Personagens:
EU – Jovem de 28 anos, canhoto, levemente bem apessoado.
TOM BAXTER – Homem de 42 anos, extremamente bonito, sem amígdalas.
GIULIA – Mulher, 30 anos, pequena perda auditiva do lado esquerdo.
VOCÊ – Indefinido
“EU”, em frente ao computador digitando. “TOM BAXTER” ao seu lado.
TOM BAXTER: Como assim?
EU: Como assim o quê?
TOM BAXTER: Não. Eu não aceito.
EU: Mas eu não te ofereci nada.
TOM BAXTER: Você não pode fazer isso.
EU: Na verdade eu posso fazer o que eu quiser.
TOM BAXTER: Mas eu não quero que você faça.
EU: Eu já esperava isso de você.
TOM BAXTER: E?
EU: E justamente por isso eu vou fazer.
TOM BAXTER: Eu não quero que você me mate.
EU: Eu já te disse. Essa não é uma decisão sua.
TOM BAXTER: O que você quer que eu faça?
EU: Morra.
TOM BAXTER: Tirando isso.
EU: Nada.
(tempo)
TOM BAXTER: Você não pode me matar.
EU: É exatamente o contrário.
TOM BAXTER: Você não tem esse direito.
EU: Direto é que nem narina esquerda.
TOM BAXTER: ?
EU: Todo mundo tem.
TOM BAXTER: Às vezes você me envergonha.
EU: Eu?
TOM BAXTER: Narina esquerda?
EU: Não gostou?
TOM BAXTER: Muito pobre.
EU: Eu não acho.
TOM BAXTER: Paupérrimo.
EU: Que bom. Mais um ponto pra gente discordar.
TOM BAXTER: Por favor, não me mata. Eu to indo tão bem.
EU: E vai melhor ainda depois que morrer.
TOM BAXTER: Eu vou voltar?
EU: Não. Mas vai deixar lembrança.
TOM BAXTER: Não é justo.
EU: Me dá um indício de injustiça.
TOM BAXTER: Indício de injustiça?
EU: Isso.
TOM BAXTER: Eu faço as pessoas felizes.
EU: Que pessoas?
TOM BAXTER: Você pra começar.
EU: Vai me fazer mais feliz ainda depois de morto.
TOM BAXTER: Tá bom, tá bom. Se eu morrer, “Smoke get in your eyes” vai tocar menos.
EU: E daí?
TOM BAXTER: É injusto. As pessoas merecem ouvir. É uma música linda.
EU: Você realmente acha bonito uma música que fala de fumaça nos olhos dos outros?
TOM BAXTER: Não é assim.
EU: O que é que tem de lindo em olho ardendo? Desculpa mas você acabou de me dar mais um motivo pra te matar. Essa música é de extremo mal gosto. Além de ser pró-tabagismo.
TOM BAXTER: Pró-tabagismo?
EU: Ser fumante hoje em dia é uma ofensa tão grave quanto o racismo.
TOM BAXTER: Você fuma!
EU: Mas as pessoas não precisam saber disso. Assim como elas também não precisam saber que você é racista.
TOM BAXTER: Mas eu não sou racista!
“EU” digitando no computador
TOM BAXTER: Eu tenho nojo de orientais! Nojo!
EU: Não disse? Racista! Merece morrer.
EU digitando. Tom Baxter, desolado, depois de um tempo.
TOM BAXTER: Você pode pelo menos me dizer como você vai me matar?
EU: Surpresa.
TOM BAXTER: Por favor. É meu último pedido.
EU: Tá bem. (pausa) Assassinato.
TOM BAXTER: Eu vou ser assassinado?
EU: Vai.
TOM BAXTER: Por quem? Não vai me dizer que vai ser a...
TOM BAXTER: Giulia?
Giulia entra em cena. Os dois estão num aeroporto. Avião ao fundo. Anos 30. Romantismo, essa coisa toda.
GIULIA: Como assim, Tom?
TOM BAXTER: Como assim o quê?
GIULIA: Não. Eu não aceito.
TOM BAXTER: Mas eu não te ofereci nada, meu amor.
GIULIA: Você não pode fazer isso.
TOM BAXTER: Na verdade eu posso fazer o que eu quiser, Giulia.
GIULIA: Mas eu não quero que você faça.
TOM BAXTER: Eu já esperava isso de você.
GIULIA: E?
TOM BAXTER: E justamente por isso eu vou fazer.
GIULIA: Eu não quero que você me deixe.
TOM BAXTER: Eu já te disse. Essa não é uma decisão sua.
GIULIA: O que você quer que eu faça?
TOM BAXTER: Me deixe ir.
GIULIA: Tirando isso.
TOM BAXTER: Nada.
GIULIA: Você não pode me deixar.
TOM BAXTER: É exatamente o contrário.
GIULIA: Você não tem esse direito.
TOM BAXTER: Giulia, meu amor, direto é que nem narina esquerda.
GIULIA: O que, Tom?
TOM BAXTER: Deixa pra lá.
GIULIA: Eu te envergonho?
TOM BAXTER: Claro que não. Eu é que sou pobre de coração.
GIULIA: Pobre?
TOM BAXTER: Paupérrimo.
