MEU PRIMEIRO ANÃO de Rodrigo Nogueira

Uma mulher falando para alguém, como se fosse um analista.

Mulher: Ai, que bom que a gente conseguiu se ver. Eu tava precisando, viu. Tava muito. Eu to que não me agüento. Batalhão. Batalhão não. Manada que é pior. Ah, meu amor. Se eu te contar você não acredita. Mais que pobre na chuva. Pior a emenda que o soneto. Da missa a metade é pinto e no dos outros é refresco. Essa semana. Essa semana. Essa semana foi, viu? Foi total. Aconteceu tudo que você possa imaginar. Se eu te contar você não acredita. Mais que pobre na chuva. Pior a emenda que o soneto. Da missa a metade é pinto e no dos outros é refresco. Essa semana. Essa semana... Essa semana... Foi! Do que essa? Oitenta. Total. Oitenta total. Isso. Nove de copas com às de espadas, meu amor. Aliás, de espadas não. De paus! Ás de paus! (pausa) Oi? Anágua. Sempre. A vida. Sempre é. Mas essa semana... essa semana.... essa semana... Não foi! Começou na segunda, né? Porque é impressionante. Nunca vi. Semana... Sempre começa na segunda. Daí começou. Na segunda. Não consegui. Fui lá e não consegui. Eu não consigo. Eu não consigo. Eu não consigo cortar relações com a minha depiladora. Olha, tá um problema. Eu não sei o que acontece. Eu tento. Toda vez eu que eu vou lá eu tento, mas não consigo. O pior que a cera dela nem é tão boa, sabe? Me deixa com umas bolotas debaixo do braço. Buço vermelho que nem pitanga. Uma dooor. Mas a questão da depiladora é a seguinte: depiladora é depiladora. Isso. Exatamente. A confiança. Não é pra todo mundo que a gente abre a perna e manda arrancar. Tem que ter intimidade. E com ela eu já to acostumada. Ela tem um papo ótimo. É carinhosa. Até dá uns beijinhos quando eu grito muito. Beijinho. Tipo. AAAAAai! (gesto do beijo) Dá um beijinho. Rapidinho assim. Uma fofa ela. Pois é. Do bem, tadinha. Confio nela. O problema são as bolotas. Ânus? Ah, não querida, não faço. Já é complicado do jeito que é, agora abrir a bunda na Voluntários da Pátria pra depilar o rabo, fora de questão. Britadeira, buzina, obra comendo solta e eu com o rabo aberto? Na vida? Nem que me paguem. Não sou louca. Não sou desequilibrada. Faço axila, buço, meia perna, virilha e olhe lá. Oi? É. Na voluntários. Pelo menos. Isso. Mas, olha, tá um problema. Oi? Não entendi. Ah! O problema da embreagem. Continua. Não consigo resolver esse problema da embreagem. E nem vem com aquela história que não existe, porque existe. Eu tenho. Eu tenho. Eu tenho fobia de embreagem! Fobia de embreagem. Como é que não? Então porque é que sempre que eu aperto o diabo da embreagem a minha pálpebra direita palpita? Uma tremedeira. Quase não enxergo. Quase cega. Quase cega. O quê? New Wave. Isso, mas o cabelo ficava duro. Enfim. Eu continuo achando. Eu tenho fobia de embreagem. Eu te juro. É apertar o pedal que a pálpebra palpita. Eu aperto o pedal, ela palpita. Eu aperto, ela palpita. Eu aperto, ela palpita. Ela palpita. Ela palpita. Palpita, palpita, palpita. To te falando, minha filha. Palpita! E como palpita. Pal-pi-ta. Demais. Palpita demais. Palpita! Palpapita. Uma loucura. (Para si)Ai, às vezes eu tenho uma vontade de arrancar meu útero fora... Fobia de embragem. Olha, tá um problema. Vou te contar. Mais que pobre na chuva. Pior a emenda que o soneto. Da missa a metade é pinto e no dos outros é refresco. Essa semana. Essa semana foi, viu? Foi. De resto? Não, tudo bem. Tudo tranqüilo. Em casa. É. Tranqüilo. Tábata. Isso. Tá ótima. Cinco. Isso. Tá com cinco, ela. Tá bem, sim. Tá bem. Só teve um machucadinho na quinta. Nada, ela se machucou com um brinquedinho. Brinquedinho novo dela. É. Dilacerou o pequeno lábio esquerdo tentando enfiar um boneco do Dengoso na vagina. Dengoso, da branca de neve. Um dos anões... Ah. Não. Então. Eu te disse. Ela teve um corte no pequeno lábio esquerdo, nada demais. Levei ela numa clínica lá da barra. Até virgindade, menina, você acredita? Reconstituem. Oi? A Tábata? Tá com cinco. Rabo de galo. Mas tá bem. Enfiou o bonequinho lá e sangrou, coisa de criança, né? Não. Não. Não. Não enfiou só a cabecinha não. Por isso dilacerou. Justamente. O pequeno lábio esquerdo. A Tábata? Tá. Tá ali fora. Oi? Pra quê? Ela tá bem. Olha, posso chamar, mas não vejo necessidade, não, gente. Dois de ouros com cinco de espadas. Tudo bem. Moeda de um real. Peraí um minutinho, então.

Ela sai e vai conversar com a filha fora de cena.

Mulher: Filha. Filha. Filha, cadê você? Filha.

Tábata: To aqui mamãe.

Mulher: Onde menina?

Tábata: Aqui.

Mulher: Ai, desculpa, filha, não te vi. Minha vista nunca mais foi a mesma depois do show do Negritude. Meu amor, tem uma amiga da mamãe que quer conversar com você.

Tábata: Eu quero fazer cocô.

Mulher: Depois, Tábata, depois. Valete de ouros.

Tábata: Mas mamãe eu quero ir no banheiro.

Mulher: Ao, banheiro, Tábata. É ir AO banheiro. Analfabeta.

Tábata: O que é analfabeta, mamãe?

Mulher: Você.

Tábata: Por quê que eu sou analfabeta mamãe?

Mulher: Por que você não sabe ler nem escrever.

Tábata: Mas, mamãe, eu só tenho cinco anos.

Mulher: A culpa não é minha, Tábata. Você continua sendo analfabeta. Agora anda que a amiga da mamãe tá te esperando.

Tábata: O que ela quer falar? Ela quer falar do Dengoso e da minha pepeca, não é?

Mulher: É Tábata. Ela vai falar do Dengoso. E da sua pepeca.

Tábata: Mas mamãe. Eu já disse pra...

Mulher: Tábata, não me irrita.

Tábata: Mas é que...

Mulher: Tábata.

Tábata: Mas mamã...

Mulher: Oito de paus!

(pausa)

Tábata chorando: O Dengoso é meu amigo, mamãe. O Dengoso não me fez mal, não fez. Ele é bonzinho.

Mulher: Filha. Eu sei que você gosta do Dengoso. Eu também gosto dele. E aposto que a amiga da mamãe também vai gostar.

