PARA
CAMILO PELEGRINI
Lata de Coca: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.
Meio tomate: Que foi meu amor?
Lata de Coca: Olha ali, olha ali!
Meio tomate: Ali onde?
Lata de Coca: Olha ali, do lado do acém.
Acém: Alcatra! Eu já disse que eu sou alcatra!
Meio tomate: O que é que tem? Não to enxergando direito. A minha
vista já não é mais a mesma desde que começou a decomposição.
Lata de Coca: É horrível, é horrível!
Meio tomate: O que? O absorvente usado ta tentando se enfiar no
meio da casca de manga de novo?
Lata de Coca: Não. Muito pior! É uma barata.
Barata: Alguém me chamou?
Lata de Coca: Sai daqui sua aberração!
Barata: Gente! Uma lata de refrigerante que vive com um tomate
podre dentro dela e eu é que sou a aberração?
Lata de Coca: Sai! Não adianta. Não adianta. Não tem nem mais
uma gota de açúcar em mim. Fica longe.
Barata: Como você é convencida. Quem disse que eu te quero, mocréia.
Lata de Coca: É claro que você me quer, monstra. Eu tenho o que
você gosta.
Barata: Ih, minha filha. Ta me estranhando é? Eu não sou desse
tipo não. Aliás quem gosta dessas coisas é você.
Lata de Coca: Eu?!?!?!
Barata: Pensa que o lixão todo já não ta sabendo do teu caso com
a amiga Fanta?
Meio tomate: Meu amor!
Lata de Coca: Não liga pra ela, meu vermelhinho. É mentira.
Barata: Não é o que dizem por aí.
Lata de Coca: Pára de desvirtuar o assunto. O caso é que eu não
quero você roendo as minhas entranhas. Eu estou seca.
Barata: Isso se nota. Com esse mau humor.
Lata de Coca: Amor, você vai deixar ela falar assim comigo?
Meio tomate: Ô minha tóta-tóia... Não fica assim não. É que você
ta mesmo um tantinho nervosa.
Lata de Coca: Mas é que ela é... ela é...
Barata: Sou o quê? Hein? Cuidado com o que tu fala senão te dou
uma antenada que tu voa longe desse lixão.
Lata de Coca: Ai, dona Baratinha. Desculpa. Mas você há de convir
que a sua aparência não é das mais convidativas.
Barata: Ah, claro. E essa parte verde de mofo no teu tomate é
uma coisa linda, né? Esse cheiro de podre então nem se fala.
Meio tomate: Ela tem razão, totinha.
Lata de Coca: Eu sei, eu sei. É que desde sempre. A gente sempre
ouve pra tomar cuidado com as baratas.
Barata: Mas nós somos inofensivas. É o diabo da fama. A droga
da fama de má.
Barata começa a chorar
Meio tomate: Não fica assim não.
Barata: Me deixa!
Lata de Coca: Olha o lado bom. Pelo menos ninguém mexe contigo.
Barata: Mas eu queria que mexessem, sabe? É muita rejeição, gente.
Eu queria saber como é ter uma vida sem grito. Todo lugar que
eu chego eu sou recebida com um grito. Eu tenho ouvidos! E sentimentos
também...
E chora ainda mais.
Meio tomate: Ah, vai. Não é tão ruim assim.
Barata: Se você passasse um dia na minha casca você saberia que
é mil vezes pior. Isso eu to falando só da parte psicológica.
Porque tem o perigo de vida constante. É chinelo e vassoura vindo
de todos os lados. Já vi cinqüenta e nove irmãs serem esmagadas.
E outras noventa e cinco morreram de Baygon.
Continua chorando
Barata sai chorando meio desesperada e esbarra no Acém
Barata: Ai, desculpa.
Acém: Não foi nada.
Pausa
Barata: Ué...
Acém: Que foi?
Barata: Você... você não gritou?
Acém: Gritar?
Barata: Quando me viu. Você não gritou quando me viu.
Acém: Mas porque eu gritaria?
Barata: Não sei. É o que todo mundo faz.