GIULIA: Por favor, não me deixe. Estamos indo tão bem.
TOM BAXTER: Você vai ficar melhor ainda depois que eu te deixar.
GIULIA: Você vai voltar?
Tom se aproxima de Giulia e dá um abraço veemente. Os dois estão com rostos colados. Conversam ao pé do ouvido.
TOM BAXTER: Não. Mas vou te deixar essa lembrança.
GIULIA: Vai me deixar essa o quê?
TOM BAXTER: Essa lembrança.
GIULIA: Essa o quê? Tom, fala mais alto que eu não estou te ouvindo.
TOM BAXTER: Deixa pra lá.
Tom beija Giulia com veemência. Depois do beijo,Giulia chora, Tom começa a ir embora. Giulia enxuga as lágrimas e muda de tom (com letra minúscula).
GIULIA: Você não pode ir embora, Tom.
TOM BAXTER: Nós já conversamos sobre isso.
GIULIA: É injustiça.
TOM BAXTER: Giulia, me dê um indício de injustiça?
GIULIA: Você faz as pessoas felizes.
TOM BAXTER: Que pessoas?
GIULIA: Eu pra começar.
TOM BAXTER: Meu amor.
GIULIA: E vai me fazer ainda mais feliz depois de morto.
TOM BAXTER: O quê?
Giulia saca um coquetel molotov da bolsa e atira em direção de Tom. Ele pega fogo e começa a soltar muita fumaça.
TOM BAXTER: Meus olhos! Meus olhos!
Entra “Smoke gets in your eyes”. Neste momento, Você entra em cena. Você está ao computador lendo. Eu, do outro lado, digitando. Ao centro, Tom pega fogo e Giulia observa. Você continua lendo. Você está fazendo parte de uma cena. Você agora é parte de uma cena. Você começa a pensar como é interessante fazer parte de uma cena. Você continua em frente ao computador lendo. Você continua lendo o que Eu escrevi, quer dizer,o que Eu escreveu. Você lê mais algumas palavras. Você agora começa a pensar no que vai fazer depois que terminar de ler o que Você está lendo.
(Pausa)
FIM.
JÉSSICA E SEVERINO de Renata Mizrahi
Aparece um pai com sua filha
Eles esperam um pouco e escutam a voz da mulher do guichê.
MULHER DO GUICHÊ - O próximo!
Eles vão até ela.
PAI - Oi, tudo bem? É que a minha filha tá muito doente, e eu gostaria que ela fosse atendida o mais rápido possível.
MULHER DO GUICHÊ - Claro, sem problemas. Preencha essa ficha que em alguns momentos vamos atendê-la.
PAI - É que ela tá muito mal. Eu tô achando que é dengue hemorrágica.
MULHER DO GUICHÊ - Fique tranqüilo, daremos toda a assistência necessária. Só vai ter que esperar um pouquinho.
PAI - Um pouquinho quanto? Meia horinha?
MULHER DO GUICHÊ - O tempo necessário que o nosso hospital comporta.
FILHA - Papai, tá tudo escuro.
PAI - Calma, minha filhinha, a moça disse que logo, logo você vai ser atendida. (para a mulher do guichê) Não pode ser agora?
MULHER DO GUICHÊ - Já preencheu a ficha?
PAI - É pra colocar o nome?
MULHER DO GUICHÊ - O senhor não sabe ler?
PAI (envergonhado) - Não deu pra aprender não.
MULHER DO GUICHÊ - Seu nome e o dela.
PAI - Ah! Severino da Cruz Onório e Jéssica da Cruz Onório.
MULHER DO GUICHÊ (escreve) – Ótimo, agora espera.
PAI - Mas...
MULHER DO GUICHÊ - O próximo.
(Ele se afasta e vai até a filha.)
PAI - Calma filhinha, papai tá aqui. Fica bem.
MULHER DO GUICHÊ - O senhor tá atrapalhando a passagem. Pode tirar sua filha daí?
PAI - Sim, senhora. (ele afasta a filha)
FILHA- Papai, não tô agüentando...
PAI - Agüenta sim, filhinha, eles já vão te atender.
MULHER DO GUICHÊ - O senhor ainda está atrapalhando.
PAI - Ah! Desculpe. (ele afasta mais a filha)
MULHER DO GUICHÊ - O senhor poderia ir mais pra perto da porta? É que como você pode ver, tá lotado.
PAI - Ah! Entendi.
(Ele leva a filha pra perto da porta)
FILHA- Papai, aqui tá frio.
PAI (para a mulher)- Olha, aqui não dá não. Tem corrente de ar.
MULHER DO GUICHÊ - Se o senhor quiser que ela seja atendida, vai ter que ficar aí.
PAI - Tá.
PAI - Filha, aguarda só um pouquinho que é pra você ficar boa.
FILHA - Tô com muito frio
(ele tira a camisa)
PAI - Toma a minha camisa, vai melhorar rapidinho.
(De repente eles escutam uma gravação de uma marchinha de campanha política)
Marchinha com várias vozes - Quanta alegria, paz, amor, sabedoria. É o governo Sergio Méier! Sergio Méier faz obra, Sergio Méier faz show, Sergio Méier é o melhor governo que o Estado pode ter! É Sergio Méier pra reeleição.