Tábata: Ela gosta dele, mamãe?

Mulher: Gosta.

Tábata: Ela não vai querer tirar ele de mim que nem aqueles homens lá da casa branca?

Mulher: Não meu amor, eu prometo. Agora entra lá pra falar com ela, vai.

Entra Tábata com um boneco do Dengoso. Ela fica um tempo muda.

Tábata: (ela canta) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. (longa pausa) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. (longa pausa)Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. (longa pausa)

Oi moça. É. Sou eu, sim. Tábata. Meu nome é Tábata e esse aqui é o Dengoso. É. Dengoso. Quê? Tá. Tá. Ele tá com uma mancha vermelha na cara sim. O que que é isso? Vergonha, ué? Ele não é o dengoso? Tá vermelho de vergonha... Ai, que pergunta. O quê? Não. Não. Não, eu não largo do dengoso. Nunca. Nunca mesmo. A gente tá sempre junto. O que é que a gente faz? Ah, a gente brinca de chazinho, a gente canta, a gente trepa. É. Na árvore lá debaixo do prédio. Adoro trepar na árvore com o Dengoso. A gente sempre faz papai e mamãe lá em cima. É. Papai e mamãe. O dengoso é o papai, eu sou a mamãe e nossos filhos são as formiguinhas. (Risada) Que mais? De vez em quando a gente gosta de fazer de quatro. Eu adoro. Mas aí a Rejane tem que descer com o Dunga. Rejane é minha vizinha. Ela tem o Dunga. Mas eu tenho o Dengoso. O meu anão é o Dengoso. Daí quando a Rejane desce com o Dunga a gente brinca de quatro. Eu amo o meu Dengoso. A gente trepa, faz papai e mamãe, faz de quatro, brinca de chazinho, canta,... Mas o que eu mais gosto de fazer mesmo e enfiar o Dengoso na minha boceta. O quê? Boceta. Você não sabe o que é boceta? Boceta, ora. Boceta, vagina, xota, xoxota, racha, xibil, periquita, perseguida, xereca, aranha, bacalhau, banguela, cabeluda, cabaça, cachuleta, capô de fusca, chana, chavasca, chimbica, xoroca, desejada, dita-cuja, lixa-pica, mede-rola, passarinha, racha, sirica, tchonga, tchuchuca, tomba-macho, valiosa, xampola, xuranha e perereca. É. Eu gosto de enfiar o dengoso na minha boceta. Mas tem que ser o Dengoso. O Dengoso é o meu anão preferido.

Dos outros eu não gosto. Eu até brinco com a Rejane e com o Dunga. Mas eu não gosto do Dunga. Não gosto do Dunga. Não gosto do Dunga porque ele é retardado. Que que tem? Que que tem que ele é feio. Ué. Mas qual é o problema, Tia? Todo mundo fica tentando ficar bonito o tempo todo. A mamãe sempre tenta ficar parecida com aquelas moças da revista. Não é bom ser feio. E ele é retardado e feio. Então eu não gosto dele. Que nem o mestre que é gordo e velho. Não gosto de velho. Ué. Mas qual é o problema, Tia? Todo mundo fica tentando ficar novinho e magrinho o tempo todo. A mamãe até já foi no médico pra ficar com cara de nova e sem barriga. Velho não e bom, Tia. Nem gordo. Nem retardado, nem gordo, nem velho e nem feio. É por isso que eu gosto do dengoso. A Rejane fica falando mal dele mas eu nem me importo. É. Ela fica falando que o dengoso tem cara de viado. Viado, Tia, viado. Você não sabe o que é viado? Viado, boiola, baitola, frutinha, mona, boneca, florzinha, queima rosca, come-bofe, chupa rola, ré no kibe e bichinha. Mas eu não acredito nisso. Não acredito mesmo. Pra mim o Dengoso é muito homem. É por isso que eu gosto de enfiar ele na minha pepeca.

O que é que tem de errado? A partir daqui ela continua com voz de criança mas vai tomando uma atitude um pouco mais peculiar. Por que é que eu não posso enfiar o dengoso na minha pepeca? Machucou só dessa vez. Mas é gostoso. É gostoso demais. Eu acho muito gostoso. Muito gostoso mesmo. Muito muito gostoso. Cinco de paus com ás de espadas. O quê? Não tem problema não. Eu fui lá na casa branca e os moços de braço disseram que eu já to boazinha. E a mamãe disse que eu tenho que esperar a pepeca sarar. Mas depois eu vou enfiar o Dnegoso na minha pepeca de novo. Com excitação. E de novo e de novo e de novo!!! O quê? Não é. Não é não. O Dengoso é bom. Não dou. Não dou o Dengoso. Não dou mesmo. Não adianta que eu não dou Agora ela vai alternando tons de voz da criança e da mãe “*” indica fala passou a ser com a voz da mãe. “/” indica que a fala volta a ser da criança. O Dengoso é meu. *É meu! /É meu. *O dengoso/é meu e eu não divido ele com ninguém. Ninguém faz comigo o que o Dengoso faz, tá? As pessoas só querem tirar ele de mim porque elas têm inveja. *É inveja!/ Inveja. *Três de ouro/com cinco de copas. Inveja porque o Dengoso é bom. Inveja *porque o Dengoso é bom / e gostoso. Ele é bom e gostoso e foi o meu primeiro, tá? *O meu primeiro / o meu primeiro. Ele é bom e gostoso e foi o meu primeiro. Ele sempre foi e sempre vai ser o meu primeiro! O meu primeiro! *O meu primeiro anão!


A PRESENÇA DE SANTIAGO de Renata Mizrahi

(Mulher está vestida de Branca de Neve, percebemos que ela está tensa e nervosa.)

_ Alguém viu um homem alto por aí? Tipo assim, dois metros? Não é difícil. Se alguém o vir me avisa pelo amor de Deus , eu não posso deixar que ele me veja.

(ela procura na platéia- confunde ele com alguém)

_Ah! Meu Deus é ele, é ele. Eu não volto! Eu não volto! Não chegue perto, eu não volto!

(Ela percebe que é o homem errado)

_Desculpa, desculpa, desculpa. Eu não tô no meu normal. Eu tô neuróticaaaaa! (confunde de novo com outro homem) Saia daqui! Saia daqui, pelotudo! Saia! Saia! (repara que não era ninguém- fica constrangida)

Gente, eu não sou assim. Essa que vocês estão vendo não sou eu. Eu nunca fui assim. Não reparem, não reparem! Eu sou uma mulher segura, decidida, nunca precisei da opinião das pessoas pra fazer as coisas. Eu sempre fui assim, até conhecer o Santiago.

(ela acha viu ele em outra pessoa)

_Agora eu vi. É ele, é ele.

(ela corre pelo palco patéticamente desesperada, vê melhor e percebe que não é ele de novo e ri)
_(Para homem da platéia) Desculpe viu, nada pessoal. Ai, meu Deus! Quando isso vai parar? (pra o homem) Desculpa mesmo, viu?

(Ela pega um cigarro , faz como que vai fumar mas desiste.)

