SE MEU PACOTE DE TRAQUINAS FALASSE! de Larissa Câmara
BONO: (come
um biscoito de chocolate. Longa pausa) Hoje eu olho o letreiro
de neon pela janela e choro. Não choro sem motivo porque não sou
do tipo que se deprime. Choro pela cor do neon, um vermelho vibrante
que fere meus olhos. Parece descolamento de retina. Tenho certeza
que não é. Jamais permitiria que minha retina saísse dos meus olhos...
Não sou do tipo que desapega fácil. Você bem sabe. Você é um caso
à parte. Ah, como eu queria poder odiar você com todas as forças!
Choro de raiva. Tento odiar você. Não consigo. Nada é mais triste
do que a indiferença. Não preciso odiar você. Ser você mesma já
é tristeza o suficiente. Sua bunda inexistente e quase murcha, seus
seios decadentes, sempre tão carentes de um sutiã corajoso, sua
saboneteira numa posição triste. Nunca disse isso... Sua saboneteira
parece pia de banheiro público. Não sei explicar como, mas é igual,
um pouco mais feia, porque você tem estrias nos seios... muitas...
Não preciso enumerá-las... Você sabe que tem... Agora entendo porque
você não gosta de tomar banho. Para se lavar você deve, sem querer,
acabar contando quantas estrias tem nos seios... Ou reparar na quantidade
de perebas que você possui pelo corpo. Nunca acreditei que eram
espinhas. As espinhas secam em algum momento. O seu corpo de coxinha,
seu físico de Senhora Cabeça de Batata... Hum, estou começando a
ficar enjoado. Preciso me divertir. (bebe
um copo de água estupidamente gelada) Nada melhor do que
um bom copo de água muito gelada para tirar o enjôo causado pelo
chocolate. (Fecha os olhos e balança
rapidamente a cabeça) Me enganei. Acho que era vodka. Viva
a Rússia! Ah, sim... Quero falar da sua cultura (ri durante
um tempo quase insuportável) Será que posso falar da sua cultura?
Você tem cultura? (gargalha)
Você me faz rir. Nunca pensei que ter pena de alguém pudesse divertir
tanto! (imita a mulher)
Eu sentava, bebia e discutia de igual para igual com o pessoal de
filosofia da PUC. (debocha)
Da PUC. Nunca suportei sua burrice! Detesto suas conversas inúteis
e intermináveis sobre os sentimentos que você nunca teve. Ah, sim...
é importante ressaltar que você tem desequilíbrio mental. Além de
um orgulho boçal: ser ignorante! Opa, é importante lembrar o seu
grande sonho: conhecer o estrangeiro. Uma vênia para a Disneylândia
em sua homenagem! Um cumprimento para o free shop! Espero
que um dia você passe por lá e compre cremes. Cremes para acabar
com estrias, cremes à base de creolina mata pereba, cremes para
fazer sua bunda crescer. (filosófico)
Onde abunda a bunda? (muda tom)
O que me faz realmente feliz, o que me faz continuar... você continuará
feia. Feia, apesar do dinheiro, das plásticas, dos cremes, feia
apesar de tudo. Não sei se alguém já disse isso antes... Então eu
devo dizer: você é muito feia. (Debocha)
Jogaram uma pitadinha generosa de desgraça na sua forminha. Acho
que era isso terminei. (come um
biscoito de chocolate. Num rompante irônico satisfeito) Acho
que nunca contei isso... Eu... Eu só comi você porque... porque
estudei em colégio franciscano. Treinei muito tempo o desapego.
Mas, com você... Você só desce com luz apagada e olhos bem fechados.
(pausa) Nunca vou me perdoar...
Um dia comprei um biscoito caro de limão para dividir com você.
O biscoito era ruim, não era tão ruim como o seu gosto coroado por
badalhocas... Eu sempre preferi Negresco... (gargalha)
Eu contei que comi você, contei bem baixinho para o meu pacote
de biscoito de chocolate... E a bolacha traquinas que estava nas
minhas mãos riu! (pausa)
Feliz Dias das Mães! Fim. (muda
tom) Professora, já acabei a redação. Posso desenhar?
ESMÊNIA de Julia Spadaccini
Marta está sentada
na frente do médico.
Médico – Então dona… (olha o prontuário) dona Marta… o que a senhora tem?
Marta – O senhor também acha?
Médico – Acha o quê?
Marta – Que eu tenho alguma coisa.
Médico – Não, dona Marta, eu não acho nada.
Marta – E por que perguntou o que tenho?
Medico – Porque se a senhora está aqui, deve ter alguma coisa.
Marta – Não se pode mais visitar um médico? É proibido? É uma ditadura? É isso?
(Silêncio)
Médico – Bem, acho que essa agradável visita pode terminar, já que a senhora está bem.
Marta – Quem disse que eu estou bem?
Medico –Dona Marta, me diga então: a senhora está sentindo alguma coisa?
Marta – O que é estar bem? Quem pode estar bem quando se vive num mundo onde as calotas polares estão derretendo?
Médico – Bem...
Marta – Quem consegue estar bem quando pensa que a qualquer momento um trombo pode se desprender de uma veia, indo parar na circulação, trancando uma artéria do pulmão, levando a morte imediata sem nenhum aviso prévio?
Médico – A senhora está sentindo alguma coisa?
Marta – Como assim estou sentindo alguma coisa? Sinto tudo o tempo todo. Não há uma só célula em degeneração que eu não sinta.
Médico – Mas o que a senhora sente especificamente?
Marta – O senhor quer mesmo saber?
Médico – Estou aqui para isso.
Marta – Olha, é muito complexo. Não sei se o senhor vai entender.
Medico – Tente explicar.
Marta olha para um lado e depois para o outro como se procurasse alguém.