Acém: Bom. Eu não senti vontade de gritar.
Barata olha enternecida
Barata: Quem é você?
Acém: Eu sou uma alcat... É... Acém. Eu sou um acém.
Barata: Acém???
Acém: É. Muito prazer.
Barata: Prazer.
Os dois se cumprimentam
Barata: Nossa. Você é tão durão.
Acém: Eu sei. Mas eu não posso fazer nada. É o que eu sou. E ponto.
Acém vai saindo
Barata: Não, não. Espera aí. Eu gosto.
Acém: O quê?
Barata: De você ser durão. Eu gosto.
Acém: Gosta?
Barata: Claro. É muita mais interessante do que a molenguice do
Filé Mignon. Ou a frescura de uma Alcatra
O olha de Acém se acende. Os dois se olham por um tempo. Rola
um clima.
Acém: Você... Você quer dar uma volta?
Barata: Agora?
Acém: É.
Barata: Mas ta na hora dos caminhões de lixo chegarem.
Acém: E daí?
Barata: Pode ser perigoso. A gente pode ser esmagado.
Acém: Fica tranqüila.
Barata: Oi?
Acém: Eu te protejo.
Os dois dão as mãos e saem apaixonados. Neste momento, vemos o
absorvente usado que até então assistia a tudo calado. Ele suspira
e...
Absorvente: Ai, que saudades da minha vagina.
MULHER BRASILEIRA de Renata Mizrahi
Narrador: Essa é a história de Alice.
Entra Alice
Narrador: Alice, mulher brasileira moradora da favela no Rio de Janeiro, acorda todos os dias seis horas da manhã, pega dois ônibus para chegar no trabalho. Seu trabalho: Motorista de Kombi. Vamos agora acompanhar um dia na vida de Alice.
Alice na Kombi fala para fora
Alice; Norte Shopping, Cascadura, Madureira, Irajá! Norte Shopping, Cascadura, Madureira, Irajá!!
Homem: Moça, quanto é pro Norte Shopping?
Alice: Norte Shopping é um e cinqüenta.
O Homem entra na Kombi
Alice: Norte Shopping...
Homem: Nunca vi mulher dirigindo Kombi.
Alice: Tá vendo agora. Norte Shopping, Cascadura...
Homem: Além de mulher é gostosa.
Alice (seca): Obrigada. Norte Shopping...
O Homem tira de seu bolso uma faca.
Homem: Você é mulher, eu sou homem. Você é frágil, eu sou macho. Passa a grana que tiver.
Alice olha a faca e pega sua pistola calibre 38.
Alice: Você é homem, eu sou mulher, você é burro, eu sou esperta. Sai dessa Kombi agora se não eu te furo todinho.
Narrador: E assim Alice vai vivendo. Não dá mole pra safado, nem deixa lhe passarem a perna. Após seis horas dirigindo na Kombi, ela trabalha com seu Manoel na vendinha de doces que fica ali perto em Maria da Graça.
Alice: Oi, seu Manoel.
Manoel: Chegou atrasada hoje.
Alice: Muito trânsito nessa última viagem.
Manoel: Aproveita e fica aqui pra mim, que eu tenho que sair.
Alice: Vai tomar o seu chopinho?
Manoel: Isso é um problema meu.
Alice: Ô seu Manoel, sabe que dia é hoje?
Manoel: Hoje é 15. Por quê?
Alice: Sabe que é? È que já faz 10 dias que o senhor não me paga.
Manoel: Ih, não vai dar pra pagar hoje não.
Alice: Por que não?
Manoel: Por que eu tenho umas dívidas aí, que eu vou ter que pagar.
Alice: Dívidas no bar, né seu Manoel.
Manoel fica muito nervoso.
Alice: Olha aqui ô garota. Não vem querendo em dar liçãozinha de moral não, tá entendendo? Não vou te pagar hoje e não sei quando isso vai acontecer.
