Sábado, 31 de Maio de 2008

JÉSSICA E SEVERINO de Renata Mizrahi

Uma mulher no guichê atendendo.
Aparece um pai com sua filha
Eles esperam um pouco e escutam a voz da mulher do guichê.

MULHER DO GUICHÊ - O próximo!

Eles vão até ela.

PAI - Oi, tudo bem? É que a minha filha tá muito doente, e eu gostaria que ela fosse atendida o mais rápido possível.

MULHER DO GUICHÊ - Claro, sem problemas. Preencha essa ficha que em alguns momentos vamos atendê-la.

PAI - É que ela tá muito mal. Eu tô achando que é dengue hemorrágica.

MULHER DO GUICHÊ - Fique tranqüilo, daremos toda a assistência necessária. Só vai ter que esperar um pouquinho.

PAI - Um pouquinho quanto? Meia horinha?

MULHER DO GUICHÊ - O tempo necessário que o nosso hospital comporta.

FILHA - Papai, tá tudo escuro.

PAI - Calma, minha filhinha, a moça disse que logo, logo você vai ser atendida. (para a mulher do guichê) Não pode ser agora?

MULHER DO GUICHÊ - Já preencheu a ficha?

PAI - É pra colocar o nome?

MULHER DO GUICHÊ - O senhor não sabe ler?

PAI (envergonhado) - Não deu pra aprender não.

MULHER DO GUICHÊ - Seu nome e o dela.

PAI - Ah! Severino da Cruz Onório e Jéssica da Cruz Onório.

MULHER DO GUICHÊ (escreve) – Ótimo, agora espera.

PAI - Mas...

MULHER DO GUICHÊ - O próximo.

(Ele se afasta e vai até a filha.)

PAI - Calma filhinha, papai tá aqui. Fica bem.

MULHER DO GUICHÊ - O senhor tá atrapalhando a passagem. Pode tirar sua filha daí?
PAI - Sim, senhora. (ele afasta a filha)

FILHA- Papai, não tô agüentando...

PAI - Agüenta sim, filhinha, eles já vão te atender.

MULHER DO GUICHÊ - O senhor ainda está atrapalhando.

PAI - Ah! Desculpe. (ele afasta mais a filha)

MULHER DO GUICHÊ - O senhor poderia ir mais pra perto da porta? É que como você pode ver, tá lotado.

PAI - Ah! Entendi.

(Ele leva a filha pra perto da porta)

FILHA- Papai, aqui tá frio.

PAI (para a mulher)- Olha, aqui não dá não. Tem corrente de ar.

MULHER DO GUICHÊ - Se o senhor quiser que ela seja atendida, vai ter que ficar aí.

PAI - Tá.

PAI - Filha, aguarda só um pouquinho que é pra você ficar boa.

FILHA - Tô com muito frio

(ele tira a camisa)

PAI - Toma a minha camisa, vai melhorar rapidinho.

(De repente eles escutam uma gravação de uma marchinha de campanha política)

Marchinha com várias vozes - Quanta alegria, paz, amor, sabedoria. É o governo Sergio Méier! Sergio Méier faz obra, Sergio Méier faz show, Sergio Méier é o melhor governo que o Estado pode ter! É Sergio Méier pra reeleição.

(Assim que acaba a música, a menina tosse e começa a sangrar pela boca. O pai fica desesperado e vai em direção à mulher do guichê, mas no exato momento aparece uma moça com roupa de campanha política, cheia de bótons e filipetas. A moça aborda ele com um sorriso forçado)

MOÇA - Oi, posso obter um minuto da sua atenção?

PAI - É que a minha filha...

MOÇA - Que menina bonitinha! Quantos anos?

PAI - Nove...

(A menina tosse mais)

MOÇA - O senhor conhece o trabalho do candidato para reeleição, Sergio Méier?

PAI - Desculpe, moça, mas eu tô precisando...

MOÇA - O senhor sabia que Sergio Méier foi responsável por empregar mais de cento e oitenta mil trabalhadores em projetos de obras para as ruas de Ipanema e Leblon?

PAI – Desculpe, é que...

MOÇA - E que batalhou pra aprovação pela melhoria do calçadão de Copacabana, nosso cartão postal brasileiro?

PAI - Bacana, mas...

(A filha tosse e sai mais sangue)

MOÇA - E que também divulgou o carnaval, a maior festa mundial, nos países orientais, fazendo com que nosso turismo crescesse em setenta por cento só nesse ano?

FILHA - Papai, ainda tô com frio.

MOÇA - Que menina bonitinha

PAI - Ela tá cuspindo sangue.

MOÇA - Que amor!

PAI - A moça pode emprestar o casaco?

MOÇA – O meu casaco da campanha?

PAI - É que a minha filha continua com frio...

(Antes de ele completar essa frase, ela já foi embora)

MULHER DO GUICHÊ – Seu Severino!

(Ele vai pro guichê todo animado)

PAI - Já tá na hora? Pra onde eu levo ela? Cadê o médico?

MULHER DO GUICHÊ - Ainda não está na hora. O senhor não pode ficar sem camisa nesse estabelecimento.

PAI - Oi?

MULHER DO GUICHÊ - Isso mesmo que o senhor ouviu. Não pode ficar sem camisa nesse estabelecimento.

PAI - Mas...

MULHER DO GUICHÊ - Me desculpe, se o senhor permanecer sem camisa, sua filha não poderá ser atendida.

PAI - Mas a minha filha...

MULHER DO GUICHÊ - Essas são as normas. Se o senhor quiser ficar sem camisa, vai ter que se retirar do estabelecimento.

PAI - Mas...

MULHER DO GUICHÊ - Eu já estou riscando o nome dela da lista de espera.

PAI - Não! Não! Eu coloco a camisa, eu coloco. Mas por favor, pede para não demorar.

MULHER DO GUICHÊ - Eu sou apenas uma funcionária , minha única responsabilidade é de preencher as fichas de atendimento

PAI - Filhinha, papai vai ter que colocar a camisa dele, tá?

FILHA - Eu tô com muito frio, papai.

PAI - Eu sei, mas é que pra você ser atendida e ficar boa logo, o papai vai ter que colocar a camisa dele. Agüenta só um pouquinho, tá?

FILHA - Só um pouquinho, papai?

PAI - Você não vai nem perceber.

(A filha tosse e sai mais sangue. Pai vai desesperado até o guichê)

PAI - Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, chama o médico, ela só uma criança, não agüenta, moça. Por favor, por Jesus, por Nossa Senhora, por favor...

MULHER DO GUICHÊ - Por gentileza, não toca em mim.

PAI - A senhora não tem compaixão?

MULHER DO GUICHÊ - Meu senhor, eu trabalho aqui há mais de trinta anos. Eu já nem sei mais o que significa essa palavra.

PAI - Deixa eu falar com o médico!

MULHER DO GUICHÊ - O médico tá ocupado com outro paciente, ele não vai nem te dar ouvidos.

(a filha tosse bem alto)

PAI - Vai sim, vai sim!

MULHER DO GUICHÊ - É o que todo mundo diz.

(a filha tosse mais alto)

PAI - Então, o que aquela Santa tá fazendo ali?

MULHER DO GUICHÊ - Santa? Ah! Eu já tinha esquecido que tinha Santa. Coitada, tá toda empoeirada.

PAI - Isso aqui tá parecendo o inferno.

MULHER DO GUICHÊ (rindo como um diabo) - Isso aqui é um hospital público. Próximo!

FILHA- Papai, eu quero ir pra casa.

PAI- Agüenta filha, agüenta filha, agüenta.

FILHA- Vamos pra casa, papai?

(O pai começa a rezar pra Santa, desesperado)

FILHA- Vamos pra casa.

(O pai continua rezando. De repente aparece o médico.)

Médico- Jéssica da Cruz Onório.

PAI - É minha filha, é minha filha! Valeu Santinha. Filhinha é a sua vez. Vai ficar boa! Vai ficar boa! Filhinha? Filhinha? Filhinha, responde pro papai! Filhinhaaaaaaaa!!!

FIM

MARIA, SERIAL KILLER DE NAZARÉ! de Larissa Câmara

“Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,

bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus.”

Maria e José tomando café da manhã – clima de comercial de margarina (a melhor da Galiléia!)

JOSÉ: Cancún?

MARIA: Oi. Perdão?

JOSÉ: O que você acha de passarmos nossas férias de fim de ano em Cancún?

MARIA: Poderemos economizar ficando na casa da minha irmã, Guadalupe.

JOSÉ: Melhor não. Na verdade, não gosto do México.

MARIA: Podemos ir para o Brasil visitar minha outra irmã.

JOSÉ: Nossa senhora! Ela é muito Aparecida!

MARIA: O que você quer?

JOSÉ: Quero fechar um pacote com a agência de turismo. (Pausa) O que foi?

MARIA: Aconteceu de novo.

JOSÉ: O quê?

MARIA: O que acontece sempre. Ele apareceu...

JOSÉ: Ele quem?

MARIA: Ele!

JOSÉ: Gabriel?

MARIA: Tão loirinho!

JOSÉ: Episódio clássico...

MARIA: Um anjo!

JOSÉ: ...da anunciação.

MARIA: Príncipe do céu!

JOSÉ: Com aquela conversa mole que te agrada: Eu te saúdo, cheia de graça... bendita és tu entre as mulheres.

MARIA: Ele disse: Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de JESUS.

JOSÉ: Virgem Maria!

MARIA: E ele continuou: O ESPÍRITO SANTO virá sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado FILHO DE DEUS".

JOSÉ: Meu nome é José. (Pausa) O que os vizinhos vão pensar?

Maria - O que os vizinhos vão pensar? Você acha que eles não desconfiam de nada? 25 de dezembro recebemos três reis magos, ganhamos presentes. Não tenho mais aonde guardar ouro, incenso e mirra.Vamos fechar a sua carpintaria e abrir uma loja esotérica!

JOSÉ: Maria, descendente do rei David, gerada por Joaquim e Ana, Maria de Nazaré, nascida em Nazaré, criada nas proximidades do mar mediterrâneo, na Galiléia, norte da Palestina. (Muda tom) Eu não quero esse filho.

MARIA: Eu sou a serva do SENHOR; faça-se em mim segundo a tua palavra.

JOSÉ: Faremos o de sempre.

MARIA: José carpinteiro da casa de Davi, filho de Abraão, gerado por Jacó, viúvo de Débora, pai de quatro filhos: Matias, Simão, Eleazar e Judas que não é o Iscariotes. (Muda tom) José, seu nome é vaidade. A cruz que você faz é bonita, mas dá muito trabalho pregar o menino.

JOSÉ: Mas, a cruz fica linda!

MARIA: Todo ano a mesma coisa.

JOSÉ: A vida é feita de recomeços.