Marta - Tem certeza de que estamos sozinhos?
Médico – Sim, Dona Marta, é claro.
Marta – Digo isso porque ela não pode escutar de jeito nenhum. Se me escuta falando sobre ela, muda novamente de lugar e aí não vou poder ficar com o senhor, entende? E achei sua cara tão boa, tem cara de competente, bom médico, saudável. E ainda é homem. Gosto. Mulher não vou; médica mulher não confio.
Medico – Do que a senhora está falando, Dona Marta?
Marta – (sussurrando) Da minha doença.
Medico – E qual é a sua doença, Dona Marta?
Marta – Não é como as outras, tem características únicas. Nunca vi algo assim. Veio personalizada e isso é o que mais me assusta, foi feita para mim, tenho certeza. Sob medida.
Médico – E como é isso?
Marta – Está vendo? Nem o senhor sabe o que estou falando… mas já me acostumei: fui ao angiologista, cardiologista, dermatologista, infectologista, neurologista, hematologista, gastroenterologista, reumatologista... Fui até num mecânico, porque esses caras sempre acham problema no carro da gente, achei que podia dar certo. Troquei o pistão e a ventoinha, mas doença que é bom, nada. Até hoje ninguém soube dizer o que tenho.
Medico – Mas o que a senhora sente?
Marta – (Sem ouvir.) Outro dia, li em um jornal médico que eu assino que existem 4297 doenças. Eu não acredito. Acho pouco. Pelo menos o dobro. O estranho é que exista gente saudável no mundo. O senhor acha que isso é verdade? Estão enganando a gente. A minha vizinha, a Adelaide, por exemplo: sei que ela me esconde alguma coisa. Encontro com ela no elevador e pergunto “tudo bem?” e ela responde “tudo!” Tudo??? Tudo é muito, o senhor não acha? Será que ela não desconfia que, talvez, entre uma garfada e outra na hora do almoço, sua glote pode inchar, simplesmente, porque um grão de arroz foi parar no lugar errado? Pense bem, doutor? Qual é a garantia que a vida me dá de que a minha língua na hora da deglutição não vai ter uma sincope e dobrar para trás e me sufocar até a morte. Que controle tenho sobre esse aparelho que funciona sem minha autorização prévia. (pausa) Graças à Deus tenho plano de saúde... Plano de saúde é igual plano de carreira, sem ele não se tem para que viver.
Médico - Minha senhora, acho que descobri o seu problema.
Marta – Meu problema é que eu leio demais. Li num livro de neurobiologia que as células do corpo humano se renovam de 7 em 7 anos. Todas. Aí me deu pavor. Se de sete em sete anos as células mudam para onde foi a outra de mim que não sou mais eu? E há três anos e meio atrás quando eu já tinha metade das células novas e a outra metade das antigas? Quem eu era? O senhor não acha que isso é de matar?
Médico - Dona Marta...
Marta – Depois disso nem sei mais se é a Marta que está aqui, como o senhor tem tanta certeza, posso ser outra, qualquer uma, afinal estou com 37 anos, já mudei mais de 4 vezes?
Médico - Sinto dizer, mas.... acho que seu problema é na cabeça.
Marta - Isso mesmo!!! Está na cabeça! Sabia que o senhor era muito competente; sempre acerto, gente competente tem esse jeito articulado de falar.
Médico – A senhora sabe, então.
Marta – Claro, a doença está na cabeça agora, mas já esteve até no pé. Foi parar na cabeça, tem uma semana.
Médico – Acho que a senhora não está me entendendo...
Marta - (sem ouvir) Começou com o tendão do pé direito, não conseguia andar. Tive que parar a academia, e olha que estava ficando muito bem, bonita, gostosa... nunca vi três dias de academia dar tanto resultado, o senhor tinha que ver! Mas o tendão me paralisou e pronto, voltei ao ócio.
Médico – Sei...
Marta – Depois foi a enxaqueca que me derrubou e não pude mais freqüentar os almoços de família aos domingo. Era uma doença disciplinada, aparecia sempre no mesmo dia da semana. Depois foi a língua: ela ficou tão áspera e ácida que só biscoito de chocolate dava jeito. Todo dia o mesmo problema… e “dá lhe” biscoitinho de chocolate! E olha que não sou muito chegada em doce.
Médico – Entendo.
Marta – E toda vez que ia a um médico, ele me passava um remédio, mas quando ia tomar a dor mudava de lugar. É uma doença mutante, flutuante. Num carnaval, sentia uma dor no peito que só curava com vodka, imagine só isso… nunca fui de beber e passei uma semana embriagada. E, cá para nós doutor, outro dia li a bula de um remédio para DOR de cabeça em que o efeito colateral poderia levar ao óbito. Aí eu entendi a propaganda, porque se o sujeito toma e morre, não vai ter mesmo mais dor de cabeça né? Seria muito melhor, então, tomar remédio para morrer e ficar com dor de cabeça.
Médico – E quando a senhora começou a ter esses sintomas?
Marta – A Esmênia?
Médico – Quem?
Marta – Dei um nome para ela – Esmênia, acho que combina. “Esmenia – uma doença mutante”, estou pensando em escrever um livro. Ou um artigo médico, ainda não decidi. (pensativa) Talvez um musical...
Médico – A senhora deu um nome para a sua doença?
Marta - Li num livro de auto-ajuda que dar nome a doença ajuda a curá-la.
Médico – Conheço o livro...
Marta – Vou te confessar uma coisa: não gosto dela, mas fico com pena.
Médico – Pena?
Marta - Da Esmênia… sozinha pelo meu corpo, não tem mais ninguém, só convive comigo, que vivo tentando matá-la… enfim… Ela deve viver muito mal, nem sei porque continua me acompanhando.