Alice saca a sua pistola calibre 38
Alice: Olha você, ô vagabundo. Se tá pensando que vai ficar sem me pagar eu acabo com essa geringonça, tá entendendo? Aí eu quero ver se tu vai conseguir tomar um copo de chope as custas do trabalho do outros, seu imbecil. Me dá o que tá me devendo e fica aqui vendendo, porque quem vai tomar chope hoje, sou eu!
Narrador: E assim Alice delicadamente vai vivendo. Não deixa que lhe façam de trouxa, é mulher brasileira que mata três leões por dia sem deixar a roupa amarrotar. Até de noite. quando Alice está quase chegando em casa, mostra para que veio.
Alice está andando e aparece um menino chorando cola.
Menino: Aí tia, dá um dinheiro par eu comprar uma comida?
Alice: O que se tá fazendo com esse negócio na mão.
Menino: Nada não tia, me dá um dinheiro aí.
Alice: Só se tu largar essa porcaria da sua mão.
Menino: Ih, não fode!
Alice: Fala direito comigo, ô garoto, tá pensando que sou da sua família?
Menino: Ih, não quer dar dinheiro, não enche.
Alice pega o menino pelo braço.
Menino: Ai, tia, tá doendo.
Alice: Em primeiro lugar, eu não sou a sua tia. Em segundo lugar, larga essa porcaria senão eu te mando pro juizado de menores.
Menino: Ai, tia, tá me machucando...
Alice: Eu já falei que não sou a sua tia!
Menino: Tá bom, tá bom, eu largo, eu largo, me solta aí.
Alice: Primeiro coloca essa porcaria na minha mão!
Menino solta a cola.
Alice: Eu não quero mais te ver com esse negócio na, mão tá entendendo. Quero ver você estudando.
Menino: Mas tia...
Alice: Não tem mais nem menos. Tá com fome? Pára de cheirar essa porcaria e toma jeito nessa vida.
Narrador: Essa é Alice, mulher de fibra, forte...
Alice: AAAAHHHHHH!!!!!!
Narrador: O que foi?
Alice: Uma barata! Tem uma barata na minha cozinha!!
Narrador: Vamos ver como Alice, mulher de fibra, brasileira de sangue, vai se sair...
Alice: AAAAAHHHHH!!!! Tira!!! Tira!!!
Narrador: Tirar o quê?
Alice: A barata, ela tá subindo pela porta! Pelo amor de Deus, tira isso daqui!
Narrador: É só um bichinho.
Alice: Um bichinho não. É uma barata! Barata não! Barata não! Tira! Tira! AAAHHHH!!!!
Narrador: Essa é Alice. Mulher forte, brasileira, cheia de fibra, mata três leões sem amarrotar a roupa...
Alice desmaia
Narrador olha Alice caída no chão.
Narrador: Essa é Alice.
FIM
GH, DREAM A LITTLE DREAM OF ME de Larissa Câmara
(Foco acende em GH. GH abre um coração pequeno que carrega junto ao peito. GH beija o retrato que está dento do coração. GH segura um pistola. Outro foco acende revelando uma silhueta numa janela distante.)
(OFF) GH: Matar é como um casamento você estará ligado a vida de outro alguém para sempre.
(GH aponta a arma para a janela e atira. Sons de tiros. GH sangra. Novo Foco de luz. GH vai até a janela. GH pega nos cabelos do homem baleado olhando com violência seu rosto).
(OFF) GH: Ele olhou meus olhos como se fosse a primeira vez. Como um sonho.
(GH grita e chora escorregando. GH abre o coração pequeno que carrega junto ao peito e sofre. Inesperadamente um homem chega e atira em GH que cai. Homem foge. Ao cair GH esmaga, sem querer, uma barata que estava numa caminhada despretensiosa por ali. Foco apenas em GH e na barata)
(OFF) GH: “Cada olho reproduzia a barata inteira.
Toma essa barata, não quero o que vi.
Ali estava eu boquiaberta e ofendida e recuada – diante do ser empoeirado que me olhava. Toma o que eu vi: pois o que eu via com um constrangimento tão penoso e tão espantado e tão inocente, o que eu via era a vida me olhando.
