA SENHORA: Precisa.

UM: Vamos fazer uma experiência.

SENHORA: Experiência?

OUTRA SENHORA: É muito simples.

UM: Sai.

OUTRO: Sair?

Outra senhora: Sai de casa. Sem rumo. Sai de casa sem rumo.

Senhora: Como assim?

Um: Sai de casa sem rumo. A primeira mulher que você encontrar...

Outra senhora: O primeiro homem que você vir, se aproxima.

Um: Chega perto.

Outra senhora: Puxa um papo.

Um: Sei lá. Pede uma informação.

Outra senhora: Mas tem que ser o primeiro.

Um: Não pode escolher.

Outra senhora: Agora, tem uma coisa.

Outro: Eu sabia que tinha uma coisa.

Senhora: Fala.

Um: Por mais que essa mulher se jogue em cima de você...

Outra senhora: Mesmo que esse homem seja irresistível...

Um: Você não vai querer transar com ela.
(Juntos)
Outra senhora: Você não vai querer dar pra ele.

(pausa)

Senhora: Ai meu Deus. Será que eu vou conseguir?

Outro: É que já vai dar 24 horas desde que eu comi a última.

Outra senhora e Um: Tenta.

Os dois se levantam. Saem de seus apartamentos e se cruzam no corredor, em frente ao elevador.

Outro: Boa noite.

Senhora: Boa noite.

 

O OUTRO LADO de Renata Mizrahi

Um cara que chamaremos de W olhando pra frente com roupas de trabalho, tipo terno cinza ou marrom. Ele está olhando pra frente como se estivesse contemplando uma vista, o lado oposto de onde está. Após um tempo aparece outro cara J, com o mesmo tipo de roupa ao seu lado, também contemplando. Após algum silêncio, J puxa uma conversa com o W. Ambos estão um pouco tensos.



J: Oi...
W: Oi, tava aí? Não percebi.
J: É, tava...
W: Sei...
J: Eu sempre venho aqui...
W: Sei...
J: Nessa hora. Como você...
W: Sei...Pra quê?
J: Oi?
W: Você veio aqui pra quê?
J: Vim pra esperar.
W: Sei...
J: To esperando.
W: Sei...
J: Passo a maior parte do tempo esperando
W: Sei...
J: Não espero muito.
W: Sei
J: Mentira, eu espero. Espero muito. Muito mesmo
W: Sei...
J: Mas aí... sabe?
W: Sei...
J: Aí... to aqui... assim...
W: Sei...
J: Então...
W: Sei...
J: É.
W: Sei...
J: Tá.
W: Sei...

Silêncio

J: Mas, e você?
W: Eu?
J: É, você ?
W: É, eu também vim aqui pra...
J: Sei...
W: Ah! Sabe como é, né?
J: Sei...
W: Tem que ... tem que fazer, né?
J: Sei...
W: É, fazer...
J: Sei...
W: Aí, eu achei melhor vir aqui ...
J: Sei...
W: Eu sempre venho aqui...
J: Sei...
W: Nessa hora... como você...
W: Então...
J: Sei...
W: Eu to aqui...
J: Sei...
W: É...
J: Sei...
W: Né?
J: Sei...

Silêncio

W: Já percebeu?
J: Oi?
W: Já percebeu?
J: O quê?
W: O outro lado?
J: O outro lado?
W: O lado de lá.
J: O lado oposto?
W: É, o outro.
J: Sei...
W: Percebeu?
J: Acho que sim.
W: O outro lado?
J: É, acho que sim.
W: Eu não tô lá, não.
J: É... é... sei...
W: Ainda.
J: Sei...
W: E você ?
J: Eu o quê?
W: Já foi lá?
J: Ah, eu? To esperando.
W: Sei...
J: Eu te disse, né? Esperando...
W: Sei...
J: Mas vai chegar!
W: Sei...
J: A hora...
W: Sei...Esperando, né?
J: Isso, esperando...

Silêncio

W: Então, tá.
J: Tá.
W: Tá.
J: Tá.
W: Você vai voltar?
J: É... tem que voltar, né?
W: É... tem que.
J: Foi bom...
W: É foi bom...
J: Foi..

Silêncio

J; Quer saber?
W: Oi?
J: quer saber?
W: Quero.
J: eu não vou voltar.

W: Não vai voltar?
J: Não, hoje eu não vou.

W: Na verdade...
J: Sei...
W: na verdade, eu também não vou voltar.
J: sei...
W: Vou ficar aqui.
J: Sei...
W: Contemplando
J: Sei...
W: O outro lado.
J: sim, o lado oposto.
W: sim, o lado oposto.

Silêncio

W: Ninguém vai notar minha ausência.
J: Não, não vai notar.

Silêncio

J: Nem a minha.
W: Oi?
J: nem a minha ausência
W: É, acho que não.

Silêncio

J: Então, vamos ficar.
W: Isso. Vamos ficar

Silêncio

Os dois esboçam um sorriso de satisfação

W: Quer saber?
J: Oi?
W: Quer saber de uma coisa?
J: quero.
W: Assim está bem melhor.
J: Bem melhor...
W: Bem... bem... melhor
J: Bem melhor...
W: Bom, né?
J: Bem bom...

De repente eles ouvem a gravação da voz de uma mulher. Uma voz muito sexy. A voz permanece controlada e sexy durante toda a cena

Voz: Temos um grande prazer em ter você fazendo parte da nossa equipe...

W: É...
J: É...
W: A hora...
J: Sempre a mesma hora.
W: Sempre.

Voz: Aqui na nossa empresa, prezamos muito pela melhoria e bem estar de nossos funcionários...