Médico – (pensativo) Minha senhora... a Esmênia tem quantos anos?
Marta – Ah, está jovem ainda! E já é tão esperta, né doutor? Dá gosto de ver. Nasceu com a minha separação, que tem 5 anos. Depois que meu marido saiu de casa, Esmênia apareceu. Meu marido… Joelson…eu amava tanto… tanto… e me deixou…
Médico segura a mão dela. Faz cara de solidário.
Marta - Mas, enfim, eu vim aqui porque quero mandar Esmênia embora, pois pela lei do concubinato ela já tem direito a metade das coisas que tenho... Doutor… Doutor! Alooooo!
Médico – Sim?
Marta – O que o senhor vai me receitar?
Médico – A senhora acha que a Esmênia se daria bem com uma doença que fosse, digamos assim, fixa…
Marta – Como?
Médico – Uma doença que aparecesse numa região localizada. Numa região que fizesse, digamos… que fizesse um homem, quando nervoso, não conseguir… não conseguir fazer…
Marta – Entendo...
Médico – Acha que a Esmênia gostaria?
Marta – Não estou entendendo...
Médico – É que acho que posso dar jeito, nisso.
Marta – Pode?
Médico – O que a senhora vai fazer hoje à noite?
Marta – Não sei, por que?
Médico – Quer jantar comigo?
Marta – Doutor… que isso?
Médico – Eu posso apresentar a Esmênia para o Oscar, a doença fixa que tenho há três anos, desde que encontrei minha mulher com outro na cama.
Marta – Três anos?
Médico – Tenho certeza de que resolverá o problema de todo mundo: seu, da Esmênia, do Oscar... e quem sabe o meu.
Marta – Sabe o que é? Pensando melhor, to meio apegada a Esmênia e não sei se quero perdê-la agora. Doença é como gato, quando a gente se apega, se apega mesmo.
Médico – Mas e a lei do concubinato?
Marta – Eu tava brincando, até gosto de saber que alguém vai querer ficar com o “quase nada” que eu tenho.
Médico – Mas...
Marta – Vou pensar melhor e qualquer coisa ligo.
(Vai embora.)
Marta – É cada louco que aparece. É só dar uma brecha que sai falando da própria vida... Cara cheio de problemas não dá ... até é bonitinho... mas brocha é triste... (pausa) Né, Esmênia?
Médico – Então dona… (olha o prontuário) dona Marta… o que a senhora tem?
Marta – O senhor também acha?
Médico – Acha o quê?
Marta – Que eu tenho alguma coisa.
Médico – Não, dona Marta, eu não acho nada.
Marta – E por que perguntou o que tenho?
Medico – Porque se a senhora está aqui, deve ter alguma coisa.
Marta – Não se pode mais visitar um médico? É proibido? É uma ditadura? É isso?
(Silêncio)
Médico – Bem, acho que essa agradável visita pode terminar, já que a senhora está bem.
Marta – Quem disse que eu estou bem?
Medico –Dona Marta, me diga então: a senhora está sentindo alguma coisa?
Marta – O que é estar bem? Quem pode estar bem quando se vive num mundo onde as calotas polares estão derretendo?
Médico – Bem...
Marta – Quem consegue estar bem quando pensa que a qualquer momento um trombo pode se desprender de uma veia, indo parar na circulação, trancando uma artéria do pulmão, levando a morte imediata sem nenhum aviso prévio?
Médico – A senhora está sentindo alguma coisa?
Marta – Como assim estou sentindo alguma coisa? Sinto tudo o tempo todo. Não há uma só célula em degeneração que eu não sinta.
Médico – Mas o que a senhora sente especificamente?
Marta – O senhor quer mesmo saber?
Médico – Estou aqui para isso.
Marta – Olha, é muito complexo. Não sei se o senhor vai entender.
Medico – Tente explicar.
Marta olha para um lado e depois para o outro como se procurasse alguém.
Marta - Tem certeza de que estamos sozinhos?
Médico – Sim, Dona Marta, é claro.
Marta – Digo isso porque ela não pode escutar de jeito nenhum. Se me escuta falando sobre ela, muda novamente de lugar e aí não vou poder ficar com o senhor, entende? E achei sua cara tão boa, tem cara de competente, bom médico, saudável. E ainda é homem. Gosto. Mulher não vou; médica mulher não confio.
Medico – Do que a senhora está falando, Dona Marta?
Marta – (sussurrando) Da minha doença.
Medico – E qual é a sua doença, Dona Marta?
Marta – Não é como as outras, tem características únicas. Nunca vi algo assim. Veio personalizada e isso é o que mais me assusta, foi feita para mim, tenho certeza. Sob medida.
Médico – E como é isso?
Marta – Está vendo? Nem o senhor sabe o que estou falando… mas já me acostumei: fui ao angiologista, cardiologista, dermatologista, infectologista, neurologista, hematologista, gastroenterologista, reumatologista... Fui até num mecânico, porque esses caras sempre acham problema no carro da gente, achei que podia dar certo. Troquei o pistão e a ventoinha, mas doença que é bom, nada. Até hoje ninguém soube dizer o que tenho.
Medico – Mas o que a senhora sente?
Marta – (Sem ouvir.) Outro dia, li em um jornal médico que eu assino que existem 4297 doenças. Eu não acredito. Acho pouco. Pelo menos o dobro. O estranho é que exista gente saudável no mundo. O senhor acha que isso é verdade? Estão enganando a gente. A minha vizinha, a Adelaide, por exemplo: sei que ela me esconde alguma coisa. Encontro com ela no elevador e pergunto “tudo bem?” e ela responde “tudo!” Tudo??? Tudo é muito, o senhor não acha? Será que ela não desconfia que, talvez, entre uma garfada e outra na hora do almoço, sua glote pode inchar, simplesmente, porque um grão de arroz foi parar no lugar errado? Pense bem, doutor? Qual é a garantia que a vida me dá de que a minha língua na hora da deglutição não vai ter uma sincope e dobrar para trás e me sufocar até a morte. Que controle tenho sobre esse aparelho que funciona sem minha autorização prévia. (pausa) Graças à Deus tenho plano de saúde... Plano de saúde é igual plano de carreira, sem ele não se tem para que viver.