Eu tenho um marido... Não, ex. A partir de agora ele é ex. Ex-marido. Ele deve estar me procurando em tudo quanto é canto. Estávamos eu e ele na Conga, eu disse pra ele que tinha medo da Conga. Ele me recriminou. Eu pedi pra ele me dar as mãos. Mais uma vez ele me recriminou. Foi quando tudo aconteceu. Ela estava lá, olhando pra mim, a Conga. Eu tenho certeza que aquela mulher estava olhando pra mim. Santiago com o olhar fixo nela, eu me senti tão sozinha. Santiago não quis pegar na minha mão nem por um segundo. Ela lá, e eu com medo. Ela ia se transformando, se transformando, se transformando... Eu não agüentei, olhei pra Santiago, olhei para aquela mulher ficando peluda. Fugi. Eu Fugi. Fugi de medo, fugi de pavor, fugi de alegria, fugi de orgulho, fugi de ódio, fugi de tesão, fugi da rotina, fugi da minha coleção de pedrinhas, fugi de mim, fugi de Santiago, da Conga! Eu fugi! Eu fugi! Eu consegui fugir! Viva! Viva!

Quando eu conheci o Santiago, não foi a sua beleza que me encantou. Pelo contrário, ele era muito feio! Muito feio mesmo. Mas muuuiiito feio, muuuiiito. Só que era inteligente. E estrangeiro. Tudo bem, argentino. Mas era inteligente, do tipo intelectual, e eu adoro homens intelectuais, me identifico. Além de que ele é alto, ele é tão alto. Ai! Ele também se encantou por mim. Vai ver que também se identificou com a minha inteligência. Disse que eu lembrava a filha que ele perdeu num acidente. Fiquei com pena. Me convidou pra tomar um café e eu fui. Eu sempre tive tesão em homens altos. Não sei por que? Ele me chamou pra tomar um café. Era uma terça de verão, chovia tanto, aquelas chuvas que alaga tudo. ..

(Ela lembra que está fugindo)

Ai, meu Deus, ele deve estar me vigiando, calculando a melhor hora de dar o bote. Ele vai esperar o melhor momento pra me apanhar. Não deixem, por favor. Não deixem. Vocês precisam me defender desse... desse... (ela começa a falar em espanhol da argentina) Pedazo de hijo de puta, mirá cómo estoy, conchudo de mierda. (pensa que ele é outro da platéia) Estás ahí! Estás ahí, no me toqués con estas manos mugrientas, ya no te pertenezco. (ela percebe de novo que o confundiu com outra pessoa- continua falando em espanhol) Perdonáme, perdonáme, una vez más pensé que era él. Estoy mal de la cabeza, dios mio. Lo veo en todo lado. Ya no puedo seguir así. Y este maldito español que no sale de mi boca. Aquel hijo de mil putas que me ensenó. Pará! pará! (em português) Pára com isso, pára com issoooooo.

Quando eu conheci o Santiago, era uma terça de verão, chovia tanto, aquelas chuvas que alaga tudo. A chuva era tão forte que eu quase morri afogada. Então ele me levantou e me colocou no colo. Foi ali que eu me apaixonei. Eu fiquei perdidamente apaixonada. Não, eu fiquei cega de amor! Cega! Mas tão cega, mas tão, tão cega, que hoje estou aqui desse jeito que vocês podem ver. Alguém me ajuda? Alguém pode me levar pra casa? Eu juro que eu não vou dar trabalho! O que não quero que ele me encontre. Se ele me encontrar eu não vou agüentar, vou acabar voltando. Ele faz isso comigo, ele me domina, me ordena, eu fico fraca, não consigo dizer não. Logo eu, uma mulher tão...tão...nem sei mais, nem sei mais.

O Santiago me ensinou tantas coisas... ele me ensinou o espanhol, me ensinou a fumar. Disse que se eu quisesse ser uma intelectual de verdade, tinha que aprender a fumar. Me deu também esses óculos que é pra dar mais credibilidade. (ela tira o óculos) Eu nunca precisei de usar óculos, minha visão sempre foi ótima, nunca precisei desses malditos óculos. (Ela quebra os óculos) Eu não preciso da aprovação dele, eu sempre fui uma mulher independente. Não posso agir assim! Não posso! Caramba! Ele me trata como se fosse meu pai... (ela percebe o que falou) Oh, meu Deus! Ele me trata como se fosse o meu pai! Vai ver que é por isso que ele me obrigou a me vestir de Branca de Neve e me levou no parque! Ah meu Deus!
Quando eu conheci o Santiago, era uma terça chuvosa de verão, um final da tarde. Ele me levou numa livraria pra tomarmos um café. Eu estava voltando da minha faculdade de História da Arte e meu sapato tinha prendido no bueiro. Eu estava presa ali, com aquela água toda quase me engolindo, quando de repente eu senti uma mão grande me agarrando e me puxando pra fora da água. Ele me salvou. Fomos no café da livraria e descobri ali o homem da minha vida. Ele me disse que já me conhecia de vista do curso. Ele era Mestre de Análise dos Contos de Fadas. E eu não tive dúvidas que tinha encontrado o homem da minha vida.
Naquela época jamais ia imaginar que hoje, ia acabar correndo desse homem louco e dominador, desse homem que um dia eu tive a imbecilidade de achar que era o homem da minha vida. Como eu fui idiota! Nunca ia imaginar que hoje, correndo de Santiago pelo parque sem querer ia acabar entrando no castelo da Disney e iam me confundir com a Cinderela. Cinderela? Gente, será que eu tenho cara de Cinderela?

(ela faz os outros personagens)

(Criança)_ Mamãe olha a Cinderela!

_ Eu não sou a Cinderela , eu sou a Chapeuzinho Vermelho.

(Mãe)_ Não é não filho, é a Branca de Neve.

(Criança) _ Mas ela não é branca, mamãe.

(Mãe) _ Ela pode não ser tão branca assim, de neve, mas é branca, filho.

(Criança)_ Cinderela limpa esse chão! (ri) Gostei de mandar, mamãe.

Eu até estava calma quando aquela maldita funcionária do parque veio falar comigo.

(Funcionária)_ Nossa! Que mulher baixinha. Podiam contratar uma recreadora mais alta!

_ Eu não sou recreadora do parque e muito menos baixinha! (em espanhol) Yo soy uma mujer. Uma mujer dominada por un hombre grande que no me deja hacer nada, nada sin el consentimiento de él.

(Criança)_ O que, mamãe? O que a Cinderela está falando?

_ Yo no soy el Cinderela!

(Criança) _ O quê?

_Pará! Pará! (volta para o português) Pára de chorar criança maldita.

(Mãe)_ Não fala assim com meu filho!

_ Falo como eu quiser. Falo como eu quiser! Como eu quiser! Eu faço o que eu quiser! O que eu quiser!

