Mulher: Ai,
que bom que a gente conseguiu se ver. Eu tava precisando, viu. Tava muito. Eu to que não me agüento.
Batalhão. Batalhão não. Manada que é pior. Ah, meu amor. Se eu te
contar você não acredita. Mais que pobre na chuva. Pior a emenda que
o soneto. Da missa a metade é pinto e no dos outros é refresco. Essa
semana. Essa semana. Essa semana foi, viu? Foi total. Aconteceu tudo
que você possa imaginar. Se eu te contar você não acredita. Mais que
pobre na chuva. Pior a emenda que o soneto. Da missa a metade é pinto
e no dos outros é refresco. Essa semana. Essa semana... Essa semana...
Foi! Do que essa? Oitenta. Total. Oitenta total. Isso. Nove de copas
com às de espadas, meu amor. Aliás, de espadas não. De paus! Ás de
paus! (pausa) Oi? Anágua. Sempre. A vida. Sempre é. Mas essa semana...
essa semana.... essa semana... Não foi! Começou na segunda, né? Porque
é impressionante. Nunca vi. Semana... Sempre começa na segunda. Daí
começou. Na segunda. Não consegui. Fui lá e não consegui. Eu não consigo.
Eu não consigo. Eu não consigo cortar relações com a minha depiladora.
Olha, tá um problema. Eu não sei o que acontece. Eu tento. Toda vez
eu que eu vou lá eu tento, mas não consigo. O pior que a cera dela
nem é tão boa, sabe? Me deixa com umas bolotas debaixo do braço. Buço
vermelho que nem pitanga. Uma dooor. Mas a questão da depiladora é
a seguinte: depiladora é depiladora. Isso. Exatamente. A confiança.
Não é pra todo mundo que a gente abre a perna e manda arrancar. Tem
que ter intimidade. E com ela eu já to acostumada. Ela tem um papo
ótimo. É carinhosa. Até dá uns beijinhos quando eu grito muito. Beijinho.
Tipo. AAAAAai! (gesto do beijo) Dá um beijinho. Rapidinho assim. Uma
fofa ela. Pois é. Do bem, tadinha. Confio nela. O problema são as
bolotas. Ânus? Ah, não querida, não faço. Já é complicado do jeito
que é, agora abrir a bunda na Voluntários da Pátria pra depilar o
rabo, fora de questão. Britadeira, buzina, obra comendo solta e eu
com o rabo aberto? Na vida? Nem que me paguem. Não sou louca. Não
sou desequilibrada. Faço axila, buço, meia perna, virilha e olhe lá.
Oi? É. Na voluntários. Pelo menos. Isso. Mas, olha, tá um problema.
Oi? Não entendi. Ah! O problema da embreagem. Continua. Não consigo
resolver esse problema da embreagem. E nem vem com aquela história
que não existe, porque existe. Eu tenho. Eu tenho. Eu tenho fobia
de embreagem! Fobia de embreagem. Como é que não? Então porque é que
sempre que eu aperto o diabo da embreagem a minha pálpebra direita
palpita? Uma tremedeira. Quase não enxergo. Quase cega. Quase cega.
O quê? New Wave. Isso, mas o cabelo ficava duro. Enfim. Eu continuo
achando. Eu tenho fobia de embreagem. Eu te juro. É apertar o pedal
que a pálpebra palpita. Eu aperto o pedal, ela palpita. Eu aperto,
ela palpita. Eu aperto, ela palpita. Ela palpita. Ela palpita. Palpita,
palpita, palpita. To te falando, minha filha. Palpita! E como palpita.
Pal-pi-ta. Demais. Palpita demais. Palpita! Palpapita. Uma loucura.
(Para si)Ai, às vezes eu tenho uma vontade de arrancar meu
útero fora... Fobia de embragem. Olha, tá um problema. Vou te contar.
Mais que pobre na chuva. Pior a emenda que o soneto. Da missa a metade
é pinto e no dos outros é refresco. Essa semana. Essa semana foi,
viu? Foi. De resto? Não, tudo bem. Tudo tranqüilo. Em casa. É. Tranqüilo.
Tábata. Isso. Tá ótima. Cinco. Isso. Tá com cinco, ela. Tá bem, sim.