J: A mesma voz...
W: Dela
J: Ela.

Voz: Já estamos na hora de voltar ao trabalho. Ficamos muito felizes por proporcionar momentos de descanso, deixando nossos funcionários mais relaxados e criativos para mais algumas poucas horinhas de prazer aqui na nossa empresa

W: O que deve ter lá?
J: aonde?
W: No outro lado?
J: no lado oposto?
W: É, no lado oposto?
J: Não sei...
W: Ainda não fui lá.
J: sei...
W: Dizem que quem vai não volta...
J: Sexo?
W: Oi?
J: será que lá existe sexo?
W; selvagem?
J: talvez.
W: É, talvez.
J: Cheiro de mata molhada
W: Mata molhada
J: É bom o cheiro de mata molhada
W: Não sei, é bom?
J: Nunca sentiu?

Voz: Repetindo: Hora de voltar ao trabalho. Tenha orgulho de fazer parte da nossa empresa. Aqui todos nós somos uma grande família.

W: Ainda não, mas quem sabe...
J: Quem sabe...
W: Agora?
J: Quem sabe agora?

Voz: Queridos funcionários, sabemos direitinho quem faz parte da nossa empresa. Não pensem que ninguém está notando a ausência de vocês e nem abusem da nossa benevolência. Temos uns trabalhinhos por fazer. Ou vocês preferem o desemprego?

W: O que você espera?
J: Espero um pouco mais que pouco.
W; Eu também.
J: Mentira, eu espero muito.
W: Sei...

Voz: Queridos funcionários, sabemos que estão no terraço. Não irei falar de novo: Queiram colocar gentilmente as suas bundas na cadeira e voltem a trabalhar. Não esqueçam que vocês possuem família. Suas famílias ficarão muito infelizes com as suas demissões.

W: Quem será ela?
J: Não sei...
W:Bonita voz, né?
J: É, bonita.
W: então, vamos?
J: Para o outro lado?
W: O lado de lá.
J: Vamos.
W: Você tem Seguro de Vida?
J: Não. Só de morte.
W: Oi?
J: Muita segurança que um dia vou morrer
W: Sei...

Voz: Queridos funcionários toscos e imbecilóides. Vocês pensam que não sabemos o que estão pensando? Se vocês pensam que podem agir fora de nossas regras estão muito enganados. Muito enganados. Nós humildemente fazemos questão da presença de vocês em nossas salas. Afinal, é muito importante o papel medíocre de vocês na nossa empresa. Por favor, voltem a digitar nossas cartas de aniversário.

Silêncio

J: Eu não vou voltar.
W: Eu também não vou voltar
J: Não, não vou.
W: Vou ficar aqui
J: É.
W: O outro lado.
J: Sim, o lado oposto.
W: Sim, o lado oposto.

Voz (bem devagar): Nós não vamos falar de novo.

J: Nós? Quem somos nós?
W: Não somos nós, são eles.
J: Eles quem?
W: Eles, a empresa
J: Então não são eles, é ela.
W: É. Ela.
J: A voz dela...
W: Ah, que voz...
J: que voz...

Voz: seus porcos imundos catarrentos, voltem agora para o trabalho se não, não digam que não avisamos.

W: Eu gosto disso
J: Dela?
W: De pensar no outro lado
J: sei...
W: de não voltar pra lá.
J: sei...

Voz: Seres inferiores e cagados, acabou a hora de vocês.

J: Acho que chegou a hora
W: é , pode ser
J: O fim da espera
W: O fim...
J: Vamos brindar?
W: A quê?
J: Ao outro lado
W: Sim, um brinde ao outro lado.
J: No já.
W: Vamos juntos?
J: De mãos dadas.
W: de mãos dadas?
J: Ninguém vai ver
W: É. Ninguém vai ver.
J: No já. 1, 2, 3, 4, 5, 6...

Voz: Estúpidos, imbecis, não percam seus tempos com esse jogo ínfimo. A nossa empresa, pensando no bem dos funcionários, colocou uma tela invisível do terraço até o céu, impossibilitando qualquer gesto ordinário como esse de vocês. Então, parem com essa palhaçada e voltem imediatamente para os seus trabalhos.

J: Ouviu?
W: Podemos tentar a demissão.
J: Seria melhor que esperar um pouco mais que pouco.
W; então é melhor que nada
J: É
Voz: E não pensem que serão demitidos a fim de levar uma grana da empresa que sustenta vocês, seus moleques fedentinos. O máximo que vocês conseguirão é um a diminuição de 50 por cento no salário e uma carta de péssima recomendação para qualquer outra empresa concorrente que vocês tentarem colocar seus pés imundos.

W: você está em que mês?
J: Já estou terminando setembro
W: São muitos clientes.
J:É. São.
W; eu ainda estou em agosto.
J: muitas cartinhas
W: tem muita gente que faz aniversário em agosto.
J: Sei...

Voz: obrigada por fazerem parte dessa empresa. E não se esqueçam: para o seu bem, e o bem da sua família, nós estaremos sempre com você, acompanhando você . Tenha um bom trabalho, as próximas 7 horas passarão como se fossem 7 minutinhos. E não esqueça de passar no financeiro para descontarmos o pagamento por desacato a superioridade e danos morais para com a sua tão acolhedora empresa. Um bom final de tarde.

W: Até amanhã.
J: Até.


FIM

7 - 8! (SETE OITO!) de Larissa Câmara

(Ator em cena se prepara, alinha o corpo, respira e tenta fazer ponta de ballet. Tenta novamente e pára. Tenta mais uma vez ficar na ponta dos pés. Pára. Respira fundo. Prepara-se. Fala com determinação)

- Sete, oito!