(Assim que acaba a música, a menina tosse e começa a sangrar pela boca. O pai fica desesperado e vai em direção à mulher do guichê, mas no exato momento aparece uma moça com roupa de campanha política, cheia de bótons e filipetas. A moça aborda ele com um sorriso forçado)
MOÇA - Oi, posso obter um minuto da sua atenção?
PAI - É que a minha filha...
MOÇA - Que menina bonitinha! Quantos anos?
PAI - Nove...
(A menina tosse mais)
MOÇA - O senhor conhece o trabalho do candidato para reeleição, Sergio Méier?
PAI - Desculpe, moça, mas eu tô precisando...
MOÇA - O senhor sabia que Sergio Méier foi responsável por empregar mais de cento e oitenta mil trabalhadores em projetos de obras para as ruas de Ipanema e Leblon?
PAI – Desculpe, é que...
MOÇA - E que batalhou pra aprovação pela melhoria do calçadão de Copacabana, nosso cartão postal brasileiro?
PAI - Bacana, mas...
(A filha tosse e sai mais sangue)
MOÇA - E que também divulgou o carnaval, a maior festa mundial, nos países orientais, fazendo com que nosso turismo crescesse em setenta por cento só nesse ano?
FILHA - Papai, ainda tô com frio.
MOÇA - Que menina bonitinha
PAI - Ela tá cuspindo sangue.
MOÇA - Que amor!
PAI - A moça pode emprestar o casaco?
MOÇA – O meu casaco da campanha?
PAI - É que a minha filha continua com frio...
(Antes de ele completar essa frase, ela já foi embora)
MULHER DO GUICHÊ – Seu Severino!
(Ele vai pro guichê todo animado)
PAI - Já tá na hora? Pra onde eu levo ela? Cadê o médico?
MULHER DO GUICHÊ - Ainda não está na hora. O senhor não pode ficar sem camisa nesse estabelecimento.
PAI - Oi?
MULHER DO GUICHÊ - Isso mesmo que o senhor ouviu. Não pode ficar sem camisa nesse estabelecimento.
PAI - Mas...
MULHER DO GUICHÊ - Me desculpe, se o senhor permanecer sem camisa, sua filha não poderá ser atendida.
PAI - Mas a minha filha...
MULHER DO GUICHÊ - Essas são as normas. Se o senhor quiser ficar sem camisa, vai ter que se retirar do estabelecimento.
PAI - Mas...
MULHER DO GUICHÊ - Eu já estou riscando o nome dela da lista de espera.
PAI - Não! Não! Eu coloco a camisa, eu coloco. Mas por favor, pede para não demorar.
MULHER DO GUICHÊ - Eu sou apenas uma funcionária , minha única responsabilidade é de preencher as fichas de atendimento
PAI - Filhinha, papai vai ter que colocar a camisa dele, tá?
FILHA - Eu tô com muito frio, papai.
PAI - Eu sei, mas é que pra você ser atendida e ficar boa logo, o papai vai ter que colocar a camisa dele. Agüenta só um pouquinho, tá?
FILHA - Só um pouquinho, papai?
PAI - Você não vai nem perceber.
(A filha tosse e sai mais sangue. Pai vai desesperado até o guichê)
PAI - Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, chama o médico, ela só uma criança, não agüenta, moça. Por favor, por Jesus, por Nossa Senhora, por favor...
MULHER DO GUICHÊ - Por gentileza, não toca em mim.
PAI - A senhora não tem compaixão?
MULHER DO GUICHÊ - Meu senhor, eu trabalho aqui há mais de trinta anos. Eu já nem sei mais o que significa essa palavra.
PAI - Deixa eu falar com o médico!
MULHER DO GUICHÊ - O médico tá ocupado com outro paciente, ele não vai nem te dar ouvidos.
(a filha tosse bem alto)
PAI - Vai sim, vai sim!
MULHER DO GUICHÊ - É o que todo mundo diz.
(a filha tosse mais alto)
PAI - Então, o que aquela Santa tá fazendo ali?
MULHER DO GUICHÊ - Santa? Ah! Eu já tinha esquecido que tinha Santa. Coitada, tá toda empoeirada.
PAI - Isso aqui tá parecendo o inferno.
MULHER DO GUICHÊ (rindo como um diabo) - Isso aqui é um hospital público. Próximo!
FILHA- Papai, eu quero ir pra casa.
PAI- Agüenta filha, agüenta filha, agüenta.
FILHA- Vamos pra casa, papai?
(O pai começa a rezar pra Santa, desesperado)
FILHA- Vamos pra casa.
(O pai continua rezando. De repente aparece o médico.)
Médico- Jéssica da Cruz Onório.
PAI - É minha filha, é minha filha! Valeu Santinha. Filhinha é a sua vez. Vai ficar boa! Vai ficar boa! Filhinha? Filhinha? Filhinha, responde pro papai! Filhinhaaaaaaaa!!!
FIM
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MARIA, SERIAL KILLER DE NAZARÉ! de Larissa Câmara
bendita sois vós entre as mulheres
e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus.”
Maria e José tomando café da manhã
– clima de comercial de margarina (a melhor da Galiléia!)
JOSÉ: Cancún?
MARIA: Oi. Perdão?