(ela volta para o presente)

Ah, meu Deus!(pausa) Santiago? Santiago, você está aí? Eu sinto. Eu sinto a sua presença. Eu sei que você está aí, eu tô sentindo seu cheiro. Olha, os óculos eu posso consertar, viu? Não fica bravo não, tá? Eu conserto num minuto. Santiago? Santiago, por que você não me deu a mão na Conga? Por quê, hein? Eu não disse que eu tinha medo daquela mulher? Santiago não me assusta. Você não tá bravo comigo não, né? Você tem que pensar que eu não fugi de você, eu fugi da Conga. Foi dela que eu fugi, tá bem?

(em espanhol) No huí de vos, mi amor. Huí de la Conga. Estás ahí? Muy bien, muy bien, guachito. Te estás escondiendo, no, guachito? Sé que estás ahí, mirándome con tus ojos grandes y tus manos pesadas, guachito? Me extrañás? Decíme, me extrañás? Me estás escuchando, mi amor?
(percebe que está falando em espanhol e coloca a mão na boca se recriminando)

Santiago, já era você ter me achado, não acha! Tenho ceretza que seu olhar pra trás vou encontrar voooocê (não vê nada, procura em outro lugar) voooocê! (não vê nada). Ha ha ha, está brincando comigo, né? Ha ha ha , engraçadinho! ha ha ha , muito, mas muuuiiito engraçado ha ha ha. cadê voce , pelotudo?

(falando rápido) Quando eu conheci o Santiago, era uma tarde chuvosa de terça feira. Santiago dava aula na mesma faculdade que eu estudava . Eu era uma mulher muito independente e decidida. Nessa tarde o Santiago me tirou de um bueiro, nessa tarde tomamos um café e eu vi oi quanto ele era inteligente e alto. E eu nunca tinha ficado com um homem maior que um metro e meio, e Santiago tem dois metros de altura, dois metros! Nessa tarde Santiago me pediu em casamento, nessa tarde, eu passei por cima de tudo do que eu acreditava sobre a felicidade de uma mulher, porque sim, eu casei com Santiago e acreditei que pudesse ser feliz ao lado dele, daquele homem que me fez perder a identidade! Me fez perder a identidade! Me fez perder a identidade! Me fez perder a identidade!

(pausa-volta a falar normal) Santiago, meu querido, você está aí? Santiago chega com esse jogo de esconde-conde , né? Eu também cansei meu amor. Olha pra mim, to aqui livre, vou ficar aqui numa boa, esperando você aparecer, tá? Você vai aparecer, né?
Santiago! Você deve tá louco comigo, né? Logo eu, fugir assim. Você deve estar desesperado, né? Você jamais ia permitir uma coisa dessas, né? Jamais, né?

_ Gente, se alguém vir um homem alto, tipo assim, dois metros, avisa que eu toa aqui, tá? Bem aqui, esperando por ele...

Santiago! Santiago!

(Luz vai apagando na atriz chamando desesperadamente por Santiago)

FIM

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A PROFECIA DE MADAME JANETE de Larissa Câmara

ME ZANGA QUE EU GOSTO

Personagem:

Branca: jovem animadora de festas, não gosta que pisem no calo dela, barraqueira, apaixonada por seu namorado Zangado.

(Branca abre uma porta ouvimos ao longe a música do filme Branca de neve. Branca fecha a porta, paramos de ouvir a música. Branca entra cantando a música do filme Branca de neve...) Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou. Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou. Parará tim pum, parará tim pum... eu vou eu vou... (quebra. pára de fazer trejeitos de princesa e canta a música em ritmo de funk) Eu vou, eu vou, pra casa tum, tistis, tum, tististm! Eu vou, eu vou!

(pára de cantar. Fala tentando se convencer) Eu vou, eu vou... (enfática) Eu vou para a casa de Madame Janete. (como se estivesse lendo um letreiro de neon) Madame Janete! (explicando com ares de subúrbio) Madame Janete recebe uma cigana. Aos fins de semana, Madame Janete arma uma tenda na frente de casa e lê o futuro em baralho comum. Em baralho comum sim! (satisfeita) Cada valete que ela abre é um homem na vida da pessoa.

(pausa.) Aconteceu uma coisa estranhíssima... Estava eu na casa de Madame Janete! Fui mesmo! Fui porque não sou mulher de pouca fé! Acredito em tudo e não duvido de nada! Fui porque é de graça. Adoro uma promoção! De graça então até injeção na testa!

Madame Janete não cobra a consulta. Parece que se ela cobrar a cigana pára de descer.

Na real, fui mesmo porque minha vida estava andando pra trás. Meio parada, sabe? Devagar quase parando em dois setores: o da carteira e o da virilha.

Falo virilha porque não sou mulher de falar Chavasca em público. Ops, falei!

Estava eu na casa de Madame Janete, dentro da tenda, sentadinha. Madame Janete embaralhou as cartas, passou o baralho para mim. Ni qui fui cortar, pisquei. Ni que abri o olho as cartas tinham encolhido. Arregalei o olho e na minha mão tinham 7 valetes! 7 valetes pela metade!

Madame Janete gargalhou: Pare de procurar! A felicidade está bem ao seu lado!

Ni qui falou a cigana subiu! Juliene, a assistente dos véus, recolheu as cartas da minha mão. Madame Janete precisou descansar.

Subi a ladeira do morro pensando só uma coisa: sacanagem!

Tanto esforço para ir na casa de Madame Janete para ouvir isso: (remendando) pare de procurar! A felicidade está bem ao seu lado!

Ni qui eu pensava, minha irmã foi logo gritando: Branca! Vem conhecer os vizinhos!

Fui uma tipatia! É tipatia. Não fui com a cara deles não. Eram 7 irmãos: Um vivia espirrando, tenho para mim que quem espirra demais tem problemas com tóxico. O 2 era gordinho, metido a saber de tudo, dava aulas de artes marciais para um tal de Daniel San e se achava o mestre. O 3 era meio dengoso, para não dizer afemidado, como diria mamãe: acho que ele solicita! O 4 parecia verminoso, uma cara de soneca. O 5 era feliz demais, não agüento gente simpática! O 6 não falava, eu não suporto homem que ri baixo, homem mudo então nem cumprimento.

Eu já estava indo embora, quando ouvi um passo pesado batendo no chão. Ni qui virei vi um homem forte, com a sobrancelha fechada, alto, para um anão ele era bem alto.

(falando para o anão zangado) Oi. Qual é o seu nome?

(zangado) Não te interessa!

(falando para o anão zangado) Se não interessasse eu não estaria perguntado.

Ele deu um sorriso de canto de boca, igual ao do Rambo.

(zangado) Pode me chamar de Zangado!

(excitada) Ele era tão sobrancelhudo! Sou doida em homem brabo! (com aflição apaixonada) Madame Janete tinha razão, a felicidade estava bem ao meu lado. Minha laje encostava no teto de zinco dele! (entrando em êxtase) Meu coração disparou. Ouvi risos, sinos tocando, passarinhos cantando, gato miando, galo cantando, vaca mugindo, porco gritando, estouros de pipoca, fogos de artifício, rajadas de metralhadora, barulho de chuva, raios, trovões, tempestade, escarcéu. O céu da minha boca se abriu para receber a maçã do amor. Minha vida era um carrossel de emoções. Minha vida era um filme Disney!