Como chamar de outro modo aquilo horrível e cru, matéria-prima e plasma seco, que ali estava, enquanto eu recuava para dentro de mim em náusea seca, eu caindo séculos e séculos dentro de uma lama – era lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade.
Toma, toma tudo isso para ti, eu não quero ser uma pessoa viva! Tenho nojo e maravilhamento por mim, lama grossa lentamente brotando.
Era isso – era isso então. É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda. Em derrocada difícil, abriam-se dentro de mim passagens duras e estreitas.
Olhei-a, à barata: eu a odiava tanto que passava para o seu lado, solidária com ela, pois não suportaria ficar sozinha com minha agressão.
E de repente gemi alto, dessa vez ouvi meu gemido. É que como um pus subia à minha tona a minha mais verdadeira consistência – e eu sentia com susto e nojo que "eu ser" vinha de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana.
Abria-se em mim, com uma lentidão de portas de pedra, abria-se em mim a larga vida do silêncio, a mesma que estava no sol parado, a mesma que estava na barata imobilizada. E que seria a mesma em mim! Se eu tivesse coragem de abandonar... de abandonar meus sentimentos? Se eu tivesse coragem de abandonar a esperança.
A esperança de quê? Pela primeira vez eu me espantava de sentir que havia fundado toda uma esperança em vir a ser aquilo que eu não era. A esperança – que outro nome dar? – que pela primeira vez eu agora iria abandonar, por coragem e por curiosidade mortal. A esperança, na minha vida anterior, teria se fundado numa verdade? Com espanto infantil, eu agora duvidava.
Para saber o que realmente eu tinha a esperar, teria eu antes que passar pela minha verdade? Até que ponto até agora eu havia inventado um destino, vivendo no entanto subterraneamente de outro?
Fechei os olhos, aguardando que a estranheza passasse, aguardando que meu arfar não fosse mais o daquele gemido que eu ouvira como vindo do fundo de uma cisterna seca e funda, assim como a barata era bicho de cisterna seca. Eu ainda continuava a sentir, incalculavelmente longínquo em mim, o gemido que já não me chegava mais à garganta.
Isto é a loucura, pensei de olhos fechados. Mas era tão inegável sentir aquele nascimento de dentro da poeira – que eu não podia senão seguir aquilo que eu bem sabia que não era loucura, era, meu Deus, uma verdade pior, a horrível. Mas horrível por quê? É que ela contrariava sem palavras tudo o que antes eu costumava pensar também sem palavras.
Aguardei que a estranheza passasse, que a saúde voltasse. Mas reconhecia, num esforço imemorial de memória, que já havia sentido essa estranheza: era a mesma que eu experimentava quando via fora de mim o meu próprio sangue, e eu o estranhava. Pois o sangue que eu via fora de mim, aquele sangue eu estranhava com atração: ele era meu.
Eu não queria reabrir os olhos, não queria continuar a ver. Os regulamentos e as leis, era preciso não esquecê-los, é preciso não esquecer que sem os regulamentos e as leis também não haverá a ordem, era preciso não esquecê-los e defendê-los para me defender.
Mas é que eu já não podia mais me amarrar.
A primeira ligação já se tinha involuntariamente partido, e eu me despregava da lei, mesmo intuindo que iria entrar no inferno da matéria viva – que espécie de inferno me aguardava? Mas eu tinha que ir. Eu tinha que cair na danação de minha alma, a curiosidade me consumia.
Então abri de uma só vez os olhos, e vi em cheio a vastidão indelimitada... que vibrava em silêncio, laboratório de inferno.
E na minha grande dilatação, eu estava no deserto. Como te explicar? Eu estava no deserto como nunca estive. Era um deserto que me chamava como um cântico monótono e remoto chama. Eu estava sendo seduzida. E ia para essa loucura promissora. Mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim para uma verdade – meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata. Meus primeiros contatos com as verdades sempre me difamaram.
– Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida – e, através da barata que mesmo agora revejo, através dessa amostra de calmo horror vivo, tenho medo de que nesse núcleo eu não saiba mais o que é esperança.
A barata é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam.
Também eu, que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura. Segura minha mão, cheguei ao irredutível com a fatalidade de um dobre – sinto que tudo isso é antigo e amplo, sinto no hieróglifo da barata lenta a grafia do Extremo Oriente. E neste deserto de grandes seduções, as criaturas: eu e a barata viva. A vida, meu amor, é uma grande sedução onde tudo o que existe se seduz. ...Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido.”
(A barata patina levemente na poça de sangue de GH, como se quisesse escrever uma mensagem de amor ou um bilhete suplicando por vida. Barata fica suspensa, apenas suas antenas se movem. GH e a barata se olham terna e profundamente. Entra a música Dream A Little Dream Of Me. Luz cai em resistência)
FIM
Clarice Lispector, minha mãe, meu coração aos seus pés (com louvor)!
Toda a glória para Mariana Lima!
http://www.youtube.com/watch?v=zFvBKqTw_us
A MINIATURA DO MONSTRO de Julia Spadaccini
Julia - (para ninguém, pois estava sozinha) Ahhhhhhhh! Uma barataaaaaa!
Barata - Ai, caraca... pára com isso!!!!
Julia - Oi?
Barata - Saco. Toda vez que alguém me vê grita: Barataaaaa! Pô, eu pareço com uma mosca, por acaso? Quando alguém te vê grita: ahhhhhh! Um ser humano? Näo, né?
Julia - Eu sabia que tomar vinho tinto estava me fazendo mal, vou voltar para ignorância e tomar sangue de boi.
Barata - Julia.
Julia - Barata?
Barata - Joana.
Julia - Você se chama Joana?
Barata - E vc Julia... uuuuuuuuu!
Julia - Meu Deus! Vou voltar a interpretar, escrever está acabando comigo...
Barata - Julia, seguinte, já morei em vários lugares do mundo, mas sinto que meu lugar é aqui, gostei da sua parede ocre, acho que sua idéia de colocar umas almofadas vermelhas me agrada e acho que vou viver para sempre com você.
Julia - É... tá... näo é má idéia...
Barata - Esse texto que vc está escrevendo é muito ruim, né?
Julia - É Joana, um dos piores... piores.
Barata - Vc está sem word e está escrevendo dentro do blog, direto, e nunca tinha feito isso antes...
Julia - É, barata, näo está nada fácil... sem word, sem palavras...
Barata - Julia, o texto está piorando a cada linha.
Julia - Está.
Barata - Pare agora antes que te mandem embora desse site. Se vc ficar desempregada, vou ter que me mudar, pois quero almofadas vermelhas.
Julia - Eu näo ganho dinheiro para escrever aqui, Joana.
Barata - E quanto vc ganha para escrever suas peças.
Julia - Nada.
Pausa.
Barata - Ahhhhhhhhhh!!!!!! Um ser humano!!!! Uma escritora!!!!!!
Fim
"ESCORIAL DO MEDO" de Jô Bilac e Inimigos do Rei
Ela mantendo a paciência.
Estão na cozinha da casa.
Ele tentando convencê-la de uma história sombria.
Mulher: (se esforçando, muito séria, levemente irritada. Recapitulando.) Encontrou uma barata na cozinha?
Homem: (afoito, suando nas têmporas. Aponta para atrás do fogão) Eu olhei pra ela, ela olhou pra mim.
Mulher: ( irônica) ...Ofereceu a ela um pedaço de pudim?
Homem: (surpreso com a dedução dela)E o curioso foi que ela disse: "Sim". "Vem cá ficar comigo..."
Mulher: ( numa revolta aguda) Sim? Sim???????!!!!!
Homem: Gosta de tudo que eu gosto...
Mulher: ( incredulidade irada, repetindo para si mesma) Sim?!!! Vem cá ficar comigo...?!!!!!
Homem: Sim!
Mulher: (chama o namorado, quer saír dali imediatamente) Vem, kafka.
tempo.