Médico - Minha senhora, acho que descobri o seu problema.
Marta – Meu problema é que eu leio demais. Li num livro de neurobiologia que as células do corpo humano se renovam de 7 em 7 anos. Todas. Aí me deu pavor. Se de sete em sete anos as células mudam para onde foi a outra de mim que não sou mais eu? E há três anos e meio atrás quando eu já tinha metade das células novas e a outra metade das antigas? Quem eu era? O senhor não acha que isso é de matar?
Médico - Dona Marta...
Marta – Depois disso nem sei mais se é a Marta que está aqui, como o senhor tem tanta certeza, posso ser outra, qualquer uma, afinal estou com 37 anos, já mudei mais de 4 vezes?
Médico - Sinto dizer, mas.... acho que seu problema é na cabeça.
Marta - Isso mesmo!!! Está na cabeça! Sabia que o senhor era muito competente; sempre acerto, gente competente tem esse jeito articulado de falar.
Médico – A senhora sabe, então.
Marta – Claro, a doença está na cabeça agora, mas já esteve até no pé. Foi parar na cabeça, tem uma semana.
Médico – Acho que a senhora não está me entendendo...
Marta - (sem ouvir) Começou com o tendão do pé direito, não conseguia andar. Tive que parar a academia, e olha que estava ficando muito bem, bonita, gostosa... nunca vi três dias de academia dar tanto resultado, o senhor tinha que ver! Mas o tendão me paralisou e pronto, voltei ao ócio.
Médico – Sei...
Marta – Depois foi a enxaqueca que me derrubou e não pude mais freqüentar os almoços de família aos domingo. Era uma doença disciplinada, aparecia sempre no mesmo dia da semana. Depois foi a língua: ela ficou tão áspera e ácida que só biscoito de chocolate dava jeito. Todo dia o mesmo problema… e “dá lhe” biscoitinho de chocolate! E olha que não sou muito chegada em doce.
Médico – Entendo.
Marta – E toda vez que ia a um médico, ele me passava um remédio, mas quando ia tomar a dor mudava de lugar. É uma doença mutante, flutuante. Num carnaval, sentia uma dor no peito que só curava com vodka, imagine só isso… nunca fui de beber e passei uma semana embriagada. E, cá para nós doutor, outro dia li a bula de um remédio para DOR de cabeça em que o efeito colateral poderia levar ao óbito. Aí eu entendi a propaganda, porque se o sujeito toma e morre, não vai ter mesmo mais dor de cabeça né? Seria muito melhor, então, tomar remédio para morrer e ficar com dor de cabeça.
Médico – E quando a senhora começou a ter esses sintomas?
Marta – A Esmênia?
Médico – Quem?
Marta – Dei um nome para ela – Esmênia, acho que combina. “Esmenia – uma doença mutante”, estou pensando em escrever um livro. Ou um artigo médico, ainda não decidi. (pensativa) Talvez um musical...
Médico – A senhora deu um nome para a sua doença?
Marta - Li num livro de auto-ajuda que dar nome a doença ajuda a curá-la.
Médico – Conheço o livro...
Marta – Vou te confessar uma coisa: não gosto dela, mas fico com pena.
Médico – Pena?
Marta - Da Esmênia… sozinha pelo meu corpo, não tem mais ninguém, só convive comigo, que vivo tentando matá-la… enfim… Ela deve viver muito mal, nem sei porque continua me acompanhando.
Médico – (pensativo) Minha senhora... a Esmênia tem quantos anos?
Marta – Ah, está jovem ainda! E já é tão esperta, né doutor? Dá gosto de ver. Nasceu com a minha separação, que tem 5 anos. Depois que meu marido saiu de casa, Esmênia apareceu. Meu marido… Joelson…eu amava tanto… tanto… e me deixou…
Médico segura a mão dela. Faz cara de solidário.
Marta - Mas, enfim, eu vim aqui porque quero mandar Esmênia embora, pois pela lei do concubinato ela já tem direito a metade das coisas que tenho... Doutor… Doutor! Alooooo!
Médico – Sim?
Marta – O que o senhor vai me receitar?
Médico – A senhora acha que a Esmênia se daria bem com uma doença que fosse, digamos assim, fixa…
Marta – Como?
Médico – Uma doença que aparecesse numa região localizada. Numa região que fizesse, digamos… que fizesse um homem, quando nervoso, não conseguir… não conseguir fazer…
Marta – Entendo...
Médico – Acha que a Esmênia gostaria?
Marta – Não estou entendendo...
Médico – É que acho que posso dar jeito, nisso.
Marta – Pode?
Médico – O que a senhora vai fazer hoje à noite?
Marta – Não sei, por que?
Médico – Quer jantar comigo?
Marta – Doutor… que isso?
Médico – Eu posso apresentar a Esmênia para o Oscar, a doença fixa que tenho há três anos, desde que encontrei minha mulher com outro na cama.
Marta – Três anos?
Médico – Tenho certeza de que resolverá o problema de todo mundo: seu, da Esmênia, do Oscar... e quem sabe o meu.
Marta – Sabe o que é? Pensando melhor, to meio apegada a Esmênia e não sei se quero perdê-la agora. Doença é como gato, quando a gente se apega, se apega mesmo.