(Arma o corpo, alinha o tronco rapidamente aos poucos vai andando na ponta dos pés e começa freneticamente a movimentar os braços como se fosse uma garça. Exibe graça e elegância. Sente mais uma vez um desconforto nos pés e pára. Cai no chão. Fica decepcionado. Segura os tornozelos com dor. Percebe que vai se irritar e ficar descontrolado. Respira fundo. Sorri tentando não se irritar. Alonga o tronco puxando uma linha imaginária sobre a cabeça).

Allongé! (pausa) Eu sou o primeiro bailarino da companhia e por isso todos me invejam! É o preço que se paga por ser o melhor, único, absoluto! Reinei absoluto nas manchetes, nas capas de segundo caderno, nos tablóides internacionais. Reinei, é verdade, mas um Rei jamais perde a sua majestade! Engraçado, não sei porque pensei nisso hoje, mas parece que sonhei com o sorriso da Monalisa. Monalisa... Para mim ela não é nada além de uma pessoa muito feia que deu certo. Enfim, não penso muito nisso porque não sou feio, até o meu Cou-de-pied é admirável. Mas, não é disso que eu estava falando... eu falava da Monalisa, lembro que, numa das noites da última turnê, jantei num restaurante que tinha uma imagem enorme da Monalisa. Não sei a razão da presença dessa feia nos lugares, como se a imagem da Monalisa emprestasse credibilidade aos restaurantes. Eu comia, olhava para ela e pensava: horrorosa, gorda, deselegante. Aposto que ela seria incapaz de um simples En Dedans. (Fica na ponta dos pés. Arma-se para dançar, mas executa os movimentos com deselegância) Naquela noite senti um mal estar horrível; nos dias que se seguiram, uma sensação desagradabilíssima. Como se minhas noites no palco fossem um ato digno de vergonha. Eu ouvia dentro da minha cabeça um coro de crianças gritando: Shame on you!!! (Gira) Detesto sair do palco e pensar que não foi bom, que seria melhor ter cancelado tudo. (Segura nos tornozelos e grita sem som) Os tendões que eu cortei para exaltar a beleza da minha dança... (grita) Ah, Pointe! Plié! (Abraça o próprio tronco e grita sem som) As costelas que eu retirei para aumentar minha flexibilidade. (com raiva de si mesmo) Pas de bourée! (pausa) Tudo doía tanto. Eu sentia febre. Meu cirurgião parecia tão confiável... Aconteceu o que me parecia impossível! Sim, sofri na Europa. Sorvia minha sopa após um lamentável Grand Pas de deux. Grand Merde, Merde! E Monalisa desgraçada, sorria! Ria de mim. Ah! Quando eu ia furar os olhos da desgraçada com a minha colher, ouvi meu substituto falando no celular. Ele parecia muito feliz, realmente a alegria de Monalisa é contagiante, pensei. Ele agradecia, fazia declarações de amor e sorria. As últimas palavras que ouvi: obrigado meu amor, você é maravilhoso, ele está cada vez pior. Em breve serei o primeiro. E desligou. Eu não podia acreditar: meu substituto amante do meu cirurgião! Tudo estava explicado. O mundo conspirava contra mim. Olhei mais uma vez para o sorriso da gorda enigmática e cuspi toda a minha sopa. Cuspi meu ódio. Fui para o meu quarto, mas não consegui dormir, fiz a única coisa que me acalma: Déboulés. (gira em torno de si mesmo) ira; cólera; zanga; indignação; raiva; desejo de vingança. (pára de girar e sorri) Desejo de vingança! Pas de Chat! (pausa) Engraçado como as fatalidades acabam com a vida das pessoas. Meu substituto foi espancado, é incrível como a violência se manifesta também na Europa. Se sobrevivesse seria incapaz de dançar, destruíram seus membros inferiores, morreu sem fazer um demi-plié. Meu cirurgião também se foi, acidente de carro. É impressionante, como os freios falham nas horas mais impróprias. Morreu carbonizado, uma bela morte para quem desejava terminar cremado, não deixa de ser prático, não é mesmo? Ah, tomei gosto! Resolvi me vingar da sociedade que me esqueceu. Fiz amigos, na cidade de São Paulo, PCC. No Rio de Janeiro os comandos do morro estão comigo. Voltei a brilhar nos jornais. Estou no topo, nas manchetes. Planejo com cautela. Allongé! 1, 2, 3, 4, 5, 6, Grand Jeté! Antes de puxar o gatilho, Allegro, 7, 8! (pega os jornais que estão no chão, lê rasga, come, lambe, joga para cima. Deleita-se em passos de ballet e déboulés) Assassinatos, roubos, conspirações, pizzas, chacinas, déboulés, plié, ônibus queimados, tiroteios, arrastão, guerra, petróleo, bombas, Kill Bill, Kill Bush, SUS, Suzane, Free Mike Tyson, Free Winona Rider, Avant, Em! Attitude! Collor, Clodovil, Congresso, PM, PQP, Ira, Ira, Irã, Iraque, Terror, Terroristas. Assemblé! 7, 8! (repetições das palavras até a exaustão, podem ser utilizadas manchetes do jornal atual) (Segura os jornais e gargalha) Estamos Sob o Signo da Ira!

FIM

Allongé - Alongado, estendido, esticado. Exemplo: arabesque allongé.

Cou-de-pied - Peito do pé. A parte do pé entre o tornozelo e a base da panturrilha é chamada de cou-de-pied.