Ele não vai.
Mulher: (ordena) Vem.
Ele inerte.
Mulher: Vem, kafka!
Ele parado.
Mulher: (implora) Vem...
Ele relembra num assombro. Olhar vidrado como se espiasse a própria morte.
Homem: (transtornado) Ofereci a ela um disco do Sex pistols,Ofereci a ela uma batida de limão. Perguntei se ela gostava de beatles. Perguntei se ela era de escorpião...
Mulher: Ela disse sim...?
Homem: (muda de assunto,estende os braços, quer um abraço) Vem cá ficar comigo.
Mulher: (enfrenta) Ela disse sim?
Homem: (implora abraço) Vem cá...
Mulher: (explode numa fúria contida) Você mora na Barata Ribeiro num edifício que tem um buraco perto do chuveiro. Já se drogou com detefon, insetizan, fumou baygon,Tudo quanto é tipo de veneno você acha bom!
Homem: (num desespero infantil) Sim! Como posso evitar essa coicidência?
Mulher: (numa gargalhada satânica, ao descontrole animal)Encontrar uma barata com a minha aparência?????
Homem: Sim!
Mulher: (enlouquecida, de quatro no chão da cozinha, procurando a barata) La cucaracha,La cucaracha...!
Homem: (adverte) Tome cuidado com a sandália de borracha.
Mulher: (ainda mais enlouquecida, quer matar a qualquer custo)La cucaracha! La cucaracha!!!
Ela encontra a barata.
Espanto.
Paralisam.
São idênticas.
Ela começa a entender a loucura do namorado.
Inevitável se apaixonar por aquela barata.
É igualzinha...
Ficou hipnotizada com a semelhança entre ela e a barata.
As duas se olham por um longo tempo, num mútuo reconhecimento.
Encanto.
É bom saber que existe alguém como você.
Pensando as mesmas coisas.
Sentindo as mesmas coisas.
Ficou imaginando se ela também teve raiva de sua juventude.
Ficou curiosa em perguntar por quantas vezes pensou em tirar sua própria vida.
Ficou com vontade de saber se ela chorava também antes de dormir.
Ficou com esperança dela gostar de dormir sem ter hora pra acordar.
Ficou ansiosa por descobrir seus segredos.
Ficou lamentando por não se conhecerem antes.
Ficou com medo de perdê-la te vista.
Ficou de convidar pra tomar um café.
Ficou muda.
Ficou ali parada.
Ficou tentando entender.
Até que inesperadamente...
Barata: (doce como um vampiro) Sim... Vem kafka comigo...
fim.
CAIXA DE BARATAS de Camilo Pellegrini
(Desventuras de Verônica, parte 4)
Joaninha usa um moleton muderno típico de neo-nerd-junkie-emo-clubber, mas que não atrapalha seu ar virginal, otimista e até um pouco ingênuo...
Joaninha está dirigindo um santana laranja... Verônica no banco do carona... uma musiquinha gostosa, um tecno meloso de despertar paixões recolhidas toca no radinho do carro...
V- É teu esse carro?
J- Peguei na garagem... Especialmente pra missão de hoje... Gostou da cor?... uma sorte esse tom de laranja... Acho que nem fabricam mais a tinta...
V- Mas... esse carro aqui... é limpeza?
J- Chefia me garantiu. Disse várias vezes, frisou mesmo, que era pra pegar esse... o laranja.
V- Se chefia mandou...
J- Você parece preocupada.
V- Não posso dar bobeira. Numa dessa perdi minha irmã.
J- Entendo... O Urso, né?... Ele te persegue...
V- Quem te contou?
J- Comentam.
V- (CHATEADA) Um assunto sigiloso desse, sabe?... Já caiu em boca de matilde.
J- É verdade que você cegou ele com choque elétrico?
VERÔNICA observa JOANINHA, ainda indecisa se confia nela ou não.
V- Digamos que ele tropeçou e foi de cara no fio desencapado.
J- Coitado... Desperdício...
