O CISO de Rodrigo Nogueira

Paulo: Bom dia. Meu nome é Paulo.

Todos em coro: Oi Paulo.

Paulo: Bom. É... Por onde é que eu começo. Eu... (pausa) Ontem... (pausa).

Tutor: Paulo. A gente sabe como o primeiro dia é difícil. Se você não quiser falar muito não precisa. Mas é importante falar.

Paulo: Eu sei. Eu vou falar.

Tutor: Fica tranqüilo. Vamos lá. Eu vou te ajudar. Você pode começar contando pra gente se você é profissional, paciente ou outros.

Paulo: Outros?

Tutor: Secretários de consultórios, assistentes, pessoas que se fazem passar por profissionais.

Paulo: Existe isso?

Tutor: Aqui dentro, felizmente não mais. Mas já existiram. Eles se recuperaram.

Paulo: Credo.

Tutor: É importante não julgar, Paulo. Todos nós aqui queremos nos ajudar.

Paulo: Você tá certo. Desculpa.

Tutor: Então.

Paulo: Então o quê?

Tutor: Você é paciente?

Paulo: Não, não. Eu sou dentista mesmo.

Tutor: E porque você procurou a gente?

Paulo: Bom, porque...

Tutor: François! Pára de ouvir o barulhinho do motor no I pod!

François: Perdão.

Tutor: Desculpe, Paulo. Prossiga.

Paulo: Bom, como eu ia dizendo... há mais ou menos uns seis meses que eu estou enganando os meus pacientes.

Tutor: Como assim enganando, Paulo?

Paulo: É... Eu... Eu substituí a xilocaína por geléia de laranja.

Tutor: Entendo.

Paulo: E a anestesia por cepacol.

Tutor: Cepacol? Interessante. Nunca tinha ouvido.

Tiago: Eu usava água com corante mesmo.

Tutor: Tiago, vamos deixar o Paulo falar.

Paulo: Bom. Como eu ia dizendo, eu venho tratando os meus pacientes sem anestesia. Sem que eles saibam. Eu sei que é errado. Mas eu não consigo parar.

Tutor: Muito bem, Paulo. O primeiro passo é reconhecer.

Paulo: Desde que eu comecei a... fazer essas coisas, muitos pacientes deixaram de freqüentar o meu consultório. (Ele vai se emocionando paulatinamente). Eu to ficando sem dinheiro pra pagar as contas. Minha mulher está querendo me deixar. Tem dois pacientes que estão me processando. Eu já não tenho mais amigos. A minha vida está um inferno. Eu to muito deprimido (Um leve choro). E eu sei que é simples. É só parar com isso e tudo volta ao normal. Mas toda vez que eu vou anestesiar um paciente... Eu tento, mas eu não consigo. É mais forte do que eu. (Chora)

Tutor: Nós entendemos, Paulo. Fica calmo. A gente está aqui pra te ajudar. Eu acho que pra primeira vez você foi muito bem. Agora, como é de praxe aqui nas nossas reuniões, alguns membros vão contar suas histórias pra você entender que não está sozinho. Quem quer falar?

Lenita: Pode ser eu.

Tutor: Muito bem, Lenita.

Lenita: Bom. Eu sou paciente. Quer dizer, fui, né? E eu desenvolvi uma obsessão pelo meu dentista. Isso me causou muitos problemas. Começou com coisas pequenas como chupar cabos de escovas de dente e uns contratempos no trabalho.

Paulo: O que é que você faz?

Lenita: Eu era balconista de uma farmácia. E toda vez que alguém entrava pedindo um enxaguante bucal ou um limpadorzinho de língua que fosse, eu... Bem, eu tinha problemas. Eu decidi vir pra cá depois que eu fui presa por espancar uma senhora de setenta e quatro anos porque ela demorou mais de dez segundos falando a palavra... falando a palavra...

Tutor: Vamos lá, Lenita, você consegue.

Lenita (depois de respirar fundo): “Profilaxia.”

Paulo: Qual o problema com profilaxia?

Tiago: A Lenita não podia ouvir a palavra profilaxia que ela virava uma louca epilética.

Lenita: Pelo menos eu não transformei a boca da minha esposa num cu ampliado.

Paulo: Cu ampliado?

Lenita: O Tiago arrancou todos os dentes da mulher dele na noite de núpcias.

Tiago: A Vilma pediu!

François: Eu te entendo, mon ami.

Lenita: Se ela pedisse pra você arrancar os seus você arrancaria?

Tiago: Me deixa em paz.

François: Malu, Malu

Tutor: Vamos parar.

Lenita: Coitada da Vilma.

François: Ah, Malu.

Tutor: Controle-se François.

François: Desculpe. Mas me lembrei da boca de Malu depois da cirurgia.

Paulo: Cirurgia?

Tutor: O François fez uma livre associação entre amor e dentes e matou sua ex-mulher de tétano depois de arrancar seus caninos e incisivos com um alicate enferrujado em Paris. Mas ele já cumpriu pena numa penitenciária em Rouen, se mudou para o Brasil há dez anos e está praticamente recuperado.

Sônia: Só se for da virose que ele pegou semana passada, né?

Tutor: Sônia, por favor.

Sônia: Ele está de olho no meu molar faz séculos. Se eu dormir de boca aberta na sala do café tenho certeza que acordo com um dente a menos.

Tutor: Quer parar com essa implicância.

Paulo: Você também é dentista?

Sônia: Não. Sou paciente. Eu arranquei meus próprios dentes para salvar meu casamento.

Paulo: O quê?

Sônia: Meu ex-marido era dentista.

Paulo: Ah, entendi.

Sônia: Eu resolvi pedir o divórcio depois que ele se recusou a fazer meu tratamento de canal.

Tutor: Sônia, você não precisava de um tratamento de canal.

Sônia: Mas naquela época eu precisara fazer sexo. E o tratamento de canal era meio caminho andado. Os dois sozinhos numa sala, eu deitada e ele semi-nu.

Paulo: Semi-nu?

Sônia: O consultório do Rodolfo era muito quente. Ele atendia sem camisa.

Paulo: Sei...

Tiago: Pro-fi-la-xi-a!

Lenita: Se você continuar eu vou dar uma dentadura pra Vilma.

Tutor: Tiago, você está se excedendo.

Cecílio (para Paulo): Você se incomoda de abrir a boca?

Tutor: Cecílio, por favor.

Cecílio: É que eu to vendo um brilhinho no canto esquerdo da boca dele.