Tá bem. Só teve um machucadinho na quinta. Nada, ela se machucou com
um brinquedinho. Brinquedinho novo dela. É. Dilacerou o pequeno lábio
esquerdo tentando enfiar um boneco do Dengoso na vagina. Dengoso,
da branca de neve. Um dos anões... Ah. Não. Então. Eu te disse. Ela
teve um corte no pequeno lábio esquerdo, nada demais. Levei ela numa
clínica lá da barra. Até virgindade, menina, você acredita? Reconstituem.
Oi? A Tábata? Tá com cinco. Rabo de galo. Mas tá bem. Enfiou o bonequinho
lá e sangrou, coisa de criança, né? Não. Não. Não. Não enfiou só a
cabecinha não. Por isso dilacerou. Justamente. O pequeno lábio esquerdo.
A Tábata? Tá. Tá ali fora. Oi? Pra quê? Ela tá bem. Olha, posso chamar,
mas não vejo necessidade, não, gente. Dois de ouros com cinco de espadas.
Tudo bem. Moeda de um real. Peraí um minutinho, então.
Ela sai e
vai conversar com a filha fora de cena.
Mulher: Filha.
Filha. Filha, cadê você? Filha.
Tábata: To
aqui mamãe.
Mulher: Onde
menina?
Tábata: Aqui.
Mulher: Ai,
desculpa, filha, não te vi. Minha vista nunca mais foi a mesma depois
do show do Negritude. Meu amor, tem uma amiga da mamãe que quer conversar
com você.
Tábata: Eu
quero fazer cocô.
Mulher: Depois,
Tábata, depois. Valete de ouros.
Tábata: Mas
mamãe eu quero ir no banheiro.
Mulher: Ao,
banheiro, Tábata. É ir AO banheiro. Analfabeta.
Tábata: O
que é analfabeta, mamãe?
Mulher: Você.
Tábata: Por
quê que eu sou analfabeta mamãe?
Mulher: Por
que você não sabe ler nem escrever.
Tábata: Mas,
mamãe, eu só tenho cinco anos.
Mulher: A
culpa não é minha, Tábata. Você continua sendo analfabeta. Agora anda
que a amiga da mamãe tá te esperando.
Tábata: O
que ela quer falar? Ela quer falar do Dengoso e da minha pepeca, não
é?
Mulher: É
Tábata. Ela vai falar do Dengoso. E da sua pepeca.
Tábata: Mas
mamãe. Eu já disse pra...
Mulher: Tábata,
não me irrita.
Tábata: Mas
é que...
Mulher: Tábata.
Tábata: Mas
mamã...
Mulher: Oito
de paus!
(pausa)
Tábata chorando:
O Dengoso é meu amigo, mamãe. O Dengoso não me fez mal, não fez. Ele
é bonzinho.
Mulher: Filha.
Eu sei que você gosta do Dengoso. Eu também gosto dele. E aposto que
a amiga da mamãe também vai gostar.
Tábata: Ela
gosta dele, mamãe?
Mulher: Gosta.
Tábata: Ela
não vai querer tirar ele de mim que nem aqueles homens lá da casa
branca?
Mulher: Não
meu amor, eu prometo. Agora entra lá pra falar com ela, vai.
Entra Tábata
com um boneco do Dengoso. Ela fica um tempo muda.
Tábata: (ela
canta) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado.
(longa pausa) Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo
sem ser semeado. (longa pausa)Alecrim, alecrim dourado que
nasceu no campo sem ser semeado. (longa pausa)
Oi moça.
É. Sou eu, sim. Tábata. Meu nome é Tábata e esse aqui é o Dengoso.
É. Dengoso. Quê? Tá. Tá. Ele tá com uma mancha vermelha na cara sim.
O que que é isso? Vergonha, ué? Ele não é o dengoso? Tá vermelho de
vergonha... Ai, que pergunta. O quê? Não. Não. Não, eu não largo do
dengoso. Nunca. Nunca mesmo. A gente tá sempre junto. O que é que
a gente faz? Ah, a gente brinca de chazinho, a gente canta, a gente
trepa. É. Na árvore lá debaixo do prédio. Adoro trepar na árvore com
o Dengoso. A gente sempre faz papai e mamãe lá em cima. É. Papai e
mamãe. O dengoso é o papai, eu sou a mamãe e nossos filhos são as
formiguinhas. (Risada) Que mais? De vez em quando a gente gosta
de fazer de quatro. Eu adoro. Mas aí a Rejane tem que descer com o
Dunga. Rejane é minha vizinha. Ela tem o Dunga. Mas eu tenho o Dengoso.