JOSÉ: O que você
acha de passarmos nossas férias de fim de ano em Cancún?
MARIA: Poderemos
economizar ficando na casa da minha irmã, Guadalupe.
JOSÉ: Melhor não.
Na verdade, não gosto do México.
MARIA: Podemos
ir para o Brasil visitar minha outra irmã.
JOSÉ: Nossa senhora!
Ela é muito Aparecida!
MARIA: O que você
quer?
JOSÉ: Quero fechar
um pacote com a agência de turismo. (Pausa) O que foi?
MARIA: Aconteceu
de novo.
JOSÉ: O quê?
MARIA: O que acontece
sempre. Ele apareceu...
JOSÉ: Ele quem?
MARIA: Ele!
JOSÉ: Gabriel?
MARIA: Tão loirinho!
JOSÉ: Episódio
clássico...
MARIA: Um anjo!
JOSÉ: ...da
anunciação.
MARIA: Príncipe
do céu!
JOSÉ: Com aquela
conversa mole que te agrada: Eu te saúdo, cheia de graça...
bendita és tu entre as mulheres.
MARIA: Ele disse:
Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome
de JESUS.
JOSÉ: Virgem Maria!
MARIA: E ele continuou:
O ESPÍRITO SANTO virá sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir
com a sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado FILHO
DE DEUS".
JOSÉ: Meu nome
é José. (Pausa) O que os vizinhos vão pensar?
Maria - O que
os vizinhos vão pensar? Você acha que eles não desconfiam de nada?
25 de dezembro recebemos três reis magos, ganhamos presentes. Não
tenho mais aonde guardar ouro, incenso e mirra.Vamos fechar a sua
carpintaria e abrir uma loja esotérica!
JOSÉ: Maria, descendente
do rei David, gerada por Joaquim e Ana, Maria de Nazaré, nascida em Nazaré, criada nas proximidades
do mar mediterrâneo, na Galiléia, norte da Palestina. (Muda tom)
Eu não quero esse filho.
MARIA: Eu sou
a serva do SENHOR; faça-se em mim segundo a tua palavra.
JOSÉ: Faremos
o de sempre.
MARIA: José carpinteiro
da casa de Davi, filho de Abraão, gerado por Jacó, viúvo de Débora, pai de quatro filhos: Matias, Simão, Eleazar
e Judas que não é o Iscariotes. (Muda tom) José, seu nome
é vaidade. A cruz que você faz é bonita, mas dá muito trabalho pregar
o menino.
JOSÉ: Mas, a cruz
fica linda!
MARIA: Todo ano
a mesma coisa.
JOSÉ: A vida é
feita de recomeços.
MARIA: (Sofrida)
Irei ao posto de saúde. Direi que perdi o bebê. Ninguém vai acreditar...
Todo ano temos um filho Jesus nascido em 25 de dezembro... (Irritada)
Já começo a ouvir os deboches nos corredores: Pílula anticoncepcional
de farinha de novo, Maria? Maria é teimosa, insiste no mesmo nome.
Que tal um livro de nomes para o bebê? (Pausa) Só de pensar
me cubro de angústia. Sufoco, escuto um grito: corações ao alto!
E...
JOSÉ: E
uma espada trespassará a tua própria alma a fim de que se descubram
os pensamentos de muitos corações?
MARIA: (Num
delírio sincero) Fecho os olhos e vejo um mar vermelho, vermelho
sangue que se divide
JOSÉ: (Quebra
em outro tom) Como esconderemos o cadáver?
MARIA: (Saindo
do delírio em outro tom) E se ele ressuscitar no terceiro dia?
JOSÉ: Faremos
o de sempre.
MARIA: (Animada)
Sim, compraremos chocolate!
(Os dois se abraçam)
José (Sussurra
gentil) – Estando para ser entregue e abraçando livremente a
paixão, ele tomou o pão partiu e deu graças... (Entrega fatia
de pão para Maria)
MARIA: (Romântica
recebendo a fatia de pão) A minha alma engrandece o Senhor.
(Pausa. Sedução libidinosa.) Vinde, Espírito Santo, e enchei
os corações dos vossos fiéis, e acendei neles o fogo do vosso amor.
Enviai, Senhor o vosso Espírito, e tudo será Criado, e renovareis
a face da terra.
FIM
O ASSASSINATO SUICIDA de Julia Spadaccini
Analista – Mulher de 35 anos.
Laura deitada num divã.
Laura – Eu vim aqui porque estou no limite.
Analista – Sim.
Laura – No limite do limite.
Analista – Sim.
Laura – No limite da beira do abismo.
Analista – Sim.
Laura– Sim, o quê?
Analista – Sim.
Laura– Não acredito que vir aqui irá mudar alguma coisa, mas preciso de ajuda e achei melhor um psicanalista do que um delegado.
Analista – Sei.
Laura – Apesar de confiar mais num delegado do que num psicanalista.
Analista – Sei.
Laura – Sabe o quê?
Analista – Sei.
Laura – Ia me denunciar, me entregar para a polícia, mas acho que ela merece uma chance antes que eu cometa o assassinato.
Analista – Ela quem?
Laura – A vítima.
Analista – Você vai matar alguém?