(mudança de clima. Atriz age como Branca de Neve. Cantando como se os passarinhos e outros animais da floresta fizessem parte do coro. Dubla música do filme ou sugestão - filme é projetado e a atriz copia os movimentos do desenho) Um dia / Eu serei feliz / Sonhando / Assim / Aquele / com quem eu sonhei / Eu quero pra mim! (Atriz cantarola e dança rodopiando. Porta por onde a atriz entrou abre cortando o clima da cena. Barulho de bagunça infantil.)

O que é que é, Carolaine? Abre a boca para falar se não eu não escuto, infeliz! Quem é que está tumultuando a festinha? Vai buscar esse tal de Jonathan. Está duvidando de mim, Carolaine? Eu não sou uma simples animadora de festinha, não minha filha. Eu sou a Super Nany da comunidade. Eu animo, educo e boto moral! Pega lá o Jonathan, deixa eu trocar uma idéia com o pivete. (porta fecha)

Carolaine é folgada. Vou dizer: não sou de me meter na vida alheia, mas Carolaine só porque usa a fantasia de Cinderela não pode ver um velho rico que perde o sapato. As minhas colegas são tudo esquisitas. Gente boa, mas problemática. Aurora toma bola e vive encostada na parede da festa, sorte que ela é a Bela Adormecida. A Ariel vive caindo, tropeça no próprio rabo de peixe. Se não se cuidar um dia ainda perde um dente da frente! A Bela só gosta de homem feio e bêbado. O último namorado dela não tinha feiúra, tinha a desgraça estampada na cara. Ele era tão feio, mas tão feio que quando eu olhava para ele tinha vontade de correr pra pegar impulso, dar um tapa na cara dele, e gritar: cospe o limão!

Mas, eu não me dou mesmo é com Rapunzel, ô pessoinha equivocada! Acha que a vida é uma beleza que é só sair jogando a trança por aí... (Porta por onde a atriz entrou abre cortando o clima da cena. Barulho de bagunça infantil.)

O de menor está aí com você Carolaine... quer dizer Cinderela? Espera aí, vou me preparar rapidinho. (faz uma dancinha de preparação. Pausa. Barulho de choro de criança) Oi Jonathan! É você que está tumultuando a festinha do Wellington? (Barulho de choro de criança aumenta)

(doce) Pára de chorar! Pára! Chega! (se altera) Quer chorar chora! Chora! Isso. Me zanga... Me zanga que eu gosto! (se descontrola e age como chefe de um morro) Qualé maluco? Perdeu a noção? Tú num tem amor a vida não? Tú tá me desafiando? Eu sou a Super Nany da comunidade! Pára de chorar agora! Eu encho essa sua cara melequenta de pipoco! Tá ouvindo? Se não parar de chorar, amanhã tu vai acordar com a boca cheia de formiga. Quer levar um tiro no meio da testa, mijão? A titia Branca vai puxar o pino da granada. A titia Branca vai explodir o Neném. (bebê pára de chorar)

(doce) Ah, Jonathan, viu, passou! Agora vai falar com a tia Cinderela que já está na hora de bater o parabéns! (volta a ameaçar o garoto) Olha só pivete, acho bom você pegar uma sacolinha surpresa para mim. E ai de você se não tiver nenhum cajuzinho lá dentro. Entendeu? Agora sai!

Foi o Zangado que ensinou a falar assim. Um dia, eu disse que não queria lavar a cueca dele. Ele ficou tão nervoso, mas tão nervoso que saiu correndo saltou no banquinho, deu um impulso na cadeira, subiu no guarda-roupa e pulou em mim. E me bateu tanto, mas tanto, me deixou toda roxa e eu não tive outra escolha a não ser me apaixonar.

Hoje é nosso aniversário de namoro. Engraçado... foi minha sogra quem me deu presente, uma maçã. Deixei na geladeira. Não sou boba nem nada. Sogra não é mãe, é Madrasta! (celular dela toca)

Oi meu grandão! Eu estou trabalhando! Eu sei que é nosso aniversário! Mas, eu só posso chegar depois das... Como é que é Zangado? O que é que você está falando? Eu amo você, quero montar no seu pônei branco, viver no seu castelo e ser feliz para sempre! Eu o quê? A minha mãe, não. Quer falar, fala! Xinga, berra, grita. Isso... Me zanga que eu gosto!

HAPPY END

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ATCHIM! de Julia Spadaccini

Branca de toda descabelada, maquiagem borrada. Tira um saquinho da roupa, um espelhinho, coloca cuidadosamente o restinho de pó, que está no saquinho, no espelho. Pega um cartão, divide a carreirinha de pó. Cheira e depois lambe o saquinho para tirar o resto. Pega o celular e liga.

Branca de Neve

Alô... alô... alô, Atchim. Pô, Atchim! É o quinto recado que eu deixo para você, cara... (Olha para os lados) preciso de mais... muito mais... tô no maior tédio.. Olha, se você ouvir esse recado, me encontra no lugar de sempre? Na floresta do... como é o nome dessa floresta? Ah, sei lá, pô... a mesma de sempre, a única... tô presa aqui desde ontem, entendeu? A última criança parou de ler a minha estória na parte do caçador e foi para o computador. Sacou o problema? Não vou sair daqui tão cedo, vou criar raiz... (pausa) Olha, tô sentada aqui na parte que o caçador me abandona e vai buscar o coração de um porco, sabe qual? Aquela parte da floresta que tem uns cogumelos com umas... (Branca pára pensando algo e desliga) Cogumelos... (Olha envolta) Não. Melhor não, vai que a criança recomeça a ler e eu tô doidona. Tenho que me concentrar... ficar bem... Ainda tenho uma reputação a defender. (abre a bolsa e pega um potinho de comprimidos, joga goela abaixo) (pausa, olha para a platéia) Antes eu vivia o final feliz de 5 em 5 minutos... e agora não chego nem na página 10. Nunca pensei que fosse ser tão abandonada... nunca pensei... e olha que fiz tudo direitinho, segui todos os passos da história, nunca deixei uma criança me ver no banheiro, palitando os dentes, dando um peido... fui fiel ao livro, mesmo quando as mulheres jogaram fora os espartilhos e queimaram sutiãs... continuei aqui de princesa dando um bom exemplo... mas agora... que adianta... ninguém mais acredita... tô obsoleta... acabou... as mulheres trocaram os príncipes pelo botox e os príncipes trocaram as mulheres por outros príncipes. Ninguém sabe o que é fazer a mesma estória a vida toda. Já comi mais de 500 mil maças envenenadas...

Telefone toca.