Dedans, En - Para dentro. Em passos e exercícios o termo en dedans indica que a perna, à terre ou en l'air, se mexe em movimento circular em sentido anti-horário de trás pra frente. Por exemplo, em rond de jambe à terre en dedas. Em pirouettes o termo indica que a pirouette é feito para dentro em relação à perna de base.

Allegro - Vivo, esperto. Para todos os movimentos brilhantes e vivos. Todos os passos de elevação tais como entrechats, cabrioles, assemblés, jetés etc. obedecem a esta classificação. As qualidades mais importantes que se deve ter em mira num allegro são a leveza, a suavidade, o balanço e a vivacidade.

Déboulés - Rolando como uma bola. Um passo onde o bailarino dá várias voltas em torno de si mesmo avançando para o ponto onde sua cabeça está fixada. A cabeça deve girar antes do corpo. É feito em demi-pointe ou em pointe.

Demi-plié - Joelhos meio dobrados. Todos os passos de elevação começam e terminam com um demi-plié. Ver plié.

Pas de deux, Grand - Dança a dois. Diferente do pas de deux simples que tem uma estrutura definida. Em regra geral o grand pas de deux divide-se em cinco partes: Entrée, Adage, Variation para o bailarino, Variation para a bailarina e o Coda, no qual os dois dançam juntos.

Pas de Chat (pulo do gato) - Através de um demi-plié, as duas pernas saltam e ficam dobradas no ar ao mesmo tempo que avançam de lugar. Os pés permanecem esticados.

Jeté (jogado) - Salto de um perna para outra.

Assemblé - Juntos ou reunidos. Um passo no qual um pé escorrega pelo chão como num tendue, é jogado ao ar, e nesse momento, o bailarino levanta a perna de apoio, esticando os dedos dos pés. Ambas as pernas vão ao chão, uma após a outra, em 5ª posição.

Attitude - Uma determinada pose do ballet tirada por Carlo Blasis da estátua de Mercúrio por Jean Bologne. É uma posição numa perna só com a outra levantada para trás com o joelho dobrado num ângulo de noventa graus e bem virada para fora para que o joelho fique mais alto do que o pé. O pé de apoio pode ser à terre, sur la pointe ou demi-pointe. O braço do lado da perna levantada é mantido por cima da cabeça numa posição curva enquanto que o outro é estendido para o lado. O attitude também pode ser com a perna levantada para a frente.

Avant, En - Para a frente. Uma direção para a execução de um passo. Usado para indicar que um determinado passo é executado para a frente. exemplo: assemblé en avant.

 

FILME B de JULIA SPADACCINI

Um homem e uma mulher na fila do cartório. Os dois estão bastante entediados. Depois de algum tempo o homem puxa conversa.

Ele – Cartório é a coisa mais idiota que o ser humano inventou, né?

Ela – Como?

Ele – Você passa 30 minutos da sua hora de almoço em pé na fila para ser atendido por um homem que nunca te viu. Aí você entrega um documento assinado por você e esse homem que não tem a menor idéia de quem você seja, carimba teu papelzinho para confirmar que a assinatura que você fez é sua mesmo. Conclusão, você paga para alguém que nunca te viu dizer que você é você mesmo.

Ela – Normal.

Ele – Ah, tá... você é dessas pessoas que acha que não vai morrer, né?

Ela – Como é?

Ele – É dessas pessoas que acreditam que o delta ao quadrado serviu para alguma coisa...

Ela- Que delta?

Ele- Delta ao quadrado é igual a B mais ou menos C.

Ela – Não. (pausa) É igual a mais ou menos 1.

Ele – Tá vendo! Você pensa que é eterna e por isso não liga para o tempo que gasta aqui fazendo essa ação estúpida.

Ela – E você pensa que sabe exatamente como os outros pensam.

Ele- Não penso.

Ela – E pensa que sabe muito mais sobre a vida do que qualquer pessoa dessa fila.

Ele – Escuta, você vai mesmo ridicularizar a minha revolta no cartório.

Ela – Não, não... Se você quiser continuar, dou a maior força, sobe na mesa, quebra umas cadeiras. Dá um tiro em alguém. Isso, atira em alguém! Vai até me ajudar a passar o tempo. Vai ser legal.

Pausa.

Ele – Acho que você é a mulher da minha vida.

Ela – Ih! Você é dessas pessoas que acreditam em pessoas da vida, é?

Ele – E por que, não?

Ela - Pensei que você fosse o cara que abominasse invenções.

Ele – Você acha que o amor é uma invenção?

Ela –Tão inventado que daria até para registrar aqui e depois reconhecer firma.

Ele- De quem?

Ela – Como assim de quem?

Ele – Quem inventou o amor?

Ela – Fabricantes de ansiolíticos.

Ele- Não faz o menor sentido isso que você está falando.

Ela – Agora você quer que as coisas façam algum sentido?

Ele – Algum sentido as coisas tem que ter nem que seja a falta dele.

Ela – Agora sim, o sentido se foi de vez.

Silêncio.

Ele – Escuta, se isso fosse um roteiro.

Ela – Isso o quê?

Ele – Esse momento. Se esse momento que a gente está vivendo fosse uma parte de um roteiro, que parte seria?

Ela – A parte cafona em que o rapaz diz para a mocinha que a vida é um filme.

Ele – Só tem uma coisa.

Ela – Qual?

Ele – Você não parece a mocinha.

Ela – Não?

Ele – Não.

(pausa)

Ele- Não vai me perguntar o por quê?

Ela – Não.

Ele – Por quê?

Ela – Se eu não for a mocinha não quero fazer o filme.