Médico – Mas e a lei do concubinato?
Marta – Eu tava brincando, até gosto de saber que alguém vai querer ficar com o “quase nada” que eu tenho.
Médico – Mas...
Marta – Vou pensar melhor e qualquer coisa ligo.
(Vai embora.)
Marta – É cada louco que aparece. É só dar uma brecha que sai falando da própria vida... Cara cheio de problemas não dá ... até é bonitinho... mas brocha é triste... (pausa) Né, Esmênia?
O GATO CEGO de Jô Bilac
Personagens:
Leila: loura, Pinta de artista americana.
Bianca: olhos azuis penetrantes.
Sávio: mais simpático que bonito.
Eram uma ternurinha os dois, estavam prestes a se casar, mas, no entanto era a primeira vez que conheceria alguém de sua família.
Leila: Estou nervosa.
Sávio: Fica calma, ela vai gostar de você.
Leila: Será? Fico tão tensa.
Sávio: Relaxa. Você é uma mulher incrível.
Leila: Ela gosta muito de você e você dela. E se não me aprovar como cunhada? Não quero nem pensar... Nunca que vou me colocar entre vocês , nunca, ouviu? Nunca!
Sávio: Meu doce, não precisa disso. Bianca vai adorar você.
Leila: Mas foi você mesmo que disse que ela implica com tudo que é namorada sua.
Sávio: Pirraça. Depois que nossos pais morreram, ficamos sozinhos e eu virei uma espécie de monte cristo pra ela. Mas fique tranqüila, ela é um amor.
Leila: Não sei... E se não gostar de mim...?
Sávio: Escuta, aconteça o que acontecer, eu juro que você será a minha escolhida.
Leila: Não diz isso nem brincando, Sávio. Irmã é sagrada.
Sávio: Aconteça o que acontecer, gostando ou não gostando, eu fico contigo a qualquer preço.
Sávio agarra a moça num beijo apaixonado.
Tinha verdadeira devoção pela jovem. Parecia que pela primeira vez se envolvia a fundo com alguém.
Conhecera Leila numa batida de carro, quando ele salvava a vida de um cão. Assim, comovida pela atitude corajosa do rapaz, não se largaram desde então.
Chegado o dia, Leila finalmente conhece a sua cunhada.
Bianca: Como é bonita. Tem cara de boneca! É bem magra... O Sávio fala muito de você! Fisgou o coração dele. Já estava na hora! Você faz lembrar aquela artista... Como é mesmo? Aquela com luvas até aqui? Como é mesmo o nome dela, Sávio? Alguma coisa com M... Tá na ponta da língua... Ela se jogava numa fonte... Ai, Sávio, lembra!
Sávio: Bianca adora fitas americanas.
Bianca: É a mais bonita de todas, Sávio. Disparado! A mais bonita. Sávio, vez e outra, traz uns buchos que doem! Sávio não é nenhum galã de novela, mas é um homem decente e trabalhador, merece uma mocinha bonita como você. Assim, desse jeitinho. Lembra da Emily? Era isso? Emily?
Sávio: Evelyn.
Bianca: Isso, Evelyn. Lembra da Evelyn, Sávio? Uma coisa horrorosa, uma cara de camelo. Um bico... Horrorosa. Graças a deus Sávio logo desencantou. Evelyn tinha umas orelhas de abano... Fazia lembrar aquela fita... Como é mesmo? A do elefante! Ela parecia com aquele elefante orelhudo!!!!
(caem na risadaria)
Bianca: Ai desculpa... Mas fala, você faz o que, Leila?
Sávio: Leila é arquiteta.
Bianca: Além de bonita, arquiteta! Sávio, essa é a melhor, em disparada, a melhor.
Todos riam e trocavam amenidades, quando, inesperadamente, Bianca mata um mosquito no ar com as próprias mãos, gabando-se da rapidez do movimento. Leila estremece. Ver um ser vivo tão pequenino, esmagado monstruosamente a deixou por cinco segundos em total estado de perplexidade.
Sávio: Acredita que ela estava nervosa, achava que você não iria gostar dela! Veja só!
Bianca: Imagina, Leila. Uma moça tão educada. Senti logo de cara. Meu santo bateu com o seu!
Repara no estado da moça.
Bianca: Tudo bem?
Leila ainda ardida pela morte do mosquito
Bianca: Leila?
Leila: Sim. Desculpe.
(sorri. Bianca puxa um maço de cigarros)
Bianca: Você fuma...? (oferece)
Leila: Não, obrigada.
Bianca: Hum...É uma pena. Acho bonito, viu? Mulher fumando... Acho lindo. Se for loura então, um luxo. Fica mais parecida ainda com uma estrela de cinema. Você iria ficar linda fumando.
Sávio: Bianca tem cada idéia!
Bianca: Sávio, porque você não vai buscar um pouco de gelo pra mim, meu anjo? Pode? Tem bacardi. A gente mistura com laranja, fica ótimo.
Leila: Não obrigada, eu Também não bebo.
Bianca: Quer comer alguma coisa? Tem biscoito de chocolate... (sorri maternal)
Leila: Não. Muito obrigada.
Binca: Então traz um Bacardi com laranja pra mim, Sávio. Com muito gelo.
Sávio sai para cozinha, deixando as duas moças a sós.
Um estranho silêncio se estabelece, enquanto Bianca, numa tragada reflexiva, analisa a jovem cunhada.
Bianca: Gosta do meu irmão, Leila?
Leila: Amo. E farei de tudo para torná-lo o homem mais feliz do mundo.
Bianca: Vejo sinceridade em seu olhar. Fico tranqüila. Gostei muito de você.
Leila: Obrigada.
Bianca: Gosta de ser arquiteta?
Leila: Gosto.
