Ou "Um tratado sobre a antropofagia carioca*", do best-seller Manual do artista contemporâneo, de Felipe Barenco.
1. Mascando chiclete
É a escola dos espertinhos, dos atores marrentos. Você fala o texto assim, meio largadão, cheia de pausas preenchidas pelo mascar chiclete, como se tudo o que é dito tenha como sub-texto FODA-SE. Importante concluir toda fala com algum som, tipo "tsc", que remete poeticamente ao estourar da bola e casa com o piscar de um dos olhos, buscando a cumplicidade da platéia. Atores dessa escola geralmente são eles mesmos no palco e gostam de performances.
2. Tirando casquinha de pipoca do dente
É a escola dos atores descolados e que podem viajar pra Europa todo ano. Ao dizer o texto você deve causar a sensação no espectador que "fala pra pensar" ao invés de "pensa pra falar", como acontece nas escolas tradicionais. Um exercício básico pra isso é dizer o texto como se estivesse tirando alguma casquinha de pipoca presa no dente, sempre repetindo entre uma pausa e outra a última palavra da fala ou, quando mais experiente, a própria idéia. Mais ou menos assim "Maria, você disse que.... (tira casquinha de pipoca) ... Você está querendo dizer que..." O sub-texto básico pra essa escola é EU SOU FODA.
3. Comendo paçoca
Essa escola é para o número incontável de atores que tem "provleminhas de gicção" e se recusam terminantemente a procurar um fonoaudiólogo. Afinal, se defendem, "se o personagem sou eu e eu falo com uma pronúncia péssima, o personagem também deve falar assim". É uma questão polêmica bastante debatida por intelectuais de várias classes. O sub-texto pra essa escola não existe, afinal ninguém entende nada mesmo que eles falam!
4. Cuspindo caroço de jaca
Essa escola é dos atores que tem presença, se impõe, se colocam e falam alto, sempre. Geralmente berram no meio de uma fala pra chamar atenção. Afinal, são atores que interpretam como se estivessem comendo jaca, que é uma fruta ruim pra cacete. Tem que ter culhão. É a escola do famoso "pega o texto, põe na boca e joga fora!" Joga esse texto fora e não saboreia muito, não. Tem que ir colocando na boca e cuspindo, na boca e cuspindo. O foco não é o que o ator está dizendo, mas como ele está dizendo. O sub-texto é APLAUSOS. Geralmente esse tipo de ator leva uns amigos para ficarem aplaudindo (sozinhos) a cada tirada genial do colega em cena.
5. Sentindo o gosto do recheio do babaloo
É a escola dos atores que sentem. Cada palavra é muito, muito saborosa e eles aproveitam cada pedacinho do texto ao máximo, como se ao dizer a palavra estourasse na boca o caldinho do recheio do babaloo. O sub-texto pra esses atores é HUM, QUE DELÍCIA. Espetáculos com atores dessa escola costumar levar o dobro do tempo. Conseguem aproveitar absolutamente tudo do texto e os espectadores, nada.
6. Tomando sopa quente
Essa não é uma escola em si, mas o estágio em que começa quase todo ator. O ator iniciante tá muito ansioso pra falar, então ele fala rápido, correndo, doido pra se livrar logo do texto. Não está preocupado com o que diz, mas em se queimar. Cada frase é uma colherada de sopa quente na boca. O sub-texto é ÁGUA, ÁGUA! (por isso gesticulam bastante!)
7. Chupando tic-tac
Essa é para atores dos cursos de TV. O exercício para chegar a sofisticação desse nível de interpretação pode ser alcançado chupando uma balinha tic-tac na ponta dos lábios, o que causa a exata impressão de apatia, de estar tão natural em cena que parece nem estar ali. É a escola da "refrescância 24h com menos de uma caloria" (arram, arram). O sub-texto é MEU PAI É RICO E VEM ME BUSCAR DE CARRO. Alguns desses atores nascem diretamente no teatro e montam cias no estilo "humor-blasê-carioca-contemporâneo", montando espetáculos de humor onde não se pode rir alto porque é falta de educação.
8. Comendo algo que você nunca provou
Esse exercício é para quem quer se aventurar no teatro infantil. É um pouquinho mais complicado, porque trabalha com o lúdico, com a imaginação. Requer que o ator diga o texto como se estivesse saboreando algo muito gostoso pela "primeira vez amiguinhos!!!", trazendo uma expressão viva e olhos bastante arregalados. Orientais não são bem-vindos. O sub-texto é MONEY, MONEY, MONEY. Faz parte da mesma escola do babaloo, só que naquele caso falamos em interiorização e neste exteriorização de sentimentos. (Dica - se for fazer um vilão, do tipo bruxa ou lobo mau, basta imaginar que está comendo algo que você nunca comeu e o gosto é ruim).
9. Segurando o arroto
Por fim, um exercício simples e eficaz para os atores que sonham com os musicais. Você diz o texto postado e armado, como se estivesse em constante estado de alerta, segurando um arroto que não pode sair. Isso gera um estado no corpo de atenção e você caminha como se fosse um fantoche. "Arrotar" é a metáfora para "cantar".
*Dedico este texto a todos os atores que não se levam à sério.