Ele – Que pena! Se você não está no meu filme então vou ter que parar de falar com você.

Ela - Quem disse que esse filme é seu?

Ele – Ah gente! É óbvio que é meu. Eu que comecei esse filme, se fosse por você isso não seria nem um documentário.

Ela- E eu não sou a mocinha da sua obra prima por quê?

Ele – Porque você é a vilã.

Pausa.

Ele – Não vai falar nada? Não vai gargalhar e dizer: “Ele não perde por esperar”

Ele gargalha. Pausa.

Ele – Vai ficar calada? Já sei, é terror psicológico.

Pausa.

Ele – A vilã está arquitetando um plano terrível contra mim? Não vai deixar o homem carimbar o meu documento, vai roubar a tinta do cartório, vai convencer o homem de que eu não sou eu... de que sou um clone e que...

Ela – Eu não estou mais no seu filme...

Ele – Então você admite que o filme é meu?

Ela – Meu querido, se esse roteiro fosse meu, você não entraria nem na última cena.

Ele – Ta vendo? É vilã.

Pausa.

Ele – É a vilã. Muito malvada. É um filme sobre um personagem que é excluído de um filme pela personagem malvada que quer fazer um filme sozinha.

Pausa.

Ele – Vilã.

Ela – Vou chamar o segurança.

Ele – Vilã total.

Ela – É realmente uma pena que você ache isso, pois eu fiz de tudo para ser a mocinha até agora.

Ele – Você não concordou com nada do que eu disse, a mocinha sempre concorda com o herói da história.

Ela – E quem disse que você é o herói da história?

Ele – Sou o bandido?

Ela – Você é um figurante chato que fica enchendo alguém na fila de um banco e que a câmera passa longe.

Ele – Sendo assim você é a figurante feia que está ouvindo o cara chato.

Ela – Não, eu sou a infeliz que resolveu entrar no cartório na hora errada.

Ele – Ai! Por que você está tão irritadinha?

Ela – Mas que seria um filme de terror eu tenho certeza!

Ele- Você realmente não acha uma coisa estúpida ficar aqui parado para ser reconhecido por quem não te conhece?

Ela – Escuta, se você fosse tão revoltado não estaria de calçando esse “All Star” e casaquinho Adidas da moda, querido. Você estaria pelado em cima de uma árvore rasgando um coco com os dentes. E aí sim eu acreditaria realmente que você acha isso aqui estúpido.

Ele – (Fazendo cara de mal) Vilã.

Silêncio

Ele – Olha, vamos fazer as pazes, no fundo eu gosto de você. Acho mesmo que você pode ser a mulher que eu sempre procurei.

Ela – Ai, meu Deus, agora é virou um filme B...

Ele – Você poderia ser mais romântica, sabia?

Ela- E você poderia ser mais calado, sabia?

Silêncio

Ele – Toda vez que eu entro numa fila penso muito sobre o mundo. Muito. Acho que as filas são grandes metáforas. Você não acha?

Pausa

Ele – Não vai perguntar o por quê?

Pausa

Ele – Saiu do filme de novo?

Pausa

Ele – Vai me abandonar no meio da fila, é isso? Vou ser obrigado a ficar olhando o seu couro cabeludo durante 30 minutos sem poder interagir com você... Vou ficar preso entre você e essa senhora surda aqui atrás. Durante meia hora. É isso mesmo? (pausa) Dessa maneira você só está assinando o seu atestado de vilã absoluta!

Ela – A senhora atrás de você doida para saber o que você acha do cartório.

Ele – Não. Ela está tranqüila. Já entendeu que tudo não passa de uma fantasia compulsiva de controle sobre a vida que não temos.

Ela – (para si) Eu sempre atraio esquizofrênicos. Se tiver num lugar, pode ter uma multidão, mas o maluco sempre vem falar comigo.

Ele – Você já se perguntou o por quê?

Ela – Por quê?

Ele – Identificação.

Ela – Então você é mesmo um maluco?

Ele- Defina.

(Silêncio)

Ela – O quê?

Ele – Maluco.

Ela – Maluco - pessoa que não é normal.

Ele- Pessoa normal?

Ela – Aquela que não é maluca.

Ele – Ou seja, aquela que fica 40 minutos numa fila para que alguém que nunca a viu diga que a assinatura dela é dela mesma.

Ela – Isso! É isso mesmo! Uma pessoa normal não vê nenhum problema em ter que esperar 40 minutos para alguém que não a conhece confirmar que ele é ela mesma!!!

Ele – Tá bom. Entendi.

Pausa.

Ela – Parou?

Ele – Como?

Ela – Desistiu?

Silêncio

Ela – Não vai responder?

Ele – Como?

Ela – Acabou o filme?

Ele – Que filme?

Ela – O seu filme.

Ele- Não sei do que a senhora está falando.

Ela – Como assim?

Ele – (apontado para frente) Olha para frente, a fila andou.

Ela- Saiu do set de filmagem, herói? Qual é? Cortou a minha cena? É cinema mudo agora???

Ele – Desculpe, mas acho que a senhora não está bem...

Ela – Que senhora??? Tá maluco??? Eu sou a mocinha entendeu??? Mocinha! Esse filme é meu também! Você não pode sair do filme sem o final! Qual vai ser o final???

Ele – Segurança, por favor!

Ela – Eu sou a mocinha! A mocinha!Sempre!!!

Ela é retirada pelo segurança. Depois que ela sai ele dá um passo para frente e cutuca a próxima pessoa da fila repetindo a primeira ação da cena.

Ele - Cartório é a coisa mais idiota que o ser humano já inventou, né?