MARIA: (Sofrida) Irei ao posto de saúde. Direi que perdi o bebê. Ninguém vai acreditar... Todo ano temos um filho Jesus nascido em 25 de dezembro... (Irritada) Já começo a ouvir os deboches nos corredores: Pílula anticoncepcional de farinha de novo, Maria? Maria é teimosa, insiste no mesmo nome. Que tal um livro de nomes para o bebê? (Pausa) Só de pensar me cubro de angústia. Sufoco, escuto um grito: corações ao alto! E...

JOSÉ: E uma espada trespassará a tua própria alma a fim de que se descubram os pensamentos de muitos corações?

MARIA: (Num delírio sincero) Fecho os olhos e vejo um mar vermelho, vermelho sangue que se divide em dois. As ondas ecoam: ASSASSINA! Uma multidão me persegue com muitas pedras na mão gritando em coro: Maria, Serial Killer de Nazaré!

JOSÉ: (Quebra em outro tom) Como esconderemos o cadáver?

MARIA: (Saindo do delírio em outro tom) E se ele ressuscitar no terceiro dia?

JOSÉ: Faremos o de sempre.

MARIA: (Animada) Sim, compraremos chocolate!

(Os dois se abraçam)

José (Sussurra gentil) – Estando para ser entregue e abraçando livremente a paixão, ele tomou o pão partiu e deu graças... (Entrega fatia de pão para Maria)

MARIA: (Romântica recebendo a fatia de pão) A minha alma engrandece o Senhor. (Pausa. Sedução libidinosa.) Vinde, Espírito Santo, e enchei os corações dos vossos fiéis, e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai, Senhor o vosso Espírito, e tudo será Criado, e renovareis a face da terra.

FIM

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

O ASSASSINATO SUICIDA de Julia Spadaccini

Laura – Mulher de 40 anos.

Analista – Mulher de 35 anos.

Laura deitada num divã.

Laura – Eu vim aqui porque estou no limite.

Analista – Sim.

Laura – No limite do limite.

Analista – Sim.

Laura – No limite da beira do abismo.

Analista – Sim.

Laura– Sim, o quê?

Analista – Sim.

Laura– Não acredito que vir aqui irá mudar alguma coisa, mas preciso de ajuda e achei melhor um psicanalista do que um delegado.

Analista – Sei.

Laura – Apesar de confiar mais num delegado do que num psicanalista.

Analista – Sei.

Laura – Sabe o quê?

Analista – Sei.

Laura – Ia me denunciar, me entregar para a polícia, mas acho que ela merece uma chance antes que eu cometa o assassinato.

Analista – Ela quem?

Laura – A vítima.

Analista – Você vai matar alguém?

Laura – Vou.

Analista – Quem?

Laura – Uma pessoa.

Analista – Que pessoa?

Laura – A pessoa mais cruel que já conheci.

Analista – Quem é essa pessoa?

Laura– A que mora dentro de mim.

Analista – Como?

Laura – Vou matar a pessoa que mora dentro de mim há 10 anos e já está fazendo casa com vista para o mar.

Analista – E quem é a pessoa que mora dentro de você?

Laura – Eu não sei, mas está cada dia mais presente. Ontem recebi a fatura do cartão de crédito e vi que ela havia gasto 350 reais numa pochete de couro. Eu nunca usei pochete. Acho pochete a coisa mais triste que existe. Toda vez que vejo alguém de pochete fico com um nó na garganta.

Analista – O seu pai usava pochete?

Laura olha para os lados, paranóica.

Laura – Ela esteve aqui?

Analista – Como?

Laura – Como você sabe sobre a pochete do meu pai?

Analista – Eu não sei.

Laura – Não acredito que ela veio aqui antes de mim. O que ela te disse? Não acredite, hein? Ela é capaz de qualquer coisa para se livrar de mim, é perigosa. Outro dia meu porteiro me viu beijando de língua o homem do 603 no elevador, pelo circuito do prédio. Imagine só! Foi ela! É claro! Eu jamais faria isso! O vizinho do 603 é o homem mais nojento do bairro. Barrigudo. Usa camisa Pólo, tenho repulsa a camisa Pólo. Quando vejo aquele jóquei em cima do cavalinho tenho ânsia.

Analista – Seu pai se vestia com camisas Pólo?

Olha para os lados.

Laura – Ela esteve aqui. Tenho certeza. Ela está te pagando tão bem quanto eu? Vai dar ouvidos aquela depravada. Eu mato. Juro que mato!

Analista – Laura, não tem ninguém morando dentro de você.

Laura – Tem sim! Está morando em mim desde o meu aniversário de 27 anos. Eu era linda, tinha um futuro brilhante, mas essa pessoa se alojou em mim e desde então as coisas não acontecem como deveriam, entende? Não há outra explicação, ela está em mim, todos os dias. Eu pensava no meu destino e ficava orgulhosa. Tapete vermelho, um marido lindo, filhos. E até agora nada. Nada. Nem um namoradinho. Ela espanta. É chata, um tédio. Deu para beber, acordo de ressaca todos os dias. Tem mania de parar na confeitaria da esquina e se empanturrar de bombas de chocolate. Estou vestindo calça número 48 por causa dela.

Analista – Laura, essa pessoa é você mesma.

Laura – Você está do lado dela?

Analista – Estou do seu lado.

Laura – Está do lado dela. Estão armando contra mim, é isso? Querem me convencer de que sou maluca e assim ela ganha espaço e acaba me tomando por inteira. Estou sentindo que tenho pouco tempo, muito pouco. Depois dos 35 anos piorou. Tenho fios de cabelos brancos espalhados pela cabeça. Eu olho no espelho e não me enxergo mais. Tudo que consigo ver é a feição dessa mulher, cheia de rugas e entradas. Imagine que meus seios que antes olhavam para o céu, alegres, agora vivem deprimidos. Não posso mais, quero voltar a ser inteira. Vou matá-la amanhã, quando acordar e ela ainda estiver dormindo. Estrangulo e pronto. Volto para mim! Volto para mim!

Analista – Vou te passar um calmante.

Laura – Está vendo! Foi ela que pediu, não foi? Você é amiga dela? Não é possível que a tenha preferido. É uma fresca! Não gosta mais de sair a noite. Usa sunquíni, imagina isso? Ninguém mais usa sunquíni! E você acha que ela tem razão? Por que não receita um remedinho para ela?

Analista – Laura, sua hora acabou.

Laura – Tá vendo... tô dizendo que minha hora chegou.

Analista – Estou falando da análise. Acabou.

Laura - Como acabou? Você vai me deixar ir embora assim? E se ela tentar me estrangular no meio da noite? E se acabar comigo de vez? Para onde eu vou?

Analista – Pensei que fosse você que queria matá-la.

Laura – Você está querendo me confundir? Quer me enlouquecer também? Ela te pagou para isso? Aquela senhora? Te pagou?

Analista se aproxima.

Laura – Não toca em mim! Não coloca a mão!

Analista - Calma Laura.

Laura – Calma? Estou te dizendo que tenho um hospedeiro dentro de mim e você pede calma? Estou dizendo que tem uma senhora gorda invadindo o meu ser e você pede calma? Estou dizendo! É a pura verdade! Pergunte para os meus amigos, para a família. Pergunta para o meu porteiro. Não sou eu! Eu estou indo embora e essa senhora vai tomar o meu lugar para sempre! É melhor avisar a população de que essas pessoas estão invadindo a gente. Quando você vê, pronto, foi embora sem conseguir se despedir. Desaparece e ninguém se lembra de como você era.

Analista olha para um lado e para o outro.

Analista – Tem certeza?

Laura – Do que?

Analista – Dessas pessoas.

Laura - Absoluta.

Analista - Podem entrar em qualquer um.

Laura - Em todos. Por que?

Analista – Porque eu sinto que tem um homem morando dentro mim desde o ano passado.

Analista tenta agarrar Laura que sai correndo desesperada.

FIM.

Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

MATADOR DE SANTAS de Jô Bilac

Mulher, na média dos trinta e poucos.

Homem, na média dos quarenta e tantos.

(depoimento policial. Uma sala escura, com um foco vindo de uma luminária digna dos filmes dos anos 40. Uma mesa, uma mulher apoiada nela. A mulher tem um aspecto ordinário e os cabelos tingidos, combinando com o tom de suas unhas. Do outro lado está o investigador, com um ar sexy decadente, cenho fechado)

Mulher: (séria, tensa) Então, é como estou dizendo pro senhor: o camarada arranhou meu carro inteiro só porque eu reclamei dele com o síndico! (conclusiva) Ele é doente. Do-en-te! (recalcada) Então eu não posso ficar incomodada e reclamar? Eu tenho que agüentar calada a zona que ele faz na alta madrugada! (confidencia) Porque é zona, né? Desculpa o palavreado, mas é isso que é. É um entra e sai daquela casa, que eu nem sei! (mais confidencial) Às vezes eu acho que ele tem até envolvimento com tóxico. (cínica) Eu não estou afirmando nada!Longe de mim! Não gosto de fofocas, nem tenho nada haver com a vida dos outros. Não quero meu nome em boca de Matilde! Mas eu tenho certeza que foi esse sujeitinho que arranhou meu carro!Sacanagem, né? A gente da um duro danado e vem alguém e faz isso? Mas eu não sou jogral! (tempo) Não sou! Não sou mesmo! Está muito enganado. (desafiadora) Um dia, acordo com ovo virado, me encho de coragem_ dessas de mãe que tira filho da boca de jacaré_ e parto pra ignorância. Mas aí... (dissimulada) Aí eu vou estar errada, né? Vou perder minha razão. Vão falar que eu surtei e não fui civilizada! Civilizada... Eu sou muito civilizada, civilizada até demais da conta! Mas o negócio nesse país é isso mesmo, o certo é o errado e o errado é o certo e eu que me foda. (muda o tom) Ai, desculpa! Perdão! Ai, o que o senhor vai achar de mim... ? Mas é que estou muito nervosa! Olha o meu estado (indica a mão trêmula) Meu carro! Todo arranhado! Não dá! (num choro, revolta) Dei um duro danado. Consórcio. Demorou pra chuchu! Aí vem um camarada e faz isso? E tem mais: hoje é o carro, amanhã é o que? Porque esse tipo de gente não tem limite! Vai que ele, sei lá, joga ácido na minha cara? Como é que eu fico? Deformada, né! E paciência!

Investigador: Mas que ligação que tudo isso tem com o matador de santas?

Mulher: (digna) Nenhuma.

Investigador: (natural) Então?

Mulher: Então.

Investigador: O que a senhora veio fazer aqui.

Mulher: dar queixa do meu vizinho, que suspeito ter arranhado meu carro.

Investigador: Escuta.

Mulher: Estou escutando.