Paulo: Brilho?

Tutor: Cecílio.

Cecílio: Eu juro que eu to!

Tutor: Você tem que se controlar.

Cecílio: Mas e se for um diamante!

Paulo: Um quê?

Tutor: O Cecílio encontrou um diamante cravado na gengiva de um dos pacientes. Desde então ele fez 474 extrações desnecessárias em busca de pedras preciosas.

Paulo: Nossa!

Tutor: Bom, nós já estamos falamos bastante. Alguém mais quer falar?

Uma mulher levanta a mão.

Tutor: Pode falar, Neide.

Ela se levanta. Imediatamente um rapazinho franzino que estava lendo uma edição antiga da Moda Moldes se levanta e se coloca do lado dela. Neide fala em LIBRAS (língua dos surdo-mudos)

Rapaz Franzino (ao lado de Neide que sinaliza com as mãos. Ele vai falando fazendo pequenas pausas esperando que ela sinalize o restante da frase): Eu gostaria de dizer...(pausa) ao Paulo (pausa) que ele não se assuste com a... O quê? O quê que é isso, Dona Neide? (pausa) O quê? (pausa) Eu não conheço esse sinal. (ela pega papel caneta e escreve) Loquacidade? O quê que é loquacidade? Tá, eu vou traduzir. Eu gostaria de dizer ao Paulo que ele não se assuste com a loquacidade de nosso grupo. Ele é muito bem-vindo e eu estou certa de que vai conseguir se recuperar logo, logo.

Tutor: Obrigado, Neide.

Paulo: Obrigado. (Baixo para o Tutor): Ela é surda?

Tutor (baixo): Não. Ela implorou para que seu dentista arrancasse a língua e os dentes por achar que falava e comia demais. Hoje em dia ela se arrependeu. Usa dentadura e viaja todos os meses para Nova York onde é paciente voluntária de uma clínica que desenvolve línguas biônicas.

Paulo: Línguas biônicas?

Tutor: Uma prótese lingual feita de fibra óptica e silicone. Mas nenhuma se adaptou ao corpo da Neide. Aparentemente, assim que a prótese é colocada ela fala tantas palavras por minuto que a língua biônica não suporta e entra em pane.

Paulo: Que triste.

Tutor (para todos): Bom. Com isso nós encerramos nossa sessão de hoje.

Lenita: Não. Ainda falta ele. Ele também é novo.

Lenita aponta para um rapaz de uns trinta anos que está sentado, assustadíssimo, num canto da sala.

Tutor: Ah. Eu não tinha te visto. Por favor. Levante-se meu rapaz. Levante-se e se apresente.

Rapaz: Bom, é... Bem. O... O meu nome é... O meu nome é Renato.

Todos: Oi Renato.

Rapaz: Eu tenho 28 anos e nesta semana o meu ciso resolveu aparecer.

(Longa pausa)

Tutor: Prossiga, Renato. Eu sei que é difícil, mas tente falar.

Rapaz: Não. É... Na verdade é só isso.

Tutor: Como assim?

Rapaz: É só isso. Nessa semana o meu ciso resolveu aparecer. Aí eu... Aí... Aí eu entrei aqui pensando que era um consultório de dentista.

(Longuíssima pausa. Todos de olhos arregalados para Renato)

Tutor (começando a suar de nervoso): Deixa eu ver se eu entendi. Você entrou na nossa reunião e assistiu a todos esses depoimentos pensando que estava num consultório de dentista?

Rapaz (totalmente sem jeito): É... É que depois que eu vi que não era, já era tarde demais. Eu fiquei com vergonha de levantar no meio e sair. Daí eu resolvi ficar aqui até acabar.

Tutor (levemente transtornado): Você ficou (pausa) com vergonha?

(pausa)

Rapaz: É.

Tutor (transtornado): Você não leu a placa? “Viciados em dores dentárias e bucais anônimos”?

Rapaz: Então. Eu acho que eu só li o “dores dentárias”. Daí eu entrei.

O tutor começa a suar bastante. Ele tenta conter a raiva. Trinca os dentes.

Tutor (olhando fixamente para o rapaz com ódio): Alguém tem um alicate?

Todos: Eu!

FICA MAIS TEMPO COMIGO de Renata Mizrahi

(Sônia, mulher, bonita e elegante, chega no consultório do jovem dentista, Rodolfo. Ele está distraído com um instrumento de trabalho)

SÔNIA - Olá.

(ele repara nela)

RODOLFO - Você?

SÔNIA - Algum problema?

RODOLFO - ?

SÔNIA - Tô precisando fazer um tratamento

RODOLFO - Eu não sabia.

SÔNIA - Eu sei.

RODOLFO - O que você tem?

SÔNIA - Não preciso me deitar ali? (ela aponta para a cadeira do paciente)

RODOLFO - Não. Não estou falando do dente.

SÔNIA - Está falando do quê?

RODOLFO - Você sabe.

SÔNIA - Você é um dentista, se não estiver falando de dentes, não poderei adivinhar.

RODOLFO - É algum tipo de brincadeira?

SÔNIA - Eu que pergunto. É algum tipo de brincadeira?

(ele desiste)

RODOLFO - Tudo bem, deita aqui.

(ela deita na cadeira do paciente)

SÔNIA - Eu sempre quis deitar aqui.

RODOLFO - Sempre quis?

SÔNIA - Pra entender.

RODOLFO - Entender o quê?

SÔNIA - A sensação.

RODOLFO - Que sensação?

SÔNIA - De te ver por esse ângulo.

RODOLFO - Você já me viu por ângulos muito melhores.

SÔNIA - Não me lembro mais.

RODOLFO - O que você quer?

SÔNIA - Arrancar os dentes.

RODOLFO - Por quê?

SÔNIA - É necessário.

RODOLFO - Abra a boca.

SÔNIA - Que excitante (ela abre a boca sensualmente)

RODOLFO - Assim fica difícil fazer o meu trabalho

SÔNIA - Já aconteceu?

RODOLFO - O quê?

SÔNIA - Já aconteceu de você se apaixonar por uma boca?

RODOLFO - Não estou entendendo.

SÔNIA - Não se faça de bobo.

RODOLFO - Você não veio aqui pra se consultar.

SÔNIA - Com tantas mulheres nessa cadeira, nessa posição. Duvido que nunca se apaixonou por uma boca.

RODOLFO - Não são tantas mulheres, e não são desse jeito que você tá pensando.