Laura – Vou.
Analista – Quem?
Laura – Uma pessoa.
Analista – Que pessoa?
Laura – A pessoa mais cruel que já conheci.
Analista – Quem é essa pessoa?
Laura– A que mora dentro de mim.
Analista – Como?
Laura – Vou matar a pessoa que mora dentro de mim há 10 anos e já está fazendo casa com vista para o mar.
Analista – E quem é a pessoa que mora dentro de você?
Laura – Eu não sei, mas está cada dia mais presente. Ontem recebi a fatura do cartão de crédito e vi que ela havia gasto 350 reais numa pochete de couro. Eu nunca usei pochete. Acho pochete a coisa mais triste que existe. Toda vez que vejo alguém de pochete fico com um nó na garganta.
Analista – O seu pai usava pochete?
Laura olha para os lados, paranóica.
Laura – Ela esteve aqui?
Analista – Como?
Laura – Como você sabe sobre a pochete do meu pai?
Analista – Eu não sei.
Laura – Não acredito que ela veio aqui antes de mim. O que ela te disse? Não acredite, hein? Ela é capaz de qualquer coisa para se livrar de mim, é perigosa. Outro dia meu porteiro me viu beijando de língua o homem do 603 no elevador, pelo circuito do prédio. Imagine só! Foi ela! É claro! Eu jamais faria isso! O vizinho do 603 é o homem mais nojento do bairro. Barrigudo. Usa camisa Pólo, tenho repulsa a camisa Pólo. Quando vejo aquele jóquei em cima do cavalinho tenho ânsia.
Analista – Seu pai se vestia com camisas Pólo?
Olha para os lados.
Laura – Ela esteve aqui. Tenho certeza. Ela está te pagando tão bem quanto eu? Vai dar ouvidos aquela depravada. Eu mato. Juro que mato!
Analista – Laura, não tem ninguém morando dentro de você.
Laura – Tem sim! Está morando em mim desde o meu aniversário de 27 anos. Eu era linda, tinha um futuro brilhante, mas essa pessoa se alojou em mim e desde então as coisas não acontecem como deveriam, entende? Não há outra explicação, ela está em mim, todos os dias. Eu pensava no meu destino e ficava orgulhosa. Tapete vermelho, um marido lindo, filhos. E até agora nada. Nada. Nem um namoradinho. Ela espanta. É chata, um tédio. Deu para beber, acordo de ressaca todos os dias. Tem mania de parar na confeitaria da esquina e se empanturrar de bombas de chocolate. Estou vestindo calça número 48 por causa dela.
Analista – Laura, essa pessoa é você mesma.
Laura – Você está do lado dela?
Analista – Estou do seu lado.
Laura – Está do lado dela. Estão armando contra mim, é isso? Querem me convencer de que sou maluca e assim ela ganha espaço e acaba me tomando por inteira. Estou sentindo que tenho pouco tempo, muito pouco. Depois dos 35 anos piorou. Tenho fios de cabelos brancos espalhados pela cabeça. Eu olho no espelho e não me enxergo mais. Tudo que consigo ver é a feição dessa mulher, cheia de rugas e entradas. Imagine que meus seios que antes olhavam para o céu, alegres, agora vivem deprimidos. Não posso mais, quero voltar a ser inteira. Vou matá-la amanhã, quando acordar e ela ainda estiver dormindo. Estrangulo e pronto. Volto para mim! Volto para mim!
Analista – Vou te passar um calmante.
Laura – Está vendo! Foi ela que pediu, não foi? Você é amiga dela? Não é possível que a tenha preferido. É uma fresca! Não gosta mais de sair a noite. Usa sunquíni, imagina isso? Ninguém mais usa sunquíni! E você acha que ela tem razão? Por que não receita um remedinho para ela?
Analista – Laura, sua hora acabou.
Laura – Tá vendo... tô dizendo que minha hora chegou.
Analista – Estou falando da análise. Acabou.
Laura - Como acabou? Você vai me deixar ir embora assim? E se ela tentar me estrangular no meio da noite? E se acabar comigo de vez? Para onde eu vou?
Analista – Pensei que fosse você que queria matá-la.
Laura – Você está querendo me confundir? Quer me enlouquecer também? Ela te pagou para isso? Aquela senhora? Te pagou?
Analista se aproxima.
Laura – Não toca em mim! Não coloca a mão!
Analista - Calma Laura.
Laura – Calma? Estou te dizendo que tenho um hospedeiro dentro de mim e você pede calma? Estou dizendo que tem uma senhora gorda invadindo o meu ser e você pede calma? Estou dizendo! É a pura verdade! Pergunte para os meus amigos, para a família. Pergunta para o meu porteiro. Não sou eu! Eu estou indo embora e essa senhora vai tomar o meu lugar para sempre! É melhor avisar a população de que essas pessoas estão invadindo a gente. Quando você vê, pronto, foi embora sem conseguir se despedir. Desaparece e ninguém se lembra de como você era.
Analista olha para um lado e para o outro.
Analista – Tem certeza?
Laura – Do que?
Analista – Dessas pessoas.
Laura - Absoluta.
Analista - Podem entrar em qualquer um.
Laura - Em todos. Por que?