Investigador: Volta quarta feira.

Mulher: Quarta não da, estou mais enrolada que carretel.

Investigador: A senhora preenche a ficha lá fora e está registrada a queixa. Certo?

Mulher: Certo certo, não, né? Eu quero proteção, esse cara é louco.

Investigador: A senhora tem nome de santa?

Mulher: Não que eu saiba.

Investigador: Então não corre risco. Ao que tudo indica o matador de santas só mata mulheres com nomes de santa, se você não tem, não precisa de escolta.

Mulher: Pouco me importa o matador de santas. Estou me lixando! Me refiro ao meu vizinho mau caráter, ele sim é mais perigoso que qualquer psicopata americano. Preciso de proteção!

Investigador: Tá pensando que é assim? Chegar, pedir e receber? Isso aqui não é a caixa econômica! E demais a mais, se quiser proteção procure no centro de macumba!!!

Mulher: O senhor não levante a voz comigo, pois até agora não dei um ai.

Investigador: (impaciente) Olha.

Mulher: (abusada) Estou olhando.

Investigador: Não é esse o enredo do samba, minha senhora! Existe um maníaco perigoso a solta, estrangulando jovens com nome de santas. Um louco! Um rosto obscuro e silencioso, um gato entre os pombos, uma mente fria e sádica, que nesse exato momento fareja sua próxima vitima. E se nós não fizermos nada, ou nos ocuparmos com rixas bélicas entre vizinhos, mais uma jovem chamada Bárbara ou Lúcia ou Madalena, será encontrada morta numa esquina, estrangulada por sua própria meia calça!

Mulher: (ruminando, ofendida) Respeito é bom e eu gosto!

Investigador: Ninguém aqui está desrespeitando a senhora.

Mulher: Está me desrespeitando sim! Na condição de cidadã me sinto profundamente desrespeitada! Eu não sou santa, mas mereço atenção no meu caso. Gente maluca tem à balde. (numerando nas unhas descascadas) Hoje é um doido que mata mulheres bíblicas, amanhã é um outro que mata as que fumam hollywood filtro amarelo, depois :as que gargalham jogando a cabeça pra trás, depois: as que comem com a boca aberta, as que nunca tiveram um gato, as que possuem uma jaqueta de veludo, e por aí vai. Haverá sempre uma lógica e sempre alguém padecendo por ela. Mas que remédio? Tem quem mata e tem quem morre e é isso: pronto, acabou. Mas o meu caso é muito claro e simples, não há mistérios e muito menos uma voz rouca ao telefone: está tudo muiiiito evidente.

Investigador: Mas fala.

Mulher: Estou falando!

Investigador: Acredita mesmo que possa acontecer uma retaliação do seu vizinho? Uma agressão física, Vingança?

Mulher: Capaz. Ele é descendente de turco. Essa gente é muito vingativa.

Investigador: Mas se a senhora não tem provas, sinto muito! Não posso fazer nada!

Mulher: Então será preciso eu voltar aqui, toda esculhambada pro senhor me dar ouvidos, é assim?

Investigador: Se é isso que a senhora entende por prova...

Mulher: Olha o meu estado! Creio que isso já é prova suficiente! Será que o senhor não consegue entender? Eu Morro de medo! Aquele homem vem me seguindo pela rua, por onde quer que eu vá! Noutro dia mesmo, peguei o camarada me observando pelo olho mágico.

Investigador: Como assim?

Mulher:Ele mora de frente pro elevador. Enquanto espero, eu sei que ele me observa. Me analisa. Está estudando meus passos. Sabe exatamente a hora que saio e a hora que chego. Eu sou sensitiva. Esse camarada não vale um torrone. Sabe que eu fiz a reclamação pro síndico e sabe que eu sei que foi ele que arranhou meu carro. Estou ou não estou em risco?

Investigador: (levantando, indicando a porta) Sinto muito, mas creio que o nosso tempo já ultrapassou os limites. Tenho que trabalhar.

(silêncio)

(Mulher sentada, fitando o nada, desapontada)

Investigador: Senhora.

Mulher: (num fiapo de voz) Eu já vou. Me dá um minuto.

Investigador: Sinto muito, mas infelizmente, a senhora precisa ir embora.

Mulher: Eu não sou esse monstro egoísta que o senhor imagina.

Investigador: Eu não imagino isso.

Mulher: Imagina sim, que eu sei. Mas eu não sou. (emocionada, transportada) Me importo com essas meninas estranguladas. De verdade. A maldição de ter um nome santo. Ter na garganta a finitude do desejo alheio de matar. Mas acredito que quem o faça, o faz por uma homenagem divina, quase infantil. Tem pureza. É organizado. Deve ser lindo esse homem matando essas meninas. Lindo, ouviu?! Ele deve ter tanto respeito ao matar, mas tanto, que deve até pedir “por favor”! Sim! Esse homem pede ”por favor” quando vai matar! Quisera eu ter uma morte alinhada como essa, com alguém te pedindo “por favor”! E não algo vergonhoso, como o meu vizinho esfolando a minha cabeça no chapisco! Eu não quero ter a minha cabeça esfolada no chapisco!

Investigador: A polícia está muito ocupada em resolver crimes, se cada um que chegar aqui e pedir proteção por conta de algum desentendimento com alguém, haja índio nessa tribo.

Mulher: O senhor procura por um criminoso, sim? Pois então: prenda esse homem!

Investigador: A senhora precisa de provas pra acusar alguém, sem isso, repito: não posso fazer nada...

Mulher: Pois esse homem matou o meu juízo. (exaltada como um gorila) Não pode ser preso por isso? Existe crime maior que esse?

Investigador: (irritando-se) A senhora se segure, pois não está em sua casa!

Mulher: (num descontrole novelesco) Exijo uma sentença! Este homem não pode estar a solta! Este homem é um criminoso! Exijo uma sentença!!!!

Investigador: Ou bem a senhora se ordene ou serei obrigado a tomar medidas drásticas!
Mulher: (berrando, jogando a mesa no chão, espumando) Justiça! Eu quero justiça!!! Eu não saio daqui sem proteção!!! Eu não saio!!! Aquele homem é um criminoso!!! Aquele homem assassinou a minha sanidade! Aquele homem assassinou a minha sanidade! A minha sanidade! Assassino! Assassino!!!!!! Assassino!!!!!!!!!!!!!!!!!

(presa por desacato a autoridade.)

Fim.

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

CONGRATULATIONS SORRY de Felipe Barenco

Prólogo

Toca o telefone.

- Alô...

- (sempre simpática, feliz e sorridente) Alô! Com quem eu falo?

- Quem deseja?

- (como quem está lendo o nome) A senhora Maria Aparecida do Nascimento. Está?

- É ela.

- Dona Maria Aparecida, bom dia! A senhora é uma mulher de sorte. Estamos ligando pra lhe dar uma excelente notícia!

- (entusiasmada) Jura? É da Nestlé?

- A senhorita Inês do Nascimento respondeu nosso cadastro na semana passada...

- Inês é a minha irmã!

- ...e ela indicou seu nome! Maria Aparecida do Nascimento, a senhora acabou de ser sorteada com um prêmio fantástico.

- Ai, gente! Não tô acreditando!

- Você acaba de ser contemplada com...

- Ahn?

- Com....

- Ahn?!

- Com dez...

- Ahn?!!! Dez mil...

- Com 10% de desconto na mensalidade e todo material grátis caso a senhora esteja se matriculando agora no nosso curso de inglês Congratulations Sorry. Não é incrível?

- (um poço de decepção) Aham.

Um longo silêncio.

- E especialmente hoje, estamos com uma promoção im-per-dí-vel! Se a senhora estiver se cadastrando no modo Easy-English-Now a senhora estará ganhando, totalmente grátis, os 6 primeiros meses para o seu filho, o curso preparatório Fantasy-Baby-English-Now.

- Não tenho filhos... (quase desligando) Não vou querer, não.

- Mas Dona Maria Aparecida...

- Não, obrigada.

- Ok, ok, Maria Aparecida! Neste exato momento seu desconto acaba de aumentar! Nossa gerência entende que você...

- Não quero.

- ...é cliente preferencial

- Eu já disse que não quero.

- ...e por isso, só hoje, atenção, SÓ HOJE, estaremos lhe oferecendo um super desconto de 20, eu falei 20%, no modo Easy...

- NÃO!

Ela desliga o telefone.

ROUNDS

Primeiro dia, primeiro round. As cenas acontecem na calçada entre um prédio e um curso de inglês.

Moça do cadastro - Posso falar com você um minuto?

Passante - Tô com pressa.

Segundo dia, segundo round.

Moça do cadastro - Posso fazer uma pergunta?

Passante - (grossa) Acabou de fazer.

Moça do cadastro - Quer responder o cadastro?

Passante - Não!

Terceiro dia, terceiro round.

Moça do cadastro - Posso falar com você um minuto?

Passante - Desculpa, tô com pressa.

Moça do cadastro - (perseguindo) É rapidinho!

Passante - (rendida) É muito rápido mesmo?

Moça do cadastro (robótica, feliz e sorridente) - Nós estamos sorteando bolsas de estudo para o curso de inglês Congratulations Sorry.

Passante - Estou com um pouquinho de pressa.

Moça do cadastro - É super rápido.

Passante - Ok...

Moça do cadastro - Seu nome?

Passante - Maria Aparecida do Nascimento.

Moça do cadastro - Telefone?

Passante - Na verdade eu já fiz curso de inglês, tô respondendo só pra ajudar...

Moça do cadastro - Quer indicar alguém?

Passante - (vingativa) A Inês. Minha irmã.

Moça do cadastro - (puxando-a pelo braço) Ok. Agora um de nossos funcionários irá atendê-la...

Passante - Não... eu tô atrasada!!!

(A passante é arrastada para dentro como quem vai para a cadeira elétrica.)

Quarto dia, quarto round.


Moça do cadastro - Posso falar com você um minuto?

Passante (ríspida) - Já respondi esse cadastro ONTEM!

Moça do cadastro (segura a passante pelo braço) - Mas...

Passante - “Mas” o quê minha filha? Quer soltar meu braço? Vou gritar, hein! Eu tô ficando louca, você não me conhece! Por que você não some daqui e desaparece com essa porra de cadastro? Que todo dia de manhã eu tenho que esbarrar com você. Não consigo mais dormir, eu deito pensando nessa merda e acordo de mal humor. Sai daqui! SAI DA MINHA VIDA!

(Trilha melodramática ao fundo)


Moça do cadastro - Desculpa... mas a senhora pode imaginar o que é ficar o dia inteiro em pé nessa calçada, morrendo de calor, tendo que correr atrás das pessoas pra responder apenas 3 perguntinhas? As pessoas me tratam feito um poste pra cachorro mijar... ninguém se percebe.