WOMAN MACHINE de Jô Bilac

Personagens: Mulher, uma ave de rapina
Frank, sustentando um jornal que esconde seu rosto

(névoa de cigarro. Cortinas magentas e pesadas. Escondida por de trás delas, observando o que se passa na rua, uma mulher_ meio ridícula, com cara de quem comeu e não gostou. Está vestida como se fosse dormir, no entanto fica evidente por sua expressão cadavérica, que não dorme nunca. Com uma mão abre uma fresta entre as cortinas, suficiente para analisar o que ocorre. Com a outra mão termina seu cigarro, mordendo o canto da boca, com muito desprezo pelo que vê. )

Mulher: ( mastigando alguma palavra, inaudível. Ruminando em amargo. Entra em dúvida) Precedente...Procedente... (berra) Frank! Como se diz, hein? (nova ruminada inaudível) Como é mesmo? (sempre da janela, sem perder seu foco de discussão) Héin, Frank! (confessa) Fiquei virada no siri agora. (perdida em si mesma) Precedente.. Prece... Prece(saboreia) - Proce... Procedente... O que procede... (numa careta incompreensível) Faz sentido , não faz? Faz... Héin, Frank... Frank! (desiste. Muda o tom) Eu tenho certeza que esse daí da frente tem Procedente criminal. Absoluta. Tem que eu sei. Tem sim. Se não tiver, vai ter. Ontem eu fiquei vendo quando ele cozinhava, tinha um prazer sombrio socando o alho e além disso, cortava os legumes com uma frieza animalesca, sabe? Lógico que não, né Frank. Você nem sequer sabe descascar uma banana. (anima-se) Olha lá... Lá vai ele novamente lavar a calçada. Já, já tudo se reinicia de forma diabólica. Vem ver Frank! É o código! (ri amarga) Eu não sou boba, Frank, eu- não- sou- boba! Está começando agora... Na mesma hora em que passa o abobado do 403 com seu yorkshire fedido. Acredita Frank, que hoje pela manhã vi esse abobado beijar na boca do yorkshire antes de ir trabalhar????? Boca não! Focinho! Beijou o focinho! Tarado! Deveria arrumar uma esposa! Fiquei pensando se ele mantém relações sexuais com o yorkshire.... Um dia ainda denuncio esse cara pra defesa do animal! Se bem que esse yorkshire não deve valer muita coisa, mesmo. Não confio no caráter de cães pequenos. E muito menos em quem os têm. Definitivamente. Lembra daquela história da bibliotecária dentuça do 912, Frank? Aquela que colecionava orquídeas e escondia o cadáver do marido emparedado na sala de jantar... Claro que lembra, Frank! Ela tinha uma cara de camelo, horrorosa... Um bico... Uma coisa estranha mesmo. Então, ela tinha um pequinez belga... Era cúmplice! Aquela coisinha horrorosa com cara cínica. Falo do pequinez. Nunca me enganou. Não mesmo. Ninguém me engana, Frank, você sabe disso. (traga o cigarro violenta) Estou próxima do desfecho de minhas análises. Bem próxima.......... (Consulta o relógio) espera um pouco... Só mais um segundo e 5, 4, 3, 2, 1... Foi dada a largada, Frank: A velha do sobrado da esquina acena para o abobado do 403. No mesmo instante em que o rapazinho da motocicleta azul cruza a rua com sua namoradinha ruiva na garupa, depositando um envelope suspeito na caixa de correios da viúva aleijada, rente ao meio fio ensopado com a água que escorreu da calçada e que agora é espirrada no estrangeiro, de cara inchada meio terrorista, que decide parar no meio da rua na hora em que o sinal está amarelo, fazendo com que justamente o carro menta de vidro fume diminua a velocidade_ enquanto uma adolescente apática tomando soda na latinha_ toca a sineta de sua bicicleta para não atropelar o yorkshire do abobado do 403, que acena com as fezes do bicho nas Mãos para a velhinha do sobrado da esquina, que _ escondida _ gosta de dançar pelada bebendo cerveja . O estrangeiro entra no carro menta fume, a adolescente apática joga a latinha de soda no jardim da viúva aleijada, já quando do outro lado desaparecem o casal na motocicleta, enquanto o vizinho da frente fecha os registros e tranca o portão. A velha, o abobado, um último adeus e agora não há mais nada..................(silencio) segundos Frank......... Segundos! Segundos que se repetem todas as noites, sincronizados, entranhados em detalhes assustadores........ Tal qual uma orquestra cifrada em uma contagem regressiva... Numa esquematização sinistra que só um ensejo obscuro e cruel poderia justificar. Tem coisa aí, Frank. Tem sim. (reflexiva) O Governo deve estar metido nisso. O Governo sempre está por trás de tudo. ( Corajosa) Mas o Governo não me intimida! Absolutamente. Eu tenho muita personalidade e nisso o Governo não me dobra. Não sou vaca de presépio! Eu coloco a boca no trombone, rasgo o mapa. Porque nisso a sociedade não tem culhão. Tudo massa de manobra. É verdade, Frank. Você mesmo, estufa o peito, fala da sociedade como se fosse uma grande coisa: (bufa) ah! A sociedade! A força da sociedade! A dama da sociedade! Alta sociedade! Sociedade! Sociedade! (taxativa) Sociedade é uma merdinha assim. (joga a guimba de cigarro pela janela) Medíocres!!!! Vivem suas vidinhas e nem se dão conta do que realmente está acontecendo. As mensagens subliminares, os códigos interligados, a lavagem cerebral... Repetem esquemas, consomem desnecessidades, estão todos programados como arquivos bolorentos. (triunfante) Mas eu não! Digo e repito: Eu tenho muita personalidade. (avista alguém na rua. Anima-se) Ah! Lá vai a gorda Joyce. Tem nada pra fazer... Impressionante! Desocupada. Adora