Analista – Porque eu sinto que tem um homem morando dentro mim desde o ano passado.
Analista tenta agarrar Laura que sai correndo desesperada.
FIM.
MATADOR DE SANTAS de Jô Bilac
Homem, na média dos quarenta e tantos.
(depoimento policial. Uma sala escura, com um foco vindo de uma luminária digna dos filmes dos anos 40. Uma mesa, uma mulher apoiada nela. A mulher tem um aspecto ordinário e os cabelos tingidos, combinando com o tom de suas unhas. Do outro lado está o investigador, com um ar sexy decadente, cenho fechado)
Mulher: (séria, tensa) Então, é como estou dizendo pro senhor: o camarada arranhou meu carro inteiro só porque eu reclamei dele com o síndico! (conclusiva) Ele é doente. Do-en-te! (recalcada) Então eu não posso ficar incomodada e reclamar? Eu tenho que agüentar calada a zona que ele faz na alta madrugada! (confidencia) Porque é zona, né? Desculpa o palavreado, mas é isso que é. É um entra e sai daquela casa, que eu nem sei! (mais confidencial) Às vezes eu acho que ele tem até envolvimento com tóxico. (cínica) Eu não estou afirmando nada!Longe de mim! Não gosto de fofocas, nem tenho nada haver com a vida dos outros. Não quero meu nome em boca de Matilde! Mas eu tenho certeza que foi esse sujeitinho que arranhou meu carro!Sacanagem, né? A gente da um duro danado e vem alguém e faz isso? Mas eu não sou jogral! (tempo) Não sou! Não sou mesmo! Está muito enganado. (desafiadora) Um dia, acordo com ovo virado, me encho de coragem_ dessas de mãe que tira filho da boca de jacaré_ e parto pra ignorância. Mas aí... (dissimulada) Aí eu vou estar errada, né? Vou perder minha razão. Vão falar que eu surtei e não fui civilizada! Civilizada... Eu sou muito civilizada, civilizada até demais da conta! Mas o negócio nesse país é isso mesmo, o certo é o errado e o errado é o certo e eu que me foda. (muda o tom) Ai, desculpa! Perdão! Ai, o que o senhor vai achar de mim... ? Mas é que estou muito nervosa! Olha o meu estado (indica a mão trêmula) Meu carro! Todo arranhado! Não dá! (num choro, revolta) Dei um duro danado. Consórcio. Demorou pra chuchu! Aí vem um camarada e faz isso? E tem mais: hoje é o carro, amanhã é o que? Porque esse tipo de gente não tem limite! Vai que ele, sei lá, joga ácido na minha cara? Como é que eu fico? Deformada, né! E paciência!
Investigador: Mas que ligação que tudo isso tem com o matador de santas?
Mulher: (digna) Nenhuma.
Investigador: (natural) Então?
Mulher: Então.
Investigador: O que a senhora veio fazer aqui.
Mulher: dar queixa do meu vizinho, que suspeito ter arranhado meu carro.
Investigador: Escuta.
Mulher: Estou escutando.
Investigador: Volta quarta feira.
Mulher: Quarta não da, estou mais enrolada que carretel.
Investigador: A senhora preenche a ficha lá fora e está registrada a queixa. Certo?
Mulher: Certo certo, não, né? Eu quero proteção, esse cara é louco.
Investigador: A senhora tem nome de santa?
Mulher: Não que eu saiba.
Investigador: Então não corre risco. Ao que tudo indica o matador de santas só mata mulheres com nomes de santa, se você não tem, não precisa de escolta.
Mulher: Pouco me importa o matador de santas. Estou me lixando! Me refiro ao meu vizinho mau caráter, ele sim é mais perigoso que qualquer psicopata americano. Preciso de proteção!
Investigador: Tá pensando que é assim? Chegar, pedir e receber? Isso aqui não é a caixa econômica! E demais a mais, se quiser proteção procure no centro de macumba!!!
Mulher: O senhor não levante a voz comigo, pois até agora não dei um ai.
Investigador: (impaciente) Olha.
Mulher: (abusada) Estou olhando.
Investigador: Não é esse o enredo do samba, minha senhora! Existe um maníaco perigoso a solta, estrangulando jovens com nome de santas. Um louco! Um rosto obscuro e silencioso, um gato entre os pombos, uma mente fria e sádica, que nesse exato momento fareja sua próxima vitima. E se nós não fizermos nada, ou nos ocuparmos com rixas bélicas entre vizinhos, mais uma jovem chamada Bárbara ou Lúcia ou Madalena, será encontrada morta numa esquina, estrangulada por sua própria meia calça!
Mulher: (ruminando, ofendida) Respeito é bom e eu gosto!
Investigador: Ninguém aqui está desrespeitando a senhora.
Mulher: Está me desrespeitando sim! Na condição de cidadã me sinto profundamente desrespeitada! Eu não sou santa, mas mereço atenção no meu caso. Gente maluca tem à balde. (numerando nas unhas descascadas) Hoje é um doido que mata mulheres bíblicas, amanhã é um outro que mata as que fumam hollywood filtro amarelo, depois :as que gargalham jogando a cabeça pra trás, depois: as que comem com a boca aberta, as que nunca tiveram um gato, as que possuem uma jaqueta de veludo, e por aí vai. Haverá sempre uma lógica e sempre alguém padecendo por ela. Mas que remédio? Tem quem mata e tem quem morre e é isso: pronto, acabou. Mas o meu caso é muito claro e simples, não há mistérios e muito menos uma voz rouca ao telefone: está tudo muiiiito evidente.