Passante - Eu não tenho nada com a sua vida.

Moça do cadastro - Eu fiz Faculdade, moça... isso aqui não é vida, não! Tenho que acordar 5h30 todo dia, pegar um trêm e um ônibus todo dia, ser simpática todo dia...

Passante - Não chora, não fica assim também. Eu fui um pouco grossa, me desculpa.

Moça do cadastro - A senhora sabia que eu tenho uma meta de 300 cadastros por dia... 300! E a senhora sabe quantos cadastros eu já fiz hoje? (chorando) UM!

Passante (sensibilizada) - Calma, calma... você quer um copo dágua?

Moça do cadastro - Não... ai, como eu sou infeliz!

Passante - Eu posso te ajudar de alguma forma?

Moça do cadastro -Responde o meu cadastro?

Passante (sai correndo horrorizada) - Aaaaaaaaaaaaaaaah!

Quinto dia, quinto round
.
A moça do cadastro está disfarçada de mendiga. Ao sair de casa, tranquila, a passante é abordada com um susto violento.

Moça do cadastro - Quer responder o cadastro?

Passante - Filha da puta, quer morrer! Escrota! Eu sou cardíaca!

Sexto Round. Toca o telefone.

- Alô...

- Alô! Com quem eu falo?

- (respira fundo) É do curso de inglês?

- Como adivinhou?

A passante larga o telefone e sai à rua hipnotizada, com um olhar fixo, como quem está cega e vai cumprir uma missão.

Moça do cadastro - Quer responder o cadastro?

(Silêncio)

Moça do cadastro - Nome?

(Silêncio)

Moça do cadastro -Telefone?

(Silêncio)

Moça do cadastro - Quer indicar alguém?

A passante mata a moça do cadastro com a própria prancheta.

FIM

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

AMÉLIA de Camilo Pellegrini

AMÉLIA- Sim senhora. Tenho plena consciência de que matei meu marido... Sim, senhora. Lembro-me de tudo perfeitamente... bem, quase tudo, como se fosse ontem... Ele estava sentado na poltrona lendo jornal e foi buscar um café na cozinha. O martelo eu achei na caixa de ferramentas. Quando ele foi apanhar a xícara, eu o acertei aqui, ó. (Aponta para sua cabeça num lugar um pouco acima da nuca.) Ele tremeu e soltou um gemido baixo, como se engolisse alguma coisa. Fiquei imaginando se ele estaria com algo na boca. Não, impossível. Ele tinha acabado de entrar na cozinha para pegar o café, não tinha tempo de ter catado nada para mastigar, eu o estava observando na sala e também não havia nenhuma comida ali e meu marido não mascava chicletes. Fiquei imaginando, então, se não teria engolido a própria língua. Logo vi que não, pois ele se virou berrando meu nome... (Informativa, para a platéia.) Amélia... eu me chamo Amélia. (Novo tom.) Foi aí que eu acertei na testa, bem aqui. (Aponta para a própria testa.) Fez um som tão engraçado, como uma vez quando eu e minha irmã estávamos debaixo de uma mangueira, e uma manga caiu bem do lado da minha irmã. A senhora acredita que a manga quase acertou a minha irmã? Por pouco que... (Pausa.) Foi sim um som bem engraçado, como um ploft, pleft, sei lá. Mais não pensei muito nisso não, por que logo vi o sangue. Fazia tempo que eu não via sangue. No meu parto, eu não vi sangue, foi cesariana sabe, não vi nada, não senti nada, até estava muito bem quando acordei, apesar da complicação, estava muito bem, queria muito ver a minha... ver Sofia. (Pausa.) Mas então, o sangue, bem, quando eu era pequena, eu desmaiava quando via sangue, imaginem! Mas eu não desmaiei não. Vi um traço de sangue escorrer rapidamente pelo rosto de meu falecido Arnaldo. Assim (mostra com o dedo sobre o rosto) pelo lado direito. A senhora não sabe como me chamou a atenção o fato da camisa que Arnaldo estava usando, muito branca e muito bem passada, impecável para falar a verdade, se tem uma coisa que eu sei fazer, senhora, é engomar uma camisa de maneira correta, difícil de se achar por aí, uma esposa que engome uma camisa tão bem como eu. Arnaldo se orgulhava muito... Bem, o fato era que a camisa branca de Arnaldo, muito branca devo dizer, ficou completamente vermelha do lado direito. Em poucos segundos, eu não havia nem dado a quinta martelada nele senhora, sua camisa estava pela metade vermelha, um vermelho muito vivo por sinal, um sangue claro, e a outra metade, branca. Logo depois, eu viria a dar-lhe a quinta martelada. Quinta? É isso? Deixe eu me lembrar, senhora, deixa ver, uma, duas, três... Isso mesmo, foi na quinta, ou sexta, que o sangue de meu marido espirrou em meu rosto. Senhora, devo confessar que sou uma mulher muito controlada. Raramente perco a minha paciência, e estava muito calma até o momento. Mas quando senti o sangue de Arnaldo no meu rosto, me senti ofendida e até um pouco frustrada. E aqueles gritos me incomodavam tanto! Por Deus estavam realmente começando a me incomodar. Foi por isso senhora, que a sexta martelada, ou sétima, foi certeira em sua mandíbula (faz o movimento como se acertasse um alvo imaginário pelo lado). O rosto de Arnaldo se contorceu de dor, ou seria apenas efeito dos ossos se partindo? Não sei. Talvez ele nem estivesse sentindo nada, não é mesmo, senhora? Dizem que quando a dor é muito grande... Bem, parar de gritar, ele parou, só gemia um pouquinho, mas agora diferente, como se estivesse se engasgando, meio que tossindo. Eu pensei “como Arnaldo é frágil, ele sempre foi um rapaz sensível”. Ele sempre foi muito sensível. Um rapaz sensível. Minhas amigas cochichavam pelos corredores na hora do recreio. “Nossa, esse namorado da Amélia é mesmo um rapazote sensível! Hi hi hi.” Eu não entendia bem, até que um dia eu comecei a entender. Não concordava, tentava me enganar, mas agora me vejo forçada a aderir a esta idéia de minhas antigas colegas. E não é que elas sempre estiveram certas, senhora? Como esse mundo dá voltas. Nunca iria imaginar que um dia eu reconheceria para mim mesma que aquelas meninas afetadas com as quais eu andava, as vezes, estavam com a razão? Eram afetadas sim senhora! Afetadíssimas, exibidas. Se achavam o máximo, e esbanjavam dinheiro. Eu nunca, senhora, mas andava com elas as vezes sim, o que é que tem? Uma delas, certa vez, até me alertou e foi mais direta. Quando voltávamos para casa, ela me disse “Amélia, toma cuidado com esse teu namorado que ele é meio... estranho (faz um gesto efeminado com a mão). Dei-lhe um soco na cara. Dei sim. Ela falou do meu Arnaldo e eu lhe enfiei a mão na cara. Caiu na lama e ficou chorando, nunca mais falou comigo, mas quem liga, não é mesmo? Eu não ligo, penso que a senhora também não ligue. A senhora parece ser uma mulher de fibra. Eu mesma me considero uma mulher de fibra. Deixei minha ex-amiga na lama chorando, sem o menor remorso. Imagina se ela me visse dando as marteladas em Arnaldo, ia falar no meu ouvido, bem baixinho “Eu não te disse? Eu não te disse? Olha só, o viadinho todo ensopado de sangue! Muito bem Amélia! É assim que se faz! Mostra para ele, Amélia!”. Sabe senhora, eu podia jurar que ouvi a minha amiga murmurando no meu ouvido essa hora. Uma voz esganiçada “ Eu não te disse? Eu não te disse?”. É, porque depois da oitava martelada, eu não lembro de muita coisa. Minha mente voou, voou, para bem longe dali. Vi o rosto dessa minha amiga, sorrindo perversa e toda suja de lama. Vi o rosto de minha mãe, tão triste e sozinha antes de morrer, vi o rosto de minha filha, minha linda Sofia. Linda! Tão parecida comigo mesma. Quando voltei a mim, Arnaldo já não existia mais. Quer dizer, seu corpo estava lá, seus braços e pernas, mas sua cabeça era agora uma enorme mancha que escorria pelo ralo da cozinha...

Domingo, 25 de Maio de 2008




2000 MULHERES de Rodrigo Nogueira (o texto é meu, não as mulheres)


Um apartamento. Dois amigos na faixa dos 25 a 35.

Um: Mas como é que isso foi acontecer?

Outro: Como assim acontecer?

U: Como é que aconteceu? Essa situação?

O: Eu é que vou saber?

U: É claro que é você que vai saber. Ela aconteceu com você!

O: Você perdeu sua carteira.

U: E daí?

O: Também aconteceu com você e nem por isso você sabe como perdeu.

U: É diferente.

O: A mesma coisa.

U: Perder a carteira é um evento isolado. A sua situação são eventos contínuos. Não é por acaso.

O: Mas acontece.

U: Acontece?

O: Aconteceu. Vem cá. Você vai me ajudar ou não vai?

U: Acho que não.

O: Por quê?

U: Eu não acredito em você.

O: Mas por quê?

U: Por que é uma história absurda.

O: Você perdeu sua carteira dormindo.

U: E daí?

O: Também é uma história absurda e nem por isso eu deixei de acreditar em você.

U: Mas como é que eu nunca soube?

O: Da situação?

U: Das mulheres. Como é que eu nunca soube das mulheres?

O: Eu sou discreto.

U: É mentiroso.

O: A troco de quê eu estaria mentindo pra você?

U: Pra me impressionar.

O: Pra quê?

U: Você me admira.

O: Vamos combinar uma coisa. Acredita em mim por um tempo preestabelecido.

U: Um tempo.

O: Dez minutos, pode ser?

U: Dez minutos?

O: Dez minutos. Acredita em mim pelos próximos dez minutos. Nesse tempo você tenta me ajudar. Com a minha situação. Depois, se você não estiver satisfeito com você acreditando em mim e na minha situação, você pode voltar a desacreditar em mim. E na situação.

U: Não entendi muito bem.

O: É um tempo de crédito que você ta me dando.

U: Tempo de crédito?

O: De dez minutos.

U: Pra acreditar em você.

O: Exatamente.

U: Eu não posso fazer isso.

O: Por quê não?

U: Crédito pra acreditar. É um crédito de crédito.

O: E daí?

U: Muito ruim. Crédito de crédito?

O: Ruim por quê?

U: Porque é feio. Soa mal. Eu nunca escreveria isso. E é redundância.

O: Redundância.

U: Pleonasmo.

O: Não é não. Só porque é uma repetição de palavras não quer dizer que é redundância.

U: Ah, não?