bater perna. Burra. Gorda e burra. Massa de manobra! (afina a voz para não ser reconhecida enquanto grita) Gorda Joyce! Gorda Joyce! (diverte-se) Gorda Joyce! Joyção! Gorda Joyce! (muda o tom) Piranha. Tinha que ser traficada pro oriente como escrava branca, pra ver o que é bom pra tosse. Lá no oriente sim a vida é dura. Não usam códigos. Tudo é muito explicito. (muda o tom) Vem ver Frank! Tudo por aqui é muito mais interessante que seu jornal. A vida real e abrupta, não essas publicações manipuladas por uma mente maior... O que se repete lä fora faz parte de uma conspiração bem mais elaborada. ( muda o tom) Quando eu desmascarar tudo isso_ sim , pois eu o farei _ o Governo com certeza vai querer me dar um cala boca. Natural. Mas se eles pensam que eu vou negociar por baixo, estão muito enganados... (ri azeda) Eu quero um bom cala boca! Um senhor cala boca! De outro jeito nada feito. Nada de assinar papéis, hein Frank! Olha lá! Você com sua cabecinha de vento é bem capaz. Vamos chutar pra cima! O Governo tem condições... Dependendo da propina poderíamos... sei lá! (sugere vã) Viajar. Respirar novos ares. Sim, por que não? Um lugar bem exótico... Não sei... Algo como... (transportada) Honolulu... ( abstrata) Já pensou, Frank? Eu e você em Honolulu... Dançando o ula ula e nadando com os tubarões... (tempo. Muda o tom, assumindo uma expressão assombrada) Mas onde estou com a cabeça!!!! Frank! Como eu sou ingênua... (num frenesi) Estamos todos na seringa! É claro! Somos um alvo fácil... Queima de arquivo, Frank! Queima de arquivo! O Governo não é bobo nem nada! Entraremos num carro a caminho do aeroporto, e para todos os efeitos iremos para Honolulu, mas na verdade nunca mais voltaríamos dessa viagem. Pois sim, Acidentes acontecem, seremos apenas mais um nome no obituário local. Esqueça Honolulu! (agitada) Escuta, Frank! A partir de agora essa porta não se abre pra mais ninguém. Ninguém, ouviu? Temos comida suficiente por aqui para nos manter por mais dois meses e se economizarmos, dá rebarba pra três. Precisamos redigir sete cartas endereçadas a sete fontes seguríssimas, explicando toda a transação, essa será a nossa garantia de vida! ( novo ataque histérico) Ingênua! Como eu sou ingênua! É claro que à uma hora dessas o nosso telefone deve estar grampeado, assim como todos os nossos contatos! O Governo não é bobo, Frank! Se duvidar, estamos sendo espionados a mais tempo do que imaginamos. Sim... Agentes secretos infiltrados em nosso condomínio... O Governo não é bobo, Frank, não é bobo! É preciso estar atento a tudo... (numa conclusão apocalíptica) Frank!... Estamos sendo observados agora... (quase num sussurro) Não faça nenhum movimento brusco, Frank. Eles estão de olho. Tenho certeza. (sorri artificialmente) Aja naturalmente, meu querido. (paralisada num sorriso amarelo) A partir de agora devemos desconfiar de tudo e de todos, ouviu Frank? Estão todos envolvidos num complô satânico. Ninguém ta aqui à toa! Ta todo mundo com objetivo. Ouviu, Frank? (chamando num sussurro) Psiu! Ei, Frank, ta me ouvindo?... ( pela primeira vez repara no marido escondido por trás do jornal) Frank... Estou falando com você! Você fica o tempo todo com a cara enfiada nesse maldito jornal que qualquer dia desses, é bem capaz de você passar na rua e eu não te reconhecer! (novo assombro) Frank... sabe que de fato eu não me lembro muito bem do seu rosto... Há quanto tempo você está lendo esse jornal? Fala, Frank! Se me der uma dica eu lembro, juro que lembro! Por que você não fala comigo? Ei, Frank... fala comigo!( para si mesma) E se esse não for o meu Frank... Pode se tratar de um impostor, naturalmente... Mas o que de fato terá acontecido ao meu Frank? (Prática) Bem, eu também posso ter me enganado de casa ( reparando a casa pela primeira vez) Ando com a cabeça na lua nos últimos dias, posso ter entrado na casa do meu vizinho! De fato nada aqui me é familiar... Curioso. (analítica. Tocando na casa com curiosidade) Hum... Ou então é bem possível que tenham implantado um chip em minha cabeça enquanto eu dormia e por isso toda essa confusão mental.... É óbvio... Eu sou muito esperta.... ( volta-se para o homem com o jornal) O Governo está por trás de tudo... Projeto Alfa-gama 27: onde nada é por acaso, está tudo previamente combinado! (num delírio lógico) A velha do sobrado... O Abobado do 403... a adolescente apática com a soda na latinha... o vizinho e os registros dágua... Tudo combinado! O yorkshire cínico emparedado na sala de jantar! A jovem ruiva da motocicleta menta fume com focinho de camelo... O estrangeiro terrorista dançando pelado bebendo cerveja com a viuva alejada!!! Sim!!!! (alucinada) Está tudo ligado! Todos! Essa casa...o chip... o pequinez belga... e : Frank... A peça que faltava... A chave de todo o mistério... A resposta secreta, que vide o verso, ao contrário_ estava lá o tempo todo. Eu descobri tudo Frank... Eu sei de tudo! Eu sou muito esperta... ( suspense. Ela caminha em direção ao homem) Frank... Frank... (cada vez mais perto) Frank... ( as mãos esticadas) Frank... (mais perto) Frank... (mais) Frank! ( puxa o jornal do rosto do homem. O rosto se revela de onde só ela o pode ver.)
(ela o encara)
(vazio)
(vazio)
(vazio)
( vai escurecendo, até que já nada mais possa ser visto)

Fim.