SÔNIA - Tem certeza?

RODOLFO - Acho que estou perdendo meu tempo.

(ela vai se alterando)

SÔNIA - Perdendo seu tempo? Então é isso que eu sou pra você, uma perda de tempo?

RODOLFO - Sônia, o que você realmente quer?

SÔNIA - Eu quero atenção. Eu quero a sua atenção.

RODOLFO - Você tem a minha atenção.

SÔNIA - Mentira! Você não me dá mais nenhuma atenção, Rodolfo. Há muito tempo que você não dá a mínima.

RODOLFO - Dormimos juntos todas as noites. Eu sou todo seu em todas as noites.

SÔNIA - Dormindo? É assim? Você quer ser meu dormindo? A que ponto nós chegamos, meu Deus!

RODOLFO - Sônia, aqui não é local par discutir a relação.

SÔNIA - Não? Então aonde é? Hein? Aonde?

RODOLFO - Podemos falar sobre isso hoje, quando eu chegar em casa, tá? Daqui a pouco vão chegar mais clientes.

SÔNIA - A que horas? Depois de meia noite, quando eu estiver exausta e você também?

RODOLFO - Meu amor...

SÔNIA - Não me chame de meu amor! Eu não sou mais seu amor!

RODOLFO - Tudo bem. Sônia, eu estou trabalhando para o seu conforto.

SÔNIA - Eu não quero conforto, Rodolfo! Eu não quero esse dinheiro todo que você me dá por causa desse maldito consultório. Eu quero você! Eu quero você! (ela chora)

RODOLFO - Ai, Sônia! Não vai fazer drama aqui.

SÔNIA (chorando) - Eu tive que marcar um consulta com meu marido, para ele falar comigo!

RODOLFO - Por que está falando na terceira pessoa? Eu tô aqui.

SÔNIA - O que tá acontecendo, Rodolfo? Quem é essa cliente que tá te tirando do eixo?

RODOLFO - Não tem cliente nenhuma, Sônia.

SÔNIA (muito nervosa) - Não é possível que você fica todos os dias aqui até meia-noite, e não tem uma cliente por trás.

RODOLFO - Claro que é possível. Eu sou um bom dentista, tenho um preço acessível. É natural que eu tenha muitas clientes.

SÔNIA (muito dramática) - Então sou eu! Sou eu que não te satisfaço. Pra você querer ficar aqui tantas horas do seu dia.

RODOLFO - Meu amor, quer dizer, Sônia. Eu amo o que eu faço, amo esse consultório, amo ser dentista. É isso que você tem que entender.

SÔNIA - Ama muito mais do que a mim, né?

RODOLFO - Não seja patética!

SÔNIA (chorando muito) - Eu não estou sendo patética, Rodolfo. É que estou me sentindo muito sozinha!

(ele vai abraçá-la)

RODOLFO - Vem aqui. Olha, eu não tenho nenhuma cliente. A única mulher da minha vida é você, viu?

SÔNIA - Então fica mais tempo comigo, fica mais tempo comigo.

RODOLFO - Eu não posso nesse momento! Você sabe, estamos construindo uma vida. É o momento de eu trabalhar muito pra gente um dia ter um filhinho.

SÔNIA - Você quer mesmo ter um filho comigo?

RODOLFO - Não é o nosso plano?

SÔNIA - Mas desse jeito? Já tem cinco meses que a gente não troca uma palavra!

RODOLFO - É uma fase de trabalho, depois passa.

SÔNIA - Mentira. Você tem outra mulher, eu sei, eu sei!

RODOLFO - Sônia, vamos discutir isso mais tarde, é melhor.

SÔNIA - Não! Não! Vamos fazer um filho! A-go-ra.

RODOLFO - Agora? Enlouqueceu?

SÔNIA - Pelo contrário.

RODOLFO - Aqui é local de trabalho

SÔNIA - Então! Então! Não é aqui o local que você passa a maior parte do seu tempo, e que você
tanto ama? Não há local melhor pra fazer um filho.

RODOLFO - Sônia, você está completamente descontrolada.

SÔNIA - É você que me deixa assim, Rodolfo. Completamente descontrolada.

RODOLFO - Meu amor...

SÔNIA - Eu já falei pra não me chamar de meu amor! (ela vai tirando a calcinha)

RODOLFO - Sônia, se retire daqui. Daqui a pouco vai chegar uma cliente.

SÔNIA - Eu marquei hora com a sua secretária. Ainda temos quarenta e cinco minutos.

RODOLFO - Mas eu não quero aqui.

SÔNIA - Tô achando que você virou viado.

RODOLFO - Não é isso, é que aqui não.

SÔNIA - Aqui sim. Vamos ter um filhinho aqui.

RODOLFO - Foi pra isso que você veio?

SÔNIA - Eu vim pra te ver! Pra te ver!

RODOLFO - Então, já me viu.

SÔNIA - Eu quero mais, eu quero mais de você, senão eu não teria casado com você. (ela está completamente descontrolada) Me toque, me toque! Larga esses aparelhos, esses objetos e me toque!

RODOLFO - Não, Sônia , assim não.

SÔNIA - Anda!

RODOLFO - Não, Sônia.

SÔNIA - Então é melhor você arrancar meus dentes.

RODOLFO - Enlouqueceu de vez?

SÔNIA - Arranca meus dentes. Quero fazer um tratamento de seis meses!

RODOLFO - Tá louca!

SÔNIA - Anda! Eu tô pagando por essa consulta. Eu quero fazer um tratamento de seis meses. Eu quero vir aqui toda semana durante seis meses.

RODOLFO - Eu não vou compactuar com essa loucura.

SÔNIA - Então eu mesmo arranco.

(antes que ele perceba, ela pega o alicate)

RODOLFO - Não, meu amor, não faz assim!

SÔNIA - Eu não sou mais o seu amor! (ela arranca um dente) Um! (arranca outro) Dois!

RODOLFO - Chega! Eu trato de você, eu trato! Durante seis meses, você vai ter que vir aqui uma vez por semana. Tá bom assim?

SÔNIA - Uma vez? (ela arranca outro dente) Três!

RODOLFO - Duas!! Duas vezes por semana! Duas vezes! Melhorou?

SÔNIA - Duas mesmo?

RODOLFO - Sim, duas vezes por semana!

SÔNIA - Não está mentindo?

RODOLFO - Não. Agora senta aí, tá sagrando demais! Ah meu Deus!

SÔNIA - Que bonitinho, você ficou preocupado comigo.