O: Não. Redundância é um reforço desnecessário de significados. Tipo subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro, conviver junto, encarar de frente, ganhar de graça, ter opinião pessoal, prefeitura municipal, projeto pro futuro, sorriso nos lábios, goteira no teto, estrelas do céu, países do mundo, almirante da marinha, general do exército e brigadeiro da aeronáutica. Crédito de crédito não é redundância. É outra coisa.

U: É o quê, hein? Hipérbole?

O: Acho que é hipérbato!

U: Ou catacrese?

O: Não, não. Anacoluto.

U: Zeugma, de repente...

Apartamento vizinho. Duas senhoras.

Senhora: Zigmund ,de repente?

Outra senhora: Não, não. Anacleto.

Senhora: Ou Catalão?

Outra senhora: Acho que é Hipólito!

Senhora: Eu não me lembro. Definitivamente não me lembro. Só sei que era um nome muito estranho.

Outra senhora: E vocês nunca mais se viram?

Senhora: Não. Mas foi melhor assim. A gente não conseguia conviver junto. Eu não podia ter opinião pessoal que ele me encarava de frente e o que eram estrelas no céu viravam uma goteira no teto.

Outra senhora: Ele era almirante da marinha, né?

Senhora: Não.

Outra senhora: Brigadeiro da aeronáutica?

Senhora: General do exército. Depois que ele saiu pra fora do Brasil nunca mais vi.

Outra senhora: Deve ter viajado por muitos países do mundo.

Senhora: É...

Outra senhora: Ele foi o último?

Senhora: Último e o primeiro. Dá pra acreditar? Ai, meu Deus. Como é que isso foi acontecer?

Outra senhora: Como assim acontecer?

Senhora: Como é que aconteceu? Essa situação?

Outra senhora: Não é você que tem que saber.

Senhora: Claro que sou eu. Ela aconteceu comigo!

OS: Eu perdi minha virgindade.

S: E daí?

OS: Também aconteceu comigo e mesmo assim eu não me lembro como foi.

S: É diferente.

OS: A mesma coisa.

S: A minha situação é uma história absurda.

OS: Eu perdi minha virgindade dormindo. Quer história mais absurda do que isso?

S: Você me ajuda?

OS: Com a sua situação?

S: É.

OS: Como é que eu vou te ajudar? Tudo o que eu tenho na vida é uma conta no Orkut e um celular de cartão com dez minutos de crédito.

S: Crédito de dez minutos?

OS: Dez minutos de crédito.

S: Crédito de crédito?

OS: Dez minutos de crédito.

S: Ah, tá. Crédito de crédito. Muito ruim celular de crédito.

OS: É redundância.

S: O quê?

OS: Pleonasmo. Celular de crédito ruim é redundância. Celular de crédito por si só já é ruim.

S: Crédito de crédito.

OS: Mas e a sua situação? Como a gente resolve a sua situação?

Apartamento 1

Outro: Como é que eu resolvo a minha situação?

Um: Eu vou te dar.

Outro: O quê?

Um: O crédito. Eu vou te dar o crédito.

Outro: O crédito de crédito?

Um: Começando agora.

Outro: Jura?

U: Você tem nove minutos e cinqüenta e seis segundos.

O: Ta bom, ta bom. Você ta acreditando em mim?

U: To.

O: Então você acredita na minha situação?

U: Claro. Eu acredito.

O: Mesmo?

Um: Sim. Eu acredito que você comeu uma mulher diferente todos os dias da sua vida desde que você perdeu a sua virgindade.

O: Eu sei que é estranho.

Um: Que não se tenham passado 24 horas sem que você não tivesse transado desde o momento em que você praticou sexo pela primeira vez.

O: Aconteceu.

Um: Que você tenha tido religiosamente em todos os quadrinhos do calendário uma relação coital com parceiras múltiplas a partir do momento que a sua glande travou um contato inédito com dois pequenos lábios e o seu pênis desbravou heroicamente um caminho em direção ao canal vaginal da infeliz mulher que te amaldiçoou com esse drama diário.

O: Ironia não ajuda.

U: Eu não estou sendo irônico.

O: Drama diário.

U: O quê?

O: Você descreveu bem. É um drama diário o que eu vivo. Transar com uma mulher diferente todos os dias. Um drama diário.

U: Drama diário. Acho que eu já ouvi isso em algum lugar.

O: Eu sempre fico com medo de não conseguir a mulher do dia entendeu? Como se eu não trepasse com uma mulher nova naquele dia o meu mundo fosse acabar.

U: Drama diário, drama diário.

O: É uma pressão. Teve uma vez que eu só consegui transar às onze e cinqüenta e oito da noite.

U: Drama...

O: Eu não agüento mais.

U: Diário.

O: Quer parar de ficar repetindo isso?

U: Por quê?

O: Sei lá. To achando esquisito.

U: Esquisita é a sua situação.

O: Eu não sei mais o que fazer.

U: Peraí. Quantas mulheres você já comeu?

O: Então. Essa é que é a questão.

U: Ah, ta. A questão.

O: Ontem, eu comi a milésima novecentésima nona.

Pausa

O: 1999!

U: Ah, 1999. (Pausa) 1999?

O: É.

U: Você tá me dizendo que você comeu 1999 mulheres?

O: Fala mais alto que não te ouviram em Niterói!

U: Mas sendo uma por dia isso dá...

O: Cinco anos sete meses e dezenove dias. Eu como diariamente uma mulher diferente desde os últimos cinco anos, sete meses e dezenove dias.

U: Mas isso que dizer que você só perdeu a virgindade há cinco anos?

O: É.

U: Começou tarde, hein.

O: Não vamos focar nessa parte da história senão fica inverossímil.

U: Ta.

O: O caso é que eu comi 1999 mulheres diferentes. E agora que ta chegando na de número 2000 eu não sei... eu acho que eu não vou conseguir... Eu também não quero mais isso pra mim. Dá trabalho. Administrar tanta mulher assim. E os caderninhos...

Um: Que caderninhos?

Outro: Cada uma é registrada com nome, número de telefone e comentário sobre a noite.

U: Você tem um catálogo das mulheres que você comeu?

Outro: Tenho.

Um: E você organiza por quê? Ordem alfabética?

O: Não, peraí. Também não é assim!!! É por ordem de preferência...

U: Vem, cá. Você já pensou em fazer terapia?

O: Pra quê?

Um: Pra ser normal!

O: E perder todo meu charme?

Um: É inacreditável. Você deve ter comido todas as mulheres que a gente conhece, né?

Pausa

Um: Você deve ter comido todas as mulheres que a gente conhece, né?

Outro: Você acabou de falar isso.

Um: As minhas amigas, minhas ex-namoradas... Você comeu a Carlinha?

O: Que Carlinha? 843 ou 237?

U: A Carlinha minha irmã!

O: 352...

U: A minha mãe!

Outro apartamento

OS: Ai, minha mãe. Você conta?

S: Anoto num caderninho. Todos os homens com quem eu tentei transar.

OS: Quer dizer que desde o Brigadeiro da aeronáutica...

S: General do Exército.

OS: Desde o general do exército que tirou a sua virgindade, nunca mais?

S: Nem um boquetinho, com o perdão da palavra. Parece maldição. Todos os dias eu tento. Há cinqüenta anos eu tento (pausa) dar, com o perdão da palavra. Mas nunca consegui.

OS: O que é que acontece?

S: Tudo minha filha, tudo. No início eu ficava esperando, sabe? Depois que o general foi embora eu queria o homem certo no lugar certo. Com o tempo eu cansei de esperar e comecei a me atirar pra cima dos homens mesmo. Mas na hora da coisa acontecer, sempre tinha um problema.

OS: Como assim, problema?
S: Uma brochadura aqui, uma falta de camisinha ali. Você acredita que teve até um que quebrou a perna tentando tirar a calça.

OS: Nossa, mas como é que ele conseguiu?

S: Não sei. Mas empatou a foda. Com perdão da palavra. Eu já tentei de tudo. Agência matrimonial, classificado sentimental, prostíbulo.

OS: Prostíbulo?

S: O que que eu podia fazer? Lá certamente tinha o que eu tava procurando. Mas não deu certo não. A cafetina disse que eu era muito recatada.

Outra senhora: Que bom né?

Senhora: Bom pra você que deve transar que nem uma louca. Eu que só fiz uma vez queria mais é parecer uma vagabunda, entrar praquele bordel e tirar meu atraso de cinqüenta anos.

Outra senhora: Ah, você foi num prostíbulo recentemente?

Senhora: Semana passada.

OS: Quer dizer que desde que você perdeu sua virgindade com o general você nunca conseguiu fazer sexo de novo?

S: Eu sei que é estranho.

Outra senhora: Que desde que você fez sexo pela primeira vez nunca mais aconteceu.

S: É

OS: Que depois que você deu, nunca mais deu de novo.

Senhora: Fala mais alto que não te ouviram em Irajá!

OS Mas que drama.

Senhora: E diário. É um drama diário!

OS: Drama diário.

Senhora: Drama diário.

OS: É. Diário, o drama. Diário.

S: Drama diário.

OS: Diário.
S: Diário.

OS: Drama diário! Drama diário!

S: Di-á-ri-o.

OS: Drama diário.

(pausa)

Senhora, outra senhora, um e outro juntOS: Drama diário.

Os dois apartamentos ao mesmo tempo.

OUTRO: Como é que eu faço pra resolver o meu drama diário?

UM: É muito simples.

OUTRA SENHORA: Pára de procurar.

OUTRO: Parar de procurar?

UM: O que te deixa agoniado é a obrigação de ter que comer alguém todos os dias.

OUTRA SENHORA: É essa obsessão de ter que dar.

SENHORA: Mas eu quero dar.

UM: Eu sei, mas você não precisa ficar indo atrás. Deixa rolar.

OUTRA SENHORA: Deixa rolar.

UM: E tem que parar de ficar listando as mulheres.

OUTRA SENHORA: Me dá o caderninho. Senão você vai querer anotar de novo.

OUTRO: Mas você acha que eu já não tentei isso? Eu não consigo.

SENHORA: Eu não agüento mais ser casada com uma coleção de vibrador e almofada.

OUTRA SENHORA: Calma.

UM: Você tem que se controlar.

OUTRA SENHORA: Precisa.

UM: Vamos fazer uma experiência.

SENHORA: Experiência?

OUTRA SENHORA: É muito simples.

UM: Sai.

OUTRO: Sair?

Outra senhora: Sai de casa. Sem rumo. Sai de casa sem rumo.

Senhora: Como assim?

Um: Sai de casa sem rumo. A primeira mulher que você encontrar...

Outra senhora: O primeiro homem que você vir, se aproxima.

Um: Chega perto.

Outra senhora: Puxa um papo.

Um: Sei lá. Pede uma informação.

Outra senhora: Mas tem que ser o primeiro.