Alice, cadê você, maluca? Tá onde? Com quem? Quem? Fala direito pô! Esse chá tá te matando. Eu sei que emagrece, mas tudo tem limite. Senão quando voltarem a ler seu conto você vai tá mais para “As de espadas” do que qualquer coisa... Tá, fala... a centopéia. Sei. O que aconteceu com ela? Pressão baixa. Como? Fez o que? Não acredito! A criança rasgou a página? Coitada... isso é difícil... sei como é... uma vez me jogaram na piscina. Fiquei boiando por uma semana. Aí um jardineiro achou o meu livro e ficou se masturbando. Tinha tara por anões. Terrível. Tá, desculpa. Consola sim. Depois que eu conseguir sair daqui, passo para dar uma força. Tá. Beijo querida.

(desliga e olha para a platéia)

Tô péssima. Péssima. Cinderela saiu em DVD. (pausa) Com bastidores e legenda em japonês. E eu nada... nem gibi... por isso que o Atchim sumiu, não é bobo, quer status, tá fornecendo no baile dela... Triste. (pausa) Alice tá com anorexia... acha que as crianças não gostam mais dela porque engordou. Ontem eu tava aqui nesse mesmo lugar e passou o porquinho, da casa de palha, fazendo movimentos repetidos. Adquiriu a síndrome do conto oculto, quando o personagem desenvolve essa síndrome, ele fica repassando a sua própria história na cabeça que é para não esquecer quando a criança voltar a ler... “Cachinhos de Ouro e os três Ursos” já foram até internados por conta disso. Ficaram tantos anos no limbo que quando uma criança achou o livro no baú da bisavó e começou a ler, eles ficaram tão confusos que o terceiro urso raspou a cabeça da cachinhos e fez uma peruca para ele mesmo.

Tira do bolso uma bebida (daquelas pequenas de bar) e toma num só gole.

E agora inventaram a tal contenção de despesas do reino encantado. Agora é uma floresta só para todos os reinos. (pausa) As outras a Disney comprou... (pausa) Os príncipes também se mandaram... foram procurar emprego em jogos eletrônicos. O único que não conseguiu emprego foi o príncipe da Cinderela (pausa) por que será, né? Imagina saber que aquele sapato perdido na escadaria era da dela... (irônica) ficou reparando no sapato a noite inteira.. Gay! Aliás, Cinderela é um conto gay, gente... o que é essa coisa de abóbora transformar em carruagem, sapato de cristal, fada madrinha... gay. Por isso que é o único em DVD... certeza disso...

Esse reino encantado tá pequeno demais para mim... não tem mais nada de novo.. nada...

Telefone toca.

Alô. Atchim, pô qualé cara? Tá no baile? Sabia! Traidor! Alôooo! Atchim.

Caiu. Saco! Floresta tosca que não dá sinal. (pausa) Os anões não me respeitam mais... não respeitam... eu sei que errei... eu sei... mas presa desde 1690 no mesmo conto, fazer o quê? Imagina o que é levar o único beijo da história no final e ainda por cima quando se esta dormindo. Péssimo, né? Aí, devido as circunstâncias que me foram impostas... não consegui, não sou de ferro. (pausa) Dei, dei mesmo. Dei para os anões, para o caçador, para o cara do espelho, pro chapeleiro maluco, enfim dei até para o mágico de oz. Pô, depois de anos com o mesmo príncipe.

(pausa) A Alice disse que eu sou culpada pelo meu príncipe ter se mandado... Mas não foi isso... é que hoje em dia ninguém agüenta chegar ao final da história, o coitado tava tão parado que teve uma hérnia de disco... foi procurar emprego no “The Sims”... ele é que tá certo. Só não saio daqui porque o mercado para princesas lá fora tá péssimo. Ninguém mais acredita em mim. Com pais separados, fica muito difícil de acreditar em final feliz, né?

Comendo um cogumelo.

Isso de princesa é um porre! Coisa sem graça.. Meu sonho é ser uma mulher real, é. Queria casar de verdade. Ter filhos. Arrumar um amante, separar, casar mais três vezes, ter um filho de cada pai, fazer terapia, ginástica, fazer compras num shopping e encher o armário de roupas, sapatos. Por que eu não sei se vocês notaram, mas a minha roupa é a mesma desde o século xv... minha roupa já tão ultrapassada que é capaz de entrar na moda de novo.

Mês passado comecei um work shop: “como transformar seu conto sem graça num desenho japonês”

São três módulos: violência, erotismo e mensagem subliminar, porque desenho que se preze causa epilepsia na criança.

Meus professores, Digimon, Sukamom e Pikachu, me disseram que meu conto é doce demais, que eu sou boa demais. (pausa) Mas eles não sabem que eu guardo um segredo. É... Meu conto vai ser melhor do que qualquer desenho japonês. Fechei um contrato com a Record... (pausa) A partir do mês que vem serei uma mutante em caminhos da floresta 2.

(muda o tom) De dia ela é branca, sensível, doce. Caminha pela floresta espalhando beleza e frescor. ( muda o tom e tira uma parte da roupa revelando algo bastante sexy) Mas à noite ela é negra, uma loba que revende maças envenenadas nas portas das escolas. Seu nome é...

Telefone toca.

Alô. Atchim! É vc... como é? Voltou a ler! Jura! Não, tô ótima! Valeu!

Veste a roupa novamente e muito doce olha para a platéia, sorri sem graça.

Eu sei que tinha prometido não voltar, que elas me fazem mal, que me amam e depois abandonam, mas não consigo abandonar o vício, é mais forte do que eu...

Black out rápido interrompendo.

Quando volta a luz branca está deitada na parte antes do beijo final do conto. Abre um dos olhos e olha para a platéia.

Criança desgraçaaaadaaaaa!!!! Antes do beijo nãoooooooooo! Voltaaaaaaa!

Música clássica dos anões entra.

Black out.

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A BRONCA DE NEVE de Felipe Barenco

(Ela entra como num programa de auditório, rindo pra caramba. É uma branca de neve toda destruída, com a fantasia rasgada e com algumas cicatrizes, que ela faz questão de deixar à mostra como o registro da sua vida difícil. Nunca, nunca, nunca se sabe se a mulher ri por vontade própria ou se é um riso forçado. Carrega consigo uma metralhadora e discursa com ela em punho, ameaçando a platéia às vezes. Interage abertamente com o público e fala no microfone).

(Segurando a vontade de rir. Recupera a seriedade) Vim aqui hoje lançar meu novo livro “A bronca de neve” e acho bom todo mundo comprar. (Carregando a metralhadora) Gente, a vida é muito boa. É muito boa pra você quando você é muito boa pra ela também. Se a vida te der uma flor, dê um buquê. (Solta uma sonora gargalhada e volta ao normal)

Boa noite. Eu me chamo Jéssica da Silva, sou escritora, mulher, lá de Jacarepaguá e comigo não tem corpo mole, não. Eu falo pros meus filhos, que eu mesmo analfabeta, falava uns provérbios pra eles quando eram pequenos (Abre um livro) “Fica de preguiça, a vida toda enguiça”. Proust.