Investigador: Mas fala.
Mulher: Estou falando!
Investigador: Acredita mesmo que possa acontecer uma retaliação do seu vizinho? Uma agressão física, Vingança?
Mulher: Capaz. Ele é descendente de turco. Essa gente é muito vingativa.
Investigador: Mas se a senhora não tem provas, sinto muito! Não posso fazer nada!
Mulher: Então será preciso eu voltar aqui, toda esculhambada pro senhor me dar ouvidos, é assim?
Investigador: Se é isso que a senhora entende por prova...
Mulher: Olha o meu estado! Creio que isso já é prova suficiente! Será que o senhor não consegue entender? Eu Morro de medo! Aquele homem vem me seguindo pela rua, por onde quer que eu vá! Noutro dia mesmo, peguei o camarada me observando pelo olho mágico.
Investigador: Como assim?
Mulher:Ele mora de frente pro elevador. Enquanto espero, eu sei que ele me observa. Me analisa. Está estudando meus passos. Sabe exatamente a hora que saio e a hora que chego. Eu sou sensitiva. Esse camarada não vale um torrone. Sabe que eu fiz a reclamação pro síndico e sabe que eu sei que foi ele que arranhou meu carro. Estou ou não estou em risco?
Investigador: (levantando, indicando a porta) Sinto muito, mas creio que o nosso tempo já ultrapassou os limites. Tenho que trabalhar.
(silêncio)
(Mulher sentada, fitando o nada, desapontada)
Investigador: Senhora.
Mulher: (num fiapo de voz) Eu já vou. Me dá um minuto.
Investigador: Sinto muito, mas infelizmente, a senhora precisa ir embora.
Mulher: Eu não sou esse monstro egoísta que o senhor imagina.
Investigador: Eu não imagino isso.
Mulher: Imagina sim, que eu sei. Mas eu não sou. (emocionada, transportada) Me importo com essas meninas estranguladas. De verdade. A maldição de ter um nome santo. Ter na garganta a finitude do desejo alheio de matar. Mas acredito que quem o faça, o faz por uma homenagem divina, quase infantil. Tem pureza. É organizado. Deve ser lindo esse homem matando essas meninas. Lindo, ouviu?! Ele deve ter tanto respeito ao matar, mas tanto, que deve até pedir “por favor”! Sim! Esse homem pede ”por favor” quando vai matar! Quisera eu ter uma morte alinhada como essa, com alguém te pedindo “por favor”! E não algo vergonhoso, como o meu vizinho esfolando a minha cabeça no chapisco! Eu não quero ter a minha cabeça esfolada no chapisco!
Investigador: A polícia está muito ocupada em resolver crimes, se cada um que chegar aqui e pedir proteção por conta de algum desentendimento com alguém, haja índio nessa tribo.
Mulher: O senhor procura por um criminoso, sim? Pois então: prenda esse homem!
Investigador: A senhora precisa de provas pra acusar alguém, sem isso, repito: não posso fazer nada...
Mulher: Pois esse homem matou o meu juízo. (exaltada como um gorila) Não pode ser preso por isso? Existe crime maior que esse?
Investigador: (irritando-se) A senhora se segure, pois não está em sua casa!
Mulher: (num descontrole novelesco) Exijo uma sentença! Este homem não pode estar a solta! Este homem é um criminoso! Exijo uma sentença!!!!
Investigador: Ou bem a senhora se ordene ou serei obrigado a tomar medidas drásticas!
Mulher: (berrando, jogando a mesa no chão, espumando) Justiça! Eu quero justiça!!! Eu não saio daqui sem proteção!!! Eu não saio!!! Aquele homem é um criminoso!!! Aquele homem assassinou a minha sanidade! Aquele homem assassinou a minha sanidade! A minha sanidade! Assassino! Assassino!!!!!! Assassino!!!!!!!!!!!!!!!!!
(presa por desacato a autoridade.)
Fim.
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CONGRATULATIONS SORRY de Felipe Barenco
Toca o telefone.
- Alô...
- (sempre simpática, feliz e sorridente) Alô! Com quem eu falo?
- Quem deseja?
- (como quem está lendo o nome) A senhora Maria Aparecida do Nascimento. Está?
- É ela.
- Dona Maria Aparecida, bom dia! A senhora é uma mulher de sorte. Estamos ligando pra lhe dar uma excelente notícia!
- (entusiasmada) Jura? É da Nestlé?
- A senhorita Inês do Nascimento respondeu nosso cadastro na semana passada...
- Inês é a minha irmã!
- ...e ela indicou seu nome! Maria Aparecida do Nascimento, a senhora acabou de ser sorteada com um prêmio fantástico.
- Ai, gente! Não tô acreditando!
- Você acaba de ser contemplada com...
- Ahn?
- Com...
- Ahn?!
- Com dez...
- Ahn?!!! Dez mil...