Um: Não pode escolher.

Outra senhora: Agora, tem uma coisa.

Outro: Eu sabia que tinha uma coisa.

Senhora: Fala.

Um: Por mais que essa mulher se jogue em cima de você...

Outra senhora: Mesmo que esse homem seja irresistível...

Um: Você não vai querer transar com ela.
(Juntos)
Outra senhora: Você não vai querer dar pra ele.

(pausa)

Senhora: Ai meu Deus. Será que eu vou conseguir?

Outro: É que já vai dar 24 horas desde que eu comi a última.

Outra senhora e Um: Tenta.

Os dois se levantam. Saem de seus apartamentos e se cruzam no corredor, em frente ao elevador.

Outro: Boa noite.

Senhora: Boa noite.

Sábado, 24 de Maio de 2008

O OUTRO LADO de Renata Mizrahi

Um cara que chamaremos de W olhando pra frente com roupas de trabalho, tipo terno cinza ou marrom. Ele está olhando pra frente como se estivesse contemplando uma vista, o lado oposto de onde está. Após um tempo aparece outro cara J, com o mesmo tipo de roupa ao seu lado, também contemplando. Após algum silêncio, J puxa uma conversa com o W. Ambos estão um pouco tensos.



J: Oi...
W: Oi, tava aí? Não percebi.
J: É, tava...
W: Sei...
J: Eu sempre venho aqui...
W: Sei...
J: Nessa hora. Como você...
W: Sei...Pra quê?
J: Oi?
W: Você veio aqui pra quê?
J: Vim pra esperar.
W: Sei...
J: To esperando.
W: Sei...
J: Passo a maior parte do tempo esperando
W: Sei...
J: Não espero muito.
W: Sei
J: Mentira, eu espero. Espero muito. Muito mesmo
W: Sei...
J: Mas aí... sabe?
W: Sei...
J: Aí... to aqui... assim...
W: Sei...
J: Então...
W: Sei...
J: É.
W: Sei...
J: Tá.
W: Sei...

Silêncio

J: Mas, e você?
W: Eu?
J: É, você ?
W: É, eu também vim aqui pra...
J: Sei...
W: Ah! Sabe como é, né?
J: Sei...
W: Tem que ... tem que fazer, né?
J: Sei...
W: É, fazer...
J: Sei...
W: Aí, eu achei melhor vir aqui ...
J: Sei...
W: Eu sempre venho aqui...
J: Sei...
W: Nessa hora... como você...
W: Então...
J: Sei...
W: Eu to aqui...
J: Sei...
W: É...
J: Sei...
W: Né?
J: Sei...

Silêncio

W: Já percebeu?
J: Oi?
W: Já percebeu?
J: O quê?
W: O outro lado?
J: O outro lado?
W: O lado de lá.
J: O lado oposto?
W: É, o outro.
J: Sei...
W: Percebeu?
J: Acho que sim.
W: O outro lado?
J: É, acho que sim.
W: Eu não tô lá, não.
J: É... é... sei...
W: Ainda.
J: Sei...
W: E você ?
J: Eu o quê?
W: Já foi lá?
J: Ah, eu? To esperando.
W: Sei...
J: Eu te disse, né? Esperando...
W: Sei...
J: Mas vai chegar!
W: Sei...
J: A hora...
W: Sei...Esperando, né?
J: Isso, esperando...

Silêncio

W: Então, tá.
J: Tá.
W: Tá.
J: Tá.
W: Você vai voltar?
J: É... tem que voltar, né?
W: É... tem que.
J: Foi bom...
W: É foi bom...
J: Foi..

Silêncio

J; Quer saber?
W: Oi?
J: quer saber?
W: Quero.
J: eu não vou voltar.

W: Não vai voltar?
J: Não, hoje eu não vou.

W: Na verdade...
J: Sei...
W: na verdade, eu também não vou voltar.
J: sei...
W: Vou ficar aqui.
J: Sei...
W: Contemplando
J: Sei...
W: O outro lado.
J: sim, o lado oposto.
W: sim, o lado oposto.

Silêncio

W: Ninguém vai notar minha ausência.
J: Não, não vai notar.

Silêncio

J: Nem a minha.
W: Oi?
J: nem a minha ausência
W: É, acho que não.

Silêncio

J: Então, vamos ficar.
W: Isso. Vamos ficar

Silêncio

Os dois esboçam um sorriso de satisfação

W: Quer saber?
J: Oi?
W: Quer saber de uma coisa?
J: quero.
W: Assim está bem melhor.
J: Bem melhor...
W: Bem... bem... melhor
J: Bem melhor...
W: Bom, né?
J: Bem bom...

De repente eles ouvem a gravação da voz de uma mulher. Uma voz muito sexy. A voz permanece controlada e sexy durante toda a cena

Voz: Temos um grande prazer em ter você fazendo parte da nossa equipe...

W: É...
J: É...
W: A hora...
J: Sempre a mesma hora.
W: Sempre.

Voz: Aqui na nossa empresa, prezamos muito pela melhoria e bem estar de nossos funcionários...

J: A mesma voz...
W: Dela
J: Ela.

Voz: Já estamos na hora de voltar ao trabalho. Ficamos muito felizes por proporcionar momentos de descanso, deixando nossos funcionários mais relaxados e criativos para mais algumas poucas horinhas de prazer aqui na nossa empresa

W: O que deve ter lá?
J: aonde?
W: No outro lado?
J: no lado oposto?
W: É, no lado oposto?
J: Não sei...
W: Ainda não fui lá.
J: sei...
W: Dizem que quem vai não volta...
J: Sexo?
W: Oi?
J: será que lá existe sexo?
W; selvagem?
J: talvez.
W: É, talvez.
J: Cheiro de mata molhada
W: Mata molhada
J: É bom o cheiro de mata molhada
W: Não sei, é bom?
J: Nunca sentiu?

Voz: Repetindo: Hora de voltar ao trabalho. Tenha orgulho de fazer parte da nossa empresa. Aqui todos nós somos uma grande família.

W: Ainda não, mas quem sabe...
J: Quem sabe...
W: Agora?
J: Quem sabe agora?

Voz: Queridos funcionários, sabemos direitinho quem faz parte da nossa empresa. Não pensem que ninguém está notando a ausência de vocês e nem abusem da nossa benevolência. Temos uns trabalhinhos por fazer. Ou vocês preferem o desemprego?

W: O que você espera?
J: Espero um pouco mais que pouco.
W; Eu também.
J: Mentira, eu espero muito.
W: Sei...

Voz: Queridos funcionários, sabemos que estão no terraço. Não irei falar de novo: Queiram colocar gentilmente as suas bundas na cadeira e voltem a trabalhar. Não esqueçam que vocês possuem família. Suas famílias ficarão muito infelizes com as suas demissões.

W: Quem será ela?
J: Não sei...
W:Bonita voz, né?
J: É, bonita.
W: então, vamos?
J: Para o outro lado?
W: O lado de lá.
J: Vamos.
W: Você tem Seguro de Vida?
J: Não. Só de morte.
W: Oi?
J: Muita segurança que um dia vou morrer
W: Sei...

Voz: Queridos funcionários toscos e imbecilóides. Vocês pensam que não sabemos o que estão pensando? Se vocês pensam que podem agir fora de nossas regras estão muito enganados. Muito enganados. Nós humildemente fazemos questão da presença de vocês em nossas salas. Afinal, é muito importante o papel medíocre de vocês na nossa empresa. Por favor, voltem a digitar nossas cartas de aniversário.

Silêncio

J: Eu não vou voltar.
W: Eu também não vou voltar
J: Não, não vou.
W: Vou ficar aqui
J: É.
W: O outro lado.
J: Sim, o lado oposto.
W: Sim, o lado oposto.

Voz (bem devagar): Nós não vamos falar de novo.

J: Nós? Quem somos nós?
W: Não somos nós, são eles.
J: Eles quem?
W: Eles, a empresa
J: Então não são eles, é ela.
W: É. Ela.
J: A voz dela...
W: Ah, que voz...
J: que voz...

Voz: seus porcos imundos catarrentos, voltem agora para o trabalho se não, não digam que não avisamos.

W: Eu gosto disso
J: Dela?
W: De pensar no outro lado
J: sei...
W: de não voltar pra lá.
J: sei...

Voz: Seres inferiores e cagados, acabou a hora de vocês.

J: Acho que chegou a hora
W: é , pode ser
J: O fim da espera
W: O fim...
J: Vamos brindar?
W: A quê?
J: Ao outro lado
W: Sim, um brinde ao outro lado.
J: No já.
W: Vamos juntos?
J: De mãos dadas.
W: de mãos dadas?
J: Ninguém vai ver
W: É. Ninguém vai ver.
J: No já. 1, 2, 3, 4, 5, 6...

Voz: Estúpidos, imbecis, não percam seus tempos com esse jogo ínfimo. A nossa empresa, pensando no bem dos funcionários, colocou uma tela invisível do terraço até o céu, impossibilitando qualquer gesto ordinário como esse de vocês. Então, parem com essa palhaçada e voltem imediatamente para os seus trabalhos.

J: Ouviu?
W: Podemos tentar a demissão.
J: Seria melhor que esperar um pouco mais que pouco.
W; então é melhor que nada
J: É
Voz: E não pensem que serão demitidos a fim de levar uma grana da empresa que sustenta vocês, seus moleques fedentinos. O máximo que vocês conseguirão é um a diminuição de 50 por cento no salário e uma carta de péssima recomendação para qualquer outra empresa concorrente que vocês tentarem colocar seus pés imundos.

W: você está em que mês?
J: Já estou terminando setembro
W: São muitos clientes.
J:É. São.
W; eu ainda estou em agosto.
J: muitas cartinhas
W: tem muita gente que faz aniversário em agosto.
J: Sei...

Voz: obrigada por fazerem parte dessa empresa. E não se esqueçam: para o seu bem, e o bem da sua família, nós estaremos sempre com você, acompanhando você . Tenha um bom trabalho, as próximas 7 horas passarão como se fossem 7 minutinhos. E não esqueça de passar no financeiro para descontarmos o pagamento por desacato a superioridade e danos morais para com a sua tão acolhedora empresa. Um bom final de tarde.

W: Até amanhã.
J: Até.


FIM

7 - 8! (SETE OITO!) de Larissa Câmara

(Ator em cena se prepara, alinha o corpo, respira e tenta fazer ponta de ballet. Tenta novamente e pára. Tenta mais uma vez ficar na ponta dos pés. Pára. Respira fundo. Prepara-se. Fala com determinação)

- Sete, oito!