Antes de começar a falar sobre o meu novo livro, gostaria de esclarecer que eu não fui convidada para este evento. Eu cavei a minha entrada aqui, que comigo não tem essa de panelinha e indicação. (Apontando a metralhadora pro público) Porque o segredo é esse: fala com firmeza e joga pros astros. E abre aquele sorriso. Fulaninho te respeita! E eu não quero ninguém com preconceito aqui dentro, porque eu sou negra, eu sou mulher, eu sou lá de Jacarepaguá. Eu faço questão de toda semana pegar minha condução, depois o trem e ainda fazer esse pedaço à pé pra não esquecer que eu não nasci rica. Eu lutei muito pra estar aqui, num evento de brancas, onde eu sou a única negra representante da verdadeira branca de neve da sociedade, da mulher que mata um leão e come uma maçã envenenada por dia, que é a mulher negra brasileira. “Blá blá blá” de príncipe, que eu não sou mulher de ficar esperando príncipe encantado, não. Eu trabalho, compro meu carro e vou lá buscar meu príncipe em casa. E ainda pago o jantar.

(Abre o seu livro) Vou ler um trechinho do meu livro pra vocês, que eu acho muito significativo pra essa palestra, pra sociedade que não ri mais. (Lê) "Se a vida lhe oferecer um limão, não faz uma limonada, não! Faz uma caipirinha! Se a vida virar as costas pra você, come o cuzinho dela!" Meu livro “A bronca de neve” é a minha autobiografia não-autorizada, um tratado sobre como ser feliz na contemporaneidade. E eu, que não sou burra, reparem, lancei minha biografia sem a minha autorização. Fui processada por mim mesma e ganhei uma fortuna, fiquei rica. (Rindo) E rindo à toa!

Eu fui a primeira criança-negra-de-Jacarepaguá a vender balar no sinal. E batia todas as cotas, as super cotas... 10 sacos de balas Juquinha por dia. Olhem pra mim! Como é que eu não vou olhar pra trás e rir disso tudo? Porque hoje eu tô milionária! Mas eu faço questão de andar assim, ó, pra todo mundo lembrar que eu vim de baixo... eu nasci lá na Zona Norte e hoje as pessoas olham pra mim e me respeitam. Hoje eu moro no Leblon, sim, moro, moro mesmo e faço o mercado no Zona Sul, só porque é mais caro. É necessário, meu povo, que as minorias interfiram dentro desses pequenos guetos elitistas.

Eu sou contra criança ter celular, mas meus filhos vão passar vergonha no colégio? Não vão... Eu falei pra eles “ó, não quero ninguém levando desaforo pra casa, não!” Ri e manda pra puta que pariu. Eu dou de tudo pros meus filhos, um ipod, uma câmera, um mp3... não é pra usar, não, mas é pra ter. É pra ter, porque eu não quero filho meu passando humilhação. A Gracy mesmo, minha caçula, dia desses sofreu preconceito na creche, eu fui na reunião de pais e sabem o que eu fiz? Eu xinguei? Não... Eu briguei? Não... Eu processei? Mas é claro que não. Eu sambei pra eles, ó! (Sambando) Eu sambo pra vocês! Sambava e ria, que eu não sou besta.

Nos últimos cinco anos eu trabalhei como guerrilheira no Iraque, no setor de auto-ajuda para as mulheres-bomba. Depois retornei ao Brasil e levava as crianças lá do morro no colégio, enfrentado chuva, lama e bala perdida, fantasiada de Branca de Neve, que essa violência tá demais e criança tem que viver na fantasia.

Eu sou de Jacarepaguá, eu areio panela e mato galinha. Tinha tudo pra ser uma vítima da sociedade. Mas não, hoje eu tô aqui, diante de vocês, pra contar um pouquinho da minha vitória. Eu preparei um exercício da minha terapia de riso, que eu ministro esse curso para as madames da Zona Sul, funciona que é uma beleza. Já dizia Diderot “se ficar de bode, você se fode”. Eu falo pro meus filhos, não quero ninguém olhando pra baixo não, olhando de igual pro seus coleguinhas, porque vocês são negros, de Jacarepaguá, são crianças, que a mãe de vocês foi guerrilheira no Iraque e tudo que ela compra pra vocês ela deu o sangue. Literalmente.

Olha pro seu lado, dá uma espiadinha como só tem desgraça, não fica trazendo amargura pra vida não... Pára pra pensar: um tanto de gente que queria rir e não pode, porque não tem os dentes na boca. Vamos destencionar, todo mundo fechando os olhos e colocando a mão no coleguinha da cadeira ao lado e rindo, rindo, rindo... Ouve o som da gargalhada do outro. Repitam comigo “UARRARRÁ, UARRARRÁ”. Isso, forçando o riso. Agora reparem como o outro rindo é ridículo! “UARRARRÁ, UARRARRÁ”. Estão vendo? Quando a gente dá conta, tá todo mundo rindo!

Não quero ninguém de depressão aqui, que o meu mestre, o doutor Mauro, já dizia “Vai arear uma panela que melhora”. Tenho uma amiga que areia tanto as panelas, tanto, que as panelas viraram espelhos. O problema é que ela ficou narcisista demais e fica o dia inteiro se olhando no espelho. “Espelho, espelho meu...” Mas foda-se! Eu ouvia som de tiro na favela, eu ria de nervoso, não era de prazer.

Bem, meus amigos, meu tempo acabou. Gostaria de deixar uma última mensagem de autoconfiança pra vocês, do meu outro livro, “Jesus nunca riu, mas a Galiléia era uma farra” (Abre o livro) "Tudo que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar. Me dar toda coragem que puder".

(Tendo uma crise de riso incontrolável) Eu nasci analfabeta. Nunca fui escritora. Mas um dia inventei que era e todo mundo acreditou.

Fiquem com a paz de nosso Senhor.

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A MULHER DO DUNGA de Camilo Pellegrini

ELA lê uma anotação que ELA mesma fez um tempo atrás.

ELA- “Primeiro passo, embalar a caixa”... Isso dá pra fazer... Droga! Onde é que tem mais fita crepe? Que cabeça a minha! Esse problema que eu tenho essa falta de memória! Não gravo quase nada, muito pouco! A vida passa por mim como um rio caudaloso e some, fadada a viver presa no presente aterrador. (Acha.) Aqui está! Que benção!

ELA embrulha um grande pacote enquanto fuma um baseado e se vê no espelho.