RODOLFO - Agora me ajuda, não faça mais nada, pelo amor de Deus. Abre bem a boca.

(Sônia abre a boca toda cheia de sangue e sem três dentes com um leve sorriso no rosto. Percebemos que ela ficou feliz)

FIM


TAINTED LOVE de Larissa Câmara

Para ler ao som de “Tainted Love”.

Para gritar na estrofe: “Don´t touch me, please!

PERSONAGENS:

Balconista

Cliente

(Farmácia com muitos produtos para cliente higiene bucal. Cliente lendo composição de um colutório bucal)

CLIENTE: Você pode me ajudar?

BALCONISTA: Pois não?

CLIENTE: Não sei qual devo levar.

 

BALCONISTA: Bom, a composição é praticamente a mesma... Esse protege por 12 horas e esse pela noite toda. Quantas horas você costuma dormir?

CLIENTE: Na verdade, não sei se levo o verde ou o vermelho.

 

BALCONISTA: Bom, se é apenas uma questão de cor...

CLIENTE: (Colocando os dois na cestinha) Vou decidir no caixa. Ah, fio dental.

BALCONISTA: Comum ou encerado?

CLIENTE: Qual a diferença?

BALCONISTA: A composição de ambos é semelhante, mas acredito que o encerado tem maior alcance.

CLIENTE: Qual é o mais barato? (Pausa) Engraçado, acho que conheço você de algum lugar. Vi você na rua... Depois você entrou numa casa... lembro que tinha uma placa pequena na frente: reunião dos neuróticos anônimos...

BALCONISTA: Como?

CLIENTE: Tenho certeza que vi você, mas acho que foi só uma vez.

BALCONISTA: Assepsia nervosa não é doença!

CLIENTE: Como?

BALCONISTA: (Dando um passo para trás) Por favor, não fale perto de mim estou sentindo o cheiro do seu hálito.

(Cliente sopra na palma da mão para ver se está com halitose)

BALCONISTA: Não suporto que falem perto de mim quando estou comendo.

CLIENTE: Você não está comendo.

BALCONISTA: Eu sei. Mas guarde essa informação caso você me encontre num restaurante. Tenho nojo de sentir o cheiro do hálito das pessoas.

CLIENTE: (Segura as mãos da balconista, fala com a cabeça para o lado) Está tudo bem. Fique calma.

BALCONISTA (Agradece com a cabeça. Tira um álcool em gel do bolso e desinfeta as mãos. Fala qualquer coisa para disfarçar seu gesto) Esse é sem álcool.

CLIENTE: O quê?

BALCONISTA: O colutório bucal azul é sem álcool. (Lendo o rótulo) Mata os germes sem o ardor excessivo causado pelo álcool. (Para si) Sem queimar não tem graça! (Para a cliente) O fio dental fica aqui. Você quer mais alguma coisa?

CLIENTE: (Lendo o rótulo de um produto distraída) Profilaxia.

(Balconista fecha os olhos e estremece)

CLIENTE: Está tudo bem?

BALCONISTA: Não posso ouvir isso.

CLIENTE: Profilaxia?

(Balconista fecha os olhos novamente e fica levemente tonta)

CLIENTE: (Tentando ajudar) Você está se sentindo bem?

BALCONISTA: Por favor, não encoste em mim! Isso é invasão do meu espaço parcial. Você está me enchendo de bactérias... e eu não fiz nada!

CLIENTE: Não entendo.

BALCONISTA: (Num delírio com fervor) Foi ele! Ele abriu a porta chamou meu nome. Todo de branco. Lindo! Ele arreganhou a minha boca e foi colocando tudo. Tudo mesmo, espelhinho, abaixador de língua, pinça, brunidor, espátula, cortante, escavador, sonda exploradora... As mãos tão ásperas e peludas.. Sou doida por homem peludo. Dá uma segurança, uma vontade de me perder naquela cabeleira selvagem num momento de prazer. Ele me olhou inteira, aberta. Nunca uma cárie me fez tão feliz. Se soubesse não teria escovado os dentes nunca! Ele ligou a broca, delirei. Pedi para ser sem anestesia. Sempre sonhei com um homem que me machucasse. Que me fizesse sofrer. A broca encostava no meu dente eu gemia e chorava. Fui plena, quase desisti da idéia de comprar uma britadeira. Ele jorrou água em mim e ordenou – Cospe! Eu engoli. Então éramos cúmplices. Ele colocou o sugador na minha boca e acho que perdi os sentidos. Quando dei por mim eu ainda estava deitada na cadeira. Ele olhou para mim, sedutor: Deu tudo certo, benzinho. Ah, sou louca pelo meu dentista! Agora quando estou em casa não consigo mais escovar os dentes sem antes lamber a escova e chupar o cabo. (Voltando para a realidade) Desde que ele me deixou não posso ouvir a palavra que você disse.

CLIENTE: Profila...?

BALCONISTA: Shhhhhhh!

CLIENTE: (Assustada querendo ir embora) Perdão. Eu não sabia.

BALCONISTA: (Tentando se recompor, disfarçando sua gafe hormonal) Esse colutório clareia os dentes. Esse aqui, o branco. (Falando para si mesma) Não tive dinheiro para pagar um clareamento. Ele não conseguiu amar uma mulher com dentes manchados. (Para a cliente) Se você tiver filhos não dê antibióticos para eles na primeira infância. Mancha os dentes. (Para si, sôfrega) Quando descobri o colutório clareador era tarde demais.

(Cliente saindo da loja durante o delírio da balconista)

BALCONISTA: Espera! Você não pode ir! Eu preciso do dinheiro da comissão para pagar o meu clareamento!

(Cliente sai. Bate a porta)

BALCONISTA: (Abraçando o colutório branco) Não me toque, por favor! Não consigo resistir. Eu queria não amar você tanto! Eu te amo! Pegue minhas lágrimas. Amor estragado! Oh, amor manchado!

FIM

A DOR DO SILÊNCIO de Julia Spadaccini

Neide está deitada na cadeira do dentista. Elisa, a ajudante do dentista, está de pé ao lado dele.

Dentista – E então, qual é o problema?

Neide – Todos.

Dentista – Cáries?

Neide – Palavras.

Dentista – Como é?

Neide – Estou doente.

Dentista – Qual é o problema?

Neide – A língua.

Dentista – O que tem ela?