(Arma o corpo, alinha o tronco rapidamente aos poucos vai andando na ponta dos pés e começa freneticamente a movimentar os braços como se fosse uma garça. Exibe graça e elegância. Sente mais uma vez um desconforto nos pés e pára. Cai no chão. Fica decepcionado. Segura os tornozelos com dor. Percebe que vai se irritar e ficar descontrolado. Respira fundo. Sorri tentando não se irritar. Alonga o tronco puxando uma linha imaginária sobre a cabeça).

Allongé! (pausa) Eu sou o primeiro bailarino da companhia e por isso todos me invejam! É o preço que se paga por ser o melhor, único, absoluto! Reinei absoluto nas manchetes, nas capas de segundo caderno, nos tablóides internacionais. Reinei, é verdade, mas um Rei jamais perde a sua majestade! Engraçado, não sei porque pensei nisso hoje, mas parece que sonhei com o sorriso da Monalisa. Monalisa... Para mim ela não é nada além de uma pessoa muito feia que deu certo. Enfim, não penso muito nisso porque não sou feio, até o meu Cou-de-pied é admirável. Mas, não é disso que eu estava falando... eu falava da Monalisa, lembro que, numa das noites da última turnê, jantei num restaurante que tinha uma imagem enorme da Monalisa. Não sei a razão da presença dessa feia nos lugares, como se a imagem da Monalisa emprestasse credibilidade aos restaurantes. Eu comia, olhava para ela e pensava: horrorosa, gorda, deselegante. Aposto que ela seria incapaz de um simples En Dedans. (Fica na ponta dos pés. Arma-se para dançar, mas executa os movimentos com deselegância) Naquela noite senti um mal estar horrível; nos dias que se seguiram, uma sensação desagradabilíssima. Como se minhas noites no palco fossem um ato digno de vergonha. Eu ouvia dentro da minha cabeça um coro de crianças gritando: Shame on you!!! (Gira) Detesto sair do palco e pensar que não foi bom, que seria melhor ter cancelado tudo. (Segura nos tornozelos e grita sem som) Os tendões que eu cortei para exaltar a beleza da minha dança... (grita) Ah, Pointe! Plié! (Abraça o próprio tronco e grita sem som) As costelas que eu retirei para aumentar minha flexibilidade. (com raiva de si mesmo) Pas de bourée! (pausa) Tudo doía tanto. Eu sentia febre. Meu cirurgião parecia tão confiável... Aconteceu o que me parecia impossível! Sim, sofri na Europa. Sorvia minha sopa após um lamentável Grand Pas de deux. Grand Merde, Merde! E Monalisa desgraçada, sorria! Ria de mim. Ah! Quando eu ia furar os olhos da desgraçada com a minha colher, ouvi meu substituto falando no celular. Ele parecia muito feliz, realmente a alegria de Monalisa é contagiante, pensei. Ele agradecia, fazia declarações de amor e sorria. As últimas palavras que ouvi: obrigado meu amor, você é maravilhoso, ele está cada vez pior. Em breve serei o primeiro. E desligou. Eu não podia acreditar: meu substituto amante do meu cirurgião! Tudo estava explicado. O mundo conspirava contra mim. Olhei mais uma vez para o sorriso da gorda enigmática e cuspi toda a minha sopa. Cuspi meu ódio. Fui para o meu quarto, mas não consegui dormir, fiz a única coisa que me acalma: Déboulés. (gira em torno de si mesmo) ira; cólera; zanga; indignação; raiva; desejo de vingança. (pára de girar e sorri) Desejo de vingança! Pas de Chat! (pausa) Engraçado como as fatalidades acabam com a vida das pessoas. Meu substituto foi espancado, é incrível como a violência se manifesta também na Europa. Se sobrevivesse seria incapaz de dançar, destruíram seus membros inferiores, morreu sem fazer um demi-plié. Meu cirurgião também se foi, acidente de carro. É impressionante, como os freios falham nas horas mais impróprias. Morreu carbonizado, uma bela morte para quem desejava terminar cremado, não deixa de ser prático, não é mesmo? Ah, tomei gosto! Resolvi me vingar da sociedade que me esqueceu. Fiz amigos, na cidade de São Paulo, PCC. No Rio de Janeiro os comandos do morro estão comigo. Voltei a brilhar nos jornais. Estou no topo, nas manchetes. Planejo com cautela. Allongé! 1, 2, 3, 4, 5, 6, Grand Jeté! Antes de puxar o gatilho, Allegro, 7, 8! (pega os jornais que estão no chão, lê rasga, come, lambe, joga para cima. Deleita-se em passos de ballet e déboulés) Assassinatos, roubos, conspirações, pizzas, chacinas, déboulés, plié, ônibus queimados, tiroteios, arrastão, guerra, petróleo, bombas, Kill Bill, Kill Bush, SUS, Suzane, Free Mike Tyson, Free Winona Rider, Avant, Em! Attitude! Collor, Clodovil, Congresso, PM, PQP, Ira, Ira, Irã, Iraque, Terror, Terroristas. Assemblé! 7, 8! (repetições das palavras até a exaustão, podem ser utilizadas manchetes do jornal atual) (Segura os jornais e gargalha) Estamos Sob o Signo da Ira!

FIM

Allongé - Alongado, estendido, esticado. Exemplo: arabesque allongé.

Cou-de-pied - Peito do pé. A parte do pé entre o tornozelo e a base da panturrilha é chamada de cou-de-pied.

Dedans, En - Para dentro. Em passos e exercícios o termo en dedans indica que a perna, à terre ou en l'air, se mexe em movimento circular em sentido anti-horário de trás pra frente. Por exemplo, em rond de jambe à terre en dedas. Em pirouettes o termo indica que a pirouette é feito para dentro em relação à perna de base.

Allegro - Vivo, esperto. Para todos os movimentos brilhantes e vivos. Todos os passos de elevação tais como entrechats, cabrioles, assemblés, jetés etc. obedecem a esta classificação. As qualidades mais importantes que se deve ter em mira num allegro são a leveza, a suavidade, o balanço e a vivacidade.

Déboulés - Rolando como uma bola. Um passo onde o bailarino dá várias voltas em torno de si mesmo avançando para o ponto onde sua cabeça está fixada. A cabeça deve girar antes do corpo. É feito em demi-pointe ou em pointe.

Demi-plié - Joelhos meio dobrados. Todos os passos de elevação começam e terminam com um demi-plié. Ver plié.

Pas de deux, Grand - Dança a dois. Diferente do pas de deux simples que tem uma estrutura definida. Em regra geral o grand pas de deux divide-se em cinco partes: Entrée, Adage, Variation para o bailarino, Variation para a bailarina e o Coda, no qual os dois dançam juntos.

Pas de Chat (pulo do gato) - Através de um demi-plié, as duas pernas saltam e ficam dobradas no ar ao mesmo tempo que avançam de lugar. Os pés permanecem esticados.

Jeté (jogado) - Salto de um perna para outra.

Assemblé - Juntos ou reunidos. Um passo no qual um pé escorrega pelo chão como num tendue, é jogado ao ar, e nesse momento, o bailarino levanta a perna de apoio, esticando os dedos dos pés. Ambas as pernas vão ao chão, uma após a outra, em 5ª posição.

Attitude - Uma determinada pose do ballet tirada por Carlo Blasis da estátua de Mercúrio por Jean Bologne. É uma posição numa perna só com a outra levantada para trás com o joelho dobrado num ângulo de noventa graus e bem virada para fora para que o joelho fique mais alto do que o pé. O pé de apoio pode ser à terre, sur la pointe ou demi-pointe. O braço do lado da perna levantada é mantido por cima da cabeça numa posição curva enquanto que o outro é estendido para o lado. O attitude também pode ser com a perna levantada para a frente.

Avant, En - Para a frente. Uma direção para a execução de um passo. Usado para indicar que um determinado passo é executado para a frente. exemplo: assemblé en avant.

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

"Filme B" de JULIA SPADACCINI

Um homem e uma mulher na fila do cartório. Os dois estão bastante entediados. Depois de algum tempo o homem puxa conversa.

Ele – Cartório é a coisa mais idiota que o ser humano inventou, né?

Ela – Como?

Ele – Você passa 30 minutos da sua hora de almoço em pé na fila para ser atendido por um homem que nunca te viu. Aí você entrega um documento assinado por você e esse homem que não tem a menor idéia de quem você seja, carimba teu papelzinho para confirmar que a assinatura que você fez é sua mesmo. Conclusão, você paga para alguém que nunca te viu dizer que você é você mesmo.

Ela – Normal.

Ele – Ah, tá... você é dessas pessoas que acha que não vai morrer, né?

Ela – Como é?

Ele – É dessas pessoas que acreditam que o delta ao quadrado serviu para alguma coisa...

Ela- Que delta?

Ele- Delta ao quadrado é igual a B mais ou menos C.

Ela – Não. (pausa) É igual a mais ou menos 1.

Ele – Tá vendo! Você pensa que é eterna e por isso não liga para o tempo que gasta aqui fazendo essa ação estúpida.

Ela – E você pensa que sabe exatamente como os outros pensam.

Ele- Não penso.

Ela – E pensa que sabe muito mais sobre a vida do que qualquer pessoa dessa fila.

Ele – Escuta, você vai mesmo ridicularizar a minha revolta no cartório.

Ela – Não, não... Se você quiser continuar, dou a maior força, sobe na mesa, quebra umas cadeiras. Dá um tiro em alguém. Isso, atira em alguém! Vai até me ajudar a passar o tempo. Vai ser legal.

Pausa.

Ele – Acho que você é a mulher da minha vida.

Ela – Ih! Você é dessas pessoas que acreditam em pessoas da vida, é?

Ele – E por que, não?

Ela - Pensei que você fosse o cara que abominasse invenções.

Ele – Você acha que o amor é uma invenção?

Ela –Tão inventado que daria até para registrar aqui e depois reconhecer firma.

Ele- De quem?

Ela – Como assim de quem?

Ele – Quem inventou o amor?

Ela – Fabricantes de ansiolíticos.

Ele- Não faz o menor sentido isso que você está falando.

Ela – Agora você quer que as coisas façam algum sentido?

Ele – Algum sentido as coisas tem que ter nem que seja a falta dele.

Ela – Agora sim, o sentido se foi de vez.

Silêncio.

Ele – Escuta, se isso fosse um roteiro.

Ela – Isso o quê?

Ele – Esse momento. Se esse momento que a gente está vivendo fosse uma parte de um roteiro, que parte seria?

Ela – A parte cafona em que o rapaz diz para a mocinha que a vida é um filme.

Ele – Só tem uma coisa.

Ela – Qual?

Ele – Você não parece a mocinha.

Ela – Não?

Ele – Não.

(pausa)

Ele- Não vai me perguntar o por quê?

Ela – Não.

Ele – Por quê?

Ela – Se eu não for a mocinha não quero fazer o filme.