Bianca percebendo a inverdade
Bianca: Seja sincera... Seremos da mesma família, devemos evitar melindres.
Leila: Bem... Na verdade o meu grande sonho era ser veterinária... Minha família insistiu em arquitetura... Fez um inferno. Acabei cedendo e acho que essa é única infelicidade que tenho. Desde pequena sou louca por animais. Não me interessa qual! Não posso ver um bichinho na rua que já quero levar pra casa! Quando vi Sávio salvando um cachorro de um atropelamento, tive a certeza de que era o homem com quem eu deveria me casar. Acredito, de verdade, que quem não gosta de animais, não deve valer um centavo.
Bianca: Acha mesmo isso?
Leila: Com toda a certeza. Fico muito incomodada com agressão aos animais. Agora a pouco, por exemplo. Perdoe-me a sinceridade, mas me sinto a vontade em dizer, posso?
Bianca: Por favor.
Leila: Então, agora a pouco, quase tive um negócio quando a vi matando um mosquito!
Bianca: Sério?
Leila: De verdade. O pobre bicho não teve nem a escolha de fugir. Foi trucidado. Mas não te condeno, por favor, não me leve a mal. Sei que por muitas vezes agimos inconscientemente e partimos para esse tipo de violência espontânea.
Bianca: (vai rindo)
Leila: Desculpa, eu disse alguma coisa que não deveria...?
Bianca: ( rindo) Não, meu anjo, eu é que peço Desculpas... Um amor, você realmente é um amor! .
Leila: Então?
Bianca: É que lembrei de uma história agora...
Leila: Com bicho?
Bianca: Sim... Um gato...
Leila: E o que aconteceu...?
Bianca: ... Ë que... (rindo mais) É serio esse negócio com o mosquito??? (ri mais ainda)
Leila: (sem graça) Sim.
Bianca: (gargalhando) Então vai enfartar com a história do gato...
Leila: Era siamês?
Bianca: Malhado! Malhadinho... Desse tamanhinho...
Leila: E o que aconteceu?
Bianca gargalha ainda mais, surpreendida com tal recordação.
Leila: (irritada) Conta... O que aconteceu?
Bianca: Uns quinze dias atrás...
Leila: (irritada ao extremo) O que tem?
Bianca: Você não vai acreditar!!!! Apaguei um cigarro aceso na vista de um gato uns quinze dias atrás. (de uma crueldade satânica) O animal ficou cego. Birutinha! (rindo) Você precisava ver! Você iria ter um enfarte! (rindo) Aquela criaturinha malhada e cega, se debatendo pelos cantos... (rindo) Desse tamaninho, ele era desse tamaninho...
Mais gargalhadas de Bianca, simulando o ato desumano.
Leila: Você me cede por um momento o seu cigarro?
Bianca: Ah! Resolveu fumar! Não queria fumar na frente do meu irmão, não é? Mas não tem problema, Leila... Olha, você vai ficar linda fumando, ele vai te amar ainda mais, porque mulher fumando é...
Antes mesmo de completar a frase, é dominada por Leila, que num arremesso corporal, apaga em um dos seus olhos azuis a brasa quente do cigarro.
Larga a cunhada cega, enchendo o edifício com seus gritos animalescos. Sávio ressurge correndo, impressionado com tal aberração. Leila, na poltrona, espera_ de braços cruzados, sem remorso.
Leila: Bacardi com laranja, acho que ela não vai querer tomar.
Primeiro foi levada a delegacia.
Uma semana depois para o altar.
Fim.
Para Graziela Schmitt e Camila Rhodi, musas inspiradoras (Rhodi inclusive está no Café cultural em botafogo, sexta- feira às 21 horas com "A filha da chacrete", essa é a última! Corre pra ver!)
Leila: loura, Pinta de artista americana.
Bianca: olhos azuis penetrantes.
Sávio: mais simpático que bonito.
Eram uma ternurinha os dois, estavam prestes a se casar, mas, no entanto era a primeira vez que conheceria alguém de sua família.
Leila: Estou nervosa.
Sávio: Fica calma, ela vai gostar de você.
Leila: Será? Fico tão tensa.
Sávio: Relaxa. Você é uma mulher incrível.
Leila: Ela gosta muito de você e você dela. E se não me aprovar como cunhada? Não quero nem pensar... Nunca que vou me colocar entre vocês , nunca, ouviu? Nunca!
Sávio: Meu doce, não precisa disso. Bianca vai adorar você.
Leila: Mas foi você mesmo que disse que ela implica com tudo que é namorada sua.
Sávio: Pirraça. Depois que nossos pais morreram, ficamos sozinhos e eu virei uma espécie de monte cristo pra ela. Mas fique tranqüila, ela é um amor.
Leila: Não sei... E se não gostar de mim...?
Sávio: Escuta, aconteça o que acontecer, eu juro que você será a minha escolhida.
Leila: Não diz isso nem brincando, Sávio. Irmã é sagrada.
Sávio: Aconteça o que acontecer, gostando ou não gostando, eu fico contigo a qualquer preço.
Sávio agarra a moça num beijo apaixonado.
Tinha verdadeira devoção pela jovem. Parecia que pela primeira vez se envolvia a fundo com alguém.
Conhecera Leila numa batida de carro, quando ele salvava a vida de um cão. Assim, comovida pela atitude corajosa do rapaz, não se largaram desde então.
Chegado o dia, Leila finalmente conhece a sua cunhada.
Bianca: Como é bonita. Tem cara de boneca! É bem magra... O Sávio fala muito de você! Fisgou o coração dele. Já estava na hora! Você faz lembrar aquela artista... Como é mesmo? Aquela com luvas até aqui? Como é mesmo o nome dela, Sávio? Alguma coisa com M... Tá na ponta da língua... Ela se jogava numa fonte... Ai, Sávio, lembra!