Neide – Fala o dia todo sem parar, esqueceu que existem as vírgulas. Se debate dentro da minha boca quando tenho que ficar calada. Vim aqui porque meu marido não agüenta mais, disse que eu tinha que me tratar, pois falo mais de 4.550 palavras por dia. Ele leu numa revista que uma mulher fala em média 1.345 palavras por dia. Diz que casou com uma mulher e não com três.

Dentista – Mas o que a senhora quer que eu faça?

Neide- Um trava-línguas. Se o senhor inventar um trava- línguas será um sucesso. Só na minha rua, três mulheres estão com o mesmo problema. Pode dizer que a idéia foi sua, patentear. Preciso também de uma tranca dupla para as horas mais difíceis. Sala de espera de consultório, por exemplo. O senhor não me ouviu falando lá fora? Eu contei para a secretária toda a minha história. Contei que quando era criança queria deixar o cabelo crescer e minha mãe de propósito cortava a minha franja quando ainda estava molhada. Quando a franja secava, subia e eu parecia um índio da tribo Txucarramãe. Com 11 anos era chamada pelos colegas da escola de Xororó. Contei isso com os detalhes mais sórdidos, porque agora não basta contar, tenho que detalhar. Outro dia estava na fila do cinema e contei para um homem como foi traumática a minha primeira vez. Comecei falando da primeira vez e acabei na última, traumática também.

Dentista – Minha senhora, isso é coisa da sua cabeça.

Neide – É da língua. Da língua. Já fiz tomografia cerebral e lá não tem nenhum problema. O problema é da língua. Minha língua não me respeita mais. Depois que me casei ela ficou ainda pior. Meu marido é calado. Mudo. Uma parede. Um muro. Só de olhar para ele me dá vontade de falar. Eu vejo aquela mudez absoluta e minha língua coça. Coça sem parar. Aí se não falar vou ficando vermelha, vermelha, e me explodo em palavras estrangeiras. Falo até em latim. Depois os palavrões, nem sabia que existiam tantos palavrões dentro de mim.

Dentista – Eu não posso fazer nada.

Neide – Pode sim. Eu pago. Pode pesquisar, encontrar uma tranca dessas com trinco de sete voltas e olho mágico. Ou um remédio que anestesie a língua. Isso! Uma anestesia definitiva! Preciso! Não agüento mais! Ela fica saltando de um lado para o outro, faz cambalhotas, malabarismos. Quando entro numa fila de banco ela fica louca, quase pula para fora. Adora quando só tem um caixa atendendo, é aí que faz a festa. Começa reclamando com a pessoa da frente e quando eu vejo já estou toda descabelada na fila da terceira idade gritando: justiça! Justiça!

Dentista – Minha senhora, eu realmente não posso fazer nada com a sua língua.

Neide – E com os dentes?

Dentista – O que tem?

Neide – Eles comem. Comem compulsivamente. Nada é capaz de pará-los. Gostaria de arrancá-los. Acho feio ser banguela, mas prefiro ser banguela do que gorda.

Dentista – Não posso arrancar seus dentes, pelo que estou vendo são muito bons.

Neide – Maus! Cruéis! Não querem sopa, querem picanha, torta de limão, pavê de chocolate! Maus!

Dentista – Não posso.

Neide – Os caninos, só os caninos! Os caninos!!!

Dentista – Não posso.

Neide desata a falar.

Neide – Quando eu tinha 13 anos de idade meu pai me levou ao circo eu odiei nunca gostei de circo nunca gostei de circo não gosto de palhaços mas gostei dos elefantes me identifiquei com os elefante e quando fui ao zoológico me identifiquei com a ariranhas a primeira cola que peguei na escola foi a palavra ornitorrinco acho que por isso nunca mais fui feliz porque se tivesse colado foca seria mais convincente mas ninguém no pré sabe o que é um ornitorrinco e eu fui a única a escrever certo a professora desconfiou e eu disse que Ab aeterno Brevis esse laboro obscurus fio, Ab hoc Ab ovo Ad libitum Ad Valorem puta que o pariu caralho três vezes cú muito cú merda e...

Dentista – Chegaaaaaa! Elisa, o alicate por favor!

Três horas depois, Ana sai contente levando numa caixinha sua língua e seus dentes de presente para o marido.

VENENO COLORIDO de Jô Bilac

Vilma: apática.
Tiago: moço, traços finos.
Dona Ângela: meio ridícula pra idade que tem.
Seu Lilico: variando entre o mau humor e o tédio.

Sala da casa do Seu Lilico e da Dona Ângela

(mobília simples, tudo muito enfeitado com bibelôs e retratos emoldurados pelas paredes. Simpático: a estampa da cortina combina com os motivos florais do conjuntinho da Dona Ângela. Acabaram de jantar_ seu Lilico com queixo afundado entre os ombros, prostrado em sua poltrona carmim, Vilma e Tiago de mãos dadas no sofá. Dona Ângela rompe a cena, com uma garrafa de licor na mão)

D. Ângela: (risonha como um porquinho. Indica no rótulo) 23 anos! Errei por um! Mas eu sabia que era por aí! Só não fazia idéia de tanto... 23 anos! Dá uma pena...

Tiago: Dona Ângela, Por favor, se a senhora não quiser...

D. Ângela: Não esquenta a cabeça. É pra isso mesmo que serve. (enquanto abre a cristaleira retirando os cálices) Mais velho que você, Vilminha! Nem era nascida!

Tiago: A gente pode guardar pra beber depois, se a senhora preferir, não precisa ser agora.

D. Ângela: 23 anos! Eu tenho muito cuidado com as minhas coisas. Acredita que tenho até hoje minha primeira boneca? Na caixa! Ninguém diz. Lilico queria porque queria que eu desse a Vilminha quando ela nasceu. (desdém) Capaz. Vilminha tem mão de ferro. Não ia durar uma semana. (quase chora emocionada olhando a garrafa) 23 anos! Uma vida. Uma-vida!

Tiago: (recorre à noiva) Diz a ela que não precisa se não quiser.

Vilminha: (apática) Mãe, o Tiago disse que não precisa se não quiser...

D. Ângela: (digna) Eu quero. Tem cabimento? Só estava guardado porque até hoje não havia surgido um motivo apropriado pra abrir. Mas agora há. E eu nem sei se está prestando, pois : bom de guardar é vinho...Não é Lilico? Héin. Lilico. Bom de guardar é vinho, né? Licor, nunca ouvi falar. Se bem que esse aqui veio do exterior, lembrança do irmão de Lilico. Vilminha, minha filha, você não era nem nascida!Ih! Nem sonhava! Se eu deixasse, Lilico entornava tudo em dois tempos. Mas eu disse que era pra abrir só num dia especial... (num suspiro triste) 23 anos...