O meu anão é o Dengoso. Daí quando a Rejane desce com o Dunga a gente
brinca de quatro. Eu amo o meu Dengoso. A gente trepa, faz papai e
mamãe, faz de quatro, brinca de chazinho, canta,... Mas o que eu mais
gosto de fazer mesmo e enfiar o Dengoso na minha boceta. O quê? Boceta.
Você não sabe o que é boceta? Boceta, ora. Boceta, vagina, xota, xoxota,
racha, xibil, periquita,
perseguida,
xereca, aranha,
bacalhau,
banguela,
cabeluda, cabaça,
cachuleta,
capô
de fusca, chana,
chavasca,
chimbica,
xoroca,
desejada,
dita-cuja,
lixa-pica,
mede-rola,
passarinha,
racha,
sirica,
tchonga,
tchuchuca,
tomba-macho,
valiosa,
xampola,
xuranha e perereca. É. Eu gosto de enfiar o dengoso
na minha boceta. Mas tem que ser o Dengoso. O Dengoso é o meu anão
preferido.
Dos outros
eu não gosto. Eu até brinco com a Rejane e com o Dunga. Mas eu não
gosto do Dunga. Não gosto do Dunga. Não gosto do Dunga porque ele
é retardado. Que que tem? Que que tem que ele é feio. Ué. Mas qual
é o problema, Tia? Todo mundo fica tentando ficar bonito o tempo todo.
A mamãe sempre tenta ficar parecida com aquelas moças da revista.
Não é bom ser feio. E ele é retardado e feio. Então eu não gosto dele.
Que nem o mestre que é gordo e velho. Não gosto de velho. Ué. Mas
qual é o problema, Tia? Todo mundo fica tentando ficar novinho e magrinho
o tempo todo. A mamãe até já foi no médico pra ficar com cara de nova
e sem barriga. Velho não e bom, Tia. Nem gordo. Nem retardado, nem
gordo, nem velho e nem feio. É por isso que eu gosto do dengoso. A
Rejane fica falando mal dele mas eu nem me importo. É. Ela fica falando
que o dengoso tem cara de viado. Viado, Tia, viado. Você não sabe
o que é viado? Viado, boiola, baitola, frutinha, mona, boneca, florzinha,
queima rosca, come-bofe, chupa rola, ré no kibe e bichinha. Mas eu
não acredito nisso. Não acredito mesmo. Pra mim o Dengoso é muito
homem. É por isso que eu gosto de enfiar ele na minha pepeca.
O que é que
tem de errado? A partir daqui ela continua com voz de criança mas
vai tomando uma atitude um pouco mais peculiar. Por que é que
eu não posso enfiar o dengoso na minha pepeca? Machucou só dessa vez.
Mas é gostoso. É gostoso demais. Eu acho muito gostoso. Muito gostoso
mesmo. Muito muito gostoso. Cinco de paus com ás de espadas. O quê?
Não tem problema não. Eu fui lá na casa branca e os moços de braço
disseram que eu já to boazinha. E a mamãe disse que eu tenho que esperar
a pepeca sarar. Mas depois eu vou enfiar o Dnegoso na minha pepeca
de novo. Com excitação. E de novo e de novo e de novo!!! O
quê? Não é. Não é não. O Dengoso é bom. Não dou. Não dou o Dengoso.
Não dou mesmo. Não adianta que eu não dou Agora ela vai alternando
tons de voz da criança e da mãe “*” indica fala passou a ser com a
voz da mãe. “/” indica que a fala volta a ser da criança. O Dengoso
é meu. *É meu! /É meu. *O dengoso/é meu e eu não divido ele com ninguém.
Ninguém faz comigo o que o Dengoso faz, tá? As pessoas só querem tirar
ele de mim porque elas têm inveja. *É inveja!/ Inveja. *Três de ouro/com
cinco de copas. Inveja porque o Dengoso é bom. Inveja *porque o Dengoso
é bom / e gostoso. Ele é bom e gostoso e foi o meu primeiro, tá? *O
meu primeiro / o meu primeiro. Ele é bom e gostoso e foi o meu primeiro.
Ele sempre foi e sempre vai ser o meu primeiro! O meu primeiro! *O
meu primeiro anão!