Sávio: Bianca adora fitas americanas.
Bianca: É a mais bonita de todas, Sávio. Disparado! A mais bonita. Sávio, vez e outra, traz uns buchos que doem! Sávio não é nenhum galã de novela, mas é um homem decente e trabalhador, merece uma mocinha bonita como você. Assim, desse jeitinho. Lembra da Emily? Era isso? Emily?
Sávio: Evelyn.
Bianca: Isso, Evelyn. Lembra da Evelyn, Sávio? Uma coisa horrorosa, uma cara de camelo. Um bico... Horrorosa. Graças a deus Sávio logo desencantou. Evelyn tinha umas orelhas de abano... Fazia lembrar aquela fita... Como é mesmo? A do elefante! Ela parecia com aquele elefante orelhudo!!!!
(caem na risadaria)
Bianca: Ai desculpa... Mas fala, você faz o que, Leila?
Sávio: Leila é arquiteta.
Bianca: Além de bonita, arquiteta! Sávio, essa é a melhor, em disparada, a melhor.
Todos riam e trocavam amenidades, quando, inesperadamente, Bianca mata um mosquito no ar com as próprias mãos, gabando-se da rapidez do movimento. Leila estremece. Ver um ser vivo tão pequenino, esmagado monstruosamente a deixou por cinco segundos em total estado de perplexidade.
Sávio: Acredita que ela estava nervosa, achava que você não iria gostar dela! Veja só!
Bianca: Imagina, Leila. Uma moça tão educada. Senti logo de cara. Meu santo bateu com o seu!
Repara no estado da moça.
Bianca: Tudo bem?
Leila ainda ardida pela morte do mosquito
Bianca: Leila?
Leila: Sim. Desculpe.
(sorri. Bianca puxa um maço de cigarros)
Bianca: Você fuma...? (oferece)
Leila: Não, obrigada.
Bianca: Hum...É uma pena. Acho bonito, viu? Mulher fumando... Acho lindo. Se for loura então, um luxo. Fica mais parecida ainda com uma estrela de cinema. Você iria ficar linda fumando.
Sávio: Bianca tem cada idéia!
Bianca: Sávio, porque você não vai buscar um pouco de gelo pra mim, meu anjo? Pode? Tem bacardi. A gente mistura com laranja, fica ótimo.
Leila: Não obrigada, eu Também não bebo.
Bianca: Quer comer alguma coisa? Tem biscoito de chocolate... (sorri maternal)
Leila: Não. Muito obrigada.
Binca: Então traz um Bacardi com laranja pra mim, Sávio. Com muito gelo.
Sávio sai para cozinha, deixando as duas moças a sós.
Um estranho silêncio se estabelece, enquanto Bianca, numa tragada reflexiva, analisa a jovem cunhada.
Bianca: Gosta do meu irmão, Leila?
Leila: Amo. E farei de tudo para torná-lo o homem mais feliz do mundo.
Bianca: Vejo sinceridade em seu olhar. Fico tranqüila. Gostei muito de você.
Leila: Obrigada.
Bianca: Gosta de ser arquiteta?
Leila: Gosto.
Bianca percebendo a inverdade
Bianca: Seja sincera... Seremos da mesma família, devemos evitar melindres.
Leila: Bem... Na verdade o meu grande sonho era ser veterinária... Minha família insistiu em arquitetura... Fez um inferno. Acabei cedendo e acho que essa é única infelicidade que tenho. Desde pequena sou louca por animais. Não me interessa qual! Não posso ver um bichinho na rua que já quero levar pra casa! Quando vi Sávio salvando um cachorro de um atropelamento, tive a certeza de que era o homem com quem eu deveria me casar. Acredito, de verdade, que quem não gosta de animais, não deve valer um centavo.
Bianca: Acha mesmo isso?
Leila: Com toda a certeza. Fico muito incomodada com agressão aos animais. Agora a pouco, por exemplo. Perdoe-me a sinceridade, mas me sinto a vontade em dizer, posso?
Bianca: Por favor.
Leila: Então, agora a pouco, quase tive um negócio quando a vi matando um mosquito!
Bianca: Sério?
Leila: De verdade. O pobre bicho não teve nem a escolha de fugir. Foi trucidado. Mas não te condeno, por favor, não me leve a mal. Sei que por muitas vezes agimos inconscientemente e partimos para esse tipo de violência espontânea.
Bianca: (vai rindo)
Leila: Desculpa, eu disse alguma coisa que não deveria...?
Bianca: ( rindo) Não, meu anjo, eu é que peço Desculpas... Um amor, você realmente é um amor! .
Leila: Então?
Bianca: É que lembrei de uma história agora...
Leila: Com bicho?
Bianca: Sim... Um gato...
Leila: E o que aconteceu...?
Bianca: ... Ë que... (rindo mais) É serio esse negócio com o mosquito??? (ri mais ainda)
Leila: (sem graça) Sim.
Bianca: (gargalhando) Então vai enfartar com a história do gato...
Leila: Era siamês?
Bianca: Malhado! Malhadinho... Desse tamanhinho...
Leila: E o que aconteceu?
Bianca gargalha ainda mais, surpreendida com tal recordação.
Leila: (irritada) Conta... O que aconteceu?
Bianca: Uns quinze dias atrás...
Leila: (irritada ao extremo) O que tem?
Bianca: Você não vai acreditar!!!! Apaguei um cigarro aceso na vista de um gato uns quinze dias atrás. (de uma crueldade satânica) O animal ficou cego. Birutinha! (rindo) Você precisava ver! Você iria ter um enfarte! (rindo) Aquela criaturinha malhada e cega, se debatendo pelos cantos... (rindo) Desse tamaninho, ele era desse tamaninho...