Tiago: Dona Ângela, fico muito lisonjeado.

D. Angela: (tentando abrir a garrafa. Sem sucesso)

Tiago: Posso tentar?

D. Ângela: (pimpona) À vontade, meu querido.

(Tiago se esforça pra abrir. Expectativa das mulheres. Frustração.)

D. Ângela: Tudo bem, Tiago. São 23 anos! (sorri débil) Olha, (pega nas mãos do rapaz) São mãos de cirurigião... (beija) Não é pra ficar abrindo garrafa velha.

(Tiago sorri meigo)

D. Angela: (muito emocionada) Eu fico muito feliz com o noivado de vocês. Faço muito gosto! A Vilminha se casando com um doutor! Parece sonho! Um médico na família. Me belisca, Lilico!

Vilma: Tiago não é médico. É dentista.

D. Angela: Ah! E dentista não é médico? Mais médico impossivel. Dentista é o maior médico que existe, eu acho. Tirando o cardiologista, que também tem muita importância. (orgulhosa com os olhos marejados) Um doutor! Minha filha vai se casar com um doutor!

Seu Lilico: (grave como um sapo) Tiago.

Tiago: (sobressalto) Senhor.

(tensão clara na sala)

(silêncio)

Seu Lilico: Qual é o mistério?

Tiago: ( sem compreender) Como, senhor?

Seu Lilico: O mistério. Qual é o mistério?

Tiago: (sorri amarelo) Não entendo...

Seu Lilico: Isso aqui nâo é carnaval. (tempo) Você sabe disso, não sabe?

Tiago: (nó na garganta) Sei sim senhor.

Seu Lilico: A honestidade é o maior bem que um homem possui. Não tem coisa no mundo maior que a honestidade. Mais vale um pobre honesto que um picareta marajá. Assina embaixo?

Tiago: Sim senhor.

Seu Lilico: (fixo nos olhos do rapaz) Recebemos você aqui de portas abertas, com direito a pudim de leite... Não é verdade?

D. Ângela: Lilico!

Seu Lilico: É ou não é verdade?

Tiago: É verdade sim senhor.

Lilico: Então eu quero que seja honesto comigo e com minha filha.

D. Ângela: Lilico...

Lilico: Fica na sua, Ângela. Fica na sua. (ao rapaz) Vai ser honesto comigo e com minha filha?

Tiago: Sim senhor.

Lilico: Eu quero que me responda uma coisa.

Tiago: Sim senhor...

Lilico: Acha minha filha um bagulho?

(Tiago se engasga com a própria língua)

Tiago: (lambendo os lábios ressecados) Eu a amo.

Lilico: Não foi isso que perguntei. Acha ou não acha minha filha um bagulho de marca maior?

D. Ângela: Agora já está demais, Lilico!

Lilico: Acha ou não acha? Responde, criatura!

Tiago: (firme) Não acho.

Lilico: Pois é. Vilma é um bagulho de marca maior!

Vilma: (num sopro) Pai...

Lilico: É um bagulho sim, minha filha e você sabe disso. Digo isso porque sou seu pai e tenho propriedade. Eu nunca a amaria se não fosse minha filha. Um homem tem todo o direito de ser feio. Se aceita, se arruma. Quando ve: já está casado. Com mulher é diferente. Mulher não pode ser feia. Tem que se aproveitar alguma coisa, se não a cara , o corpo. Se nada presta, vira jogral em boca de vagabundo, todo mundo se serve, mas ninguém leva pro altar. Se alguém se interessa em se casar com uma mulher feia é porque quer se servir de outra coisa.

Tiago: Eu amo a Vilma, e pra mim ela é perfeita como é, sem tirar nem por.

Lilico: (treme a boca) Qual é o mistério? Vilma é o catiço, medo e delírio na terra do sol. Além de tudo não tem onde caír morta. Você tem jeito de afeminado , mas é boa pinta, tem casa própria, pode arrumar partido melhor. Por que minha filha?

Tiago: Já disse, eu a amo e no amor não se recorre à razão.

Lilico: Uma ova! (levanta da poltrona exaltado) Seja honesto rapaz! A mim você não engana. Não engana!

(D. Ângela segura o marido)

Lilico: O que você quer com minha filha?

D. Ângela: Pára com isso, Lilico! Olha o papelão!

Lilico: Você é mulher , Ângela, não tem partido nisso. Mulher é uma outra história! Eu quero ver esse calhorda olhar nos meus olhos e dizer que ama uma mulher feia como a nossa filha.

D. Ângela: Fixação!

Lilico: Um homem deve ser honesto à cima de qualquer coisa. Ouviu? Se chegasse aqui e me dissesse que havia se encantado com a feiura da minha filha, eu até poderia tentar acreditar. Tentar! Tem gente que gosta. Fazer o que? Mas ignorar total e sumariamente essa carranca animalesca, isso pra mim já é demais. Pra mim a pior coisa no mundo é a mentira! Minha filha se casa com um Percevejo! , mas não se casa com um mentiroso!

D. Ângela: (chorando) Já chega, Lilico! Pelo amor de deus!

Lilico: O que você quer com minha filha? Responde!

D. Ângela: (agarrada no marido, desesperada) 23 anos, Lilico! 23 anos! Já chega!

Lilico: Um homem que mente, pra mim não passa de um esgoto! Se não me disser o que acontece aqui, eu te expulso da minha casa à base de tapona! Sou muito capaz! (avança no colarinho do rapaz, sacudindo descontroladamente) Me responda!! Fala, patife!

(gritos histéricos de Dona Ângela)

Lilico: O que você quer da minha filha? O que você quer da minha filha? Fala ou eu te quebro a cara! Seja homem! Fala: O que você quer da minha filha????????

Vilma: (fria como uma viúva cansada) Os dentes.

(silêncio litúrgico)

(Seu Lilico e Dona Ângela, petrificados numa careta espantosa)

Vilma: (do sofá, sem mover um músculo) Ele quer meus dentes. Eu disse a ele que se casasse comigo eu lhe daria meus dentes como presente. Um dote. Poderia arrancar com as póprias mãos. Sem anestesia. Um por um. Ele topou. Chorou feito criança. Nunca, nenhuma mulher no mundo seria capaz de coisa semelhante por ele. Me amou verdadeiramente desde então. (sorri numa profundidade triste)

(Silêncio)

(Seu Lilico, estupefado, despenca em sua poltrona carmim, enquanto D. Ângela guarda o licor: colorido como um veneno.)