Ele – Que pena! Se você não está no meu filme então vou ter que parar de falar com você.

Ela - Quem disse que esse filme é seu?

Ele – Ah gente! É óbvio que é meu. Eu que comecei esse filme, se fosse por você isso não seria nem um documentário.

Ela- E eu não sou a mocinha da sua obra prima por quê?

Ele – Porque você é a vilã.

Pausa.

Ele – Não vai falar nada? Não vai gargalhar e dizer: “Ele não perde por esperar”

Ele gargalha. Pausa.

Ele – Vai ficar calada? Já sei, é terror psicológico.

Pausa.

Ele – A vilã está arquitetando um plano terrível contra mim? Não vai deixar o homem carimbar o meu documento, vai roubar a tinta do cartório, vai convencer o homem de que eu não sou eu... de que sou um clone e que...

Ela – Eu não estou mais no seu filme...

Ele – Então você admite que o filme é meu?

Ela – Meu querido, se esse roteiro fosse meu, você não entraria nem na última cena.

Ele – Ta vendo? É vilã.

Pausa.

Ele – É a vilã. Muito malvada. É um filme sobre um personagem que é excluído de um filme pela personagem malvada que quer fazer um filme sozinha.

Pausa.

Ele – Vilã.

Ela – Vou chamar o segurança.

Ele – Vilã total.

Ela – É realmente uma pena que você ache isso, pois eu fiz de tudo para ser a mocinha até agora.

Ele – Você não concordou com nada do que eu disse, a mocinha sempre concorda com o herói da história.

Ela – E quem disse que você é o herói da história?

Ele – Sou o bandido?

Ela – Você é um figurante chato que fica enchendo alguém na fila de um banco e que a câmera passa longe.

Ele – Sendo assim você é a figurante feia que está ouvindo o cara chato.

Ela – Não, eu sou a infeliz que resolveu entrar no cartório na hora errada.

Ele – Ai! Por que você está tão irritadinha?

Ela – Mas que seria um filme de terror eu tenho certeza!

Ele- Você realmente não acha uma coisa estúpida ficar aqui parado para ser reconhecido por quem não te conhece?

Ela – Escuta, se você fosse tão revoltado não estaria de calçando esse “All Star” e casaquinho Adidas da moda, querido. Você estaria pelado em cima de uma árvore rasgando um coco com os dentes. E aí sim eu acreditaria realmente que você acha isso aqui estúpido.

Ele – (Fazendo cara de mal) Vilã.

Silêncio

Ele – Olha, vamos fazer as pazes, no fundo eu gosto de você. Acho mesmo que você pode ser a mulher que eu sempre procurei.

Ela – Ai, meu Deus, agora é virou um filme B...

Ele – Você poderia ser mais romântica, sabia?

Ela- E você poderia ser mais calado, sabia?

Silêncio

Ele – Toda vez que eu entro numa fila penso muito sobre o mundo. Muito. Acho que as filas são grandes metáforas. Você não acha?

Pausa

Ele – Não vai perguntar o por quê?

Pausa

Ele – Saiu do filme de novo?

Pausa

Ele – Vai me abandonar no meio da fila, é isso? Vou ser obrigado a ficar olhando o seu couro cabeludo durante 30 minutos sem poder interagir com você... Vou ficar preso entre você e essa senhora surda aqui atrás. Durante meia hora. É isso mesmo? (pausa) Dessa maneira você só está assinando o seu atestado de vilã absoluta!

Ela – A senhora atrás de você doida para saber o que você acha do cartório.

Ele – Não. Ela está tranqüila. Já entendeu que tudo não passa de uma fantasia compulsiva de controle sobre a vida que não temos.

Ela – (para si) Eu sempre atraio esquizofrênicos. Se tiver num lugar, pode ter uma multidão, mas o maluco sempre vem falar comigo.

Ele – Você já se perguntou o por quê?

Ela – Por quê?

Ele – Identificação.

Ela – Então você é mesmo um maluco?

Ele- Defina.

(Silêncio)

Ela – O quê?

Ele – Maluco.

Ela – Maluco - pessoa que não é normal.

Ele- Pessoa normal?

Ela – Aquela que não é maluca.

Ele – Ou seja, aquela que fica 40 minutos numa fila para que alguém que nunca a viu diga que a assinatura dela é dela mesma.

Ela – Isso! É isso mesmo! Uma pessoa normal não vê nenhum problema em ter que esperar 40 minutos para alguém que não a conhece confirmar que ele é ela mesma!!!

Ele – Tá bom. Entendi.

Pausa.

Ela – Parou?

Ele – Como?

Ela – Desistiu?

Silêncio

Ela – Não vai responder?

Ele – Como?

Ela – Acabou o filme?

Ele – Que filme?

Ela – O seu filme.

Ele- Não sei do que a senhora está falando.

Ela – Como assim?

Ele – (apontado para frente) Olha para frente, a fila andou.

Ela- Saiu do set de filmagem, herói? Qual é? Cortou a minha cena? É cinema mudo agora???

Ele – Desculpe, mas acho que a senhora não está bem...

Ela – Que senhora??? Tá maluco??? Eu sou a mocinha entendeu??? Mocinha! Esse filme é meu também! Você não pode sair do filme sem o final! Qual vai ser o final???

Ele – Segurança, por favor!

Ela – Eu sou a mocinha! A mocinha!Sempre!!!

Ela é retirada pelo segurança. Depois que ela sai ele dá um passo para frente e cutuca a próxima pessoa da fila repetindo a primeira ação da cena.

Ele - Cartório é a coisa mais idiota que o ser humano já inventou, né?

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

WOMAN MACHINE de Jô Bilac

Personagens: Mulher , uma ave de rapina
Frank, sustentando um jornal que esconde seu rosto

(névoa de cigarro. Cortinas magentas e pesadas. Escondida por de trás delas, observando o que se passa na rua, uma mulher_ meio ridícula, com cara de quem comeu e não gostou. Está vestida como se fosse dormir, no entanto fica evidente por sua expressão cadavérica, que não dorme nunca. Com uma mão abre uma fresta entre as cortinas, suficiente para analisar o que ocorre. Com a outra mão termina seu cigarro, mordendo o canto da boca, com muito desprezo pelo que vê. )

Mulher: ( mastigando alguma palavra, inaudível. Ruminando em amargo. Entra em dúvida) Precedente...Procedente... (berra) Frank! Como se diz, hein? (nova ruminada inaudível) Como é mesmo? (sempre da janela, sem perder seu foco de discussão) Héin, Frank! (confessa) Fiquei virada no siri agora. (perdida em si mesma) Precedente.. Prece... Prece(saboreia) - Proce... Procedente... O que procede... (numa careta incompreensível) Faz sentido , não faz? Faz... Héin, Frank... Frank! (desiste. Muda o tom) Eu tenho certeza que esse daí da frente tem Procedente criminal. Absoluta. Tem que eu sei. Tem sim. Se não tiver, vai ter. Ontem eu fiquei vendo quando ele cozinhava, tinha um prazer sombrio socando o alho e além disso, cortava os legumes com uma frieza animalesca, sabe? Lógico que não, né Frank. Você nem sequer sabe descascar uma banana. (anima-se) Olha lá... Lá vai ele novamente lavar a calçada. Já, já tudo se reinicia de forma diabólica. Vem ver Frank! É o código! (ri amarga) Eu não sou boba, Frank, eu- não- sou- boba! Está começando agora... Na mesma hora em que passa o abobado do 403 com seu yorkshire fedido. Acredita Frank, que hoje pela manhã vi esse abobado beijar na boca do yorkshire antes de ir trabalhar????? Boca não! Focinho! Beijou o focinho! Tarado! Deveria arrumar uma esposa! Fiquei pensando se ele mantém relações sexuais com o yorkshire.... Um dia ainda denuncio esse cara pra defesa do animal! Se bem que esse yorkshire não deve valer muita coisa, mesmo. Não confio no caráter de cães pequenos. E muito menos em quem os têm. Definitivamente. Lembra daquela história da bibliotecária dentuça do 912, Frank? Aquela que colecionava orquídeas e escondia o cadáver do marido emparedado na sala de jantar... Claro que lembra, Frank! Ela tinha uma cara de camelo, horrorosa... Um bico... Uma coisa estranha mesmo. Então, ela tinha um pequinez belga... Era cúmplice! Aquela coisinha horrorosa com cara cínica. Falo do pequinez. Nunca me enganou. Não mesmo. Ninguém me engana, Frank, você sabe disso. (traga o cigarro violenta) Estou próxima do desfecho de minhas análises. Bem próxima.......... (Consulta o relógio) espera um pouco... Só mais um segundo e 5, 4, 3, 2, 1... Foi dada a largada, Frank: A velha do sobrado da esquina acena para o abobado do 403. No mesmo instante em que o rapazinho da motocicleta azul cruza a rua com sua namoradinha ruiva na garupa, depositando um envelope suspeito na caixa de correios da viúva aleijada, rente ao meio fio ensopado com a água que escorreu da calçada e que agora é espirrada no estrangeiro, de cara inchada meio terrorista, que decide parar no meio da rua na hora em que o sinal está amarelo, fazendo com que justamente o carro menta de vidro fume diminua a velocidade_ enquanto uma adolescente apática tomando soda na latinha_ toca a sineta de sua bicicleta para não atropelar o yorkshire do abobado do 403, que acena com as fezes do bicho nas Mãos para a velhinha do sobrado da esquina, que _ escondida _ gosta de dançar pelada bebendo cerveja . O estrangeiro entra no carro menta fume, a adolescente apática joga a latinha de soda no jardim da viúva aleijada, já quando do outro lado desaparecem o casal na motocicleta, enquanto o vizinho da frente fecha os registros e tranca o portão. A velha, o abobado, um último adeus e agora não há mais nada..................(silencio) segundos Frank......... Segundos! Segundos que se repetem todas as noites, sincronizados, entranhados em detalhes assustadores........ Tal qual uma orquestra cifrada em uma contagem regressiva... Numa esquematização sinistra que só um ensejo obscuro e cruel poderia justificar. Tem coisa aí, Frank. Tem sim. (reflexiva) O Governo deve estar metido nisso. O Governo sempre está por trás de tudo. ( Corajosa) Mas o Governo não me intimida! Absolutamente. Eu tenho muita personalidade e nisso o Governo não me dobra. Não sou vaca de presépio! Eu coloco a boca no trombone, rasgo o mapa. Porque nisso a sociedade não tem culhão. Tudo massa de manobra. É verdade, Frank. Você mesmo, estufa o peito, fala da sociedade como se fosse uma grande coisa: (bufa) ah! A sociedade! A força da sociedade! A dama da sociedade! Alta sociedade! Sociedade! Sociedade! (taxativa) Sociedade é uma merdinha assim. (joga a guimba de cigar