ELA –O Dunga acabou de sumir, meu marido. Uma benção também esse sumiço. Daquele jeito dele de sempre, olhando pro chão, calado. Ele é calado mesmo porque é mudo. Mas um mudo amuado como incomoda, gente! Você não sabe, mas nem toda discórdia é feita de grito, berro, palavrão. O silêncio do Dunga já foi bom, hoje é terrível. Depois eu que sou a maluca, falando sozinha pro espelho e coisa e tal, mas conversar com quem? Desabafar? Chorar, pedir conselho pra quem? Pro Dunga? E agora cedo ele sabia. Parecia que estava sentindo no ar. Por isso eu dei tchau pro Dunga, belém belém, vá pro raio que o parta. (Fuma um baseado.) Um tapa na pantera pra não receber o Marco com cara de gorila. (Se admira no espelho.) Como eu fico sexy dando um peguinha. É porque hoje eu vou me encontrar com o Marco de novo. É Marco mesmo, sem "S", porque no começo eu pensava que era Marcos mas me enganei. Cheguei a chamar: Marcos, um dia. Ficou puto. Fechou o tempo, total. Sabe mal humorado, mesmo? Hoje eu chamo de apenas Marco. E foi um marco assim, pra mim. Foi um marco o Marco porque foi o primeiro, é verdade. Aí eu decorei. Tenho um probleminha com memória sim, eu vou dizer. Quase tudo me escapa, vai embora. Mas nome eu geralmente... eu lembro. Meu problema é também muito com a cara, as vezes. Quer dizer, rosto é que se chama, né? Por isso esse espelho enorme aqui na sala. Esquecer da minha própria cara, já pensou?! O Dunga é o único que fica. (Enojada.) Aquela carinha faceira! As orelhinhas de abando! Os olhinhos, tão lindos, um no peixe, outro no gato. Só Deus sabe, dava o braço esquerdo pra me esquecer por um segundo daquele pequenino. Mas é o único que parece estar gravado a ferro e fogo no meu cérebro! O Marco pra mim, quando eu ver hoje, pode ser que eu não conheça! Não vou lembrar! Um outro! Outro não, porque na verdade é nenhum, que eu não lembro, nem sei como ele é. Isso me causa alguns transtornos, é sim, e não é só com ele que isso ocorre. Sempre me acharam que eu sou... sabe meio besta? Metida, sabe? Nariz pra cima, que eu não olho na cara, grossa! Assim que me chamam. Grossa!!! Gente, é químico aqui na minha cuca, cacete! Tá faltando alguma coisa! Eu esqueço! É isso! Tenho comido cenoura, gente! Só Deus sabe! Mas acho que não adianta não. Não ando aconselhando cenoura. Acho que cenoura é pro olho, né. Dizem que formiga também é bom, pra visão. Disso eu lembro. Quer dizer, dizem. Eu não tenho comido. Formiga. Eu ainda não tô com a boca cheia de formiga. Mas já tive medo sim que o Dunga, o meu marido, me matasse um dia, lá isso é verdade. Liguei pro Marco. Meu anão foi agorinha. Pro trabalho? Pra maldita mina de diamantes? Vai saber. Quem lembra? Nem me importa. E o Marco vem aqui trepar comigo agora à tarde. Vai ser aqui no meu sofá de camurça azul. Como é bom ficar pelada na camurça! Tudo bem, foi Dunga que comprou. Passa o domingo inteiro aí com a cervejinha vendo o Silvio, futebol. Quarta feira à noite também. Mas hoje o sofá é só meu, quer dizer, eu empresto pro Marco. Aquele corpo grande dele em mim. E tem que ser aqui na minha casa. Prefiro mesmo, eu gosto assim. Foi pra isso que eu chamei ele, o Marco. Pra mim é importante. Trepei com ele duas semanas atrás, poxa! Não lembro nada! Apagou tudo, é um problema que eu tenho. Lembro que foi bom, isso eu sei. Mas ele, o Marco. As coxas, o peito, as mãos, a nuca, eu acho que eu gosto das pernas dele. Eu acho que ele tem covinha quando ri pra mim. Eu acho que o olho dele é verde... ou preto. Comprei uma máquina de foto. Não precisa filme, é digital. (Mostra a câmera, tira umas fotos de si mesma e do público.) Vou tirar umas fotos do Marco pra não esquecer nunca mais, ele foi meu primeiro amor. (Terminou de embalar e agora olha intrigada para a caixa enquanto dá mais uns tapas no baseado.) Até que não ficou mal! Melhor registrar. (Tira uma foto da caixa, depois uma foto de si abraçando a caixa.) E agora? (Pega o papel amassado em seu bolso. Lê.) “Borrifar perfume por toda a caixa.” Como assim?! Gastar perfume bom à toa, esbanjando?! (Suspira.) Já que fiz a nota, melhor obedecer. Minha memória é assim, destroçada em pedacinhos de post-it. (Pega um vidro de perfume e borrifa pela caixa.) Esse aqui não vai dar pena de gastar que foi presente da minha pequenina sogra. Ô mulher ruim! Ela sabe. Já sacou que eu boto chifre no filhinho. Mas eu traio mesmo, sabe? Traio sim! O destino me espezinhou, não foi justo comigo não. O Dunga conheci logo em seguida, grudadinho, depois do pé na bunda do Marco. Quer dizer, na minha. Pé do Marco na bunda minha. Fiquei devastada, sabe? Um trapo. Me aparece aquele homenzinho tão simpático. Risonho mesmo! Os olhinhos felizes! E não falava nada, sem reclamar! Só sorria! Aquela doçura me levou embora. Mas o que me fez desmaiar foi o drink, só pode. Caipirinha de maçã. O Dunga pôs bolinha nela. Juro que pôs! Apaguei de um jeito! Não que a minha memória seja boa, mas péra lá! Não lembrar do próprio casamento?! Acordei com a argola no dedo, minha filha, algemada! O anãozinho careca ali enrolado no lençol me olhando com a pestana grande que ele tem, aquela cara de pidão! Casada, este era meu marido. Nossa, acho que já botei perfume pra cacete. Próximo passo (Lê e escreve na caixa com uma caneta pilot “ISLÂNDIA”.) Pronto. (Dá mais uns tapas no baseado) Islândia deve ser tão bonito. Dunga nunca me leva pra viajar. Ele tem vergonha de mim. Não diz, é lógico, mas sei que me acha vulgar. Me olha com uma expressão de asco! O que não faria pra arrancar de mim essa sina desse traste em minha vida! Destroçar aquele anão pavoroso! Arrancar de vez o miúdo da minha memória! (Pausa. Pensativa.) Pois então. E agora? (Lê.) Pôr no correio?! Que porra é essa? Eu escrevi isso?! Tá aqui. Pôr no correio. Mas pra Islândia vai ficar uma fortuna! Quem estará lá naquele gelo esperando esse pacote? Pra quem estarei rementendo isso?! (Procura no papel e o joga fora) Aqui não diz. (Toma coragem.) Custou pra embrulhar mas a vida é assim, depois tenho que me lembrar de comprar mais fita crepe. (Dá mais um tapa no baseado, olha a caixa surpresa) Que linda caixa! Será brinde, encomenda, presente? É presente? Pra mim?(Numa coreografia louca, Ela abre o embrulho e se depara com o objeto dentro da caixa) Dunga?! Querido?! Ah, não!!! Meu Deus!!! O que houve?! Fala comigo!!! Meu Deus!!! Dunga, não faz isso! Não me abandona!!! Quem fez isso!!! Faça comigo!! Responde?! Morreu. (devastada.) Tem bilhete. (Lê.) Você matou ele, assassina, se livra do defuntinho....

 

 

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