Fim.

 

Para Ialê Menezes, mulher por quem eu arrancaria todos os meus dentes.

AMOR DA BOCA PRA FORA de Felipe Barenco

Para ler ao som de “Non, je ne regrette rien”.

A cena acontece num quarto sujo e escuro de Paris. Uma mulher, amordaçada, debatendo-se e amarrada numa velha cadeira de dentista. Tem um aspecto de cansaço, como quem lutou bastante (literalmente) para escapar daquela condição. O doutor, um dentista frustrado pelo amor não correspondido.

Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!” Esta frase repete-se durante toda a cena, vez por outra marcando as viradas de clima, vez por outra servindo de mote para enlouquecer ainda mais o dentista.

Dentista (embora diga coisas ridículas, às diz com toda seriedade e verdade dos apaixonados e desiludidos. Vira a cadeira da mulher para si. Profundamente magoado e conclusivo) Boca é boca, beijo é beijo. (Colocando a luva rasgada numa das mãos) Você podia ter me dado uma chance, só uma, que eu te mostrava que não tem ninguém nesse mundo que fosse te fazer mais feliz do que eu. (Cheio de pausas e silêncios, como quem reflete bastante antes de falar) Amor, amor mesmo, amor romântico, não é amor barato não; é amor. Amor! Não é paixão, não, porque paixão é luxo, é flúor. Amor é outra coisa, é escova de dente. Amor é todo dia.

Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”

(Assobia o refrão de Non, je ne regrette rien) Você falou demais, mas não falou nada, nadinha do que eu queria ouvir. Eu tô com tanta raiva de você, tanta raiva, que mesmo se você já estivesse morta, eu te matava agora. Você me fez de bobo. (Coloca a outra luva) Hoje a consulta vai ser diferente, você vai ter que tirar a roupa (Abre a blusa da mulher e chupa o seu mamilo esquerdo) Eu tenho tesão em você. (Avança para beijá-la) Mas a sua boca fede. Por trás da sua beleza, quer dizer, por dentro de você, é tudo imundo. Nunca soube se você arrotou ou peidou. (Coloca a máscara no rosto) Perceba o esforço que eu estou fazendo, reconheça o meu amor pelo menos uma vez na vida. Você nunca disse que me amava. Nunca. A sua boquinha engoliu o meu leite, mas nunca engoliu que eu era o único homem capaz de te fazer feliz de verdade.

Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”

(A mulher inquieta na cadeira, tentando soltar-se) Eu não tenho mais nada pra te dizer. Eu aceito sim, que você nunca mentiu pra mim. Mas você fez coisa pior, muito pior. Você omitiu. E omissão pra mim não é covardia, é mal-caratismo. (Furioso, mas tentando se controlar. Separa os instrumentos de trabalho) Amor é igual dentadura, tem que encaixar. (Num impulso de raiva e emoção. Batendo no peito) Tem que encaixar direito! (Avança com uma agulha para cima dela) Amor é igual dentadura porque se não encaixar direito pula pra fora, vira piada, é ridículo. (Quase chorando) Eu não vou falar mais nada, não. Eu jurei pra mim que não ia falar, que eu ia te ouvir. Mas anota aí... (Entrega um pedaço de papel e uma caneta para a mulher) Escreve o que eu tô te falando. É a última coisa que eu vou te dizer. (A mulher treme ao segurar a caneta, mas escreve) Anota aí: "em terra de desdentado quem tem dente é rei". Não... (Muda de idéia) Quem tem língua é rei. Porque pode falar, pode botar pra fora, pode sentir o gosto, apreciar... apreciar.... (Passando a mão nos cabelos da mulher)

Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”

Você me usou, Malu. Você me seduziu descaradamente. Você podia ter vindo aqui uma vez só, mas você fez questão de vir sempre, de marcar consulta toda semana, só pra ter o prazer de me seduzir. (Olha em torno do consultório) Esse lugar era limpo. Depois que você chegou, eu passei a viver na imundície. E você chegou aqui, você era um monstro com a boca inchada. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma, umazinha que eu não tenho. Nunca fui mulher de cárie. Mulher que tem cárie não presta, é vagabunda!” Malu, você é um lixo, você é podre. Malu, você não vale um plano de saúde. Amor, Malu, amor não tem carência, não. Amor não tem prazo de validade. Amor é igual obturação, é pra sempre.

(Liga o rádio. Edith Piaf canta Padam, Padam)
Você podia ter ido embora, eu nunca te segurei aqui. Mas você fez questão de me atormentar. Era impossível conviver contigo e não me apaixonar. Quando você não vinha aqui, eu ficava imaginando onde você estava. (Liga o motorzinho. Ao refrão de Padam, Padam) Padam, padam... (Descontrolado, ameça-a com o motorzinho na garganta) Eu fiquei te esperando, você não apareceu ontem... Piranha! (Espirra sangue em seu rosto. Impaciente, diante da mulher) Abre a boca. Abre a boca! (Alterado) ABRE A PORRA DA BOCA! Você vai aprender a ter atitude, a fazer as coisas sozinha. (Calmo. Senta.) Me dá um cigarro. Pronto. É assim que você quer, é assim que vai ser. Vou ficar sentado aqui até você abrir a boca e me dizer alguma coisa. Foda-se se a sua boca apodrecer, foda-se! (Aplaudindo) Ó, fodinha você, fodinha tá! (Liga o som no último volume. Canta, louco. Fuma louco)

Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”

(Levanta. Pega os instrumentos com objetividade) Mas esse seu amorzinho vai sair de dentro de mim na marra! Ah, vai! Se não vai! (Arranca seu próprio dente. Dá um grito de dor e quase desmaia) Vai sair pela raiz! (Arranca o dente da mulher. Ela sim, desmaia) Eu não me arrependo de nada! (Tentando falar, mas controlando a dor) Levanta, pode ir embora. Não quero mais olhar pra você. (Guarda os instrumentos trêmulo) Então eu vou ser profissional. (Abre a boca da mulher. Faz o tratamento da mulher como um carniceiro) Uma cárie aqui. Limpa, água, cospe. (Grita) Cospe, filha da puta! (Obcecado) Limpa, água, cospe. Cospe filha da puta! (Psicopata) Limpa, água, cospe. Cospe, cospe, cospe! Filha da puta! Eu te amo, filha da puta! (Satisfeito) Isso... Tá vendo? Boazinha. Não vou te cobrar nada, não. Pode ficar tranqüila. Agora eu vou ficar aqui te olhando. Até o meu amor passar.