V- Como assim, Joaninha?
J- Ele tinha os olhos tão serenos...
V- Você...? E o Urso...?
J- Dei uns pegas nele um tempo atrás.
V- Que isso, Joaninha! Será que é o mesmo Urso que a gente está falando?!
J- O mesmo. Um grandão. Peludo. Eu vi a foto dele no seu dossiê...
V- Bom... Achei que você jogasse no meu time.
J- Foi recaída, Verônica... Eu estava podre de bêbada... o Urso também era beeeem mais magro... foi há muitos anos atrás...
V- Muitos anos? Quantos você tem?
J- Mais do que parece. Sou uma moça madura.
V- Que bom pra você.
SOLAVANCO...
V- O que foi isso?
J- Isso o quê?!
V- Não ouviu?
NISSO APARECE NO OUTRO EXTREMO DO PALCO, O MOTOQUEIRO ESCARLATE FALANDO NO CELULAR.
M-Botei, querida. Botei sim. A caixa da barata está lá no banco de trás! Elas devem estar fora da casinha... agora!
VOLTAMOS PARA VERÔNICA e JOANINHA...
V- Está sentindo esse cheiro?
J- Cheiro de quê?
V- Barata. Sinto cheiro de barata.
J- Como é que é cheiro de barata?
V- Não é possível que você nunca tenha sentido?
J- Não sei. É o quê? Tipo cheiro de miojo?
V- Deixa de ser tola, Joaninha. É um cheiro ocre... como que podre, meio que estragado, e levemente doce no fundo. Doce e azedo... Tem barata aqui no carro. tem barata aqui. (GIRTA) AAAHHHH!!!!
VERÔNICA viu uma barata no chão do carro. ELA LEVANTA OS PÉS E TIRA O CINTO DE SEGURANÇA.
J- Verônica!!! O que você pensa que está..?
V- Tem barata aqui no carro! Acabei de ver uma!
J- Quer fazer o favor de botar o cinto?
V- Que nojo, meu Deus! Que nojo!
J- Você está de piada com a minha cara! Uma mulher como você, que enfrenta vinte terroristas armada apenas com um cortador de unha?
V- Com barata não posso, meu Deus. É demais pra mim!J- Estou impressionada. Nunca imaginei.
V- Faz alguma coisa! Pára o carro, Joaninha!
JOANINHA SE SURPREENDE.
J- Opa... Xi...
VOLTAMOS AO MOTOQUEIRO ESCARLATE.
M- Claro, anjo. Esganei os freios. Em santana, então, é tão fácil que chega a ser irritante. Elas estão no caixão ambulante, disparado pra uma viagem sem volta.
VOLTA PARA JOANINHA tentando frear inutilmente e VERÔNICA deseperada.
V- Como assim, fuderam os freios?! Quem "fuderam"?!
J- Eu que vou saber?! Sou eu, por acaso, que tentam matar a todo instante?
V- Mas você pegou o carro, garota! Você!
J- A chefia mandou ir nesse.
V- Droga! AAAAHHHH!!! Outra barata!!! Outra barata!!!
J- Onde?!
SONS DE FREIOS DERRAPANDO.
V- Olha pra frente, garota!!!
J- Foi mal. Distraí.
V- Está cheio de barata aqui, Joaninha!!! Elas correm pelo carro inteiro!!! olha ali outra!! E mais uma meu deus do céu!!! Elas vão tocar em mim!!!
J- Afasta com as mãos!!! Deixa de ser fresca!!!
V- Que nojo!!! Vou vomitar!!!
J- Abre a janela!!! não vomita aqui dentro não!!! E vê se bota o maldito cinto!!!
VERÔNICA tenta abrir a janela do carro sem sucesso. Tenta a porta também.
V- A porta está emperrada!!! A janela não abre!! É uma armadilha!!!
J- Pega a raquete elétrica no porta luvas!
V- O quê?!
VERÔNICA fuça o porta luvas e encontra a raquete elétrica.
V- É isso aqui?!
J- Isso! Mata as baratas com ela!