- Com 10% de desconto na mensalidade e todo material grátis caso a senhora esteja se matriculando agora no nosso curso de inglês Congratulations Sorry. Não é incrível?
- (um poço de decepção) Aham.
- E especialmente hoje, estamos com uma promoção im-per-dí-vel! Se a senhora estiver se cadastrando no modo Easy-English-Now a senhora estará ganhando, totalmente grátis, os 6 primeiros meses para o seu filho, o curso preparatório Fantasy-Baby-English-Now.
- Não tenho filhos... (quase desligando) Não vou querer, não.
- Mas Dona Maria Aparecida...
- Não, obrigada.
- Ok, ok, Maria Aparecida! Neste exato momento seu desconto acaba de aumentar! Nossa gerência entende que você...
- Não quero.
- ...é cliente preferencial
- Eu já disse que não quero.
- ...e por isso, só hoje, atenção, SÓ HOJE, estaremos lhe oferecendo um super desconto de 20, eu falei 20%, no modo Easy...
- NÃO!
Ela desliga o telefone.
ROUNDS
Primeiro dia, primeiro round. As cenas acontecem na calçada entre um prédio e um curso de inglês.
Moça do cadastro - Posso falar com você um minuto?
Passante - Tô com pressa.
Segundo dia, segundo round.
Moça do cadastro - Posso fazer uma pergunta?
Passante - (grossa) Acabou de fazer.
Moça do cadastro - Quer responder o cadastro?
Passante - Não!
Terceiro dia, terceiro round.
Moça do cadastro - Posso falar com você um minuto?
Passante - Desculpa, tô com pressa.
Moça do cadastro - (perseguindo) É rapidinho!
Passante - (rendida) É muito rápido mesmo?
Moça do cadastro (robótica, feliz e sorridente) - Nós estamos sorteando bolsas de estudo para o curso de inglês Congratulations Sorry.
Passante - Estou com um pouquinho de pressa.
Moça do cadastro - É super rápido.
Passante - Ok...
Moça do cadastro - Seu nome?
Passante - Maria Aparecida do Nascimento.
Moça do cadastro - Telefone?
Passante - Na verdade eu já fiz curso de inglês, tô respondendo só pra ajudar...
Moça do cadastro - Quer indicar alguém?
Passante - (vingativa) A Inês. Minha irmã.
Moça do cadastro - (puxando-a pelo braço) Ok. Agora um de nossos funcionários irá atendê-la...
Passante - Não... eu tô atrasada!!!
(A passante é arrastada para dentro como quem vai para a cadeira elétrica.)
Quarto dia, quarto round.
Moça do cadastro - Posso falar com você um minuto?
Passante (ríspida) - Já respondi esse cadastro ONTEM!
Moça do cadastro (segura a passante pelo braço) - Mas...
Passante - “Mas” o quê minha filha? Quer soltar meu braço? Vou gritar, hein! Eu tô ficando louca, você não me conhece! Por que você não some daqui e desaparece com essa porra de cadastro? Que todo dia de manhã eu tenho que esbarrar com você. Não consigo mais dormir, eu deito pensando nessa merda e acordo de mal humor. Sai daqui! SAI DA MINHA VIDA!
(Trilha melodramática ao fundo)
Moça do cadastro - Desculpa... mas a senhora pode imaginar o que é ficar o dia inteiro em pé nessa calçada, morrendo de calor, tendo que correr atrás das pessoas pra responder apenas 3 perguntinhas? As pessoas me tratam feito um poste pra cachorro mijar... ninguém se percebe.
Passante - Eu não tenho nada com a sua vida.
Moça do cadastro - Eu fiz Faculdade, moça... isso aqui não é vida, não! Tenho que acordar 5h30 todo dia, pegar um trêm e um ônibus todo dia, ser simpática todo dia...
Passante - Não chora, não fica assim também. Eu fui um pouco grossa, me desculpa.
Moça do cadastro - A senhora sabia que eu tenho uma meta de 300 cadastros por dia... 300! E a senhora sabe quantos cadastros eu já fiz hoje? (chorando) UM!
Passante (sensibilizada) - Calma, calma... você quer um copo dágua?
Moça do cadastro - Não... ai, como eu sou infeliz!
Passante - Eu posso te ajudar de alguma forma?
Moça do cadastro -Responde o meu cadastro?
Passante (sai correndo horrorizada) - Aaaaaaaaaaaaaaaah!
Quinto dia, quinto round. A moça do cadastro está disfarçada de mendiga. Ao sair de casa, tranquila, a passante é abordada com um susto violento.
Moça do cadastro - Quer responder o cadastro?
Passante - Filha da puta, quer morrer! Escrota! Eu sou cardíaca!
Sexto Round. Toca o telefone.
- Alô...
- Alô! Com quem eu falo?
- (respira fundo) É do curso de inglês?
- Como adivinhou?
A passante larga o telefone e sai à rua hipnotizada, com um olhar fixo, como quem está cega e vai cumprir uma missão.
Moça do cadastro - Quer responder o cadastro?
(Silêncio)
Moça do cadastro - Nome?
(Silêncio)
Moça do cadastro -Telefone?
(Silêncio)
Moça do cadastro - Quer indicar alguém?
A passante mata a moça do cadastro com a própria prancheta.
FIM