Off. “Não tenho cárie não, doutor, nenhuma!”

(Calmo e fumando) Vou passar um café. Até o meu amor passar. Porque ele vai passar sim. Claro que vai. Eu matei o amor.

Um longo silêncio. De horas, de anos.

(O dentista tenta enforcar-se com um rolo de fio dental)

Pausa dramática do narrador.

(Sem sucesso)

FIM.

DIAMANTE CRAVADO NO CRÂNIO de Camilo Pellegrini

personagens:
DENTISTA
ASSISTENTE
VÍTIMA

D- Abra bem essa boquinha linda! Vamos ver? Abre mais... Mais... Um pouco mais ainda... Vamos lá! Um bocão! Pode mais, não seja tímido... Quero ver! Sei que pode mais um pouco! Opa! Deixa ver...

A- (AMEDRONTADA) Cruzes!!!

V- (SEMPRE DE BOCA ABERTA) Oê e oi?

D- Pois é. Muito trabalho pela frente. Vê as interjunções logo ali? Toda aquela área podre?

A- (ESCONDENDO O ROSTO COM AS MÃOS) Vejo... Vejo sim.

V- Eu ão ô eneneno ada!

D- Pois é. Olha, vamos ter que extrair. Você disse anteriormente que tem trinta? É isso mesmo?

V- Ahã.

D- Veja que é a idade onde é mais difícil a extração. Os trinta anos são... vamos dizer assim, o topo da vida. Tudo que veio antes foi para a chegada a esse cume e os anos vindouros nada são do que uma inevitável ladeira abaixo.

V- Ahhh...

A- Ainda bem que fiz dezoito.

D- É justamente aos trinta que os ossos, e por consequência, os dentes, estão mais duros. Vieram se calcificando até aqui e depois amolecerão com a osteoporose. Mas agora, nesse exato momento, no auge dos teus trinta, é exatamente quando esse dentinho doente oferecerá mais resistência à extração.

A- Pobrezinho.

V- Ai oer?

D- Vai doer bastante.

A- Coitado!

V- Eu eus!

D- Bricadeirinha! Nunca ouviu falar em anestesia, bobão?

A- Ahahahaha! Lógico! A anestesia!

DENTISTA aplica enorme injeção de anestesia.

V- AAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!

D- É claro que dor não é tudo. Há também o impacto psicológico.

V- Ão eneni...

D- Veja bem. Você me falou que faz teatro, não é verdade?

V- Ahã...

D- A ortodontia é como essa bela e antiga arte, o teatro. Alguns de seus aspectos evoluíram muito com o passar dos séculos. Outros continuam muito semelhantes à ortodontia praticada na idade média.

A- Doutor? Se eu vomitar o senhor me libera?

D- Gracinha! Ela é nova aqui, está se acostumando. Não pode com sangue, não é, bonitinha?

A- Se sinto cheiro de sangue eu passo mal. Sempre assim.

V- Ahhh...

D- Vê se não golfa no cliente como da outra vez!

A- Pode deixar, doutor.

D- Bota o pregador nesse narizinho lindo só por precaução.

A- (OBEDECE) Pronto, doutor.

D- Vamos começar? A anestesia já deve estar fazendo efeito. Você sente isso?

V- Nã.

D- E isso aqui, está sentindo?

V- Nã...

D- E isso aqui? Isso aqui você sente! Não vá me dizer que não!!!

A- Ai, doutor! Não faz assim!

V-... Er... Nã.

D- Maravilha! Podemos começar. Amorzinho, o alicate, por obséquio.

A- Aqui está.

D- Não se assuste, meu caro. Vou ter que usar de alguma força.

V- Annn...

D- Preciso de um bom encaixe,

A- Que horror!!!

V- Aaaannnnn....

D- Tem algo atrapalhando aqui.

A- Argh, doutor! Cuidado! O senhor está dilacerando a gengiva!

D- Onde?

A- Ali mais por lado esquerdo.

D- São as baixas de guerra. Essa gengivinha esponjosa está entre nós e nosso ofício. Adeus carninha inútil.

V- Aaaannnnnaaaaaannn.

A- Quanto sangue...

D- Joga um pouco d'água, querida.

A- Tô tonta...

D- Vamos, meu benzinho, o sugador.

ASSISTENTE desmaia.

D- Xi! Desmaiou. Não se preocupa com ela, somos só nós dois agora.

V- Aaahhhhhhnnnnn.

D- Deixa eu entortar um pouquinho só, pra amolecer. Vou fazer força, heim! Segura essa cabeça! Segura!!! Ô querido, você tem que me ajudar!

V- AAAAAhHHHHAAAHHHHH.

D- Tá quase!!! Só mais um poquinho!!! SAIU!!!!!!

V- aaaahh...........

D- Que lindo!

A- (ACORDANDO) Ai... minha cabeça.

D- Chega aqui! Olha que peculiar!

A- Perdi alguma coisa?

D- Vê as raízes? Como pernas de uma bailarina!

A- Uma bailarina muito louca!

D- Bom, está quase terminado. Vamos preparar agulha e linha pra fazer esse chuleio. Mãmãe era costureira, aprendi muito com ela. (VÊ) Espera! Um momentinho!

V- Ô ê oi?

D- Tem alguma coisa... brilhando lá dentro!

A- Brilhando?

D- Rápido, meu anjo! O alicate novamente!

V- Ão!!! Or áor!!! Ão!!!!

D- Abre a boquinha!!! Olha, não vá fazer birra!!! Temos que ver o que é isso!

A- Não é que tá brilhando mesmo!

D- Peguei!!! Está vindo... está vindo...

V- AAAAAAHhHHHHHHHHHhhh.

D- Aqui!!! SAIU!!!

DENTISTA tira um enorme diamante da boca da VÍTIMA.

D- Meu Deus... É um... diamante...

A- Nossa! Como brilha! E já veio lapidado!

V- Ohhhhh!

A- Deve valer uma pequena fortuna...

D- (DOCE, PARA ASSISTENTE) Toma. Pra você.

DENTISTA entrega o diamante para ASSISTENTE. Estão visivelmente apaixonados.

FIM

 

 

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