V- Quando você falou raquete elétrica, imaginei algo mais possante. Alguma nova invenção tua.
J- Comprei no sinal antes de te pegar. Se serve pra mosca e pernilongo, deve matar barata também.
VERÔNICA dá uma raquetada em uma das baratas. Som da barata explodindo chamuscada. VERÔNICA abana o fedor de seu nariz.
V- Elas fedem mais depois de mortas!
J- Deixa de ser maricas, tem um spray de rosas no porta luvas.
VERÔNICA acha o spray e continua sua luta contra as baratas enquanto JOANINHA dirige perigosamente sem conseguir desacelerar.
J- Ai! Tem uma barata no meu pescoço! Tira pra mim, Verôncia!
V- Eu não! Não tenho coragem!
J- Mas como é fresca, heim?!
JOANINHA se livra sozinha da barata. MOTOQUEIRO ESCARLATE APARECE EM SUA MOTO, CORRENDO AO LADO DO SANTANA LARANJA.
V- Quem é aquele cara?!
J- Ó céus! É o motoqueiro escarlate.
MOTOQUEIRO ESCARLATE gargalha e desencaixa um BUMERANGUE de sua motoca.
V- O que ele pensa que está fazendo?
J- Como é lindo... E que gargalhada com um timbre gostoso, não tem?
V- Olha pra frente, Joaninha!!!
SOM DE DERRAPAGEM.
J- Opa. Essa foi por pouco.
MOTOQUEIRO LANÇA SEU BUMERANGUE...
V- Ha! panaca!!! Errou!!!
J- Acertou os pneus, Verônica! Bota o cintooooooooooooooooo
AS DUAS BALANÇAM, O CARRO ESTÁ SACOLEJANDO SEM OS PNEUS DA FRENTE.
V- Vai bateeeeee/
SOM DE BATIDA VIOLENTA. ESTILHAÇOS DE VIDRO. VERÔNICA É CUSPIDA PARA FORA DO CARRO MAS, GRAÇAS A SUA HABILIDADE, CATA UNS CAVACOS, RALA O JOELHO, MAS NÃO SE MACHUCA GRAVEMENTE. VERÔNICA ainda segura a raquete elétrica e o spray de rosas. MOTOQUEIRO ESCARLATE OBSERVA AO LONGE RINDO. JOANINHA FICOU PRESA NAS FERRAGENS.
V- Joana!!! Joana!!!
JOANINHA FAZ O SINAL DE POSITIVO COM O INDICADOR.
J- Estou bem. Só fiquei presa nas ferragens. Está tudo bem.
M- As baratinhas eram só um aperitivo. Agora o prato principal.
MOTOQUEIRO ACIONA UM CONTROLE REMOTO QUE ABRE O PORTA-MALAS DO CARRO, DE ONDE SAI UMA BARATA GIGANTE QUE AVANÇA NA DIREÇÃO DE VERÔNICA. MOTOQUEIRO ESCARLATE GARGALHA E FOGE DALI. A BARATA GRUNE.
B- GROAAAAAAA!!!
V- E agora?!
J- Você tem que vencer o seu medo, Verônica! Só você pode me salvar!
V- Não posso... não posso...
J- Rápido! A gasolina está vazando pra todo lado!
VERÔNICA toma coragem, joga a lata de spray de rosas na BARATA GIGANTE e acerta na cabeça DELA. A BARATA fica um pouco tonta. VERÔNICA vai salvar JOANINHA.
V- Me ajuda, Joana! Faz alguma força!
J- Minha perna! não consigo sentir minha perna!
V- Tudo bem, peguei você.
VERÔNICA arrasta JOANINHA para longe, A BARATA está em cima dos destroços do carro, cheia de gasolina. VERÔNICA usa a raquete elétrica para INCENDIAR a BARATA GIGANTE NOS DESTROÇOS.
J- Muito bem, Verônica! Você conseguiu!
V- Que vida dura, meu Deus. Nem de barata a gente pode mais ter medo.
CONTINUA..............