RELICÁRIO de Felipe Barenco

A cena acontece num galpão abandonado. Enquanto o público entra a mulher confere uma lista enorme de itens, todos eles espalhados pelo local em malas e caixotes. A idéia a passar é que a personagem é metódica e organizada.

(Conferindo a lista) 251 caixas de sabonete, 135 jogos de talheres, 92 capinhas de celular... Hum.... Chico, Bethânia, Gal, Calypso... Calypso? (Abre uma das malas) Só falta conferir aquela outra caixa ali... Estou exausta. (Confere) 1.325 agulhas de prata, 43.989 pulseiras, 1.657.345 fitinhas do Senhor de Bonfim... Ué? (Refaz as contas) 340, 341, 342, 343, 344... Tá faltando uma fitinha. (Leve desespero) 341, 342, 343... (Desespero. Revira as coisas descontrolada, quase como uma psicopata) Eu não acredito! Deve estar em algum lugar, não pode ser... Cadê a porra da fitinha?! (Abre a mala novamente) Mamãe, a senhora pegou a minha fitinha? A senhora me conhece, sabe que eu não gosto desse tipo de brincadeira... (Encontra a fita. Doce) Mamãe, eu não posso com a senhora! Querendo me assustar, hein! Ai... que alívio! Já pensou eu ter que contar tudo de novo? Eu prometo que se sobrar alguma eu empresto, empresto uma dessas pra senhora. (Vê um livro fora da caixa. Antes de guardá-lo, lê uma citação) Pensa numa pergunta mamãe. Diz aqui “A avareza é a chave da pobreza.” Eu adoro provérbio.

(Melancólica. Age como quem vai despedir-se) Mamãe, acho que eu nunca tive oportunidade de dizer isso, mas eu aprendi muito com a senhora. A senhora é uma mulher forte, de fibra! É sim, mamãe... Tem garra! Não, é você... É você... Deixa de ser boba mamãe, só estamos nós duas aqui, não precisa ser humilde. A senhora pode matar a minha curiosidade? É que a tia Consuelo... Calma, ela não fez fofoca nenhuma, deixa eu falar primeiro... (Sapeca) Eu ri tanto com a tia Consuelo, porque ela imita a senhora direitinho, né? Ela contou que a senhora só... só... como eu vou dizer... ah, só transou com o pai uma única vez na vida e engravidou de mim de primeira, é verdade? Que nunca mais vocês tiveram relação... Como a senhora conseguiu? A tia contou que a senhora morria de medo de desagradar a Deus e que até engravidar, nunca tinha cometido nenhum pecado. Que seguia à risca todos os mandamentos, vivia com o terço na mão... A tia falou que só depois de 7 anos de casada é que a senhora decidiu se entregar ao pai. É verdade que o padre foi lá em casa pra benzer a primeira trepa de vocês? (Rindo) Hahaha, mamãe! A senhora é impossível! Não posso com a senhora... (Séria) É, tem razão... Além de religiosa, a senhora é intuitiva. A tia Consuelo mesmo... ela falou que depois da primeira vez a senhora ficou andando pelos cantos da casa chorando. “Eu sinto, eu sinto que se me entregar ao meu marido, eu vou perder alguma coisa.”

A senhora só queria ser limpa, ser íntegra, né? Mas eu confesso que fiquei um pouquinho chateada com essa história... Não muito, só um pouquinho. É que eu pensei que a senhora gostava de mim, que tava ganhando alguma coisa com uma filha. Sabe o que a tia Consuelo disse? Que você era muito pretensiosa, queria ser mais pura que a Virgem Maria! Na certa a senhora deu e depois ficou se achando a mais esperta da humanidade “Eu devia ter seguido a minha intuição, o meu sexto sentido.... Se eu der pra ele, eu perco alguma coisa. Tenho que guardar pra mim.” Perder, perder, perder... precisava desse apego todo ao hímen? Eu concordo, a senhora era muito gananciosa. Concordo, sim... Ué, eu concordo, vou mentir? Não, não... é, é sim... Não altera o tom de voz comigo! Não grita, mamãe. Deixa eu falar... Deixa... (Psicótica) Cala essa boca e me ouve! Agora eu vou falar, que tá tudo engasgado aqui. Não vou guardar isso só pra mim, não! A senhora além de gananciosa era burra, uma grossa, ignorante, alienadinha no seu mundinho pequenininho. Sabe o que a senhora é? Um diminutivo!

(Desamarrando a bomba do corpo e colocando dentro da mala) E não adianta correr, não! A senhora pensou, no alto de sua pretensão, que eu ia destruir a minha vida assim? Não bastou eu ter virado isso? Não está satisfeita? Eu sofri muito, sabia? Já imaginou o que é nascer se sentindo uma ladra? Roubando da própria mãe a única coisa que ela não queria dar pra ninguém? Mas só hoje eu entendi a minha missão. Fui usada como instrumento de Deus pra castigar a senhora. (Saudosista) Lembra do dia em que eu nasci? Eu era linda, o bebê