Mais gargalhadas de Bianca, simulando o ato desumano.
Leila: Você me cede por um momento o seu cigarro?
Bianca: Ah! Resolveu fumar! Não queria fumar na frente do meu irmão, não é? Mas não tem problema, Leila... Olha, você vai ficar linda fumando, ele vai te amar ainda mais, porque mulher fumando é...
Antes mesmo de completar a frase, é dominada por Leila, que num arremesso corporal, apaga em um dos seus olhos azuis a brasa quente do cigarro.
Larga a cunhada cega, enchendo o edifício com seus gritos animalescos. Sávio ressurge correndo, impressionado com tal aberração. Leila, na poltrona, espera_ de braços cruzados, sem remorso.
Leila: Bacardi com laranja, acho que ela não vai querer tomar.
Primeiro foi levada a delegacia.
Uma semana depois para o altar.
Fim.
Para Graziela Schmitt e Camila Rhodi, musas inspiradoras (Rhodi inclusive está no Café cultural em botafogo, sexta- feira às 21 horas com "A filha da chacrete", essa é a última! Corre pra ver!)
MORANGO É DE MENINA de Felipe Barenco
Mãe e seus
dois filhos num supermercado. As crianças, um menino e uma menina,
tem por volta dos sete anos.
Mãe (segurando as crianças pelos braços, um de cada lado) – Cada um pode escolher um biscoito pra levar. Só um que a mãe tá sem dinheiro.
As crianças disparam pelo mercado e correm até a sessão de biscoitos. A menina é objetiva e pega um pacote de Cheetos Bolinha.
Mãe – Ah, não! Essa coisa de plástico fedorento, não!
O menino está paralisado, diante das inúmeras e quase infinitas opções.
Mãe – Anda garoto! Não tenho o dia inteiro!
A menina volta puta da vida. Dá sinais de uma personalidade forte e que não pode ser contrariada. Quer porque quer Cheetos Bolinha. Naquele momento nada é mais importante que um pacote de Cheetos Bolinha.
Mãe – Eu já falei que não!
Menina chora, esperneia, bate o pé. O menino, por sua vez, troca, destroca, decide, se arrepende, pega, volta, analisa, destroca de novo o pacote de biscoito. É a decisão mais importante de sua vida, não pode errar.
Mãe (falando com a moça do caixa) – Quer saber? (Vai até a sessão de biscoitos. Pega um pacote de chocolate, outro de morango). Esse é pra você, esse é pra você.
Morango pra menina, chocolate pro menino.
Mãe – E eu nunca mais compro biscoito pra vocês. A gente quer agradar, só tem aborrecimento.
Menino – Mãe... eu preferia o biscoito de morango.
Mãe – Não, chega.
Menino – Por que ela pode morango e eu não?
Mãe (categórica e convencida) – Morango é de menina.
Menino – Mas mãe...
Mãe – Não discute! Vai ficar sem nenhum.
Chegando em casa, o menino, ainda inconformado, após ensaiar bastante a pergunta – com medo e vergonha – cochicha no ouvido da irmã.
Menino – Você troca um biscoito de morango por um de chocolate comigo?
FIM.
Mãe (segurando as crianças pelos braços, um de cada lado) – Cada um pode escolher um biscoito pra levar. Só um que a mãe tá sem dinheiro.
As crianças disparam pelo mercado e correm até a sessão de biscoitos. A menina é objetiva e pega um pacote de Cheetos Bolinha.
Mãe – Ah, não! Essa coisa de plástico fedorento, não!
O menino está paralisado, diante das inúmeras e quase infinitas opções.
Mãe – Anda garoto! Não tenho o dia inteiro!
A menina volta puta da vida. Dá sinais de uma personalidade forte e que não pode ser contrariada. Quer porque quer Cheetos Bolinha. Naquele momento nada é mais importante que um pacote de Cheetos Bolinha.
Mãe – Eu já falei que não!
Menina chora, esperneia, bate o pé. O menino, por sua vez, troca, destroca, decide, se arrepende, pega, volta, analisa, destroca de novo o pacote de biscoito. É a decisão mais importante de sua vida, não pode errar.
Mãe (falando com a moça do caixa) – Quer saber? (Vai até a sessão de biscoitos. Pega um pacote de chocolate, outro de morango). Esse é pra você, esse é pra você.
Morango pra menina, chocolate pro menino.
Mãe – E eu nunca mais compro biscoito pra vocês. A gente quer agradar, só tem aborrecimento.
Menino – Mãe... eu preferia o biscoito de morango.
Mãe – Não, chega.
Menino – Por que ela pode morango e eu não?
Mãe (categórica e convencida) – Morango é de menina.
Menino – Mas mãe...
Mãe – Não discute! Vai ficar sem nenhum.
Chegando em casa, o menino, ainda inconformado, após ensaiar bastante a pergunta – com medo e vergonha – cochicha no ouvido da irmã.
Menino – Você troca um biscoito de morango por um de chocolate comigo?
FIM.
AMOR de Camilo Pellegrini
1-
amor?
2- oi, meu anjo?
1- passa pra mim?
2- oi?
1- o biscoito.
2- aqui.
1- obrigado.
2- espera. eu sei o que você quer.
1- sabe?
2- toma.
2 abre o biscoito e dá na boca de 1 apenas o recheio.
2- não é bom?
1- é bom sim.
FIM
2- oi, meu anjo?
1- passa pra mim?
2- oi?
1- o biscoito.
2- aqui.
1- obrigado.
2- espera. eu sei o que você quer.
1- sabe?
2- toma.
2 abre o biscoito e dá na boca de 1 apenas o recheio.
2- não é bom?
1- é bom sim.
FIM
